Santander vs. Ministra do Desenvolvimento Social

O Santander pediu desculpas, não deveria, pois publicou uma verdade que está em vários relatórios e nas páginas dos jornais. Isso não significa absolutamente nada sobre o sucesso ou fracasso de um suposto segundo governo da nossa presidenta, apenas uma verdade: os mercados reagem mal quando a presidenta sobe nas pesquisas de intenção de voto. Isso é fato por mais que se queira demonizar os analistas de mercados.

Mas o que parece não ser verdade são as declarações da Ministra Teresa Campelo que traz para o PT a concepção do Bolsa Família e ainda critica o governo FHC. Umas das mentes por trás do programa é o economista Ricardo Paes de Barros que já trabalhava no governo FHC com a criação do cadastro único para políticas sociais.

Pelo que soube, no início do governo Lula, havia uma certa resistência muito forte do PT ao programa Bolsa Família. A grande aposta do PT para combater a miséria era o fracassado programa Fome Zero. Mas a Ministra Tereza Campello passa a impressão em entrevista ao repórter Josias de Souza (clique aqui para ler e assistir a entrevista) que o Bolsa Família é uma concepção do PT, que desde criancinha defende o programa. De acordo com a matéria no Blog do Josias:

“Integrante do grupo de trabalho que formulou o Bolsa Família, em 2003, Teresa reconhece: “Quando assumimos o governo, já existiam alguns programas.” Havia o Bolsa Educação, o Bolsa Escola e o Vale Gás. Mas eram “muito tímidos, muito mal organizados e feitos há muito pouco tempo”, afirmou a ministra. Ao rememorar as decisões tomadas sob Lula, Tereza desqualificou as bolsas de FHC: “O que nós fizemos? Não queremos esse monte de farelinho que não chegava a R$ 1 bilhão. Queremos um programa que tenha consistência.”

Quem são nós? Com certeza não era a ministra. Em matéria na Revista Piauí, Edição 74 Novembro de 2012 que trata dos programas sociais e do economista Ricardo Paes de Barros que esteve por trás da concepção do Bolsa Família, a matéria fala sobre a origem do programa Bolsa Família.

Primeiro, a concepção do programa vem de 2002 e não teve absolutamente nada a ver com o PT. Mas reconheçamos que o governo do presidente Lula teve o mérito de aceitar a ideia, mas foi uma posição muito pessoal do ex-presidente Lula e do ex-Ministro da Fazenda Antônio Palocci, que morria de medo dos economistas do PT e corretamente os manteve distante do Ministério da Fazenda.

Ainda em 2002, quando presidia a Fundação Ulysses Guimarães, “braço programático” da legenda, Moreira Franco encomendou a economistas ligados ao Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), no Rio, a elaboração de propostas para um futuro governo. Seriam entregues como contribuição à candidatura de José Serra à Presidência. A vice da chapa, deputada Rita Camata, era do PMDB. Marcos Lisboa, Ricardo Henriques, José Márcio Camargo e Ricardo Paes de Barros participaram da concepção do documento, que veio a ter um título estranho: “Tirando o atraso: combate às desigualdades já.” Criticavam a falta de focalização dos gastos sociais e propunham ações que significariam levar adiante o trabalho iniciado por Wanda Engel.” (Revista Piauí, Edição 74 Novembro de 2012).

Wanda Engel foi ministra da Assistência Social do governo Fernando Henrique Cardoso de 1999-2003. No ano passado ela falou sobre a tentativa constante do PT de tentar reescrever a história e trazer para si parternidade do Bolsa Familia.  (clique aqui).

Segundo, como fala Ricardo Henriques sobre os bastidores da criação do programa Bolsa Família na mesma matéria citada acima da Revista Piauí:

“Na reunião do início do governo, incentivado por Lula a falar, Henriques fez a defesa da criação de um cadastro único e da reunião de todos os programas sociais em um único cartão. A ideia, afirma Ana Fonseca, já havia aparecido nos trabalhos do grupo de transição, de que ela participou. Foi Henriques, de toda forma, quem recebeu o sinal verde do presidente, em meio à crise precoce do Fome Zero. Passou a trabalhar, nos meses seguintes, no projeto técnico da unificação do Bolsa Escola, do Bolsa Alimentação, do Auxílio Gás e do Cartão Alimentação do Fome Zero.

Detalhes do novo programa passaram a ser discutidos em reuniões semanais que Ricardo Henriques mantinha, no Rio, com Lisboa, Márcio Camargo e PB. Trabalhavam às sextas e nos fins de semana. Francisco Ferreira, já no Banco Mundial, voava de Washington para participar. “Fui a várias dessas reuniões para desenhar a unificação.”

“Isso virou um método”, afirmou Henriques. “Eram reuniões meio de bombardeio. Parte da ideia era a de exaurir hipóteses possíveis. Para formatar o Bolsa Família, tínhamos que testar várias hipóteses. Eu dizia: ‘Não posso sair daqui com uma proposta para o governo sobre a qual tenhamos dúvidas.’ Às vezes, a discussão tinha recortes específicos. Qual o melhor modelo para fazer seleção de beneficiários? Quem pode ajudar? A parte empírica é muito do Ricardo. A Rosane Mendonça também foi trabalhar comigo lá na Secretaria. Para rodar os dados, fazer simulações de impacto na pobreza.”

O projeto enfrentou resistências dentro do governo e também em setores do PT, mas quem importava já havia empenhado seu apoio à iniciativa. “Os grandes avalistas do programa foram o Palocci e o presidente”, reconheceu Henriques.

Em Brasília, ele participava de reuniões com os vários ministérios. Precisava coordenar os cadastros e chegar ao formato final do programa. A Caixa Econômica desenvolveu a estrutura técnica para alcançar milhões de beneficiários em todo o país. O novo programa incorporou condicionalidades das bolsas lançadas no governo Fernando Henrique: frequência escolar e acompanhamento do cartão de vacinação das crianças. O Bolsa Família, que se tornaria o maior símbolo da era Lula, seria lançado alguns meses depois, antes que chegasse ao fim aquele primeiro ano de mandato. Revista Piauí, Edição 74 Novembro de 2012)

E qual foi a efetiva participação da atual Ministra do Desenvolvimento Tereza Campello? Eu não sei e nunca escutei as pessoas que conheço e que participaram do programa citar o nome da ministra na concepção do Bolsa Família.

A matéria da Revista Piauí bem que tentou falar com a ministra para saber o que ela achava do papel do economista Ricardo Paes de Barros na criação do programa. Mas ……:

A ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, também foi procurada, para que falasse sobre as contribuições de Ricardo Paes de Barros à sua pasta. Um mês antes da publicação da revista, um assessor da ministra me comunicou que a entrevista não seria concedida. Questionado sobre a razão da recusa, não respondeu. No final de setembro, pedi, formalmente, uma entrevista à ministra do Planejamento, Miriam Belchior, que participou da criação do Bolsa Família. Alguns dias depois, recebi um telefonema em que uma assessora do Ministério questionava a motivação da reportagem. “A matéria é sobre a queda na desigualdade, não é?”, perguntou, enfatizando a palavra “queda”. “Por que vocês querem falar justo agora sobre o Ricardo Paes de Barros?” Belchior também não quis falar à Piauí.”

É impressionante como o PT tem raiva, ressentimento ou simplesmente se nega a reconhecer que a concepção do programa Bolsa Família decorreu não da atuação de pessoas historicamente ligadas ao partido, mas sim de um grupo de técnicos  tratados como “neoliberais” de forma pejorativa.

A Ministra do Desenvolvimento parece ter raiva quando qualquer partido que não o PT tenta garantir que o Bolsa Família seja consolidado como uma política de estado. Por que? Simples. De acordo com a última pesquisa do Datafolha de 15 e 16 de julho de 2014, , quando se olha a intenção de voto para o segundo turno, a única faixa de renda familiar que a presidenta Dilma lidera é no grupo de eleitores que tem renda familiar até 2 salários mínimos.

Intenção de Voto no Segundo Turno por Faixa de Renda Familiar Mensal – Datafolha (15 e 16 de julho de 2014).

voto faixa de renda

Assim, politizar o programa Bolsa Família é uma forma “racional” de tentar consolidar o eleitor fiel do PT, mas tão antiético como fazia a direita mais reacionária e tradicional do Nordeste nas décadas de 1980 e 1990, quando adotava o terrorismo eleitoral para assustar o voto no Partido dos Trabalhadores (PT). É triste ver isso do PT, que antes foi vitima da mesma estratégia. E tem gente que acha que a nota abaixo do Santander foi terrorismo eleitoral.

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17 pensamentos sobre “Santander vs. Ministra do Desenvolvimento Social

  1. Mansueto,
    Há um bom tempo tenho 2 curiosidades: Por que houve tamanha resistência inicial ao Bolsa Família? E por que o Fome Zero fracassou tanto e tão rápido?

    • No caso do bolsa família, como é programa focalizado, vai contra a concepção de programas universais. Essa resistência ocorreu em outros países. Além do mais, a turma da área social e da esquerda sempre tratou a pobreza como um problema maior do modelo capitalista. No caso do fome zero acho que esse tipo de programa pode até funcionar, mas parte do pressuposto que a carência das famílias de baixa renda é sempre comida e me parece um pouco mais burocrático. O bolsa família além de prover uma renda mínima tem o benefício de estimular educação.

  2. Parabéns Mansueto com nos brindar está matéria para refrescar a memória do pessoal pois o que vemos no governo de PT é um absurdo terrorismo eleitoral. O que esperar de um partido que antigamente publicava em jornalecos inventado por eles e apresentava textos apócrifos contra os candidatos contrários. Ainda veremos muita coisa feia pela frente pois estão agarrados ao poder e não aceitarão a derrota. Precisamos de mudança e esse pessoal vai sair pela porta dos fundos pois não terão coragem nem hombridade de enfrentar os sucessores e ainda entregarão um grande abacaxi para ser descascado.

  3. O mais triste é constatar que não temos nessa eleição, e provavelmente não teremos no espaço de uma ou duas gerações, uma alternativa diferente do que está aí há tantos anos. Um candidato com um programa econômico efetivamente liberal e que se afaste dos “S” (Social) dos partidos que agora concorrem ao governo. O que dá para esperar agora é que com Aécio ou com Campos os segundos, terceiros e quartos escalões do governo federal sejam ocupados por pessoas menos obtusas do que as atuais.

  4. Mansuetto , quanto a nota do analista do Santander pode não ter sido terrorismo pessoal, mas foi uma baita lambança financeira. Quer começar aperder dinheiro no mercado ? É só misturar politica e ideologia com seus investimentos pessoais.

  5. Olá, Masueto.
    Como diria Reinaldo Azevedo: eles não aprendem nada e também não esquecem nada. Curioso é que a coluna econômica de Luis Nassif de 01/08 intitulada O dia em que FHC rejeitou a Bolsa Família vai na mesma linha das ministras.
    Um abraço,

  6. Me lembrei da entrevista da Conceição Tavares na Folha:

    Folha – Por que o documento divulgado no último dia 10 pela equipe do ministro Palocci causou mal-estar entre os ministros da área social ao falar na focalização dos programas sociais?

    Maria da Conceição Tavares – Causou mal estar em todo mundo. Não sou da área social e estou histérica. Temos políticas universais há mais de 30 anos. Somos o único país da América Latina que tem políticas universais. A focalização foi experimentada e empurrada pelo Banco Mundial na goela de todos os países e deu uma cagada. Não funciona nada. Desmontaram o sistema de saúde pública do Chile, que era o melhor da América Latina, desmontaram a Previdência e fizeram fundos de pensão e deu outra cagada, desmontaram o sistema de ensino público e foi a mesma coisa.
    Ainda fizeram a mesma coisa na Argentina. Chile e Argentina tinham historicamente os melhores programas de saúde e de educação e cobertura geral de políticas universais. Desmantelaram e obrigaram a fazer focalização.

    Vale por esse trecho:

    “Esse Marcos Lisboa é um garoto semi-analfabeto que está encarregado de fazer política econômica, coisa que ele jamais fez na vida.”

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2104200312.htm

  7. Mansueto, em geral considero suas análises bem fundamentadas, mesmo discordando ideologicamente de suas posições.

    Espero que essa campanha não vá fazer suas análises degenerarem como esse post. Considero essa questão sobre a paternidade do PBF uma chatice. No fundo, o que todos sabem, e o povo intui, é o óbvio: políticas sociais não eram prioridade no governo FHC e passaram a ser no governo Lula. Você que conhece bem os meandros orçamentários sabe mais do que ninguém.

    A paternidade conceitual é confusa. Começou no México? Com Senador Suplicy? com o Cristovam Buarque? Ou foi em prefeituras do PSDB? Nada disso importa de verdade para além dos registros históricos. No governo FHC as transferências de renda eram penduricalhos de pouco alcance de baixa prioridade e orçamento.No governo Lula ganharam corpo e passaram a ser prioridade.

    Um segundo ponto diz respeito ao Fome Zero. De fato, a política inicial em 2003 passou por um processo de aprendizado, onde se descartaram algumas ideias pouco úteis (que bom!). Mas a ideia de ativar a agricultura familiar e criar uma demanda sólida para esses produtores nunca foi descartada. Basta ver o orçamento do MDA e o do programa de aquisição de alimentos, referência internacional.

    Concordo inteiramente com suas análises sobre a irresponsabilidade fiscal e a maquiagem das contas públicas. Mas este posté do tipo que vai atrair gente que cita Reinaldo Azevedo para seu blog. Espero que possamos todos sobreviver essa eleição sem baixar o nível do debate.

    • Mas não achas que há uma tentativa constante de politizar o Bolsa Familia? não está claro que o programa é bom e passou a ser uma política de Estado? Sem duvida, a marca de FHC foi a estabilização e do Lula foi o social. E os dois regulamentaram há prioridades estabelecidas na Constituição: saúde, educação e previdência. A presidenta Dilma deu continuidade (pecou na agenda macro e excesso de intervenção).

      Mas o meu ponto é simples. Bolsa familia não deveria mais aparecer como alvo de debate eleitoral. Melhoras no programa sim mas não contestação do programa. Mas me parece que um ala do PT gosta de fazer terrorismo com o programa. Não tive intenção de tirar o mérito do presidente Lula e a prioridade que o seu governo aos gastos sociais. Mas já conversei longamente com Marcos Lisboa que me falou a resistência que programas de focalização tiveram de parte da ala do PT. Abs,

    • Thor

      “No fundo, o que todos sabem, e o povo intui, é o óbvio: políticas sociais não eram prioridade no governo FHC e passaram a ser no governo Lula.”

      Você exagera. O correto é dizer que as políticas sociais focalizadas passaram a ser política de governo a partir do segundo mandato do FHC.

      O Fome Zero foi um sucesso de marketing político e só.

      E é um fato que as políticas públicas de assistência social focalizadas nunca foram objeto para a esquerda. O objeto da esquerda sempre foi a universalização. A entrevista da professora Maria Conceição Tavares, lembrada aqui pelo leitor João, é a mais perfeita tradução dessa verdade:

      “Temos políticas universais há mais de 30 anos. Somos o único país da América Latina que tem políticas universais. A focalização foi experimentada e empurrada pelo Banco Mundial na goela de todos os países e deu uma cagada. Não funciona nada”

      Um breve histórico

      Com a redemocratização e a Constituição de 1988, iniciou-se a descentralização das políticas sociais em oposição ao padrão de forte centralização no governo federal, característico do período ditatorial.

      A implantação de políticas focalizadas inicia nos municípios

      Em 1991, Suplicy propõe o Programa de Garantia de Renda Mínima (PGRM) a aprovação de todos os partidos no Senado. O então líder do PSDB no Senado, Fernando Henrique Cardoso, encaminhou favoravelmente ao projeto, qualificando-o de ‘’uma utopia realista”.

      O PGRM foi aprovado no Senado como “um instrumento de política econômica para ajudar o Brasil a cumprir o disposto em nossa Constituição”
      Mas como tornar efetiva a “utopia realista” do PGRM? Como ajudar os municípios aos quais foi sendo delegada a gestão de políticas de assistência e de combate à pobreza e destinadas aos indivíduos não beneficiados pelas políticas universais tais como educação e saúde?

      Em 1997, o governo FHC aprovou a Lei nº 9.533 que visava repassar aos municípios carentes até 50% do valor total dos recursos financeiros para programas de garantia de renda mínima associados a ações socioeducativas (contrapartidas como frequência escolar mínima).

      Em março 2001, o PGRM é universalizado na forma do Programa Bolsa Escola (PBE)

      PBE foi uma adequação da Lei nº 9.533 de 1997 à lógica da universalização da educação fundamental prevista na Constituição de 1988.

      Ainda foram criados vários outros programas de assistência social baseadas em transferências monetárias diretas e sob a responsabilidade de vários ministérios.

      A proliferação dessa multiplicidade de programas gerou um grave problema de coordenação, controle, fiscalização.

      A tentativa de solução surgiu ainda no governo FHC com a novidade institucional doo Cadastro Único de Programas Sociais, e que foi posteriormente aprimorado no primeiro governo Lula.

      O programa Bolsa Família (PBF) foi beneficiário direto dessa primeira experiência (com sues erros e acertos) iniciada no segundo governo FHC.

      Em 2003, o Ministério da Segurança Alimentar foi fundido com o Ministério da Assistência Social , dando origem ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e o Cartão-Alimentação foi adequado ao PBF (junção bolsa escola, bolsa alimentação, auxílio gás) o novo programa de transferência direta de renda.

      E quem foram o “nós” responsáveis pelo aprimoramento dos programas de transferência direta no primeiro governo Lula, já ficamos sabendo pelo post do Mansueto.

      • Sim. Vamos lembrar que foi preciso antes formular um Plano para derrotar a inflação, coisa que os “economistas de esquerda” não conseguiram fazer.

        E até a formulação micro que nos legou o PBF, como este post do Mansueto mostra, não foi obra de “economistas de esquerda”, mas dos “neoliberais” escolhidos pelo ministro Palocci.

  8. Pai é quem cria. O pai do Bolsa-Família é o Lula, embora as ideias e a execução terem sido feitas pelos ‘neolibeirais’. Os petistas tradicionais, desculpem-me, não teriam competência para fazê-lo.

    De outro lado, negar que foi FHC quem deu forma aos anseios da Constiruição de 88, e negar que Lula mais surfou na onda chinesa do que qualquer outra coisa, é desonesto. Dizer que a universalização do ensino básico, que ocorreu só com FHC, não é preocupação ‘com o Social’, também.

    Podemos analisar de várias formas: uma, mais para o lado do Samuel Pessoa, é dizer que atender tudo o que prega a C-88 é de certa forma insustentável e que teremos que fazer escolhas. Em certa medida eu concordo.
    Outra, pro lado mais da Dilma e do PT, é passar por cima disso tudo e deixar as escolhas com eles, do PT. É o caminho do populismo, com toda tradição na AL e no Brasil, acho que não preciso ficar citando exemplos.
    Ainda existe uma outra possibilidade, factível pra mim, pelo menos, de que se cometermos menos erros táticos na economia e na gestão pública, podemos, gradualmente, melhorar o país e aumentar nossa aderência à C-88. O problema é que esse é o caminho chato, implica em conceitos como meritocracia, esforço, cooperação, enfim, palavrório que não vejo neste Governo.

  9. Mansueto, o cerne da questão é que FHC teve a chance de juntar e universalizar os programas sociais – voce mesmo disse que o Paes de Barros trabalhou no Governo dele – e não o fez, Estes são os fatos. No Governo FHC havia o Bolsa escola, vale gás, etc…, mas dizem que quem começou foi ou o prefeito de Campinas do PT ou o Cristóvão, no DF, mas isso nem vem ao caso. É só vermos quantas pessoas recebiam estes benefícios no Governo FHC e quantas recebem hoje. O mérito do Lula foi – e esse é justamente o papel do político – pegar uma ideia e implementá-la com razoável eficiência. O cavalo passou e FHC não montou corretamente. Lula montou. Na vida, como na política, é assim que as coisas funcionam. E é evidente que a ministra vai usar um discurso eleitoreiro porque estamos em época de eleição. Nem em eleição de centro acadêmico um adversário vai reconhecer muitos méritos do outro, a não que seja uma coisa calculada e hipócrita. As medidas que o Aécio defende em relação ao bolsa família, como a emenda que ele fez, de que determinados beneficiários devem necessariamente participar de pronatec é algo absurdo e inexequível, e só mostra a falta de capacidade dele para lidar com o tema. A outra tese que o Aécio diz defender, de que o BF deveria virar “politica de estado” é outra mera retórica, que não quer dizer absolutamente nada. Ora, o BF é um programa institucionalizado e regulamentado, o que mais ele quer ? Colocar o programa na constituição ? Travar e obrigar todos os Governantes, daqui até 50 anos a manter o programa ainda que as condições do País se alterem drasticamente ? São posições retóricas e totalmente inconsistentes. Da mesma maneira em relação ao “mais médicos” aonde ele disse que manteria o programa, porém com a necessidade do revalida e ainda com os médicos cubanos recebendo o mesmo salários dos brasileiros, ou seja, algo que fatalmente inviabilizaria o programa. Aliás, da mesma forma que não foi o PT que consolidou o BF, também não foi o PSDB ou FHC que fez o real, foram técnicos do Governo Itamar Franco.

    • Daniel

      “Aliás, da mesma forma que não foi o PT que consolidou o BF, também não foi o PSDB ou FHC que fez o real, foram técnicos do Governo Itamar Franco.”

      O que o post do Mansueto mostra é que os economistas que estão na origem do BF não eram oriundos do que conheço por petismo.

      Historiadores sérios não fazem o que para os economistas é chamado de contrafactual. Por que? Porque historiadores têm como objeto de investigação o que já se efetivou, o que já é história. Desse modo, historiadores sérios recusam-se a inserir em suas narrativas a retórica do “se isso e não aquilo tivesse se efetivado, então a história seria diferente do que foi”.

      “não foi o PSDB ou FHC que fez o real, foram técnicos do Governo Itamar Franco”

      Sua assertiva não está formulada corretamente porque sugere de antemão que a origem da formulação do Plano Real está vinculada ou a um indivíduo (o presidente da república) ou a partidos. Em outras palavras, investigar a origem do Plano Real a partir desse tipo de assertiva é problemático porque o ponto de partida da investigação já está determinado. Isto é, pergunta-se a partir de respostas já sabidas.

      Vamos lembrar que antes do Itamar chamar FHC para o mistério da fazenda, ele chamou três outros: Gustavo Krause, Paulo Haddad e Eliseu Resende. Como se efetivou a escolha de cada um desses ministros? A pergunta é importante porque a escolha de um nome para montar uma equipe não era coisa trivial, sobretudo naquela época e após o retumbante fracasso do Plano Cruzado.

      Dizem que no leito de morte Itamar atribuiu a Ricupero o papel de principal sacerdote do Plano Real.

      Pois bem, na ocasião da comemoração dos 20 anos do Plano Real, Ricupero deu entrevista à revista Época e negou categoricamente que a ele pudesse ser atribuída tamanha responsabilidade.

      E Ricupero disse mais: “Até o final, o Itamar não acreditava que seria possível conter a inflação sem o congelamento dos preços. Eu tentava convencê-lo, mas ele dizia que não acreditava. Ele tinha na cabeça a ideia do Plano Cruzado, ele tinha a ideia das fiscais do Sarney”

      E ainda:

      “Eu acho que esse governo aqui [Dilma] teve uma política econômica muito equivocada. Eu vejo com preocupação a situação em que nos encontramos hoje. É claro que, felizmente, não perdemos o controle.”

      Rubens Ricupero. “Foi difícil impedir que houvesse um choque entre o Itamar e a equipe econômica”

      http://20anosdoreal.epocanegocios.globo.com/entrevistarubensricupero.html

      Que me desculpe o Mansueto pelo abuso, mas essa entrevista tem um valor documental muito importante. Vai abaixo na íntegra:

      Em 1994, o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, ia à televisão semanalmente para desvendar as dúvidas e informar a população sobre plano que traria estabilidade econômica para o Brasil, o Plano Real. Por conta disso, foi chamado de “o sacerdote do Plano Real” pelo ex-presidente Itamar Franco. Mas a missão
      não foi fácil.

      Ricupero assumiu a pasta da Fazenda substituindo Fernando Henrique Cardoso, que saiu para disputar a eleição presidencial. Entre o anúncio da URV e o início do plano, em 1º de julho, foi necessário administrar o clima de guerra entre o presidente, com desejos populistas, e a equipe econômica, que não aceitava interferências no projeto.

      Às vésperas de o real passar a valer, Ricupero quase entregou o cargo, mas foi convencido a ficar pelo próprio presidente. Sua saída da pasta aconteceu após o escândalo conhecido como o “caso da antena parabólica”. “Foi um episódio penoso, mas não um episódio que eu tenha errado moralmente”, afirmou. Em entrevista à Época NEGÓCIOS, Ricupero conta como foi a missão de conquistar a confiança de uma população que já estava traumatizada com a sucessão de planos econômicos fracassados.

      Como o senhor definiria o seu papel no Plano Real?

      Pessoalmente, eu estou mais ligado ao lançamento do real propriamente dito, em 1º de julho, do que com o lançamento da URV. Quando houve o lançamento do Plano Real, eu não tinha nenhuma ligação com a área econômica: eu estava como ministro do Meio Ambiente e da Amazônia. Era comum se dizer em Brasília, e pode ser que seja verdade, que o Itamar quando me trouxe de Washington para ser ministro da Amazônia fez isso com a intenção de que eu substituísse o Fernando Henrique. Há muitos sinais de que isso seja verdade. Eu era amigo do Fernando Henrique na época e conhecia bem a equipe, mas eu não tive relação com o período de elaboração do plano. Eu cuidei mais desse lado político e psicológico. Político porque eu era o intermediário entre o Itamar e a equipe econômica. A equipe não tinha acesso ao presidente. Por uma razão ou outra, pelos instintos populistas do ex-presidente, pelo fato de algumas pessoas que cercavam o Itamar serem esquerdistas e desconfiarem da equipe. Um precisava do outro, mas os lados não se gostavam. Eu tive que suportar os choques entre eles, o que foi muito difícil. Eu até atribuo o que aconteceu quando eu saí ao desgaste psicológico que eu tive – foi muito difícil impedir que houvesse um choque entre o Itamar e a equipe de economistas.

      Por que havia esse choque entre a equipe e o Itamar?

      Embora o Itamar quisesse o final da inflação, ele nunca aceitou perder a sua autoridade. Ele tinha instintos populistas. Eu sempre tentei defender as posições da equipe. Em geral, eu ganhava. O mais grave é que o Itamar queria tomar medidas que desfigurariam o plano. Uma vez, ele se entusiasmou pelo projeto do Fernando Gasparian que tabelava os juros em 12% ao ano. Ele tentou implementar e até me chamou para debater o assunto. Ele também queria levar o salário mínimo ao equivalente a US$ 100. Na época, isso teria explodido o plano e toda a equipe teria ido embora. Ele queria dar aumento para os funcionários militares. Cada vez que acontecia uma coisa dessas, era uma guerra. Para discutir as suas ideias, ele reunia todos os ministros a favor da sua opinião e eu era o único na mesa que tinha que argumentar contra e quando o meu argumento parecia o mais forte, quando eu mostrava que não havia condições, ele recomeçava tudo de novo. Uma coisa absolutamente torturante. No final, eu ganhava porque quando a coisa ficava muito difícil eu falava que não ia ter nem plano e nem equipe.

      Foi o Itamar que chamou o senhor para ser ministro da Fazenda?

      Sim. Eu estava no meu gabinete e eu recebi um telefonema dizendo que o presidente me convidava para ir com ele a um concerto de um coral da Universidade de Brasília e que depois ele queria conversar comigo. Como aquilo já estava fervilhando e ele nunca havia me convidado para coisa nenhuma, eu já tinha imaginado o que era. Então, eu fiquei ouvindo o final do coral e quando terminou eu subi com ele para o gabinete. Ele tinha um gabinete com uma espécie de corredor com um quartinho que às vezes ele descansava – ninguém entrava nesse lugar. Então, ele me chamou para esse quarto e disse que o FHC ia sair e que queria que eu fosse ministro. Eu lembrei a ele que eu já tinha recusado a oferta e que eu não era o homem certo para isso. A URV havia sido anunciada não fazia nem dois meses e eu avisei que só sabia do plano o que qualquer pessoa sabia. Eu disse que ele deveria nomear pessoas que já estavam envolvidas com o plano. Eu até sugeri dois nomes: Edmar Bacha e Pedro Malan. Eram os mais antigos. E daí ele me respondeu assim: “nós examinamos todas as opções e o senhor é a única alternativa”. Aí eu entendi o que ele queria dizer. Ele não disse, mas eu entendi que ele não queria ninguém da equipe. Ele queria alguém que não fosse um tecnocrata puro. Ele queria alguém que tivesse formação política. Ele queria alguém que não fosse dependente do Fernando Henrique Cardoso. Eu sempre fui e era amigo do Fernando Henrique, mas nunca fui de partido nenhum. Eu respondi: “eu sou um funcionário público, se isso é uma ordem, eu aceito. Quais são as suas instruções? Ele me disse: eu quero que o senhor aplique o plano com essa equipe que está aí”.

      Por que o Plano Real era diferente dos outros planos? Por que deu certo?

      O primeiro diferencial foi a URV. Como diz o Delfim Neto, foi um plano brilhante, que conseguiu vencer aquilo que se chamava inflação inercial. Era preciso migrar da moeda antiga para a atual evitando a indexação. A URV permitiu que todos os preços ficassem nivelados. Em segundo lugar, não houve choque. A população estava traumatizada, sobretudo com o Collor. Então, não teve surpresa. Tudo foi anunciado e discutido. Um mês antes, nós já dávamos entrevistas para a imprensa. Em terceiro lugar, não teve controle de preço, apesar da pressão que havia. E por último, a vontade conjunta: todos queriam que desse certo. Claro que tiveram pessoas que agiram contra, como o PT, mas a maioria queria que desse certo.

      Qual era a sua maior dificuldade como ministro da Fazenda?

      Até o final, o Itamar não acreditava que seria possível conter a inflação sem o congelamento dos preços. Eu tentava convencê-lo, mas ele dizia que não acreditava. Ele tinha na cabeça a ideia do Plano Cruzado, ele tinha a ideia das fiscais do Sarney. Quando faltavam poucas horas para o anúncio da moeda, houve um episódio terrível. Na véspera do plano, que era o dia que tinha que fazer a medida provisória, eu fiquei esperando para ser chamado ao palácio pelo Itamar. De repente, ele me ligou do aeroporto e disse que estava indo embora. E no final, ele disse que mandaria o Ministro da Justiça, Alexandre de Paula Dupeyrat Martins, entregar uns papéis na minha sala, mas que não era nada demais. Eu achei que alguma coisa ia acontecer. E de fato “o Dupeyrat entrou na minha sala como se ele fosse um inspetor geral que viesse passar um sabão nas crianças malcriadas que não se comportaram”. Ele chegou dizendo que o presidente não tinha entendido como nós havíamos proposto essas medidas que favoreciam os bancos e que eles queriam uma explicação nas próximas horas. Ele começou a impor várias coisas que mudariam a medida provisória. No começo, nós só estávamos conversando. Quando eu vi o rumo que a história estava tomando, eu peguei o telefone na frente dele e pedi para falar com a Ruth Hargreaves, que controlava a agenda do presidente, e falei. ‘Olha, eu preciso ver o presidente urgentemente nas próximas duas horas. Se ele não me chamar, alguma coisa de muito grave vai acontecer’. Todo mundo ouviu. Quando eu desliguei o telefone, o ministro levantou e disse: ’vejo que eu não sou bem vindo aqui’ e eu disse. ‘Olha, ministro, você será sempre bem vindo quando vier me trazer ponderações da sua pasta, questões jurídicas, constitucionais. Você viu que eu liguei querendo falar com o presidente? Eu vou perguntar a ele quem é o ministro da Fazenda, se é o senhor ou se sou eu. Se ele me disser que é o senhor, eu entrego o cargo’. Esse foi o momento mais dramático de todos. Eu estava disposto a entregar o cargo. Sabe lá o que teria acontecido. Eu sabia que naquele momento era tudo ou nada.

      O presidente Itamar Franco disse: “O ministro Ricupero foi o sacerdote do Plano Real. Mais até do que o FHC”. A que o senhor atribui essa comparação?

      O meu papel maior foi com o povo. Uma boa parte do êxito da moeda foi o esforço que eu fiz de ir até a televisão com frequência. Eu sempre me senti um pouco jornalista. Eu sempre escrevi e eu procurava explicar em uma linguagem comum, do povo. A população tinha a impressão de que o plano era bem elaborado, mas era necessário alguém que explicasse as mudanças, porque ninguém entendia direito o que era a URV, ninguém sabia se a URV iria continuar ou não. Aí eu fui falar com o Itamar, que achava que ele deveria explicar melhor o plano e ele disse para que eu fizesse isso. E acho que ele fez bem – se o plano fracasse, o responsável seria eu.

      A população estava descrente do plano?

      Havia um grupo que achava que aquilo era uma manobra eleitoral. Mas a maioria das pessoas acreditava em mim e a razão básica da minha credibilidade não se deveu a nenhum talento especial de comunicação, mas as pessoas podiam olhar nos meus olhos e verem que eu acreditava naquilo. Por isso que o Itamar falava que eu era o sacerdote do real, tinha quase que um lado religioso. Eu e a equipe acreditávamos sinceramente que íamos derrubar a inflação. Depois de seis planos, nós queríamos vencer o ceticismo da população.

      Qual foi o papel de Itamar Franco durante a elaboração e execução do Plano Real?

      O Itamar foi o primeiro que teve a obsessão de que era possível ter um plano contra a inflação. Ninguém acreditava, mas ele foi a pessoa que acreditava que um plano era possível. Ele perseguiu isso de uma maneira obstinada – ele teve quatro ministros da Fazenda antes de conseguir o FHC, mas nenhum dava a ele o que ele queria, que era um plano. Então, a primeira grande condição para o plano foi ele. Sem ele, não teria existido o FHC. Ele foi quem viabilizou o Plano Real. A escolha do Fernando Henrique foi estratégica, pois ele era o único que tinha prestígio intelectual para montar essa equipe. Outros não teriam.

      Como o senhor comunicava as mudanças para a população?

      No começo, eu pensei em contratar agências de publicidade, como se faz hoje em dia para fazer aqueles filminhos, mas, naquele tempo, o Ministério da Fazenda não tinha nenhuma verba que pudesse ser usada para propaganda institucional. Agora, eles gastam zilhões. Eu falava, em média, a cada dez dias. Antes de falar, nós perguntávamos para a equipe econômica qual era o tema da semana. A equipe econômica colhia as informações, preparava um papel e depois a equipe de comunicação simplificava o texto. A primeira coisa que eu fiz foi simplificar a linguagem. Quando eu ia gravar, eu lembro que eu nunca conseguia dormir. Eu acordava de madrugada e reescrevia boa parte do texto. Se estava escrito: ‘não coma carne bovina’, eu mudava para ‘não coma carne de vaca’. A resposta foi gigantesca, eram milhares e milhares de telegramas de pessoas que ficavam maravilhadas, pois ninguém no governo havia explicado as mudanças dessa forma. Eu acho que um dos problemas que surgiram depois que eu saí, não que fosse meu mérito, qualquer um poderia fazer isso, foi não ter continuado com isso. Acho que eles acharam que eu caí porque me expunha demais. Depois do episódio da parabólica, acho que eles adotaram a posição contrária. Quem fez isso muito bem foi o Lula. O FHC se retirou e o Lula aproveitou para ganhar a eleição.

      As pessoas te paravam na rua para tirar dúvidas do plano?

      Mais do que isso. Quando eu fui ao Nordeste, tinha gente que vinha me beijar a mão. Aí eu comecei a ficar com medo. Acabou inclusive a me fazer dizer algumas bobagens naquela entrevista, que foi uma infelicidade. Nesse dia, eu estava muito cansado – eu dei 24 entrevistas.

      O que aconteceu naquele dia?

      A moeda foi lançada no dia 1º de julho. A primeira inflação depois do plano, que veio no final do mês, foi uma má surpresa para a equipe. Eles esperavam um número muito baixo e deu mais que o dobro. O impacto foi realmente muito ruim – começou a haver uma impressão de que aquele plano também não iria dar certo. Eu fiquei muito preocupado. Durante o mês de agosto, eu me empenhei muito em dizer que aquele resultado era só de um primeiro momento, que havia tido um resíduo do mês anterior e que a partir de agora a inflação iria cair muito. O episódio da parabólica aconteceu exatamente no dia 1º de setembro e eu estava preparando o segundo aniversário, que era o segundo mês do plano. Nesse dia, eu resolvi fazer uma série de entrevistas. Eu comecei de madrugada. Eu acordei cedo e fui em uma porção de lugares – rádios, jornais… e eu fiquei o dia todo em entrevistas, eu nem almocei e nem jantei. Eu também estava sob medicação, eu sempre tomei remédios, então eu estava tomando medicamentos e era já bem noite. Eu estava conversando com o jornalista Carlos Monforte, que é primo da minha mulher. Eu o conheço de família. E as luzes estavam apagadas e nós conversávamos esperando o sinal para sermos chamados ao vivo de São Paulo. Eu não sabia que aquilo estava ligado. E eu, sob o efeito daquele dia todo, disse uma porção de bobagens, eu nunca neguei. Uma comparação que eu usei é que a Emília, do Monteiro Lobato, dizia que às vezes ela abria a torneirinha das asneiras, eu abri a torneirinha das asneiras. Coisas assim, bobas. Por sorte, eu não disse nada que fosse assim chocante. Foi um episódio que foi muito mal explicado. Depois que acontece, é difícil de reconstituir as coisas. Naquela altura, nós já tínhamos os números parciais e só faltava divulgar a última semana da inflação, que mostrava que ela tinha caído muito como nós tínhamos previsto. Naquela época, nós tínhamos o compromisso de só anunciar o número cheio – ao final do mês.

      “Uma hora o Carlos Monforte disse assim: ‘Ministro, você não acha que esse plano já fracassou? Eu disse: ‘Olha. Não é que eu ache. Eu sei que não é verdade, pois nós já temos os resultados parciais mostrando que a inflação caiu’. Ele ficou muito interessado e queria que eu desse a notícia naquele momento – seria um furo. Foi aí que eu usei uma expressão que até hoje usam contra mim. Eu falei: ‘eu mesmo não teria escrúpulos. O que é bom a gente fatura e o que não é bom a gente esconde, mas nós temos um compromisso para não divulgar’. Eu disse uma bobagem e ninguém percebeu que eu estava querendo dizer ao contrário. Se eu de fato não tivesse escrúpulos, eu teria divulgado. Eu não tava escondendo má notícia, mas as pessoas pegaram o que eu disse e não o que eu fiz. Na verdade, eu estava escondendo uma coisa boa. No dia seguinte, eu telefonei ao Itamar e me demiti. Ele não sabia o que tinha acontecido e disse que não era nada. Depois, à medida que o dia foi passando, eu não sei o que aconteceu e no final do dia eu realmente saí. Hoje eu conto isso naturalmente. Para mim, foi um episódio penoso, mas não um episódio que eu tenha errado moralmente. Muitas pessoas me telefonaram pedindo para que eu ficasse. Mas eu saí e foi o correto, tinha que sair mesmo.”

      Hoje, a inflação voltou a ser uma preocupação da economia. O que o senhor acha que fizemos de errado? O que senhor faria de diferente?

      Eu acho que esse governo aqui teve uma política econômica muito equivocada. Eu vejo com preocupação a situação em que nos encontramos hoje. É claro que, felizmente, não perdemos o controle. Eu creio que o ponto de partida vem do ano de eleição em 2010. Naquele ano, houve da parte do governo a aceitação do risco de uma inflação para ter aquele crescimento de 7,5%. A equipe econômica não tinha certeza se a Dilma seria eleita por ser uma candidata que não tinha nenhuma experiência. No último trimestre de 2009, já era nítido que o Brasil tinha se recuperado do impacto da crise. Não era necessário manter aqueles incentivos que foram mantidos. Eles mantiveram os incentivos porque 2010 era um ano eleitoral. Ganharam a eleição, mas fizeram a inflação passar para um outro patamar. O novo governo não soube enfrentar o que aconteceu com as medidas necessárias, ele não teve a mesma credibilidade que o governo anterior. No primeiro mandato, o Lula contava com o Antônio Palocci e com o Henrique Meirelles, no segundo mandato, ele contava com o Henrique Meirelles. O governo da Dilma já começou com uma equipe menos conhecida ou que inspirava menos confiança – justa ou injustamente. Depois, teve aquele momento que eles brincaram com a ideia de uma nova política econômica de taxas de juros muito baixas, quando o país ainda não comportava, continuaram com os estímulos monetários, inclusive grandes transferências via BNDES, e ao mesmo tempo com um câmbio que criou vários problemas. Eu tenho a impressão que o efeito conjugado disso tudo levou a uma situação muito difícil. Seja lá quem for que saia vitorioso nas próximas eleições, vai ser obrigado a fazer um ajuste em 2015, que vai ser um corte difícil. É preciso cortar os gastos do governo, que têm crescido muito com as transferências sociais.

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