Forte crescimento do gasto fiscal no governo Dilma

“O crescimento da despesa primária do governo Dilma será muito próximo ao crescimento do gasto público nos 12 anos que antecederam o governo Dilma”.

Não é preciso construir modelos sofisticados para prever o crescimento do gasto público primário do governo central no governo Dilma. Primeiro, para fazer essa projeção é preciso lembrar que, de 2000 a 2013, o crescimento médio nominal da despesa primária do governo central foi de 13,5% ao ano e, nos últimos três anos, a média de crescimento foi de 11,6% ao ano. O “nosso normal” de crescimento do gasto público no Brasil é anormal.

Dado que 2014 é um ano eleitoral, supor que a taxa de crescimento nominal da despesa primária do governo central será de 12% este ano  é uma hipótese até conservadora. Nas eleições passadas (2002, 2006 e 2010), o crescimento nominal da despesa primária do governo central foi sempre acima de 14%.

Segundo, vamos ter que trabalhar com uma taxa de crescimento do PIB nominal para calcular a despesa primária do governo central com % do PIB que é o que me interessa. Vou trabalhar com um crescimento do PIB nominal de 7,9%, uma taxa que não deve ser muito diferente das projeções de mercado. Com esses parâmetros qual será o aumento da despesa primária ao longo de quatro anos do governo Dilma?

Crescimento da Despesa Primária por Mandato Presidencial – 1999-2014 – Pontos do PIB

despesa primária

Como se observa no gráfico acima, em quatro anos de governo Dilma o crescimento da despesa primária será de 2,2 pontos de percentagem do PIB, ante um crescimento de 2,4 pontos de percentagem do PIB ao longo dos doze anos que antecederam o governo Dilma. Ou seja, o crescimento da despesa primária do governo central ao longo de quatro anos de governo Dilma será equivalente a quase 12 anos do governo FHC-II, Lula-I e Lula-II.

O crescimento nominal da despesa primária do governo central no governo Dilma será próximo a 11,7% ao ano, que corresponde um crescimento real médio da despesa de 5,1% ao ano, muito acima do crescimento real do PIB de 1,8% ao ano. A grande diferença é que, no segundo governo Lula, apesar do crescimento nominal despesa primária do governo central de 13% ao ano, o PIB real crescia em média 4,6% ao ano e puxava para cima o crescimento do PIB nominal o suficiente para acomodar parte do forte crescimento do gasto público.

Em resumo, enquanto a desaceleração no crescimento do gasto foi mínima, o crescimento do PIB real no governo Dilma será 60% menor do que no segundo governo Lula. Isso foi desastroso para o crescimento do gasto público, especialmente porque a nossa presidenta usou um espaço fiscal que não existia para desonerações e concessão de subsídios. Se tivéssemos crescendo 5% ao ano não teria sido problema. Mas como estamos crescendo abaixo de 2% e os empresários perderam a confiança na capacidade de o governo resolver  os problemas, o governo se meteu em uma enrascada.

A nossa situação é a seguinte. Mais dois anos de baixo crescimento com esse mesmo ritmo de expansão do gasto público significa (i) déficit primário e/ou (ii) aumento da carga tributária. O próximo governo terá que mudar esse equilíbrio, mesmo que “o próximo” seja o atual. É claro que a retomada do crescimento vai ajudar muito esta agenda e acho que o mercado não cobrará um ajuste imediato em 2015. Na minha interpretação, o mercado espera muito mais um “plano de voo” para os próximos quatro anos do que um choque em 2015.

Adicionalmente, há ainda dois problemas. Primeiro, o governo fez de tudo para esconder as despesas de subsídios que ainda não foram pagas. Isso criou um esqueleto para o próximo governo – uma conta significativa de bilhões de reais. Segundo, a sociedade pode até achar as preocupações de nós economistas gordos interessantes, mas a classe média quer melhor serviço de saúde, melhor serviço de educação e melhoria no transporte público. Como conciliar tudo isso e mediar esse debate no Congresso Nacional será tarefa para o próximo Presidente da República.

 

11 pensamentos sobre “Forte crescimento do gasto fiscal no governo Dilma

  1. Mansueto,
    tal vez seria util olhar no crescimento da despesa nao so primaria mas tambem da despesa corrente em comparacao com a despesa de capital (investimento). Se o aumento da despesa primaria fosse empuxado por investimentos (em infraestrutura, saude, educacao) seria menos problematico. No entanto, no meu entender, e a despesa corrente (pessoal, previdencia, transferencias etc) que esta crescendo muito com investimento publico continuando baixo.

  2. “….mas a classe média quer melhor serviço de saúde, melhor serviço de educação e melhoria no transporte público. Como conciliar tudo isso e mediar esse debate no Congresso Nacional será tarefa para o próximo Presidente da República”,,,,,,mansuetto te achei até muito elegante nesta …..aahahahahah….eu já soltaria a borduna mesmo….ahuahauhuu

  3. A situação atual dá medo. O primário pela conta do governo já tá roçando o 1%, e na conta das consultorias privadas já tá no zero, e o custo com juros da dívida, me parece, não deverão mais cair, pelo contrário, me parece que com os juros voltando a subir, o custo também subirá.

    Isso me lembra MUITO a situação argentina e brasileira na década de 90. Lá, o Currency board funcionando bem enquanto as contas estavam equilibradas. As contas desiquilibraram, governo não cortou gastos, incorreu em dívida e em cinco anos a dívida tinha mais que duplicado e o país quebrou. Aqui, semelhante ao começo do gov fhc. deixou as contas piorarem, demorou a tomar medidas e logo o custo com juros batia nos 10% do PIB, situação quase incontrolável.

    Meu medo é o mesmo pra agora. Déficit primário leve esse ano, ano que vem com economia fraca e seguindo a tendência ali do gasto dilma, citada no artigo, pode bater ja nos 1% de DP, depois gasto com juros sai dos 5% de hj pra uns 6% e a coisa fica incontrolável em dois-três anos, e aí 20 anos de estabilidade vão pelo ralo.

      • Mas, Ricardo R, no Governo FHC, houve várias medidas de contenção de gastos públicos para que estes compensassem o serviço e a dívida também. Houve certa expansão em algum ponto, mas, havia um plano que não era de demarragem, mas de acerto das contas públicas. Culminando com a LRF, em 2000, que, junto com as privatizações e liquidações de bancos estaduais falidos e estatais sucateadas, buscou o equilíbrio das contas. Ainda mais. O BC seguia firme no tripé câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário. E lembro ainda que havia divulgação de quanto de moeda nova estava sendo colocada no mercado.
        Bem diferente do que ocorre agora, onde os improvisos vigoram mais do que a disciplina fiscal.
        Creio ser muito difícil que em 2015, seja quem quer que seja o eleito, não tenha de puxar o freio e colocar a casa em ordem, num trabalho que não será de um mandato só. Há muito o que foi contratado neste último quadriênio, que afetará duramente o próximo, 2015, com rescaldos para 2016.
        São esqueletos a cada dia mais visíveis e já têm nome: Pasadena, Petrobras, inflação testando o pico do intervalo de metas, 6,5%aa. e PIB em torno de 1%aa.

  4. Dilma se eleita vai “consertar” isso com inflação …esperem e verão…as receitas são indexadas …as despesas não……com uma inflação ai de 8 % ao ano ….no final do mandato já deu pra dar uma “aliviada” nas contas publicas…. ou estou errado ?….rssssss

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