Do valor: Dilma ataca proposta tucana para câmbio

Existe na história recente do Brasil um bom ministro da fazenda político? Sim, Fernando Henrique Cardoso foi um excelente ministro da fazenda e eleito por duas vezes, no primeiro turno, Presidente da República.

No entanto, o ministro da fazenda Fernando Henrique Cardoso (FHC) teve o mérito de juntar um grupo de economistas brilhantes que foram os responsáveis técnicos pelo Plano Real. O ministro FHC nunca tentou saber “mais de economia” que os seus auxiliares direto.

Este definitivamente não é o caso da presidenta Dilma. A maior responsável pelos erros de politica econômica do seu governo foi ela própria. Todo mundo sabe que a presidente foi também ministro da fazenda. O problema é que a presidente não escuta ninguém e achava (ainda acha) que é a melhor economista do Brasil. O resultado é desastroso.

Agora eu jamais vi exemplo de tamanha arrogância como esta declaração da presidenta reproduzida hoje no valor econômico:

 “Não acho que o Arminio Fraga seja uma pessoa extremamente credenciada para falar de câmbio, se você for ver a retrospectiva dele. Tenho clareza que teve um momento que o Brasil saiu de um por um, ou seja, um dólar por um real, para um dólar por quatro reais. Isso levou a uma situação muito difícil para as empresas. Na de energia elétrica, as empresas ficaram em situação muito difícil porque tinham sido incentivadas a se endividar em dólar. De repente, endividadas, recebem a desvalorização do real, tornando o pagamento da dívida muito difícil.”

 Há três grandes problemas com essa afirmação. Primeiro, qualquer economista com mais de dois neurônios e que tenha terminado o curso de introdução à economia sabe que Armínio fez um excelente trabalho de liberação da flutuação da taxa de câmbio e na introdução do famoso tripé macroeconômico. Um trabalho tão bom que o ex-secretário do Tesouro dos EUA Timothy Geithner listou Arminio Fraga, entre potenciais candidatos a assumir o comando do Federal Reserve, o Fed, banco central americano, em conversa com o presidente Barack Obama. (clique aqui).

Segundo, apesar de o PT até hoje não reconhecer, o dólar foi para R$ 4 em 2002 devido ao medo que qualquer pessoa racional tinha do PT. Desde a sua fundação até a carta aos brasileiros, o partido defendeu calote na divida pública, auditoria da divida interna, e sempre foi contra qualquer melhoria institucional na área econômica com destaque para as privatizações, Plano Real e Lei de Responsabilidade Fiscal. O que salvou o PT, no primeiro mandato do ex-presidente Lula, foi um médico que se cercou de economistas não alinhados com as teses tradicionais do partido, mérito do presidente Lula que não confiava nos economistas do seu partido. Quando passou a confiar o seu governo piorou e criou as bases da politica econômica do governo Dilma.

Terceiro, a presidenta faz uma critica a uma política que o seu governo estimula hoje e que já havia estimulado em 2008 antes da crise: “…..as empresas ficaram em situação muito difícil porque tinham sido incentivadas a se endividar em dólar. De repente, endividadas, recebem a desvalorização do real, tornando o pagamento da dívida muito difícil”.

Alguém acha que a taxa de câmbio de R$ 2,4 por dólar é uma taxa de câmbio de equilíbrio? Será que a presidente não sabe que a taxa de câmbio se mantém comportada devido as operações de swap cambial do Banco Central que já alcançaram US$ 100 bilhões? Será que a presidente manterá o valor do Real artificialmente alto para garantir que quem se endividou em dólar não terá um aumento com o serviço da dívida? Se fizer isto será um grande erro.

Esta declaração da presidente é o tipo de pronunciamento que prejudica a credibilidade do seu governo, da sua equipe econômica e reforça a percepção negativa que o mercado tem da atual política econômica. Se acreditamos no que a presidenta Dilma falou, então vamos nos endividar em Dólar porque a presidente garante a taxa de câmbio.

Se alguém achava que neste governo há uma curva de aprendizado, acho bom rever essa crença. Como me convenceu um certo economista muito próximo ao ex-presidente Lula: “A presidente Dilma não muda. Em caso de reeleição será mais do mesmo”.