O senador Aécio está bem, mas o Brasil?

Vejo nos jornais muita especulação e uma excessiva preocupação com o futuro do senador Aécio. Algumas analistas colocam a candidatura do senador Aécio nos seguintes termos: “se o senador quiser ganhar……” ; “o senador estuda como descontruir sua oponente….”, etc.

Algumas vezes, da forma que alguns analistas colocam a disputa eleitoral, tenho a impressão que se trata de uma disputa entre candidatos cujo o grande vencedor é “o candidato” e não os seus eleitores. Quem perde em não eleger o senador Aécio Neves presidente da república não é ele, mas sim os eleitores que acreditam no seu projeto e a população brasileira que deixará de contar, na minha opinião que conheço o candidato, com um homem público com vasta experiência política e de gestão.

É o único candidato com uma experiência nas duas casas do legislativo e no executivo como governador de Minas Gerais por oito anos. O senador Aécio tem uma experiência comprovada na costura de alianças políticas que serão necessárias para quebrar a letargia da falta de reformas no Brasil, algumas bastantes complexas que ainda não foram postas à mesa por nenhum dos candidatos.

A impressão que tenho é que o senador Aécio está muito bem. Está empolgado com a sua campanha, nos últimos dois anos vem participando ativamente de debates no Brasil e, independente do resultado das eleições, continuará como um político influente no cenário nacional, seja como Presidente da República ou como Senador da República. Aqui vejo um cenário ganha-ganha para o PSDB qualquer que seja o resultado das eleições.

Depois de quatro anos, o PSDB poderá ter o seu time reforçado no Senado Federal com um conjunto de políticos que são formadores de opinião e com forte inserção na mídia nacional. Alguém já parou para pensar o que poderá ser o novo senado com nomes como Tasso Jereissati (PSDB-CE), Anastasia (PSDB-MG), José Serra (PSDB-SP) e, ainda, com Aécio Neves (PSDB-MG) e Aloysio Nunes (PSDB-SP) no Senado Federal ou no Palácio do Planalto? São nomes com experiência de governo e com forte inserção no meio empresarial e na imprensa brasileira.

Em um governo do PSDB, eles fariam a diferença e, em um governo da oposição, esse grupo será motivo de alegria ou de dor de cabeça para o executivo. Motivo de alegria porque o grupo não será um obstáculo à provação de reformas que o país precisa. Mas poderá trazer dor de cabeça porque esse grupo conhece muito bem como funciona a máquina pública e não será empulhado por falsas promessas.

Ainda é muito cedo para se definir o resultado das eleições pelas pesquisas. Se pesquisa eleitoral definisse eleição, vários dos candidatos hoje a governador deveriam renunciar suas candidaturas, pois alguns deles não alcançam nem 10% das intenções de voto. O mesmo valeria para aqueles candidatos com elevada taxa de rejeição em um segundo turno. Mas alguém no seu pleno juízo acha que pesquisa eleitoral com pouco mais de dois mil eleitores define eleição? Não. Mostra tendência é claro, mas não define eleição. 

Uma coisa, no entanto, é possível afirmar. O próximo presidente não terá três meses para definir o que irá fazer para recuperar o tripé macroeconômico. A situação fiscal hoje está muito ruim e enganam-se aqueles que acham que será fácil recuperar o superávit primário de forma rápida. Não será possível termos um choque fiscal na magnitude que se fez em 1998-1999 e 2003. Adicionalmente, o cenário fiscal para os próximos anos vem se deteriorando muito rápido devido as despesas e programas já contratados.

O próximo presidente não terá muito tempo para definir sua equipe econômica, um plano consistente para recuperar o superávit primário e controlar o crescimento do gasto público no pós-eleição. Acho até que a construção de uma acordo multipartidário com os lideres dos partidos imediatamente após a eleição seria um boa opção para acalmar o nervosíssimo do mercado.

É claro que, como analista, não acredito nesse cenário para o atual governo que, por quatro anos sucessivos, tentou “enganar” analistas de mercado, jornalistas e a população quanto a real dimensão da piora fiscal. Ademais,  tem atuado de forma consistente e não transparente para esconder o custo de suas políticas, vide o caso da política de subsídios. 

A presidenta Dilma, corretamente, questionou a candidata Marina ontem em debate do custo dos programas do PSB, que não cabem no PIB. A conta que fiz é que seria necessário um crescimento da despesa primária do Governo Central perto de 2,5 pontos do PIB até 2018 para cumprir com as várias promessas (ou compromissos) do programa do PSB. As três mais caras seriam: (i) passe livre para os estudantes; (ii) 10% da receita bruta da União para saúde; e (iii) antecipação do cronograma de aumento do gasto com educação (% do PIB) do Plano Nacional de Educação.

Um crescimento da despesa primária de 2,5 pontos do PIB em quatro anos é maior do que o crescimento da despesa primária do Governo Central (governo federal, previdência e banco central) de 1998 a 2010 – 12 anos de governo FHC-1, LULA-1 e LULA-2. Como o superávit primário hoje está próximo de “zero”, um crescimento tão grande em quatro anos só seria possível com um violento aumento da carga tributária. Mas a presidenta Dilma e o seu governo tem “zero” de credibilidade para falar de responsabilidade fiscal. Repito: “zero”. 

Eu já falei isso diversas vezes e torno a repetir. No início do governo Dilma tínhamos um superávit primário de 3,1% do PIB. Ao longo de quatro anos, o governo perdeu 1% do PIB com desonerações que fez, sem ter criado o espaço fiscal para essa política, e a despesa primária (não financeira do Governo Central) crescerá um pouco acima de 2 pontos do PIB. Assim, o superávit primário de 3,1% do PIB foi transformado em praticamente “zero”. O que “sustenta” o superávit primário um pouco acima de 1% do PIB são truques contábeis e receitas não recorrentes.

Não é comum ter refinanciamento de divida (Refis) em anos sucessivos, não é comum a ciranda financeira que se faz com o BNDES para gerar um falso lucro pelo carregamento de títulos públicos, não é comum os atrasos de repasses para a Caixa Econômica Federal pagar os benefícios sociais e previdência, não é comum a crescente dívida do Tesouro com bancos públicos (subsídios do PSI e do crédito agrícola) e não é comum tanto desprezo pela transparência na execução do orçamento.

No sábado falei com o senador Aécio Neves por telefone e ele vai muito bem e, como sempre, empolgado com as eleições. Nós eleitores que deveríamos estar muito preocupados com o futuro do Brasil, pois estamos a um mês das eleições e tenho a sensação que o eleitor espera soluções mágicas do próximo governo. Sonhar é preciso, mas é também necessário maior realismo com a nossa situação econômica atual. Um realismo que não virá do atual governo, que encara os truques fiscais como uma “estratégia” de crescimento, e nem tão pouco do compromisso com maiores gastos.

Assim, vamos nos preocupar um pouco mais com as propostas dos candidatos e com o debate mais profundo que deveria estar ocorrendo nesta campanha eleitoral e não está. O senador Aécio Neves vai muito bem e cada vez mais empolgado em debater os rumos do Brasil. Mas o Brasil está bem?

14 pensamentos sobre “O senador Aécio está bem, mas o Brasil?

  1. Caro Mansueto!
    Espero que o Blog não pare rsrsrs
    Eu concordo com várias posições suas a respeito da ausência de cuidados -por parte do atual governo – com a saúde fiscal. Eu olho esse cenário macroeconômico feito pela atual administração e vejo o que se vislumbra em um horizonte não tão distante no front externo: Um programa de compra de títulos públicos pelo Banco Central Europeu e o aumento nas taxas de juros dos EUA (prime rate). O senhor acha que estamos em um cenário parecido com o que ocorreu em 1979, quando Paul Volcker aumentou a prime rate em 21%? O cenário lhe parece semelhante ao menos?

  2. Gostei do texto, não existe problema algum em ser voto vencido. Existe , evidentemente, a máxima que ,feio, em eleições é perder.Mas se descaracterizar com propostas mentirosas e insinceras, com o objetivo único de se eleger pode não ser um bom caminho.Não acredito que as pessoas se deixem enganar tão facilmente.

  3. Não restam dúvidas de que Aécio Neves tem o melhor programa, o melhor quadro técnico e a maior experiência. Porém ficou faltando uma comunicação mais efetiva com a sociedade.

  4. My apologies for writing in English but my portuguese is not very good. I’m a loyal reader of your blog and enjoy it very much. Also, I share many of your points of view. However, I was surprised to read the following: “Mas alguém no seu pleno juízo acha que pesquisa eleitoral com pouco mais de dois mil eleitores define eleição? Não. Mostra tendência é claro, mas não define eleição. ”

    Why would you question the validity of polls as a forecasting tool for elections? I have no doubts that you know that it isn’t just “pouco mais de dois mil eleitores” that polls are about: many years of statistical theory and empirical practices try to make sure those 2000 voters are a valid sample of the population at large within a margin of error. So if the polls showed Dilma, Aecio, and Marina within 2 percentage points of each other (say 30%, 29%, 31%) one could not responsibly say “the election is over for Mr. Neves”… but given that both Marina and Aecio appeared 19pp points ahead of Aecio on the last Datafolha (and regardless of the poll Aecio is at the very least 10pp behind Marina) it is reasonable to conclude that unless another completely unexpected and low probability event takes place, Aecio will not be Brazil’s next President.

    I bring this up because when a country’s objective, well-educated, and balanced commentators question the use of tools that are in principle ideology- and value-neutral (such as polls and statistics) I think there is a risk of a widespread erosion of the role science and careful analysis are supposed to play in public discourse. And also, I happen to consider you one of Brazil’s objective, well-educated, and generally fair and balanced commentators.

    • Dear Mr. Brown

      Sorry for the misunderstanding. When I said that a pool with over 2,000 people will not decide an election I was not raising doubts about the quality of both the statistical method and the pools. I believe in electoral pools and all political parties hire people to run their own pools daily.

      The point I was trying to make was a different one. I noticed that many people here in Brazil started to ask whether senator Aécio Neves would not run for president since his now in 3rd place according to the recent pools. Although this make his run for presidency more challenge, it does not make sense to withdraw from the political contest because his now in a more difficult position, according to the pools.

      I did not mean that I do not believe in election pools. I do. My point is that elections only end when the ballots are opened and votes counted. That’s my point.

      Therefore, I am not questioning the validity of the pools. In fact, I believe 100% in the election pools.
      Probably, the way I wrote the post leads the readers to understand that I have a dubious view about statistics and election pools. This is not true. Sorry for the misunderstanding and thanks for letting me know about that. I will be more careful.

      All the best, Mansueto

  5. (Se o português abaixo não faz sentido, basta colá-lo em Traduz Google e você vai receber de volta um comentário Inglês semi- razoável )

    Muito obrigado por escrever de volta. Concordo plenamente com a idéia de que as eleições não são mais até que eles são mais. E eu também concordo que ainda pode fazer sentido para um candidato que é certeza de que ele vai perder a permanecer em uma corrida eleitoral em particular.

    Esperemos que Aécio será executado novamente no futuro tendo em conta o que aconteceu nesta eleição . Parece- me que, quando se trata de eleições , os candidatos erro de direita na América Latina é fazer o mesmo erro Democratas fazem em os EUA : a esquecer que para ganhar uma eleição , o candidato com as melhores idéias de política não vai ganhar , a menos o candidato tem a narrativa que é mais fácil de se relacionar. ( Anúncios de TV , como o que foi ao ar ontem à noite , quer ou o anterior , que incluiu um longo monólogo sobre a mudança tem chance zero de tê-lo todos os novos eleitores) Obrigado novamente pela resposta. Abs, Andrew.

  6. Pingback: A dificuldade de apresentar propostas realistas em um país dominado pelo populismo | Rodrigo Constantino - VEJA.com

  7. “com um homem público com vasta experiência política e de gestão.”

    Tem tanta experiência política e de gestão que criou a verba indenizatória em 2001, quando era presidente da Câmara dos Deputados e até hoje não falou nada. Criou uma benesse com o pomposo nome de verba indenizatória, para escapar do desgaste político caso afirmasse que isso era um aumento salarial pra deputado ( gente que trabalha arduamente 3 dias por semana). Desculpe Mansueto! Respeito a sua opinião e concordo que a gestão atual é um desastre – sou um eleitor indeciso antes que me rotule – , mas querer passar verniz de bom gestor, de candidato transparente e de que cuidará para que o estado não incorra em mais despesas em relação ao seu candidato – como você mesmo afirma – é forçar demais a barra.
    Antes que possa ser alvo de ataques: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2211200904.htm
    Aqui vai o link

    • Temos visão muito diferentes. Conhecendo os outros candidatos, sem duvida acho o mais preparado o senador Aécio. E sim, o compromisso dele com transparência é fato. O mesmo não se pode dizer do governo atual. Quanto aos demais candidatos, não tenho como opinar.

  8. “Therefore, I am not questioning the validity of the pools. In fact, I believe 100% in the election pools.”

    Mansueto

    Se você acredita 100% nas pesquisas eleitorais, me diga: Por que na eleição de 2010 a candidata Marina Silva era apontada com 10% de intenções de voto e na abertura das urnas ficou com 20%. Não foi uma distorção muito grande, não?

    • Você está totalmente certo. Mas como falei, acredito 100% tendência que pesquisa eleitoral mostra. Não no resultado. Quem dá o resultado são as urnas e não pesquisas.

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