Resultado do Tesouro Nacional: desastre.

Como foi correntemente antecipado por este blog (clique aqui), o resultado primário do Governo Central  divulgado hoje pelo Tesouro nacional foi um desastre – déficit primário de R$ 10,4 bilhões.

Este resultado mensal junto com o de maio deste ano e setembro do ano passado, todos na casa dos R$ 10 bilhões, são os três piores resultados mensais desde o inicio da série mensal do Tesouro Nacional em 1997 (clique aqui) (OBS: dezembro de 2008 não contra por que a despesa foi impactada pela capitalização do Fundo Soberano).

Ocorreu algo de anormal para explicar resultado tão ruim? não. É verdade que houve um crescimento anormal do gasto com seguro desemprego e abono salarial, mas porque este gasto havia crescido muito pouco em julho, diferente do padrão de anos anteriores. Assim, a despesa  se concentrou em agosto.

No mais, os subsídios à Conta de Desenvolvimento Energético pesou também no mês de agosto: aumento de despesa em R$ R$ 4,5 bilhões e as outras contas ficaram até bem comportadas.

Voces devem se preocupar ainda mais por quatro motivos. Primeiro, apesar deo setor  público apresentar um resultado primário de R$ 47,5 bilhões ou de 0,94% do PIB em 12 meses, este é o menor valor desde o final de 2002. E  este resultado não existe.

Mesmo trabalhando com o sup. primário acumulado de 12 meses até julho que era maior, 1,2% do PIB, eu provo em artigo que escrevi que será publicado esta semana pelo jornal Valor Econômico que, quando corrigido os truques do lado da receita e do lado da despesa, já estamos com déficit primário em 12 meses.

Com este resultado de agosto, o déficit primário sem receitas extraordinárias aumentou. No ano, o governo central economizou apenas R$ 1,5 bilhão ou 0,05% do PIB, mas nem isso conseguiu porque há várias despesas que não estão sendo pagas (subsídios por exemplo).

Segundo, a situação piorou tanto que, infelizmente, o ajuste fiscal para o próximo governo ficou muito mais difícil. Não vou entrar em detalhes aqui, mas há dois problemas: um de estoque e outro de fluxo. O de estoque significa limpar o passado e isso terá que ser feito com aumento da dívida p/ pagar as irresponsabilidades do governo atual. O problema de fluxo – recuperar o primário- terá que ser feito de forma gradual e talvez apenas o controle da despesa não seja suficiente (preciso ser mais explicito e falar de carga tributária?).

Terceiro, no acumulado de 12 meses voltamos a ter déficit nominal superior a 4% do PIB. A tendência é que este déficit cresça ainda mais este ano e no próximo. Isso significa juros mais altos e crescimento da divida pública bruta e líquida.

Quarto, neste ano a Div Liquida do Setor Público já cresceu 2,3 pontos de percentagem do PIB. Passou de 33,6% do PIB, em dezembro do ano passado, para 35,9% do PIB em agosto deste ano. Essa situação tende a piorar porque o crescimento continuará baixo, o primário baixo e a a conta de juros crescente. No próximo, ano a divida crescerá novamente.

Do ponto de vista fiscal, este governo do PT conseguiu, aumentar fortemente a despesa púbica não financeira, que em quatro anos de governo Dilma crescerá o mesmo que nos doze anos anteriores ao governo Dilma, transformar um superávit primário de 3% do PIB, em 2011, em um déficit primário (leiam o meus artigo no Valor Econômico desta semana), elevar novamente o custo da divida pública e acabar com o superávit primário (recorrente).

O pior de tudo isso  é que as pessoas que estão no governo ou não sabem ou não querem resolver esta situação. Se este governo continuar a correção virá com maior endividamento e com forte  aumento da carga tributária. Podem se preocupar porque, ao que tudo indica, o governo atual vai nos levar a pagar juros mais elevados e mais impostos. Eles conseguiram ocasionar uma deterioração fiscal que nem o mais pessimista dos pessimistas acreditava.

Para terminar, o gráfico abaixo do superávit primário acumulado no ano (% do PIB) mostra muito bem como  a situação fiscal do Governo Central piorou. Desde o Plano Real em 1994, nunca o superávit primário acumulado no ano de janeiro a agosto tinha sido tão baixo: 0,05% do PIB.

O governo só conseguirá chegar a 1% do PIB de primário para o setor público consolidado este ano (0,3% dos estados e 0,7% do governo central) se fizer vários truques do lado da receita e despesa. Mas a verdade é que não temos mais superávit primário e o ajuste, em caso de reeleição, será doloroso porque o mercado não confia mais no governo atual.

Superávit Primário Governo Central – Acumulado no ano até agosto – 1994-2014 – % do PIB

Sup primario jan a agosto

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