A frustração da responsabilidade fiscal

Em geral, quando estou um pouco mais tranquilo e as crianças dormindo, gosto de ler matérias de jornais de anos atrás para ver erros de analistas (eu inclusive) e tentar fazer o contra ponto entre o que esperávamos e o que aconteceu. Não é que me deparei com uma entrevista do Secretario do Tesouro Nacional, Arno Augustin, ao jornal Valor Econômico publicada no dia 2 de julho de 2012.

É interessante lembrar como o secretario enfatizava a necessidade de manter a responsabilidade fiscal como um meio de garantir juros mais baixo e taxa de câmbio mais desvalorizada. Ou seja, naquela época, Arno Augustin falava a mesma linguagem dos economistas que o governo pejorativamente chama hoje de “ortodoxos” e pessimistas.

Destaco dois trechos da entrevista (quem quiser ler a integra clique aqui).

 1) “…..Estamos de olho em uma mudança estrutural. Talvez a mais relevante do último período seja a queda dos juros, dos spreads bancários. Estamos olhando isso também. Aproveitar este momento [de crise] para sair com uma coisa positiva. Já que há crise, o que é negativo, vamos, pelo menos, sair dela com taxa de juros muito mais adequada do que tínhamos no passado. Por isso que o mix fiscal é tão importante.”

2) “….Da outra vez [na crise de 2008], as medidas foram muito voltadas para o crédito. Desta vez, nós cuidamos, desde o início, do fiscal para que o exterior [crédito externo] não secasse tanto para as empresas brasileiras. Para muitas empresas, a possibilidade de fazer captações externas é fundamental. Com a exportação ruim, uma crise na Europa, o corte do financiamento pode ter efeito dramático. Olhamos muito o fiscal para que o Brasil esteja forte nesse campo, para que não tenha nenhum fenômeno de dúvidas sobre nossas empresas. Por isso, é importante o fiscal.”

 O que aconteceu no final de 2012? A economia cresceu apenas 1%, frustrando as expectativas do governo e o crescimento da arrecadação,. Assim, para fechar as contas naquele ano o governo teve que recorrer a truques contábeis que, ao invés de manter a credibilidade da política fiscal, levou a uma descrença generalizada do mercado aqui e lá fora do real compromisso do governo com a responsabilidade fiscal. Isso depois se agravou.

Adicionalmente, em abril de 2013, o Banco Central começou a sua lenta trajetória de aumento dos juros até o patamar atual de 11% ao ano, taxa Selic maior do que aquela do início do governo Dilma que era de 10,75% ao ano. Estamos terminando este governo com o fiscal em frangalhos, juros altos e uma taxa de câmbio valorizada (temos um déficit em conta corrente de 3,5% do PIB, ante 2,4% do PIB em 2012).

Ao que parece, justamente devido à questão fiscal, o governo está terminando com indicadores macroeconômicos muito piores que o seu início. Abaixo, apenas para refrescar a memória, as manchetes dos jornais de 4 de janeiro de 2013 sobre o resultado fiscal de 2012. Quem quiser ler a matéria da Folha de São Paulo do início de janeiro sobre esse episódio clique aqui e aqui para a matéria do Estado de São Paulo. Detalhe, o Ministério da Saúde adverte que Armínio Fraga não era ministro da fazenda. 

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