As contradições dos meus amigos do PT em 2014.

Uma das coisas que mais me impressiona é o esforço que algumas pessoas fazem para moldar a realidade à suas preferências eleitorais. Há cinco coisas que irritam muito meus amigos do PT que votam na presidenta Dilma.

Primeiro, quando se mostra que o Brasil de 1995 a 2010 cresceu muito próximo a América Latina e que, no governo Dilma, passou a crescer menos que a média da América Latina. O contra argumento mais sofisticado que escuto dos meus amigos é que o Brasil é uma economia mais diversificada que o Peru. Quem falou em Peru? O que de fato essas pessoas queriam é que nos comparássemos a Cuba, Argentina e Venezuela. O que assusta é alguém achar normal que o Brasil, uma economia com renda per capita de R$ 24 mil, cresça menos de 2% ao ano. Isso é um desastre. Mas meus amigos do PT falam que a culpa é do resto do mundo, em especial, dos EUA. Assim, temos que nos conformar com o nosso destino que seria determinado pelo resto do mundo.

Segundo, meus amigos do PT ficam profundamente irritados com o que consideram promessas populistas da candidata Marina como, por exemplo, duplicar o Minha Casa Minha Vida, antecipar a implementação do Plano Nacional de Educação (PNE), cumprir com a regra de 10% da receita bruta da União para saúde, adotar o passe livre para estudantes, etc. Eles falam que não há espaço fiscal para isso. Um momento? Mas não foi na gestão da presidenta Dilma que ressuscitamos o grande mágico Houdini com seus truques? O governo Dilma está terminando com superávit primário próximo de zero e com sucessivas tentativas de enganar a população (e recentemente até mesmo Banco Central) quanto a real situação das contas públicas. Como este governo pode falar em responsabilidade fiscal?

Terceiro, meus amigos do PT falam que não se come PIB. Eles ainda acreditam que é possível inventar um modelo de desenvolvimento no qual o Brasil tornar-se-á um economia desenvolvida do ponto de vista social – educação e saúde de país desenvolvido- com PIB de país em desenvolvimento. Mas de onde vem o dinheiro? Se o orçamento não der, a sugestão é aumentar a divida e aceitar um pouco de inflação. Para muito dos meus amigos do PT, aumentar a divida é uma forma legítima de crescer. O mais engraçado é que eles reclamam também dos juros altos no Brasil. Eles querem um governo que aumente a divida e que ainda pague juro real zero. É possível? Segundo eles sim porque o Brasil é um país grande.

Quarto, meus amigos do PT detestam o Banco Central e sua “política conservadora” de aumentar a taxa de juros. Eles querem um Banco Central que não possa aumentar a taxa de juros. Quando alguém lembra a eles que quem fixa a meta de inflação é o Conselho Monetário Nacional, formado por três ministros de Estado e não o Banco Central, eles continuam falando mal do Banco Central. Esses meus amigos não se preocupam com a inflação de 6% ao ano e ainda acreditam no milagre da auto correção da inflação. A narrativa é mais ou menos assim: preços crescem, oferta acompanha os preços e, em um segundo momento, inflação passa a ser menor. Se você falar que isso está errado será chamando de neoliberal idiota.

Quinto, a única candidata que reuniria a melhor gestão da administração pública com maior crescimento e progresso social seria a Presidente Dilma. Por que? Porque eles defendem que o PT é o único partido contra o grande capital e contra as supostas políticas neoliberais dos candidatos de oposição. Os meus amigos ainda estão presos no debate ideológico da década de 50 e não notaram que os seus iphones e samsungs só funcionam aqui porque tivemos a privatização do setor de telecomunicações.

O que tudo isso mostra? Que o PT parece que se perdeu nos seus 12 anos de governo. Por estar tanto tempo no poder, deveria ser o partido com o melhor diagnóstico dos problemas da nossa industria, dificuldades de planejar e executar grandes obras, problemas da saúde e educação, etc. Mas o partido sempre culpa o mundo e os EUA e, em especial, tenta de todas as formas ressuscitar o debate ideológico do século passado entre os liberais e conservadores, entre a esquerda progressista e a direita conservadora. Para eles, não há o que fazer a não ser esperar que o mundo volte a crescer.

Por sua vez, o mercado já notou essas contradições no governo do PT e quer ver qualquer um no Palácio do Planalto, com exceção da nossa presidenta. Quem liga para o mercado? Bom, temos que ligar porque somos um país com poupança pública negativa, déficit em conta corrente de quase 4% do PIB e que para crescer precisaremos de poupança externa. Hoje, o grande inimigo do governo é ele próprio e não a oposição.

23 pensamentos sobre “As contradições dos meus amigos do PT em 2014.

  1. Mansueto, isso é um recurso para tomada/manutenção do poder que foi aventado por George Orwell no seu livro 1984: o duplipensar. Aceitam fatos como verdades dependendo do lado que estão. Afirmam algo quando é de seu interesse e o negam quando não é mais. Os petistas seguem basicamente esse cartilha e incluem essa ferramenta nas diretrizes da Revolução Cultural gramsciana, para tomar de vez o poder.

    • Realmente, você foi ao cerne da questão. Agradeço a citação, ainda vou ler esse livro, já ouvi muitas vezes boas citações baseadas nesse livro.

  2. Impressiona mesmo é a visão dos nossos “amigos do PT” que crescer 2% é normal para uma economia como a nossa. Mas não era o baixo crescimento que eles tanto criticaram no governo FHC? Ou estou enganado?

  3. Ótimo! Não sou economista, mas sou do mercado financeiro. A linguagem é muito acessível! Espero que você não precise começar a desenhar para que comecem a entender.

    • por que temos amigos do PT, mesmo?

      Não sei quanto ao Mansueto e aos demais. No meu caso, são amizades muito antigas que eu prezo e quero conservar.

    • Porque acreditamos em boas intenções, acreditamos que o erro pode ser causado apenas por ignorância, quando na verdade não existe ignorância sem alguma dose de má-fé, e vice-versa.

  4. Muito bom texto!
    Lamentável constatar (como sempre) que questões econômicas complexas de um país o Brasil estejam nas mãos de gente tão incompetente e de má índole.

  5. Boa tarde, Mansueto.
    Fugindo um pouco do tópico, mas não muito.
    A nossa taxa de investimento está muito baixa, assim como a nossa taxa de poupança.
    A minha pergunta é simples: li que os economistas estimam que cerca entre 10 a 15% da renda nacional devem ser investidos apenas para manter o estoque de capital bruto, sendo assim o Brasil com uma taxa de investimento de 18% do PIB (perigando cair abaixo desse patamar) está investindo quase que apenas para manter o atual estoque de capital ou estou confundindo algum conceito?

    Se isso for verdade, naquele post que você fez disponibilizando um link sobre as finanças municipais, pude observar que os municípios investem uma média de 10 a 12% apenas do orçamento disponível. É por isso que os prefeitos estão sempre implorando recursos para a União e Estado para fazer obras?

    Grato pela atenção.

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  7. Certíssimo! Sem comentários. Pena que eles estão com a “faca e o queijo” na mão. Embora, existe esperança de mudança de direção… Precisamos ao menos tentar diminuir a “goleada”…

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