O tamanho do desespero e o qualunquismo

Essa noticia publicada há pouco no site da Folha de São Paulo (clique aqui) mostra muito bem o desespero do governo em relação as eleições:  “Das 23 punições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aos presidenciáveis até a última segunda-feira (15), 17 foram aplicadas contra a candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT). A petista lidera, de longe, o ranking das decisões desfavoráveis da Justiça eleitoral.

Por que o PT faz um jogo sujo do qual já foi vitima em 1989 e 2002? porque o principal objetivo do partido é se manter no poder. Mas qual o problema de o partido perder as eleições e voltar com toda a força em 2018? o problema é que se o PT perder a eleição pode ficar comprovada que a tese do Lulismo não se sustenta. Explico.

O cientista político André Singer desenvolveu a tese do Lulismo, uma transformação no eleitorado do PT que até 2002 era constituído pelas pessoas de maior escolaridade nos grandes centros urbanos. A partir de 2006, o eleitorado o PT ficou cada vez mais concentrado nos segmentos que ganham até  2 salários mínimos,  eleitores que tem no máximo ensino fundamental, concentrado nas regiões mais pobres. Segundo Singer, a fidelidade desta classe de menor renda ao presidente Lula estaria ligado à maior atenção que ele deu aos mais pobres, o “santo Lula”.

Há dois problemas com essa tese. Primeiro, André Singer no seu livro coloca a política social em conflito com a política econômica que ele classifica como neoliberal que prevaleceu no primeiro governo Lula. Assim, o autor não reconhece que a base para a política social (recursos para financiar o aumento dos gastos) foi o maior crescimento que decorreu das reformas neoliberais da década de 1990 e do primeiro governo Lula em conjunto com o ambiente externo favorável. Sem crescimento é difícil acreditar que haverá espaço fiscal para continuar a forte expansão do gasto social.

Mas o segundo problema mais grave com a tese do “Lulismo” é o que o meu amigo e meu cientista político preferido, Marcus Melo da UFPE, chama de “qualunquismo” (leia o fascinante artigo que ele escreveu para o Valor aqui). Segundo Melo, “O argumento do “qualunquismo” tem sido defendido com base em evidências de que o eleitor dos grotões sempre tende a apoiar quem está no governo, mesmo quando não mantém afinidades eletivas com ele”.

Dito de uma forma mais simples e direta, o eleitor de baixa renda no Nordeste não morreria de amores por Lula. Esse grupo votaria em qualquer governo que esteja no poder e aumente as transferencias para os mais pobres. Se o argumento de Marcus Melo for válido e se o PT perder o poder,  os eleitores de baixa renda notarão que programas que melhoraram o seu bem estar, como o Bolsa Família, não são política exclusivas do PT, mas políticas de Estado muita das quais decorrente do contrato social estabelecido na Constituição Federal.

O gasto público que mais cresceu no Brasil desde 1990, em todos os mandatos de diferentes presidentes, sempre foi o social – vejam essa coluna do Samuel Pessoa. Muitos economista e cientistas políticos identificam esse fenômeno como resultado da redemocratização do país em um contexto de elevada desigualdade.

Logo, o PT para voltar ao poder teria que se reinventar e não poderia mais usar o terrorismo eleitoral e a baboseiras da comida sumindo da mesa por causa do Banco Central independente. A “prova do pudim” mostraria para o eleitor que a melhoria do cenário econômico com maior transferência de renda para os mais pobres com o Bolsa Família, por exemplo, não depende de um partido específico. isso significa que o risco para o PT é não apenas perder uma eleição, mas ver a tese do “Lulismo” ruir e, logo, ter que se reinventar para conquistar novamente o eleitor urbano de maior escolaridade para novamente voltar ao poder.

O que mais assusta ao PT no caso de perder essa eleição não é o “Lulismo” mas o “qualunquismo”. Assim, do ponto de vista racional,  acho que o partido continuará com o terrorismo eleitoral, ainda mais em um contexto no qual o partido corre o risco de ganhar em apenas dois estados da Federação e ter sua bancada federal reduzida em 10% de acordo com alguns cientistas políticos.