Acabei de comprar um computador e fui roubado

Calma, quando disse que fui roubado não é “literalmente” roubado. Depois de muito tempo e para evitar a dor de cabeça de sempre ser tratado como traficante quando passo pela alfandega e não ter como comprovar um computador que comprei de um amigo que trouxe do EUA, resolvi comprar um MacBook Pro novo aqui no Brasil.

Não há muito o que fazer a não ser respirar fundo e apertar a tecla do computador para confirmar a compra, com a sensação de injustiça de comprar um produto cujo preço aqui é 100% maior do que se pagaria pelo mesmo produto nos EUA.

Comprei um MacBook Pro com tela de retina de 2.8 GHz. Preço nos EUA é de US$ 1.799, mais ou menos R$ 4.140,00. Este é um computador caro para padrão americano, mas caríssimo no caso do Brasil. Aqui, paguei exatamente pelo mesmo computador via loja da Apple brasileira R$ 8.279,00 à vista, ou seja, o dobro do preço que pagaria nos EUA. Do valor total que paguei, 12% do preço (R$ 993,49) foi de ICMS e 15% do valor do bem (R$ 1.079,88) foi o IPI.

Ou seja, esses dois impostos representaram R$ 2.073,37 ou 25% do preço final do computador que comprei. E os outros 75% do diferencial de preço em relação aos EUA? Aqui deve entrar todos aqueles outros impostos malucos que as empresas pagam e o imposto de importação.Eu não teria achado estranho pagar 50% a mais por um produto aqui em relação ao seu preço nos EUA. Mas pagar 100% a mais mostra que há alguma coisa errada aqui.

O Brasil tem uma carga tributária desproporcional para o nosso nível de desenvolvimento e isso prejudica muito mais as pessoas de menor renda. Quando se compra algum bem mais sofisticado aqui, tem-se a impressão que estamos sendo roubados. Como poderemos nos tornar uma sociedade de consumo? Possivelmente comprando produtos defasados que são mais baratos. O problema aqui não são as empresas, mas a carga tributária, logo, escolhas que a sociedade conscientemente ou não fez.

24 pensamentos sobre “Acabei de comprar um computador e fui roubado

  1. Não apenas carga tributária, além desse mercado, em outros mercados, como o automobilístico, somos recordistas em margens de lucros. A ausência de integração internacional, de concorrência internacional também impede a existência de preços mais juntos. Simplificar burocracia, reformar o sistema tributário e integrar o Brasil ao resto do mundo, são passos obrigatórios a uma sociedade mais próspera.

  2. Nota-se isso por outro padrão também: olhe a enorme quantidade de produtos eletrônicos e computadores “populares”, inclusive alguns com o selo do governo: todos obsoletos. Já vi micros com projeto (tecnologia) de mais de 8 anos, vendidos novos em nossas lojas, a preços na faixa de 50% de um item equivalente atualizado. Não é a toa que se vende até hoje até mesmo celeron com preço de i3. Só no Brasil.

  3. Olá professor,

    Seria correto dizer que além da burocracia e da falta de concorrência externa, os juros elevados também fazem com que as margens de lucro da empresas brasileiras serem tão elevados? Afinal, se empreender não for rentável, bastaria investir em renda fixa.

    • Acho que não. a rentabilidade teria quer elevada de fato p/ compensar investimento. Mas ele só conseguiria elevar rentabilidade dia preço em um mercado protegido. Pode explicar parte em conjunto com a proteção (tarifas de importação e outros impostos que incidem sobre importação: ICMS, + PIS e COFINS desde 2004).

  4. Tem de ser racional. Com esses absurdo que você pagou, com certeza privou de bons momentos e bons restaurantes em Recife.

    José Eustáquio Cançado BRASÍLIA-DF

  5. Consequências de uma economia fechada e pouco competitiva.
    São vários os problemas:
    – impostos de importação
    – carga tributária
    – custos trabalhistas

  6. Mansueto, bom dia! Para não fugir a regra, seu texto foi muito bom. Uma sugestão é abordar o tema da reforma tributária colocando na conta dos governos estaduais os quinhões que lhe são devidos. Não sei se ficou claro para todos que o icms é um imposto estadual. Toda vez que vejo desse debate, fala-se na necessidade do governo federal promover uma reforma tributária, mas também é responsabilidade dos estados acabar com a guerra fiscal e reduzir o icms.

  7. Tem toda razão Mansueto. Porém, uma reforma tributária com redução de carga total é algo um pouco difícil de se fazer na prática. Tem alguma ideia de como seria uma reforma tributária ou um esboço dela ?

    Algumas sugestões que tenho:

    Unificar o ICMS de todos os estados. Unificar tributos como pis e cofins. Abaixar a alíquota desses e criar, em seu lugar, um novo imposto sobre movimentação financeira, tipo cpmf. Fazer um maior escalonamento das faixas do IR. Algo também como desoneração do inss pode ser pensado, mas de maneira mais organizada do que foi feito.

  8. Mansueto, neste caso acredito que você tenha vacilado.

    Sob nenhuma circunstância eu daria meu dinheiro pro governo desta forma. Fico sem o bem, mas não sustento esta insanidade.

  9. Quando estou voltando de viagem ao Brasil já tenho brotoejas pensando naqueles fiscais da Receita e nessa postura de que o cidadão é um traficante se comprar um eletrônico fora do país.

    Só discordo do Fernando Alves aí em cima. Não gosto nem um pouco do atual governo, nem do partido, mas o PT está longe de deter o monopólio nas questões da nossa carga tributária, no protecionismo, reserva de mercado e nesses malditos 500 dólares…. mesmo o discurso “mais aberto” de alguns partidos, ainda está longe de ser liberal e na hora de sentar na cadeira e assinar o papel, as coisas tendem a mudar de figura. Nesses quesitos, todos os partidos dividem a culpa, enquanto nós pagamos – literalmente – por isso.

    Mas… nosso país é uma democracia, então só estão sentados lá os representantes escolhidos pelo povo.

    Recomendo à vc Mansueto e aos leitores, procurarem o excelente e curto paper “Taxation, Inequality and the Illusion of the social contract in Brazil” de dois Professores da UFPE (Rozane Siqueira e José Ricardo Nogueira). Está disponível na net, onde o achei. É brilhante, uma pena que nossa imprensa, nossos políticos e nosso povo, não tenham muito interesse nesse tipo de discussão.

  10. Creio que baixar a tributação seria uma forma de incentivar a entrada de novos concorrentes, novas indústrias. Porém, o atual governo não quer isso. O atual governo quer mesmo é que as poucas empresas que aqui estão, e a quantidade delas só diminui, mantenha o nível de investimento no bolso deles.

  11. se eu quisesse esse produto, acho que valeria a pena fazer uma viagem aos Estados Unidos e comprar o dito cujo…ou esse valor está fora do que cada passageiro tem direito?? Por aqui, temos impostos e lucros demais e competição de menos…pelo menos, vc ficou feliz com a compra ou já se arrependeu?? Quanto aos fiscais dos aeroportos, deixa os caras pra lá…
    bjs
    Vera Martins

  12. Discordo, com todo respeito.
    A teoria econômica possui uma limitação comum pelo fato de não conseguir incorporar fatores comportamentais.
    Na sua análise, está implícito um certo nível de concorrência que, para fins práticos, poderia ser chamada de concorrência perfeita.
    Podemos ignorar o fato de que concorrência perfeita é muito rara, principalmente em mercados de alta tecnologia (poucos ofertantes e alta especialização).
    No final, o que determina se um certo mercado possui concorrência perfeita, não é a quantidade de agentes no mercado, mas a ética do ambiente, a ética dos negócios (impessoalidade, honestidade, educação, respeito, profissionalismo, etc).
    Sem precisar de explicações:
    1 – ATI vs Nvidia
    2 – Intel vs AMD.
    Nos dois casos, apenas duas empresas, e eu vejo as duas o tempo todo concorrendo ferozmente, lutando para inovar, competindo por preços. Quem acompanha, sabe.
    Enquanto isso, no Brasil, vemos as montadoras de automóveis, os donos de postos de gasolina, mas eu quero ser poupado de ter que citar exemplos convincentes. Apelo para qualquer pessoa que conheça de perto a lógica do comércio no Brasil: No Brasil tudo se resume a conchavos. Aqui, as barreiras à entrada não são tecnológicas, são pessoais, é a intimidação e a ameaça do concorrente que não aceita que um aventureiro chegue para quebrar a “lógica” dos negócios. Os mercados são cartelizados, os preços não passam de um acordo de cavalheiros, explícito ou implícito. É o “lucro Brasil”.
    Isso tem a ver com falta de ética, com a índole brasileira de querer se dar bem e levar vantagem de algum modo.
    Como essa índole não prevaleceria no comércio, onde a tentação do lucro fácil, sem ter o trabalho árduo de cortar custos, inovar, aumentar produtividade, é um motivador e tanto?

      • Eu ganho um bom salário e NUNCA comprei um carro zero km na vida. E já faz 4 anos que nem de carro eu troco, e não pretendo trocar. Estou pensando sim em vender e andar de bicicleta.
        A vida é assim, em alguns momentos você tem que tomar atitude e seguir em frente. Carro não me faz falta nenhuma, dá pra me virar bem de ônibus, taxi, bicicleta, a pé. Estou usando o carro cada vez menos.
        Não sou burro de gastar R$ 40 mil em um lixo de carro.
        Mas vejo aí muita gente que ganha menos que eu gastando R$ 60 mil em carro e achando bom.
        País de estúpidos.

      • Nem tudo que serve para voce, serve para os outros. Nem por isso sao burros e voce é o inteligente. É preciso argumentar sem ofender as pessoas.

  13. O Brasil está entre os países que tem as maiores cargas tributárias, e ao mesmo tempo entre os que tem os piores serviços à população. Falta aos candidatos abordarem o tema de comércio internacional com mais ênfase, já que o tema é pouco explorado e fundamental para a população.

  14. Prezado Monsueto

    No Brasil, permanece a política que visa a construção de uma indústria
    nacional completa e autossuficiente. No produto final: quanto mais alta for a sua tarifa de importação e menores as tarifas de importação das matérias primas, peças e máquinas que o produzem, maior será a proteção ao seu valor adicionado, a sua proteção efetiva. Atualmente, o sistema está calibrado para incentivar com proteção tarifária todas as etapas da cadeia, o que acaba por reduzir a competitividade do bem final, que sofre a direta concorrência dos insumos e bens produzidos fora e que tem menores custos de produção.

    A política de se usar insumos ou peças nacionais faz com que o custo de produção aumente consideravelmente, produzindo um produto que para ser usado no processo de produção de algum bem, digamos petróleo, vai necessitar de subsídio do governo.

    Ou seja: há hoje muitas indústrias de insumos com tarifa de importação elevadas, o que reduz a proteção das indústrias que usam estes insumos. A ponta final da cadeia faz lobby para solicitar um aumento da tarifa de importação para seu produto.

    De nada adianta a depreciação do câmbio para a ponta final da cadeia, pois os custos dos insumos ou das partes e peças aumentam e, pior, os custos da alimentação, dos salários também aumentam o preço do produto, porque teve um aumento de custos. Em pouco tempo, a vantagem comparativa que se ganhou ao proteger via aumento do câmbio se esvai.

    O Brasil é uma economia em transição. Terá que passar por um momento de definir onde é competitivo. Os custos de manutenção de competitividade, de forma não natural, artificial, são caros. Não só como dispêndio do Estado, mas também para o consumidor, para a economia que usa produtos às vezes menos eficientes e mais caros.

    Essa é uma transição difícil do ponto de vista social e político. A exposição maior a competição externa poderá a ter desemprego setorial, localizado. Mas pode ser que do ponto de vista político não seja viável. Mas isso não é fenômeno específico do Brasil. Isso no mundo inteiro.

    O Brasil está atrasado na integração das cadeias de valor. Elas são uma realidade inescapável. Há setores competitivos no Brasil, como indústria alimentícia e o aeronáutico. Outros estão se adaptando, e outros talvez não tenham nem condições de se adaptar.

    Até setores conservadores reconhecem hoje que a força do mercado por si só não é necessariamente a única mola propulsora de uma economia equilibrada. O Estado tem um papel na orientação da economia para otimizar o processo de transição de uma maneira que seja socialmente sólida.

    Subsídios podem ser justificados desde que tenham função positiva e temporária na reestruturação produtiva. O que não pode ser é permanente. Tem que haver clara estratégia transitória. Um setor que queira ser plenamente integrado nas cadeias de produção precisa ser capaz de caminhar com as próprias pernas. Se ficar dependendo de apoio ou proteção artificial, de longa duração, não vai se sustentar.

    • Não concordo que subsídio é positivo, mesmo por que gera privilégios (poucos ganhas e muitos perdem através do imposto que banca isso) e não tem nenhuma relação com produtividade.
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      Deixar na mão de governo tomar esse tipo de decisão nunca será bom. O segmento que receberá subsídio será sempre por motivos políticos, e não por algum outro que justifique essa medida.
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      Agora se você abre a economia, no curto prazo você quebra algumas empresas, mas a maioria das pessoas terá acesso a produtos melhores e mais baratos. Ou seja, é bom para a imensa maioria das pessoas.
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      No longo prazo você favorece a competição e aí sim a produção interna pode ser produtiva, já que se investirá somente naquilo que de fato vale a pena investir e trará retorno, não naquilo que um governante optou em subsidiar por que ACHA que será bom e competitivo no futuro.

  15. Antes eu comprava muito…..mas comecei a fazer uma espécie de “desobediência civil” e não me sujeitar mais a isso….comprei um marea turbo em 2002 e estou com ele até hoje….paguei um preço de apartamento na epoca…adoro o carro e tal…….mas nunca mais faço isso…..desde então comecei a aplicar essa regra para celulares…computadores….etc…só compro na promoção….sempre que que vou a um shopping e sinto a tentação de comprar tento me lembrar de Platão na antiga Atenas criticando os atenienses em um mercado popular : ” Será que os atenienses precisam realmente de tudo isso para viver ? “

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