Mercado vs. Governo.

O mercado no Brasil tem andado tão pessimista nos últimos dois anos com a condução erratica e não transparente da nossa política econômica que, qualquer perspectiva de tirar o grupo atual do poder, já anima, exageradamente, o mercado financeiro.

A interpretação que analistas de mercado aqui e lá fora fazem é que a equipe econômica inventou um cipoal de truques e se tornou refém do uso continuo desses truques para não reconhecer o óbvio: a situação fiscal piorou e nos metemos em um buraco tão fundo, superávit primário recorrente e sem truques próximo de “zero”, que será impossível sair dele em apenas um ano de ajuste.

Os candidatos de oposição com chance de ir para o segundo turno sabem disso e querem se livrar desse passado maldito de truques fiscais, práticas que acabaram com a nossa credibilidade aqui e lá fora. A narrativa já está pronta: abrir o custo das estripulias fiscais para a população para mostrar didaticamente o custo das supostas bondades e como a conta será paga. Hoje, o governo “varre a conta para debaixo do tapete”. 

O mercado também acredita nas promessas da candidata do PT de aumentar ainda mais os subsídios e de não fazer ajuste algum na política econômica, pois para o governo não há o desequilíbrio fiscal que todo mundo enxerga até mesmo os assessores diretos do Ministro Mantega. Adicionalmente, o problema do nosso baixo crescimento, na interpretação do governo, seria o baixo crescimento do resto do mundo. Com esse diagnóstico, o mercado “compra” o cenário que o próprio governo vende e enxerga à frente um desastre.

O movimento do mercado financeiro, que alguns interpretam como uma guerra ao PT, é na verdade uma reação racional as declarações da candidata do PT. Isso não aconteceu em 2006 nem tão pouco em 2010 e passou, novamente, a ocorrer nesta eleição porque hoje se sabe, pelo tipo de informação que vaza diariamente do Ministério da Fazenda, que não há plano de voo pós eleição e que a situação fiscal piorou muito além do que o mais pessimista dos pessimistas esperava.

Qual o problema? O problema é que, para um país com elevada dívida pública (quando comparado aos demais emergentes) e com juros elevado, essa estratégia de “tentar enganar” o mercado significa juros mais altos no longo prazo e, logo, uma pesado serviço da dívida pública e carga tributária elevada. Esse será o custo de “enfrentar o mercado” sem armas (poupança pública). 

Enfim, para o mercado, o cenário hoje é acreditar em mudanças e maior responsabilidade fiscal qualquer que seja o candidato de oposição que vença as eleições. No caso do senador Aécio e explicitando aqui o meus viés de participar da equipe do candidato, acho que ele teria maiores condições de fazer uma coalizão política para aprovar uma ampla agenda de reformas, pois já demostrou sua competência como gestor e como político.

No caso da candidata Marina Silva, não tenho como opinar porque não a conheço, mas é fato que o mercado dá o benefício da dúvida para a candidata. E no caso da presidenta Dilma, o mercado passou a acreditar em mais do mesmo e, assim, que a política econômica atual com seus truques contábeis, excesso de intervenção e mudanças constantes continuará.

O que tudo isso significa? Duas coisas. Primeiro, o choque de confiança com a vitória de um dos candidatos de oposição terá que ser referendado no pós-eleição com medidas concretas que sinalizem melhora no ambiente institucional decorrente de reformas microeconômicas e maior responsabilidade fiscal – um ajuste que pode ser gradual, mas será necessário para fugirmos da combinação perversa de baixo crescimento e elevada inflação.

Segundo, no caso de vitória da Presidenta Dilma, a melhor forma de recuperar rapidamente à confiança do mercado é termos um estelionato eleitoral – a presidenta fazer exatamente o oposto do que ela vem prometendo na campanha eleitoral. E se não fizer nada porque o governo “não quer se curvar ao mercado” e ainda colocar Arno Augustin como Ministro da Fazenda? Neste caso, estou curioso para ver como se dará essa queda de braço. Seria um cenário no qual o governo só ganharia perdendo: taxa de juros elevada ao longo de todo o segundo mandato da presidenta Dilma e forte expansão da Div. Liquida do Setor Público nos próximos quatro anos.

Volto a repetir. Da mesma forma que, em 2002, o medo Lula decorria de um discurso equivocado do Partido dos Trabalhadores em relação à política econômica que caracterizou a sus história, o “medo Dilma” decorre da teimosia da presidenta e da sua equipe econômica em achar que a política econômica não precisa de ajustes. A maior oposição à presidenta Dilma é ela própria e seus assessores da área econômica.

É esse comportamento errático de um governo que promete maior responsabilidade fiscal e atrasa repasses do Tesouro para a CEF pagar os programas sociais, que promete moderar repasses ao BNDES e na surdina renegocia toda a divida do banco por quase meio século para reduzir os encargos  sem explicitar custo para a sociedade, que promete reformas estruturais e acena com a ampliação de subsídios que assusta o mercado. Assim, o “terrorismo eleitoral do mercado” vem de dentro do governo e não de fora. 

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7 pensamentos sobre “Mercado vs. Governo.

  1. Fantástico seu post. Resume claramente a situação pré eleitoral que passamos. É uma pena que grande parte de nosso querido povo ainda não enxerga o rombo que a política financeira da atual presidenta instituiu e acredita no discurso que “tudo vai bem no Brasil”.

  2. Mansueto, dá pra explorar melhor essa história de renegociação da dívida do BNDES? Não me lembro de ter visto nada a respeito.

      • Mansueto

        Não li ainda a coluna do Ribamar. Só via a chamada dizendo que renegociaram para 2040 o pagamento de R$ 194 bilhões, de um total superior a R$ 400 bilhões.

        Essa jogada Tesouro/BNDES guarda relação com o lucro do banco neste semestre?

        “O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) informou nesta sexta-feira (22/08) que registrou lucro líquido de R$ 5,471 bilhões no primeiro semestre de 2014. Segundo a empresa, o resultado é o maior já apresentado para o período e 67,8% superior aos R$ 3,261 bilhões obtidos no mesmo semestre de 2013.” (Exame, 22/08/2014)

        “O Tesouro Nacional pediu ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) mais cerca de R$ 3 bilhões em dividendos, para engordar as receitas públicas ainda este mês, segundo fontes do governo. Com isso, os valores pagos pelo banco à União chegarão a R$ 7,8 bilhões desde janeiro.” (ESP, 23/08/2014)

        Por trás dessa renegociação feita no segredo, mais e mais criatividade contábil motivada pelo desespero não declarado com a situação fiscal, e pela via de futuro repasse de dividendos do Banco para o Tesouro?

        É isso?

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