Lucro recorde do Itaú Unibanco e juros altos

Nunca esqueci que, nos vários debates que tive, em 2012, alguns analistas defendiam que juros menores levaria a uma expansão mais rápida do crédito e, logo, lucros maiores para os bancos. Assim, os bancos privados seriam “burros” se não acompanhassem a queda de juros dos bancos públicos, pois seriam expulsos do mercado.

Isso aconteceu? Não. O crédito direcionado de fato ganhou participação no mercado porque não há como um banco privado concorrer com crédito subsidiado financiado compulsoriamente via impostos dos contribuintes. No entanto, no segmento de crédito livre, a queda dos juros dos bancos públicos e privados, ao longo de 2012, foi depois revertida para os mesmo níveis do início do governo Dilma.

A política de redução dos juros no grito não funcionou porque no meio do caminho havia uma pedra denominada “A Nova Matriz Econômica”. A novidade é que, em um contexto de maior controle na expansão do crédito, os bancos privados aumentaram suas taxas de juros de concessão de crédito e aumentaram os seus lucros. Como divulgado hoje na Folha de São Paulo (clique aqui):

“Maior banco privado brasileiro, o Itaú Unibanco lucrou R$ 4,899 bilhões no segundo trimestre, valor 36,7% superior ao do mesmo período de 2013, apesar de sentir os efeitos da desaceleração nos financiamentos.

O lucro foi impulsionado pelo aumento das margens de ganho nos empréstimos, consequência direta dos juros maiores no país, além da queda na inadimplência, que implicou provisões menores para perdas com calote.”

Onde estão os bancos públicos que permitiram que isso acontecesse? Bancos públicos não fazem milagres e, com o crescimento das taxa de juros do mercado, o custo de captação de todo mundo aumentou. Bancos públicos são mais “bonzinhos” que os bancos privados quando por trás há o contribuinte financiando subsídios.

Mas deixando os subsídios de lado, por que os bancos públicos não conseguem expulsar do mercado os bancos privados das linhas de crédito sem subsídios? Porque cobram uma taxa de juros semelhante e, de acordo com um economista amigo meu, têm custo operacional maior.

Aqui quero deixar duas mensagens. Primeiro, juros altos são ruins para nós consumidores e contribuintes,  não para bancos públicos ou privados (também não é para fundos de pensão dos trabalhadores que detestam o capital financeiro). Segundo, bancos privados adoram competir com bancos públicos nas linhas de crédito sem subsídios porque conseguem lucrar mais neste segmento. Os bancos públicos não parecem ser mais eficientes que os privados quando os 200 milhões de acionistas (contribuintes) dos bancos públicos não estão dispostos a bancar a redução dos juros via subsídios.

Em resumo, se você acredita que bancos privados detestam a concorrência de bancos públicos, acho que você está enganado. É justamente o contrário. Bancos privados adoram competir com bancos públicos nas linhas sem subsídios e adoram mais ainda quando os bancos públicos, em épocas de turbulência financeira como foi 2009, aumentam o crédito para empresas privadas pagarem a divida junto aos bancos privados.

Quem de fato deveria se preocupar mais com as operações de bancos públicos somos nós contribuintes, pois decisões erradas mais cedo ou mais tarde caem no nosso bolso. Bancos públicos podem ser bons ou ruins como qualquer banco privado. O que é preciso é que a sociedade tenha um maior controle dos custo e da excessiva intervenção de governos nos bancos públicos. Infelizmente, uma lei da usura não resolverá o nosso problema de juros altos.

 

Um pensamento sobre “Lucro recorde do Itaú Unibanco e juros altos

  1. É um ciclo que se repete anualmente… Primeiro, quando os bancos publicam seus resultados anuais. Depois, por oportunidade da divulgação dos semestrais. Seguindo a monotonia da apuração dos números bancários, sempre vêm os “analistas” tecer comentários acerca de quão espantosa lhes parece a magnitude de juros e lucros bancários. Invariavelmente, recorrem a análises de qualidade discutível, embora aparentemente técnicas e profundas em conteúdo, para dizer não mais do que todos já sabemos: talvez haja algo de errado no mundo bancário brasileiro.

    Mas a chave para a resolução de qualquer problema não reside na especulação indisciplinada. Está, antes de tudo, em saber formular problemas. Boas respostas jamais derivam de perguntas mal feitas: esse é o primeiro aspecto a considerar.

    A outra regra de bolso inolvidável é a de que não devemos ignorar as evidências. No caso, ignorar o fato de que os bancos, os grandes e os médios, pelo menos, apresentam similitudes incontestáveis e relevantes no tocante a seu desempenho e à formação de seus resultados. Qualquer análise econômica correta pode demonstrar esse fato, desde que se dominem, naturalmente, algumas das linguagens essenciais a trabalhos analíticos do gênero – a contabilidade, a matemática e a estatística, para começo de conversa.

    Vencidos esses aspectos preliminares, podemos, então, passar à temática em si. Quais são as perguntas certas? Por que são certas as perguntas?

    No caso vertente, há uma míriade de perguntas a serem feitas. Podemos, no entanto, limitá-las, focando apenas o ponto que nos anima – o resultado bancário.

    Iniciaria a formulação de meu problema perguntando isto: o resultado de um banco, na forma de lucro, prejuízo ou equilíbrio contábil, cumpre uma ou mais funções específicas e gerais no âmbito da atividade de intermediação financeira? Se positiva a resposta, quais seriam, portanto, essas funções específicas e gerais?

    Definido o papel dos resultados bancários, passaríamos então ao segundo conjunto de perguntas. Para começar, perguntaríamos: a fim de que o lucro cumpra satisfatoriamente suas funções, qual é o nível de lucratividade exigido a um banco? Basta-lhe apenas lucrar, como se uma mercearia fosse, ou a ele, banco, se aplica um requerimento de lucratividade especial? Havendo um requerimento, qual seria ele? Como, algebricamente, podemos aquilitar esse requerimento?

    Para finalizar, ao menos para dar um fecho a essa introdução, caberia, então, desenvolver o aparato algébrico (algébrico!!!) necessário à descrição das relações entre, de um lado, fluxos e estoques bancários e, do outro, os níveis de resultado dos bancos. Naturalmente, muitas considerações, como risco, alavancagem e solvência, entram na determinação desse modelo descritivo das finanças bancárias.

    Fora disso, companheiro, qualquer especulação sobre lucros e juros bancários não passa disto: mero exercício de retórica.

    Obrigado pelo espaço e boa tarde.

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