As minhas ligações no domingo.

Neste último domingo recebi três ligações que me deixaram preocupado. A primeira de um gestor de fundo de New York para me dizer que ficou muito assustado como cenário fiscal que mostrei para ele há cerca de duas semanas. Ficou ainda mais assustado quando falei que o governo via tudo isso como normal e que cofiava na volta de crescimento para resolver o problema.

Esse gestor me confessou: vou escrever um relatório muito mais duro do que gostaria e defender a tese que o Brasil passará os próximos anos por um duro ajuste que poderá ser planejado ou desastroso e imposto pelo mercado. Como faremos o ajuste? Depende de quem ganhar a eleição. Se fosse o meu candidato, Aécio Neves, eu saberia exatamente o que faríamos, como e em que prazo.

A segunda ligação que recebi foi de um amigo economista que passou a semana toda fazendo projeções e chegou a um cenário muito ruim para o primário. Pelos meus cálculos que são piores do que os dele, o resultado primário que o governo divulgará na terça-feira mostrará o PIOR déficit primário mensal desde 1999, superando os resultados de setembro do ano passado e de maio deste ano. A receita foi muito ruim e teve muito gasto extra em agosto que puxou a despesa para cima. Vamos torcer para eu estar errado. Novamente: eu torço para estar errado nas minhas contas  porque terça-feira é meu aniversário e gostaria de passar o dia com notícias boas. Mas acho que não será possível.

Apenas com a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), o governo gastou em agosto R$ 3,7 bilhões, ante R$ 1,2 bilhões em julho. No acumulado do ano, o governo já gastou R$ 9 bilhões com essa conta e agora e não tem mais dinheiro para continuar cobrindo os subsídios da conta de energia, Agora terá que ser via empréstimos e nós pagaremos uma conta ainda maior.

Outra conta que já esgotou tudo o que havia sido planejado para o ano foi a compensação ao Fundo do Regime Geral de Previdência Social. No decreto de contingenciamento do primeiro trimestre do ano, o governo falou que gastaria “apenas” R$ 11 bilhões para compensar a previdência com o custo da desoneração da folha de salários. Mas até agosto, o governo já gasto R$ 11,3 bilhões. Tudo o que será gasto de setembro a dezembro não estava programado e o governo não sabe de onde tirar o dinheiro.

O crescimento das despesas de custeio nos meses de julho e agosto deste ano foi algo anormal, algo muito diferente do comportamento de janeiro a junho. Houve também uma turbinada no Minha Casa Minha Vida. O maior pagamento do ano ocorreu no mês passado (R$ 2,6 bilhões).

Outra conta que também cresceu de forma absurda em agosto, baseado nos dados do SIAFI, foram as despesas do FAT (seguro desemprego e abono salarial). Este gasto já havia crescido muito em julho, mas repetiu o forte crescimento em agosto; uma conta de R$ 9,7 bilhões apenas em agosto pelos dados do SIAFI. Talvez o dado do Tesouro venha menor,  mas será um número monstruoso.

Eu poderia continuar aqui a detalhar o que acontecerá na terça-feira, mas vou me abster porque já falei demais e havia prometido a meu amigo que ficaria calado para ver a explicação oficial do governo para um resultado primário que será um desastre. Vou repetir. Desastre.

Terminei o dia com outro telefonema de um outro amigo com noticia sobre o próximo ministro da fazenda. No caso da vitória do senador Aécio Neves, o ministro da Fazenda seria um dos melhores economistas do Brasil: Armínio Fraga. Isso eu já sabia mas meu amigo  me falou que, se Arminio prometesse um primário de 2,5% do PIB para daqui a três anos, o mercado confiaria e ninguém iria se preocupar de que forma ocorreria essa recuperação do primário. Ele seria entregue. Ponto.

E no caso da ex-senadora Marina? Não seria tão tranquilo, mas meu amigo me falou quem é o candidato mais provável a ministro da Fazenda do governo Marina. Ele tem experiência tanto no mercado financeiro quanto no setor público. Ele já confirmou que recebeu o convite pelo vice da candidata Marina para os mais próximos. Se meu amigo paulista sabe disso, dezenas de outras pessoas devem saber.

E no caso de vitória da presidenta Dilma? Também já foi escolhido o ministro da Fazenda. Seria o mesmo do primeiro mandato: ela própria com um “representante formal” para substituir o Mantega. Mas neste caso, o mesmo cheque em branco que o mercado daria ao meu colega economista Armínio Fraga não seria dado à presidenta Dilma. Ou seja, em caso de reeleição, a única forma de o governo atual reconquistar a confiança do mercado é com um ajuste imediato e muito duro. Se não o fizer, segundo o meu amigo bem informado, teremos quatro anos de administração de crise.

Como podem ver, o meu domingo não foi nada tranquilo. Acho que não vou mais falar ao telefone nos domingos.

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