A revista VEJA acabou com o meu fim de semana

Nada como passar os olhos descomprometidos pelos jornais e pelas revistas semanais no sábado de manhã, antes de sair com as crianças. Mas não é que a revista Veja desta semana me surpreendeu com um soco violento na barriga.

A primeira matéria que me deixou de estômago embrulhado é a matéria da capa que trata da lista grandes de políticos envolvidos nos desvios de recursos dos contratos da Petrobras. Isso veio à tona e continuará a pautar a imprensa antes e depois das eleições porque o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, fez um acordo de delação premiada para não “pagar sozinho o pato”. Isso me parece ser nitroglicerina pura e que poderá trazer para o banco dos réus políticos importantes.

A segunda matéria que me assustou é aquela que mostra a transcrição de conversas telefônicas entre a contadora Meire Poza, que trabalhava para o doleiro preso Alberto Youssef, e um advogado contratado não se sabe por quem, mas a revista cita o nome de grandes empreiteiras brasileiras, para intimidar a contadora a não contar o que sabe. A contadora é de uma coragem impressionante.

Este caso está ligado ao do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. É impressionante a capacidade que grandes empreiteiras do Brasil têm de vez em quando saírem no noticiário econômico e aparecerem nas páginas policiais dos jornais. Essas empresas deveriam, rapidamente, ajudar nas investigações para afastar qualquer indicio de envolvimento no pagamento de propinas nos contratos com a Petrobras e/ou de ajudar na identificação, se for o caso, de funcionários seus envolvidos.

A terceira matéria que me surpreendeu é uma queixa-crime do Banco Central aos recorrentes a ácidos ataques do economista Alexandre Schwartsman ao Banco. Alexandre é sempre duro nas suas críticas, mas o Banco Central abrir um queixa-crime contra o economista me parece um evidente exagero. Lembro do economista atacar a postura do “Banco Central”, não exatamente os seus diretores. O correto seria criticar alguns diretores?

Eu já escutei coisas priores sobre o Banco Central nos corredores do Ministério da Fazenda e mesmo de políticos. Por exemplo, Luciana Genro do PSOL e Eduardo Jorge do Partido Verde vivem falando para quem quiser ouvir da submissão do governo e do Banco Central ao grandes banqueiros. Isso sim é difamação, mas nem por isso o BACEN vai processar os dois. E representantes do PT que vem falando do complô da “grande imprensa”. A grande imprensa deveria processar todo mundo?

Talvez o que incomode algumas pessoas no BACEN, no caso do economista Alexandre Schwartsman, são suas análises técnicas. O Alex usa uma linguagem dura de mercado que, às vezes, irrita algumas pessoas. Mas ele é um economista brilhante e ativo no debate. Tenho a impressão que algumas pessoas gostariam que o economista escrevesse de uma forma diferente para a expressar as suas críticas. Por exemplo:

 “É possível que a nossa autoridade monetária, apesar de sua reconhecida competência técnica, esteja passando por algumas dificuldades momentâneas para convencer o mercado quanto à velocidade da convergência da inflação para o centro da meta. Alguns economistas falam de uma suposta interferência política do Palácio do Planalto, ainda não comprovada, mas que não deveria ocorrer pois a independência operacional do Banco Central é importante para a boa administração da política monetária. Assim, vamos esperar por uma maior clareza quanto à velocidade de convergência da inflação para a meta e por um maior clareza da política fiscal, que pode ajudar ou atrapalhar esse processo de convergência”.

Tudo muito bonito e educado, mas os analistas de mercado não têm tempo (e nem saco) para esse tipo de frases longas e cuidadosas. Muitos falariam simplesmente assim: “Esses caras estão fazendo a maior M…. e vão se F……. no controle da inflação”. Essa é a linguagem informal do mercado. Alexandre neste aspecto utiliza uma linguagem dura, mas muito menos ríspida do que aquela utilizada nas reuniões fechadas de analistas e operadores do mercado.

A boa noticia é que a juíza federal, Adriana Delboni Taricco, decidiu rejeitar a queixa crime por entender que as criticas do economista “não ultrapassaram os limites do mero exercício de sua liberdade de expressão”.

Dito tudo isso e depois da Revista Veja ter estragado com a minha alegria do final de semana, quero saber o seguinte. Primeiro, o Banco Central não deveria processar aqueles que falam que o Banco aumenta a taxa de juros para favorecer o grande capital? Já estou preparando a minha lista para enviar ao Banco Central e a grande maioria dos nomes são de pessoas do partido do governo.

Segundo, as minhas criticas ao Tesouro Nacional não são contra a instituição nem mesmo quanto à honra de pessoas que dirigem o órgão. Eu tenho certeza que as poucas pessoas que adotaram a contabilidade criativa fazem isso por convicção por acreditarem que estão ajudando o crescimento do Brasil e, por isso, continuarão a fazer o mesmo enquanto estiverem por lá. Acho essa prática “meio complicada” (uma M….. na linguagem do mercado), mas não tenho nada contra as pessoas.

9 pensamentos sobre “A revista VEJA acabou com o meu fim de semana

  1. O PT e seus companheiros de governo fazem o diabo para atacar qualquer um que ouse criticar suas táticas chavistas de controle do poder.

  2. Parabéns para a juíza Adriana Delboni Taricco, Decisão corretíssima em não acatar processo em que um cidadão expressa sua opinião. Certas ou erradas são opiniões do Alexandre, garantidas pela Constituição.

  3. Pingback: Um país imune a escândalos | Visão Panorâmica

  4. nao foi a revista que estragou seu fim de semana. na ordem foram: o cara da petrobras, ,as empreiteiras, e o banco central. a revista estraga fins de semana quando faz trabalhos ruins, o que tb é frequente, mas nao parece ser o caso nesses tres pontos. abs.

  5. Mansueto, saiba que eu o respeito MUITO, como economista, como blogueiro e como cidadão. Por fim, é preciso esclarecer que políticos gozam de imunidade material – quer dizer… falam o que querem e não são punidos, quando essas críticas estão correlacionadas à atividade política. Deve ser por isso que os políticos criticam o governo e falam de desmandos e permanecem impunes.

    Apesar disso, considero gravíssima a possibilidade do BACEN – enquanto instituição – formalizar uma queixa-crime contra um analista por opiniões não agressivas.

    • Tal imunidade só vale para deputados e senadores no exercício do mandato. Políticos sem cargos ou congressistas que eventualmente estejam exercendo o cargo de ministro de estado, secretário estadual ou municipal não gozam de tal prerrogativa.

  6. Caro Mansueto, uma de minha maiores decepções é com BACEN, independente de tudo de errado que temos visto. Explico melhor: Tombini é o primeiro presidente sem indicação externa, ou seja, é funcionário de carreira do banco. Isso era algo que sempre ” cultivei” que gostaria que acontecesse e mais, via nisso como a concreta independência do Bacen. Ledo engano, ou ingenuidade não sei mensurar. Mas hoje o Bacen passa pela sua pior fase, tanto na gestão, como na sua função, pois é mais político agora como jamais fora. O pior na política econômica não é o modelo, é falta de coerência e o descompromisso gov de se alcançar algum resultado positivo. É uma desilusão sem precedente.

  7. Hoje de manhã eu abordei a notícia da ação penal que o Banco Central ajuizou contra o economista Alexandre Schwartsman e do protesto de vários economistas. A parte mais importante deste conjunto de fatos estava meio escondida: a resposta do Judiciário. A Juíza decidiu rejeitar a queixa crime por entender que as criticas do economista “não ultrapassaram os limites do mero exercício de sua liberdade de expressão”. Felizmente! Eles não vão intimidar! Aliás, se intimidaram e desistiram de recorrer. Se intimidaram, não ante uma força autoritária, mas ante o Direito, o bom-senso, a razão… É muito bom que sintam sobre suas cabeças o peso da razão, como todos nós sentimos… Muito bom Mansueto…

Os comentários estão desativados.