O problema da indústria na visão do ministro do Desenvolvimento

O economista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Mauro Borges, deu um entrevista interessante à folha que me deixou bastante assustado (clique aqui). Eu o conheço pessoalmente e já participei de diversas reuniões com ele, mas fiquei surpreso com algumas declarações do ministro. Seguem exemplos.

Primeiro, o ministro não consegue entender porque os empresários criticam o governo, pois o governo os ajuda muito por meio de uma política industrial e o ministro os recebe sempre que procurado.

Isso mostra bem a lógica deste governo. Se o governo adota um conjunto de políticas de promoção da indústria, independentemente do resultado, se as políticas foram adotadas não há porque reclamar. O problema é que chega um ponto que não tem mais como crédito subsidiado, por exemplo, compensar a nossa baixa produtividade e elevada carga tributaria.

E a política de proteção do mercado doméstico, que o governo enxerga como um favor para o setor industrial, é um “favor” para alguns setores que ocasiona distorções para outros e prejudica nossa competitividade e todos os consumidores. Mas nada disso importa ao governo que ainda parece acreditar que proteção e crédito subsidiado são os dois principais instrumentos de promoção da indústria.

Segundo, fiquei surpreso com a resposta do ministro para a explicação da forte queda do saldo da balança comercial. Segundo o ministro: “… somos uma economia relativamente aberta. Se fosse o contrário, teríamos segurado uma parte importante das importações que substituíram a produção nacional. Fomos dizimados por importações desleais. Por isso somos campeões de medidas de defesa comercial”.

 Não é bem assim, Os dados do Banco Mundial mostram que o Brasil não é uma “economia relativamente aberta”. Nós importamos muito pouco em relação ao nosso PIB e a diferença de preço entre produtos aqui e nos EUA chega ser anormal, o que sugere, entre outras coisas, elevado grau de proteção. Chegamos a um ponto que as pessoas viajam para os EUA para comprar roupas e enxoval de recém nascido. Isso não é normal.

É verdade que em alguns bens a penetração das importações foi muito forte. Mas no agregado o Brasil é uma economia ainda muito fechada. O Brasil importou o equivalente a 15% do seu PIB, em 2013, e ocupou apenas a 22º posição no mundo em relação as exportações de mercadorias, apesar de termos o 7º maior PIB do mundo. Todos os demais países com PIB elevado, ao contrário de nós, são também grandes exportadores.

Terceiro, segundo o ministro, o Plano Brasil Maior foi um sucesso apesar deste plano ter fracassado em quase todas as metas estabelecidas. Uma delas era a taxa de investimento da economia em 22,4% do PIB em 2014. A taxa de investimento este ano ficará abaixo de 18% do PIB. Mas como fala o ministro:

“O plano é um sucesso. Ele impediu a recessão. Seguramos o emprego por três anos em um momento de desaceleração mundial. Se a indústria tivesse um desemprego crônico, puxaria a economia para a recessão. O segundo ganho é estabelecermos fundamentos para um novo ciclo de expansão com a indústria mais competitiva. As condições estão amadurecendo.”

Bom, alguém precisa avisar ao ministro que já estamos em recessão e que a produção da indústria hoje é menor do que era em 1998 e sem perspectiva de melhora. Quem é da indústria fala de forma bem clara que o Plano Brasil Maior não solucionou os problemas do setor e não há nada que mostre, mesmo em sonho, “um novo ciclo de expansão com a indústria mais competitiva”. 

Nas ultimas semanas, todos os empresários da indústria que encontrei falaram de um problema de competitividade mais amplo, relacionado à baixa produtividade, inflação elevada, infraestrutura precária, mudanças constantes de regras, etc. Mas o governo insiste que sabe mais sobre a indústria do que os próprios empresários.

O resultado disso, caso a presidente seja reeleita, será uma novíssima política industrial com mais incentivos, mais proteção e desonerações seletivas. A indústria brasileira continuará perdendo mercado, o governo continuará a defender que as medidas funcionam e evitam um mal maior, e os consumidores continuarão a pagar preços elevados. Aos empresários só resta buscar mais incentivos para minimizar as perdas, pois é esta a atitude que o governo espera deles.