Diferença de postura

Nos últimos sete dias, o presidente dos EUA, Barak Obama, convocou entrevista coletiva para falar do ataque de terroristas ao voo MH17 na Ucrânia e sobre a crise entre Israel e Palestinos na faixa de Gaza.

Independentemente de concordamos ou não com aspectos da política de defesa e comercial dos EUA, o país tem um papel muito claro na defesa de suas posições e se alia com países com tradição democrática, apesar de o histórico condenável dos EUA no apoio de governos ditatoriais no passado, em especial, na América Latina.

No caso do Brasil, não vejo clareza na nossa política externa. O nosso problema parece ser pelo menos quatro. Primeiro, tem-se a nítida impressão que o país luta por um assento no Conselho de Segurança na ONU sem saber muito o que quer defender. O Brasil tem sido um defensor intransigente da democracia na América Latina? O país tem se destacado no âmbito mundial na defesa das minorias? Nos últimos anos, o governo brasileiro tem tido uma posição dúbia em relação a violação de direitos humanos na América Latina e o mesmo em relação aos grandes conflitos mundiais.

Segundo, o Brasil tem um corpo diplomático de excelente formação, o Itamaraty, instituição do Estado e do serviço público brasileiro que sempre foi respeitado pela sua qualidade técnica, desde a negociação de acordos internacionais até a solução do conflitos militares, como aquele que opunha Peru e Equador há décadas e que foi solucionado com a assinatura do Acordo Global e Definitivo de Paz, no Palácio Itamaraty, em Brasília, em 26 de outubro de 1998. Mas, nos últimos anos, há uma percepção de leigos e de diplomatas aposentados que o Palácio do Planalto passou a ter um consultor que, muitas vezes, parecer ser uma voz mais ativa do que o próprio Itamaraty na definição estratégica da política externa do país. Essa percepção pode ser equivocada, mas existe.

Terceiro, a atuação recente do Brasil na América Latina tem sido marcado por um atuação que parece muito mais ideológica do que voltada para defesa dos interesses do país. Há abundância de exemplos: a suspensão do Paraguai do Mercosul, a forma do ingresso da Venezuela no bloco, a ajuda financeira a Cuba, o tratamento dado à questão do Senador boliviano exilado na embaixada em La Paz e a posição dúbia brasileira em relação à crise política na Venezuela. De acordo com o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), presidente da comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal: “…o governo brasileiro está fazendo uma opção pelo que há de mais atrasado e populista”. (clique aqui para ler a entrevista completa do senador a revista Veja).

Quarto e último ponto, tenho uma grande esperança que os esforços do Brasil em construir uma agenda comum com os demais países do BRICS tenha sucesso e que a criação do Novo Banco de Desenvolvimento tenha algum êxito. Sou cético quanto a isso e, no caso dos BRICS, não vejo o Brasil tomando à frente na defesa intransigente da democracia, direitos humanos e, no caso mais recente, condenação das ações da Rússia na Ucrânia.

Enquanto o presidente dos EUA condenava de forma clara o papel omisso da Rússia no episódio que levou à queda do voo MH17 na Ucrânia, a nossa presidenta fez uma declaração infeliz reproduzida nos jornais deste final de semana e desta segunda-feira:

“Tem um segmento da imprensa dizendo que este avião… que foi derrubado estava na rota da volta do avião do presidente Putin. Coincidia com o horário e com o percurso. Então, que o míssil poderia ser dirigido ao avião do presidente Putin”.

Por onde começar? O “segmento da imprensa” era a mídia russa que afirma também que os corpos poderiam estar lá há meses e a Otan poderia ter derrubado o Boeing para testar lealdades.

O que leva a presidente de 200 milhões de brasileiros a embarcar nesta canoa furada de propaganda? E por que, enquanto escrevo, três dias depois da tragédia, em meio à indignação do mundo civilizado, a líder da sétima economia do mundo não se sente compelida a expressar luto pelo massacre de 298 civis inocentes? Esqueçamos, por um momento, a estadista. A avó do Gabriel não tem ganas de dizer algo sobre as 80 crianças mortas no voo MH17” (ver Lúcia Guimarães, o meridiano do MH17 no Estado de São Paulo).

A impressão que tenho da política externa brasileira é que ainda há uma ênfase excessiva no discurso anti-americano dos tempos da guerra fria e uma excessiva leniência com atitudes não democráticas de governos Latino Americanos ou de alguns dos nossos aliados dos BRICS.

Vamos torcer para que o Itamaraty volte a ser mais relevante no desenho e na condução da nossa política externa e que o nosso empenho nas alianças com países em desenvolvimento dependa cada vez menos de questões ideológicas das afinidades do partido no poder.

22 pensamentos sobre “Diferença de postura

  1. Concordo com todas as afirmações do artigo. Porém, quanto a “torcer” para que isso mude, acrescento que com esse governo a tendência é só piorar. Eles possuem uma agenda bem clara com suas posturas anti-americanistas e pró-ditaduras de “esquerda”.

  2. Não concordo com nenhum dos seus pontos de vista pela simples razão que quem faz, organiza, trama, faz acordos secretos contra os interesses reais do Brasil na politica externa, não è o Itamaraty, instituição do Estado e do serviço público brasileiro, mas única e simplesmente o stalinista e soviético marco aurélio garciaque não disingue entre a politica do Foro de A.Paulo e a nossa politica externa.

  3. O Itamaraty solta notas em abundância, basta que exista alguma inundação do outro lado do planeta. Não se pode acusar o Itamaraty de ser econômico em matéria de notas.
    Pois bem, desde que aconteceram os dois infaustos problemas, o abate por míssil russo de avião da Air Malaysia e o conflito na faixa de Gaza, o Itamaraty só soltou uma nota altamente enviesada sobre este último, chamando de “conflito Israel e Palestina” (sic) e nada, absolutamente nada sobre o primeiro.
    O Itamaraty já não é mais o que era? Provavelmente…
    Mas, as eventuais falhas na qualidade do material produzido nos últimos tempos não têm a ver, exatamente, com deficiências de serviço da própria institutição, e sim com as novas condições de trabalho, que impõem certas regras bizarras que não costumam, ou não costumavam fazer parte do menu habitual da Casa. Certas coisas só estando dentro para perceber, mas ainda assim seria preciso saber de onde partiram as ordens para fazer, não fazer, deixar de fazer, fazer outra coisa, inverter os processos, alterar procedimentos, deixar coisas sem registro escrito, tratar de certos assuntos por telefones ou mensagens eletrônicas à socapa, apagar os traços, enfim, tem todo um mundo que passa longe de nossa vã filosofia…
    Paulo Roberto de Almeida

  4. Você não pode dar nomes aos bois e usar palavras duras. Compreensível. Mas outros podem. O que liga os 4 pontos é denominada ESQUERDOPATIA. O norte das ações do Itamaraty, sequestrado pela ideologia, responde por “professor” Marco Aurélio Garcia

  5. Os EUA condenam corretamente o ataque ao avião da malasian, mas defende que Israel ataque civis palestinos, incluindo crianças e mulheres, um verdadeiro terrorismo de Estado e você diz que eles tem um política externa coerente.

  6. Mansueto, você conseguiu entender o que a Dilma disse no pronunciamento que você copiou aqui?

    É difícil compreender o que ela diz. Ela não sabe articular as frases com coesão e coerência.

    Algo me diz que tomará uma surra nos debates.

  7. “Pelo que escutei hoje na CNN o presidente Obama criticou sim o massacre de Israel na Faixa de Gaza.”

    Mansueto, você escreve artigos coerentes e brilhantes sobre economia e sobre as barbaridades que o governo brasileiro comete em sua política econômica, mas, como leitor assíduo do seu blog, recomendo, respeitosamente, que: (i) vc estude mais sobre política externa e história das relações internacionais; ou (ii) simplesmente pare de escrever sobre o assunto.

    Abraços

      • Pedro

        Parece que Daniel ficou incomodado com este comentário do Mansueto:

        “Pelo que escutei hoje na CNN o presidente Obama criticou sim o massacre de Israel na Faixa de Gaza.”.

        Antes, o leitor Marcelo saiu-se com o velho bordão do “Estado terrorista” apoiado pelos EUA:

        “Os EUA condenam corretamente o ataque ao avião da malasian, mas defende que Israel ataque civis palestinos, incluindo crianças e mulheres, um verdadeiro terrorismo de Estado e você diz que eles tem um política externa coerente.

        Dois leitores que reprovam a “desproporcionalidade” ou “assimetria” da reação do governo de Israel contra os ataques iniciados pelo Hamas em 11 de junho.

        Os fatos;

        Obama, assim como Clinton, defende o direito de Israel defender-se dos ataques do grupo terrorista que controla Gaza. Esses dois representantes do Partido Democrata estão alinhados com a tese de que o Hamas é um grupo terrorista. Até aí nenhuma novidade. O que o aparece como um fingimento (mentira) de Obama são suas declarações em favor de uma paz negociada com o Hamas.

        Ninguém minimamente informado acredita que isso seja possível porque o Hamas não tem se interessa por isso. Israel sabe que não tem como derrotar o Hamas e faz uma política de “aparar o mato”. Trata-se, para Israel, de provocar os maiores danos possíveis aos caríssimos arsenais e tuneis do Hamas. Desse modo, forçá-los a uma trégua até que o Hamas recomponha o seu poderio bélico. tem sido assim desde que Israel entregou Gaza ao Hamas em 2004.

        Para começar entender as “ambiguidades” de Obama é preciso ter claro que a proposta de paz apoiada por Obama é a que foi apresentada pelo Egito e recusada pelo Hamas, que apoia a proposta apresentada pelo Qatar.

        Por que existem duas propostas de cessar-fogo, a do Egito e a do Qatar?

        Há um bom artigo a respeito dessa para nós confusa geopolítica do Oriente Médio:

        Do ‘Syria,’ ‘Iraq’ and ‘Lebanon’ Still Exist?

        http://www.meforum.org/3751/syria-iraq-lebanon-nation-states

        O autor apresenta a hipótese bem fundamentada de que o paradigma dos Estados-Nação no Oriente Médio mudou. Ele toma como referência o atual desmantelamento dos Estados sírio, iraquiano e libanês, cujas fronteiras foram estabelecidas após o fim da I GM. Fornece também um valioso mapa sobre “quem apoia quem”. sobre as alianças entre as variadas seitas terroristas transnacionais.

        Há novas fronteiras tomando forma no Oriente Médio e são fantasiosas as propostas para que os países do ocidente se retirem da região. “A segurança do abastecimento energético global e a manutenção da estabilidade regional são ainda essenciais para os interesses ocidentais […] Se não conseguir se adaptar ao novo Oriente que rapidamente está tomando forma, o Ocidente irá quedar-se no lado perdedor.”

        Os dois principais atores que lideram esse rearranjo geopolítico são os rivais Iram e Arábia Saudita.

        Não tenho tempo agora e o blog do Mansueto não é o melhor lugar para um debate a respeito do que ocorre no oriente médio.

        Algumas considerações

        Desde 1937 os líderes palestinos não perderam nenhuma oportunidade para impedir o desenvolvimento da sociedade civil palestina e a criação de um Estado palestino.

        Antes e após a II GM Hajj Amin Husseini, mufti de Jerusalém, nunca optou por liderar seus eleitores para a paz e a reconciliação com os vizinhos judeus. Quem não sabe quem foi Husseini, é só pesquisar no Google.

        Arafat dirigiu a OLP desde o início no caminho contrário à paz e à reconciliação. Preferiu transformá-la em uma das organizações terroristas mais sanguinárias e corruptas nos tempos modernos.

        Um Estado palestino poderia ter sido estabelecidos nos anos 1960 ou início dos anos 1970. Mas Arafat, que perdeu a guerra contra Jordânia, preferiu fugir para o Líbano.

        Em 1979 a criação de um Estado palestino poderia resultar como um corolário do tratado de paz egípcio-israelense. Mais uma vez, Arafat não se empenhou.

        Em maio de 1999, como parte do processo de Oslo e com a cúpula de Camp David de julho de 2000. Mais uma vez Arafat “roeu a corda”.

        E finalmente com Abbas, na cúpula de Annapolis de novembro de 2007 e durante o primeiro mandato do presidente Barack Obama, depois que Benjamin Netanyahu rompeu um antigo dogma do Likud e aceitou publicamente em Junho de 2009 a solução de dois Estados.

        Sempre que confrontados com uma oferta internacional ou israelense de um Estado, os líderes palestinos nunca tiveram “sim” como resposta.

        Quem mais sofre com essa situação é a população palestina.

        Culpa de Israel?

  8. Não que o Mansueto precise ser defendido ou que algum de nós, mas a Presidenta falou sim essa barbaridade que dava a entender que o míssil fora lançado por um zarolho ucraniano para matar o Putin. Na verdade sabemos que foi um zarolho russo. E, honestamente, o Mansueto e boa parte dos leitores já entenderam muito bem o que se passa em termos tanto de política externa como de política econômica, e quais os laços que os ligam.

    Quer uma teoria da conspiração mais coerente, que junta política externa e a nossa? Leia um pouco do que sai na imprensa portuguesa a respeito do Banco Espírito Santo.

  9. Onde Lúcia Guimarães viu uma Estadista? Sé se for no Estádio do Mineirão, quando via os jogos do Galo com o Papy dela.

  10. “…apesar de o histórico condenável dos EUA no apoio de governos ditatoriais no passado…”
    Isso quer dizer que os EUA não apoiam nenhuma ditadura atualmente?

      • Os EUA foram contra o processo de democratização nesses países? qual foi a posição do Brasil nesse casos e em outros aqui na América Latina?

      • Falar em defesa intransigente dos direitos humanos é um pouco forçado para qualquer País né Mansueto, convenhamos. O que rola em politica internacional são geralmente interesses comerciais e real politik pura. A China é ditadura, o oriente médio todo é ditadura, a Líbia está muito pior do que antes, com o Kadafi. Golpes brancos a torto e a direito são dados, como na Ucrània, por ex. A minha opinião é que nenhum País é santo com relação a direitos humanos.

      • Sim, mas nem por isso podemos ser omisso. Mas no caso do Brasil, sempre nos pautamos mais pela paz e uma atitude conciliadora do que o contrário.

        O que muita gente critica é talvez uma omissão do governo brasileiro no caso da Venezuela. Vou checar com os diplomatas que conheço a extensão desse debate no Itamaraty. Abs.

    • Real politik que nos deixou ao lado dos perdedores e fracassados? Que nos deixa ao largo do comércio internacional? Quem me dera que fizéssemos real politik. Fazemos é trash politik.

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