A demonização do ministro Guido Mantega

Antes que alguém pense que estou louco, quero deixar claro que não estou. No entanto, me assusta algumas pessoas, empresários em especial, acreditarem que a saída do ministro Mantega do Ministério da Fazenda sinalizaria uma mudança na política econômica (clique aqui). Na verdade, pode até ser uma mudança para pior. Explico.

O economista Guido Mantega, está no governo do PT desde o seu início em 2003. Apesar de ser economista, não teve a confiança do ex-presidente Lula para ser o Ministro da Fazenda. No seu primeiro mandato, Lula nomeou um médico, Antônio Palocci, que não acreditava nos economistas do seu partido e, corretamente, recrutou um grupo de economistas liberais que salvaram o governo Lula e ainda hoje são demonizados pelos simpatizantes do PT. O então economista Guido Mantega foi alocado no Ministério do Planejamento.

A grande bandeira do Ministro do Planejamento Guido Mantega, junto com seus dois principais assessores, Fernando Haddad e Demian Fiocca, foi a aprovação do Projeto de Lei das Parcerias Publico e Privadas (PPPs). Como o projeto enviado ao Congresso Nacional era muito ruim, e sei disso porque junto com Samuel Pessoa nós alertamos para vários desses problemas, a oposição exigiu várias modificações no projeto antes de sua aprovação.

Como é bem do estilo ultra otimista do atual ministro da fazenda, na época, o ministro do planejamento Mantega vendia para a opinião pública que a nova lei das PPPs marcaria o inicio de um boom de investimento em infraestrutura no Brasil (clique aqui), algo que não aconteceu. Quantas PPPs o governo federal fez até o ano passado? Absolutamente nenhuma, ou melhor, apenas uma entre o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal para construção de um centro de dados! Esse foi o grande boom de investimento que o então ministro do planejamento antevia.

Depois da sua curta e apagada passagem pelo ministério do planejamento, no final de 2004, Guido Mantega foi nomeado presidente do BNDES. No banco teve uma gestão sem muitos problemas e não obteve do Tesouro Nacional nenhum repasse de recursos que se tornaria uma prática recorrente depois de 2008 e que marcou a sua gestão no ministério da fazenda.

Mas como a mesma pessoa que passou pelo BNDES com uma atuação conservadora e discreta se tornou o grande mentor dos sucessivos empréstimos do Tesouro ao BNDES, quando ministro da fazenda, e o responsável pelo crescente desequilíbrio fiscal que nos levará a um superávit primário próximo de zero neste ano? Simples. Mantega não é o único culpado pelos desmandos do governo na área econômica. Ele sem dúvida teve a sua parcela de culpa, mas talvez menos do que o seu suposto subordinado que manda tanto ou mais do que ele, Arno Augustin, e sua chefe: a presidenta Dilma Rousseff.

A verdade é que, quem acompanha as declarações do ministro da fazenda Guido Mantega, sabe que o ministro é um homem de equipe disposto a defender a tese que a terra é redonda mas, a depender do ângulo que se observe, pode ser quadrada como sua chefe falou. O problema da nova matriz econômica não é apenas o ministro Mantega. Mas sim toda a equipe econômica a começar pelo verdadeiro ministro da fazenda que acumula o cargo de Presidente da República.

Acho bom os empresário segurarem o entusiasmo, pois a saída do ministro Mantega do governo não significa coisa alguma. E se o novo ministro for o economista Arno Augustin? E ser for Nelson Barbosa? Bom, até as paredes do Ministério da Fazenda sabem que Barbosa saiu do governo porque não suportava mais o secretario do tesouro que faz parte do circulo intimo de confiança da presidenta. Nelson não voltaria para Fazenda para ser mandado pelo seu subordinado do Tesouro.

Os empresários tão cedo não poderão dormir tranquilos. No caso de um segundo governo Dilma, o novo ministro da fazenda teria que ser independente o bastante para dizer “não” a presidenta. Essa pessoa deverá, inclusive, dar a má noticia para a presidenta que, caso reeleita, terá que aumentar a carga tributária fortemente para cumprir com suas promessas de continuar agradando o primo rico e o primo pobre em uma economia que namora com a recessão.

Difícil achar que a presidenta vá mudar tanto assim e não mais corroborar os “truques de mágicas” do seu governo. Como ela falou há duas semanas quando confrontada com a notícia que o Tesouro havia atrasado os pagamento de subsídios ao Banco do Brasil:

Eu não concordo, você me desculpe, mas eu não concordo que o Tesouro federal esteja fazendo isso. Não, não concordo”, disse Dilma, em visita de campanha as usinas do rio Madeira, em Rondônia. “Meu querido, eu não concordo com essa análise. Não concordo, não concordo, sinto muito.”

Como alguém que não concorda com o que não lhe agrada ouvir vai concordar que as suas ideias e de alguns dos seus subordinados mais próximos são parte do problema? É mais fácil sacrificar apenas um dos membros da sua equipe como o ministro Guido Mantega. 

4 pensamentos sobre “A demonização do ministro Guido Mantega

  1. No final das contas, o cenário segue complexo demais pra justificar tamanha animação do mercado. Como empresário, sigo preocupado, especialmente porque atuo muito próximo de vários segmentos da indústria, comércio e serviços (software), então independente de quem diga o que, sigo vendo a realidade de perto, exatamente na ponta, onde começam a aparecer os problemas.

    A única certeza segue sendo que 2015 será talvez pior que 2014, e a única tábua salvadora parece ser uma recuperação forte da economia americana, que venha a puxar o resto do mundo. É duro ter que planejar investimentos acreditando em milagres. Também acho difícil acreditar em alguma grande atitude do governo Obama, nestas alturas do campeonato.

    Por ora sigo cético.

  2. A produtividade no Brasil tem crescido pouco. As políticas de governo na última década foram perversas para a produtividade e o investimento, o aumento do intervencionismo na economia, com o uso de instrumentos discricionários que amplificaram o desastre do baixo crescimento da produtividade. O resultado é que o Brasil se vê alijado das cadeias globais de produção e nossa indústria se contenta em produzir para um mercado doméstico protegido.

    O aumento das restrições burocráticas e tarifárias para a importação é exemplo típico que ilustra os prejuízos para a competitividade causados pelas intervenções equivocadas do governo. Proliferam os regimes especiais, assim como restrições disfarçadas como “políticas de conteúdo nacional”.

    Políticas equivocadas pioram o crescimento o que, mantido o diagnóstico errado, leva a novas ações negativas para a produtividade e o crescimento.

    Enquanto o governo insistir em ignorar os verdadeiros problemas da economia, as perspectivas de crescimento continuarão ruins. O resto, como se dizia antigamente, é folclore.

  3. Em caso de reeleição da dita cuja – tomara que não! – ela poderia chamar além do Augustin, o Beluzzo (tem mais ou menos o mesmo perfil do Mantega e não gosta do feitichismo dos números rsrss), Holland………
    Agora, se chamar Augustin – o menino que não vê nada demais o BNDES captar dinheiro no mercado a juros SELIC e emprestar a juros de TJLP – vou me desesperar!

  4. Hehehe… esse negócio de o Agustin substituir o Mantega já foi objeto de uma excelente piada da Piauí no ano passado:

    19 de maio_Desde a semana passada, empresário que fala mal da política econômica recebe um telefonema anônimo avisando que se o Guido cair entra o Arno Augustin. Tiro e queda. Metade do PIB já está se mobilizando para indicar o italiano para Homem do Ano.

    http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-81/diario-da-dilma/diario-da-dilma-em-lagoa-que-tem-piranha-macaco-bebe-agua-de-canudo

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