O governo e o casulo

Nas duas ultimas semanas, conversei com investidores de fora que visitaram Brasília, Rio e São Paulo. O roteiro é sempre o mesmo. A turma de fora sai um pouco mais pessimista e com dúvidas da real intenção de o governo fazer ajustes no seu modelo econômico se for reeleito.

No meu caso, eu me restrinjo a mostrar os dados e afirmar que eu espero que quem quer que ganhe as eleições coloque novamente a economia nos eixos, porque a situação se deteriorou muito além do que qualquer pessoa esperava. Mas ai vem a pergunta: quem são os economistas ligados ao partido do governo? Se a equipe econômica for a mesma, haverá mudanças?

Eu espero que sim, mas o que vejo todos os dias é a presidenta prometendo novos e mais subsídios. No último programa das eleições da GloboNews com a jornalista Mônica Waldvogel, a Ministra do Planejamento, Miriam Belchior, começou sua participação falando que, ao contrário dos governos passados que seguravam o investimento para aumentar o primário, o governo do PT não faz isso. A ministra está equivocada.

Primeiro, o investimento atual não é muito diferente do que foi no final do governo FHC, quando o investimento foi de 1,2% do PIB. Segundo, em 2003, o presidente Lula cortou em 60% o investimento público para aumentar a meta do primário. O investimento só voltou para a casa de 1% do PIB, em 2010, no final do governo Lula. Assim, a afirmação da Ministra é de alguém que, para minha surpresa, não conhece os dados.

Segundo, a afirmação da ministra em um cenário de primário (sem receita extraordinária) caminhando para “zero” é, no mínimo, assustadora. O mercado começou a especular que se eleita, a presidenta e a equipe econômica não tem plano algum para recuperar o superávit primário.

Há cerca de dois anos, o meu cenário mais pessimista era o que Brasil estivesse crescendo entre 2,5% e 3%. A pesquisa FOCUS já aponta crescimento de 0,9% e hoje escutei de amigos que os seus respectivos bancos estão puxando a perspectiva de crescimento do PIB para menos de 0,5% este ano. Um dos meus amigos chegou a falar que não ficaria surpreso com um crescimento entre 0% e 0,3%!

Vamos ter calma, mas a perspectiva de crescimento não para de piorar e a incerteza da curva de reação do governo aumenta por culpa do governo que se comunica MUITO mal com o mercado. O governo precisa sair do seu casulo e se comunicar melhor com o mercado financeiro e empresários. E, principalmente, falar um pouco mais do pós-eleição e não apenas de sua estratégia para eleição. Mas se for para falar que no pós-eleição será mais do mesmo, neste caso, é melhor não falar nada.

12 pensamentos sobre “O governo e o casulo

  1. Acabei de assistir: Aécio promete manutenção de ganhos reais no salário mínimo, conflitando com o discurso de Armínio Fraga.

    • Mas quando foi que Arminio falou que salário mínimo real não teria aumento? Acho que ele falou que o salário mínimo teve nos últimos anos um forte crescimento. O que foi verdade. Mas Arminio não falou nada além disso.

      Adicionalmente, pela regra atual, a correção do salário minimo real em 2015, 2016 e 2017, de acordo com as projeções de crescimento do mercado será de 2,5% (PIB de 2013); 0,9% ou menos (PIB de 2014) e 1,5% ( crescimento do PIB de 2015).

      Se o proximo presidente levar a economia a crescer acima 3% a partir de 2016 (efeito de maior investimento e crescimento da produtividade) , o crescimento do mínimo em 2016 e 2017, pela regra atual, será muito menor que o crescimento do PIB. Ou seja, não pesará tanto quanto pesaria em circunstâncias normais.

      E se continuarmos crescendo 1% pelos próximos dois anos (2015 e 2016)? Neste caso, não quero nem tentar pensar o que acontecerá.

  2. Uma dúvida: a pergunta do leitor Alberto teria conteúdo irônico ? Posso estar enganado, óbvio, mas a mim, particularmente, pareceu que sim.

    Afinal, numa”cesta” de 31 países desenvolvidos, emergentes, e pouco desenvolvidos, aparecemos com o 3º maior superavit primário.

    Estou surpreso !!!!
    Por aqui ( mídia patriarcal ) não vejo (leio ) esse tipo de análise e informação.

    EUA, Japão e U.K. apresentam deficit primário na faixa de 4%, 6%, até 8% do PIB ???? E, os deficits nominais ainda maiores……?? Talvez, por isso, estejam buscando mais uma guerra………

    E a média dos 31 países apresenta deficit primário, também…??

    É. Às vezes é importante dar uma contextualizada……

    • Depois comento isso. Mas pegando dois casos de deficit nominal muito maiores que o nosso – USA e Reino Unido – esses dois países não precisam de primário positivo para estabilizar a relação divida/PIB.

      Segundo, os EUA tem uma carga tributário muito menor do que a nossa. Mas o tamanho do esforço fiscal que eles precisam fazer para estabilizar a divida/PIB é semelhante ao nosso: aumentar primário em 2 pontos do PIB.

      Se você olhar a mesma base de dados verá que nós temos carga tributária de 37% do PIB e eles 31% do PIB. Assim será doloroso para nós, que inclusive somos mais pobres, que para eles. Depois comento em um post esses dados.

    • Caro Hilario,

      Garanto-lhe que não havia ironia. Achei o conteúdo do artigo em questão linkado muito frágil em sua argumentação, por isso pedi uma ajuda pro Mansueto. Isso não se deve ao argumento em si (não sou economista para discutir sobre), mas a forma como a argumentação se desenrolou.

      Pois bem: apresenta-se uma lista de países, segundo alguma ordem que não entendi se é correta ou viciada, e olhando duas variáveis, conclui-se categoricamente um “Diante disso, fica EVIDENTE que o governo brasileiro não é gastador” e um “Portanto, está CLARO que os gastos públicos estão bem controlados”.

      Uma coisa é apontar uma evidência que apoie uma hipótese, meramente. Outra é concluir algo do tamanho e relevância do que foi concluído neste caso. Justamente por não ser entendido, perguntei pro Mansueto.
      Sinceramente, a mim pareceu uma falácia clássica: http://ahduvido.com.br/30-falacias-mais-comum-utilizadas-em-debates-e-discussoes – item 23. O atirador do Texas

      • Alberto, voce está correto. As comparações feitas no sitio que voce me mandou têm o propósito de mostrar que nossa situação é muito melhor que os EUA e Inglaterra, por exemplo, o que não é verdade. Esses dois paises não precisam ter superavit primário para estabilizar a relação Divida/PIB ao contrário do Brasil. Eles de fato precisam reduzir o deficit nominal mas garanto que o caso deles é muito mais confortável do que o nosso.

        No caso dos EUA, o FMI estima que o deficit nominal do país este ano seja de 6,4% do PIB e o nosso 3,3% do PIB. Não seríamos muito melhor que os EUA? Não porque o esforço fiscal adicional que os EUA precisam fazer é menor do que o nosso e eles têm uma carga tributária muito menor do que a nossa. Se os EUA aumentassem sua carga tributária em 2 pontos do PIB, continuariam sendo a economia desenvolvida com uma das menores carga tributária do mundo e estabilizariam a divida/PIB.

        No caso do Brasil não seriam aconselhável aumentar nessa magnitude a carga tributária, que aqui já é excessivamente elevada. Nós vamos terminar o governo Dilma com um primário real (sem receitas extraordinárias e truques) entre “zero” e 0,5% do PIB. O ideal seria o primário crescer para algo entre 2% e 2,5% do PIB para estabilizar a divida bruta (% do PIB).

        No caso do Reino Unido, o país tem projetado um deficit nominal para 2014 de 5,2% do PIB, ante o projetado para o Brasil de 3,3% do PIB. Mas essa estimativa para o Brasil está subestimada. No caso do Reino Unido, pelas próprias projeções do FMI, um deficit nominal de 4% do PIB já puxa para baixo da Divida Bruta/PIB.

        Adicionalmente, quando se olha a trajetória do Brasil, EUA e Reino Unido, nos últimos três anos, EUA e Reino Unido melhoram muito o resultado fiscal apesar da forte crise bancárias nesses países. Aqui, pioramos e o governo foi irresponsável em fazer desonerações sem ter espaço fiscal para isso e pioramos muito o resultado fiscal.

        Por exemplo, os EUA tiveram, em 2012, déficit nominal perto de 10% do PIB e o projetado pelo FMI este ano é de 6,4% do PIB – queda de 34% em dois anos. Aqueda o deficit nominal do Reino Unido de 2012 a 2014 (projetado) será da mesma magnitude: queda de 34%. E no caso do Brasil, vamos passar de um déficit nominal de de 2,7% do PIB, em 2012, para 3,3% do PIB em 2014 pelo FMI – crescimento de 22%. Eu acredito que o número final será pior.

        Outro ponto. EUA e Reino Unido são economias ricas que são pouco afetadas pelos juros internacionais. Na verdade, são os EUA que define os juros internacionais, e as duas economias estão crescendo mais rápida do que o Brasil e ambas economias tem qualidade de serviços públicos muito melhores do que o Brasil. Isso significa que esforço fiscal aqui é mais doloroso do que nos EUA e Reino Unido.

        No Brasil estamos caminhando para um situação muito vulnerável e uma subida um pouco mais fortes dos juros nos EUA vão nos trazer grandes problemas. Não é o fim do mundo mas achar que o Brasil é um país sólido frente EUA e Reino Unido é, no mínimo, uma brincadeira de mau gosto. Se o Brasil fosse o Japão, poderia se dar o luxo de ter deficit nominal. Mas não somos um país desenvolvido e o mundo nos olha como outros BRICs e outros países de renda média e não como os EUA, Reino Unido ou Japão. E na categoria de emergentes. o Brasil junto com a Índia são os dois países mais endividados.

        Em resumo, não há nada de confortável na nossa situação fiscal e a tendência com essa política que está ai é de piorar. Mansueto Almeida

  3. Alberto, a mensagem do artigo (linkado por vc) tem por objetivo contextualizar a discussão, comparando as performances fiscais de 31 economias. Apenas isso. Não há aprofundamento da análise.

    Indica, apenas, que nossa situação fiscal, vis-à-vis as economias relacionadas não vai mal, dado que a mídia corporativa e patriarcal brada diariamente ( fins eleitorais ) que, 2015, possivelmente o país entrará em crise fiscal, insolvência, etc…..

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