A falta de confiança

O artigo hoje do empresário Pedro Passos na folha de São Paulo (clique aqui) vai direto ao ponto na questão que aflige empresários de todos os setores da economia. O problema da falta de confiança.

A imagem que muitos empresários têm do governo hoje é que a presidenta e sua equipe econômica confiaram muito nas medidas de estimulo à demanda e na agenda de desonerações como forma de reativar a economia. Diga-se de passagem, como gosta de lembrar Marcos Lisboa, parte dessa agenda teve o apoio de alguns empresários.

Mas o problema é que o governo exagerou no remédio e, dado o baixo crescimento da economia, criou um enorme problema de difícil solução no curto-prazo. Já disse diversas vezes e vou repetir muitas outras: o crescimento da despesa primária do Governo Central no Governo Dilma será próximo ao verificado nos 12 anos que antecederam o seu mandato (1999-2010) – clique aqui.

O empresário Pedro Passos fala que (desculpem ter copiado um trecho longo do artigo, mas é por uma boa causa):

“A confiança baixa decorre de certo ceticismo a respeito de como desatar o novelo fiscal. Ele vai esmorecendo o crescimento quanto maior a progressão do gasto público em relação à receita fiscal, que, por sua vez, depende da atividade econômica. Noutra forma de encarar tal equação, quanto menos cresce a economia, menor é a arrecadação e maior o endividamento público, que ferve o juro, cujo caldo desarranja o investimento e o consumo.

No atual estágio da restrição fiscal, já não basta eliminar a chamada contabilidade criativa do Orçamento federal, com o governante reconhecendo as desonerações, os subsídios de juros e outros gastos camuflados. Quando a despesa crescia acima da receita, e tem sido assim anos a fio, havia um problema em perspectiva. Mas, se o gasto continua se expandindo com a receita estagnada, há algo muito pior”.

O secretario de Política Econômica possivelmente alegaria que o empresário Pedro Passos faz uma “cálculo de contador” como me acusou no programa que participei recentemente na GloboNews. Mas ao fazer isso aumenta mais ainda a desconfiança do mercado de que a equipe econômica parece não ter consciência do tamanho do problema que eles próprios (e não o resto do mundo) criaram.

É fato (não terrorismo eleitoral) que o mercado confia mais na oposição (quem quer que seja o novo presidente – se Aécio Neves ou Marina Silva) do que no governo atual para resolver a situação.

A jornalista Claudia Safatle na sua coluna de hoje no valor (para assinantes) escreve o que ouviu de alguém do mercado: “Com Aécio eleito, a Bolsa de Valores subiria para mais de 70 mil pontos. Se a vitória for da presidente Dilma Rousseff, ela cai para a casa dos 40 mil pontos. Caso Marina vença o pleito, a Bovespa permanecerá no patamar atual, entre 50 mil e 55 mil pontos, até se ver os primeiros passos de seu governo”, arriscou um outro participante do mercado, ao tentar medir o peso de cada candidatura para o mercado de ações.

Por que o mercado tem tanto medo da presidente Dilma e de sua equipe econômica? Porque ninguém tem ideia do que se passa na cabeça da presidenta. O perfil que os jornais fazem da presidenta é de uma pessoa centralizadora e que intimida os seus interlocutores, um perfil diferente do ex-presidente Lula.

O economista Eduardo Giannetti definiu bem em palestra nesta semana a grande dúvida do mercado quanto a um eventual segundo mandato da presidenta Dilma (clique aqui):

“Sobre a reeleição de Dilma, Giannetti previu dois cenários para a economia brasileira: uma “curva de aprendizado” e uma temerosa “aposta redobrada”. Na curva de aprendizado, o governo assumiria e corrigiria equívocos da condução da política econômica que teriam ocorrido na avaliação do economista….Já no cenário pessimista, segundo Giannetti, Dilma manteria a condução da política econômica sem mudanças por conta do prestígio concedido a ela em um segundo mandato. “Aí, meus caros, apertem os cintos. Vamos enveredar para uma crise financeira logo no início do segundo mandato, porque o mercado financeiro vai perceber rapidamente que o Brasil não se sustenta. Eu realmente temo que essa possibilidade aconteça”

Se o governo insistir no discurso que “não está nem aí” e que não se curvará à vontade do mercado, corre um sério risco de, em caso de vitória, ter que “pagar um preço muito mais alto” (leia-se ajuste fiscal mais duro) para recuperar a confiança do mercado e reduzir juros. Por esperança, muita gente aposta que o governo passou por um processo de aprendizado. Mas todas vezes que alguns ministros do governo ou membros da equipe econômica falam alguma coisa, tem-se a impressão que o cenário da “aposta redobrada” não pode ser descartado.

Em resumo, até outubro e novembro, continuaremos neste cenário incerto, com os empresários assustados e o investimento caindo. Isso tudo, é claro, já comprometeu o crescimento de 2015 e, para este ano, alguns economistas que conheço já não se assustariam com um crescimento do PIB de 0,5% ou até de “zero”.