O governo FHC e o gasto social

Este é o título da excelente coluna do economista Samuel Pessôa na Folha de São Paulo de hoje (clique aqui). Tem três coisas que chamam atenção no artigo do Samuel. Primeiro é a honestidade. Samuel mostra que tem ligações com o PSDB e, quando explica a sua tese, separa o que é fato (dados observados) do que é seu ponto de vista.

Segundo, Samuel deixa muito clara a sua tese: “Meu entendimento é que a elevação do gasto social é permanente nas últimas duas décadas e meia, em razão do que chamei de contrato social da redemocratização, consubstanciado na Constituição de 1988 e reiteradamente renovado nos mesmos termos nos diversos pleitos eleitorais desde então.”

Essa é uma reposta direta à tentativa de terrorismo eleitoral da nossa Ministra do Desenvolvimento, Tereza Campello, que em entrevista ao blog do Josias Sousa (clique aqui) falou por desconhecimento ou por maldade (ou uma combinação das duas coisas) falou que:

“Durante muito tempo, as políticas sociais foram tratadas no Brasil como gasto fiscal. Quando é para entrar com alguma variável de ajuste, o que é a primeira coisa a ser cortada? […] Servidor público e política social. Então, o debate, eu acho que também tem a ver com o fato de as pessoas saberem desse histórico.”

Isso simplesmente não é verdade. Gasto social no Brasil que envolve transferência de renda – previdência + vale gás, bolsa escola, bolsa família, etc. + LOAS + seguro desemprego e abono salarial- crescem desde 1991, ou seja, desde o governo Collor. Assim, o gasto social no Brasil reflete escolhas que estão na nossa Constituição Cidadã de 1988. O que muda ao longo do tempo é a composição desse gasto social.

Terceiro e último ponto, segundo Samuel, a grande diferença entre os governos FHC e petistas não está na política social, mas sim na política econômica: “Tenho defendido ainda que a diferenciação dos governos petistas em relação ao governo FHC encontra-se na política econômica, e não na política social. A grande distinção está no conjunto de medidas conhecidas por nova matriz econômica, como o ministro Guido Mantega nomeou e que, como argumentei em diversas colunas, é a causa maior da desaceleração da economia no quadriênio de Dilma.”

Ontem em uma rápida troca de e-mail com o seguidor no twitter, ele me veio com a pérola que qualquer um que estivesse no governo teria adotado o mesmo conjunto de políticas de estímulo do atual governo e que, no seu modelo de “Dynamic Stochastic General Equilibrium (DSGE)”, os nossos problemas foram causados pela desaceleração do resto do mundo.

Ou seja, o fato de o investimento público no Brasil não ter crescido pela indefinição de marco regulatório, o semi-congelamento de preços administrados, as novas regras para o setor elétrico que prejudicaram a capacidade de investimento da Eletrobras, a forte expansão dos empréstimos do Tesouro para bancos públicos após 2009, desonerações seletivas parcialmente compensadas com um imposto cumulativo sobre o faturamento, etc. tudo isso seria culpa do resto do mundo?

Difícil acreditar que tem gente que acredita nisso. A política econômica recente no Brasil combina voluntarismo com arrogância no seu melhor estilo e isso até mesmo pessoas de dentro do governo sabem. As boas discussões  na Esplanada do Ministérios hoje são fechadas porque há receio que algumas pessoas no Palácio do Planalto ou no Ministério da Fazenda não gostem dos convidados.

6 pensamentos sobre “O governo FHC e o gasto social

  1. “(…) no seu modelo de “Dynamic Stochastic General Equilibrium (DSGE)”

    Para acreditar em certas sandices, é preciso ser muito sofisticado, ou então saber SAMBAr!

    • É a conhecida arrogância dos que tentam reconstruir a realidade objetiva a partir de cálculos matemáticos abstratos, independentemente das limitações epistemológicas dos modelos utilizados, e que a “verdade” obtida da redução do mundo real a uma equação se sobrepõe à própria realidade.

  2. Prezado Mansueto,

    Em primeiro lugar, gostaria de parabenizá-lo por este blog. Fui apresentada a ele por uma amiga economista e, desde então, recebo suas atualizações por e-mail, para garantir que eu não vá perder nada.

    Gostaria apenas de te dar uma sugestão “técnica”: quando for colocar o link de outro texto, sugiro marcar a opção “Abrir link em uma nova janela/aba”. Desta forma, a gente pode acessar os textos que você comenta sem ter, necessariamente, que sair do seu blog.

    É apenas uma pequena sugestão 🙂

    E repito, parabéns pelo trabalho feito! É brilhante!

    Abraços,

    Viviane

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