A crise de 2015 e a estratégia do medo

Os ataques constantes da candidata presidente e do seu partido ao conceito de Banco Central independente e, depois, ao economista Armínio Fraga, que é tido como um dos grandes economistas do Brasil e que foi um excelente presidente do Banco Central, já ocasionou um efeito adverso sem volta: a perda de credibilidade da politica econômica da presidente em caso, ainda indefinido, de reeleição.

Nas conversas com analistas de mercado é quase consensual que, não importa quem seja o próximo presidente do Banco Central em um suposto segundo governo Dilma, ele será fraco. Dada a visão simplista que a presidente tem da autoridade monetária, ela conseguiu passar a impressão que tentará ampliar o controle sobre a atuação do Banco Central.

O resultado desta queda de braço será um Banco Central sem muito poder de reduzir as expectativas de inflação ou um forte aumento da taxa de juros para que a Autoridade Monetária prove para o mercado sua “independência” do Palácio do Planalto. Mas um forte aumento da taxa de juros para quebrar a desconfiança de intervenção do Planalto aprofundaria ainda mais o cenário de baixo crescimento para 2015, agravando o crescimento da massa salarial real e resultando no aumento do desemprego.

Do ponto de vista fiscal, o cenário para o próximo governo é bem diferente e para pior do que foi os anos de 2003 e 2011. No primeiro governo Lula (2003-2006), o esforço fiscal adicional para ganhar a confiança do mercado foi de apenas 0,5 ponto do PIB. No próximo governo o esforço fiscal terá que ser de cinco a seis vezes superior a esse de 2003, independentemente de quem seja o presidente.

No seu primeiro ano de governo, em 2011, o governo Dilma teve dois grandes presentes. Um aumento de arrecadação de 1 ponto do PIB em decorrência do crescimento real da economia de 7,5%, em 2010, e o crescimento real de “zero” do salário mínimo quando o PIB cresceu 2,7% e ajudou a equilibrar a despesa pública (% do PIB). No próximo ano, a correção real do salário mínimo será de 2,5%, mais de duas vezes superior a atual projeção do mercado para o crescimento do PIB; o que significa maior crescimento da despesa e agravamento do resultado primário.

Em um cenário tão adverso como este, ter uma presidente que se julga também ministro da fazenda e que, recorrentemente, nega a necessidade de qualquer ajuste fiscal, será desastroso.

É muito provável que, em uma situação hipotética de segundo mandato, o governo não tenha convicção de promover um ajuste fiscal, o que levará à continuidade do crescimento de divida bruta e liquida como já vem ocorrendo, taxa de juros mais elevadas de um Banco Central que começa com a dúvida do mercado sobre sua real autonomia operacional e, ainda, o risco de o Brasil perder o grau de investimento.

O cenário econômico será ainda agravado por um cenário político adverso. O Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados teve sua bancada reduzida em mais de 20%, tinha 88 deputados e passou para 70, dividiu a bancada de 66 deputados do PMDB ao meio e terá logo no primeiro ano do novo mandato que lidar com uma CPI e os desdobramentos dos desvios de recursos da Petrobras no meio politico.

Em caso de vitória da presidente Dilma, a única forma de o cenário econômico e político não se agravar seria com uma mudança radical da presidente que ninguém espera. E no caso da vitória da oposição, o cenário real seria também difícil com três grandes diferenças. Primeiro, ninguém desconfiaria da autonomia de um Banco Central e de uma equipe econômica liderada pelo economista Armínio Fraga. Segundo, senador Aécio Neves é politico, não quer ser também o ministro da fazenda, e tem habilidade de negociar e costurar acordos com partidos. Terceiro, o mercado não cobraria resultados imediatos de uma nova equipe econômica de um novo governo e, assim, o prazo de ajuste seria maior e o seu custo menor, apesar do ajuste fiscal necessário ser o mesmo independentemente de quem seja o presidente eleito.

Dada a situação atual e o cenário para 2015, os brasileiros deveriam agradecer que Aécio Neves queira ser presidente e que Armínio Fraga tenha aceitado ser o seu ministro da fazenda. No entanto, o que se viu ao longo desta campanha foi a demonização do Banco Central, criticas infundadas ao economista Armínio Fraga e o terrorismo eleitoral sobre a necessidade de ajuste econômico que acontecerá de forma planejada ou imposta pelo mercado.

De qualquer forma, o resultado da  “estratégia” do governo ao longo das eleições já está dado. Em caso de reeleição, haverá um agravamento da crise econômica, em 2015, e o risco de termos quatro anos de um governo “pato manco” sem convicção para adotar as medidas necessárias para a recuperação do crescimento e redução da inflação.