A baixa confiança do setor industrial

Um conjunto de indicadores que tira o meu sono e me preocupa é o grupo de indicadores de confiança do IBRE-FGV (clique aqui). Essas pesquisas mensais são seguidas atentamente por quem precisa olhar para o futuro e tomar decisões. Em geral, empresários não aumentarão o investimento quando acreditam que o nível de estoques é excessivo, que a situação nos próximos meses vai piorar, que a produção prevista será igual ou pior nos próximos meses, etc.

O que está acontecendo? Quase uma tempestade perfeita de pessimismo que está levando o humor do setor industrial para níveis próximos ao de 2009, quando o PIB do Brasil teve uma queda de 0,33%. Os sucessivos erros do governo na condução da política macroeconômica já deixaram “um rastro de destruição no passado”, mas agora atrapalham o futuro. Vamos aos dados.

O índice de confiança da indústria (ICI) do IBRE-FGV vai de “0” a 200 pontos.  Ele é construído da seguinte forma: Indicador = (Proporção de respostas favoráveis ao quesito menos proporção de respostas desfavoráveis) + 100. Assim, se 100% dos entrevistados dão respostas favoráveis, esses índice seria 200 = (100 – 0) + 100.

O ponto chave aqui é que, quando o percentual de respostas negativas (sobre produção atual e esperada, nível de demanda atual e esperada, emprego previsto e nível de estoques) é superior as  respostas positivas, o índice terá um valor inferior a 100. O que mostram os últimos dados divulgados? Acho importante destacar três pontos.

Primeiro, como se observa no gráfico 1 abaixo, o valor do ICI de junho de 2014 foi de  87,2 pontos, o menor valor desde maio de 2009 quando havia alcançado 86,4 pontos. No início do governo Dilma, esse índice estava em 112 pontos; um índice relativamente elevado pois o maior valor deste índice desde janeiro de 2008 foi de 115,4 pontos, valor de março de 2010.  Assim, o índice de confiança da indústria (ICI) da FGV aponta que os empresários industriais estão tão pessimistas nas suas avaliações quanto em 2009.

Gráfico 1 – Índice de Confiança da Indústria (ICI) – FGV – JAN/2008-JUN/2014

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Fonte: IBRE-FGV (Indice de Confiança da Indústria)

Segundo, além do seu valor abaixo de 100, o que sinaliza pessimismo, há um outro dado negativo. O número poderia estar baixo de 100, mas melhorando como ocorreu ao longo de 2009, quando as expectativas passaram a melhorar seguidamente depois de atingir o fundo do poço em janeiro de 2009. Em agosto de 2009, o índice já havia superado os 100 pontos. Esse índice ficou abaixo de 100 pontos por um período de nove meses, de novembro de 2008 a julho de 2009.

A dinâmica agora é pior. Em junho, este índice completou o décimo primeiro mês abaixo dos 100 pontos – como se a indústria estivesse “doente” por 11 meses seguidos- e o índice está em queda nos últimos seis meses (barras vermelhas do gráfico 2). No ápice da crise no final de 2008, o ICI caiu por apenas três meses consecutivos (de novembro de 2008 a janeiro de 2009).

Gráfico 2 – Índice de Confiança da Indústria (ICI) – FGV – JUL/2013-JUN/2014

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Fonte: IBRE-FGV (Indice de Confiança da Indústria)

Terceiro, ocorreu uma forte reversão das expectativas futuras de crescimento do setor de bens de capital. Pelo índice da FGV é possível fazer uma abertura por setor da indústria e por subíndice. Apesar da situação ruim da indústria e do setor de bens de capital, a grande maioria dos empresários do setor de bens de capital, quando olhava para os próximos seis meses, esperava melhora dos negócios. Este não é mais o caso.

Nos últimos dois meses (maio e junho), o indicador dos negócios para os próximos seis meses do setor de bens de capital, que já vinha em queda desde fevereiro, “quebrou” a barreira dos 100 pontos e passou para 76,8 pontos – o que indica que, olhando para os próximo seis meses, a grande maioria dos empresários do setor de bens da capital não espera melhora dos negócios.

Gráfico 3 – Indicador da Situação de Negócios para os Próximos Seis Meses – FGV – JAN/2013-JUN/2014 – Bens de Capital.

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Fonte: IBRE-FGV (Indice de Confiança da Indústria)

Em abril de 2013, 67,5% dos entrevistados no setor de bens de capital esperavam qu e a situação dos negócios estaria melhor em seis meses. Em junho deste ano, este percentual caiu para apenas 9,9%. Isso preocupa porque essa expectativa pessimista é um péssimo sinalizador da intenção de investimento.

Gráfico 4 – % dos Entrevistados no Setor de Bens de Capital que esperam Melhora dos Negócios nos Próximos Seis Meses – FGV – ABRIL/2013 e JUN/2014

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Mas como explicar que com taxa de juros subsidiadas e até negativas do PSI os empresários não compram máquinas para novos investimentos? Eu vou deixar um empresário explicar por mim. Em entrevista na internet para a revista VEJA (clique aqui para ler a entrevista), o empresário Sérgio Habib, presidente da JAC motors no Brasil, dá uma dica:

“…. Como Brasil é caro, o BNDES dá dinheiro a taxas subsidiadas. Em vez de você ter uma taxa normal de juros, você tem uma indústria não competitiva e juros subsidiados. O problema é que mesmo assim não compensa. Um prensa fabricada no Brasil, mesmo com juros baratos, é mais cara do que uma prensa nos Estados Unidos, na Coréia ou na China…. Vamos trazer máquinas de fora, inclusive da Alemanha, pagando menos.”

Em resumo, quero destacar três pontos. Primeiro, a indústria está ruim e sem perspectiva de melhora. A dinâmica chega a ser até pior que em 2009, que teve uma queda forte, mas rápida recuperação nos índices de confiança. Não é mais o caso.

Segundo, o pessimismo da indústria e, principalmente, do setor de bens de capital preocupa, pois sinaliza, pelo lado da oferta, baixa taxa de investimento.

Terceiro, o governo aumentou muito os subsídios e vai aumentar ainda mais, mas isso não resolverá o problema. A decisão para aumentar subsídios se dá em uma sala fechada e o governo não paga a conta aos bancos públicos. Infelizmente, isso não soluciona o problema e, como o governo vem gastando muito além do crescimento da economia, a combinação atual da política econômica sinaliza para aumento da dívida e da carga tributária (uma perspectiva negativa para a indústria).

PS: Essa base de dados do IBRE-FGV (Índices de Confiança) é simplesmente fantástica. Essencial para quem faz análise de conjuntura (clique aqui). A base com todos os detalhes precisa de assinatura.

6 pensamentos sobre “A baixa confiança do setor industrial

  1. A economia brasileira entrou numa fase de baixo crescimento. O governo culpa o cenário externo para justificar o seu diagnóstico equivocado sobre as razões dessa redução.

    A partir de 2006, conforme dados disponíveis, a produtividade, motor do crescimento, começou a cair, mas ritmo de crescimento foi preservado via estímulos ao consumo, mas à custa da criação de futuros e graves desequilíbrios.

    Para enfrentar a crise de 2008, a bem sucedida ação anticíclica, via consumo, convenceu o governo de que essa estratégia deveria continuar. Com isso, imaginava o governo, animaria os empresários a investir.

    Entretanto, o excesso de intervenção estatal, as alterações de regras de contratos e a falta de credibilidade da política econômica reduziram a confiança do empresariado e, conseqüentemente, os investimentos privados não vieram. A resposta a essa falta de reação do empresariado foi o crédito subsidiado do BNDES, aumentando a dívida pública, causando danos irreparáveis a transparência e a credibilidade da política fiscal. Mesmo assim, essa política equivocada contribuiu muito pouco para aumentar o investimento.

    Por outro lado, o aumento do consumo só beneficiou o setor de serviços, que, por falta de concorrência externa, conseguiu dar aumentos salariais acima da produtividade, repassar os custos aos preço, causando as atuais pressões inflacionárias.

    Por sua vez, a indústria não pode repassar os custos para os preços, reduzindo a sua competitividade. Para enfrentar essa situação a ela precisaria aumentar a sua produtividade, mas isso não se equaciona a curto prazo, alem das dificuldades já conhecidas como na infraestrutura deficiente, na logística e no sistema tributário. Grande parte da expansão do consumo se transformou em importação de bens, o que diminuiu drasticamente o superavit comercial e piorou o deficit externo.

  2. A indústria brasileira produz apenas para o mercado interno e não se integrou às cadeias internacionais de valor.

    Vivemos num dos países mais fechados ao comércio exterior. A explicação é que as multinacionais vêm aqui para explorar o mercado interno protegido e não para integrar o país às suas cadeias produtivas mundiais, como ocorre com suas subsidiárias nos países asiáticos. As multinacionais lucram ao investir no país, mas o resto da economia definha, ao deslocar para a substituição protegida de importações recursos locais que poderiam ser empregados com maior eficiência em atividades exportadoras.

    O isolamento do país em relação ao comércio internacional é preocupante porque a evidência do pós-guerra sugere não haver caminho para o pleno desenvolvimento fora da integração com o resto da comunidade internacional. São poucos os países que conseguiram superar a chamada armadilha da renda média e chegar ao Primeiro Mundo nos últimos 60 anos.

    A partir do esgotamento do manancial de mão de obra, ganhos adicionais de produtividade dependem de empresas com escala, especialização e tecnologia que somente podem ser obtidas através da integração do país ao comércio internacional. Embora o Brasil seja um país relativamente grande, representa apenas 3,3% do PIB mundial e está longe da fronteira tecnológica mundial.

    É imperativo que deixe de ser um dos países mais fechados do mundo ao comércio internacional. Somente aumentando significativamente a participação das exportações no PIB é que deixaremos de ser apenas um exportador de commodities e conseguiremos desenvolver uma indústria e um setor de serviços internacionalmente competitivos. O exemplo da Embraer, que importa 70% do que exporta, indica o caminho para o futuro.

  3. Pra nossa indústria ser moderna, competitiva “world class”, deveria haver uma revolução em diversos fatores de produção. A infraestrutura deveria melhorar, a legislação trabalhista deveria ser simplificada (3 milhões de processos por ano é um negócio doentio!), a legislação tributária também deveria ser simplificada (não to falando nem de diminuir impostos, apenas reduzir tudo a um ou dois tributos e o governo que depois divida entre ele como acha necessário) e por aí vai. Coisas tão improváveis que é besteira até sonhar com isso.

    Da porteira pra dentro, as fábricas não são aquelas coisas, mas inequívocamente entre 2002 e 2006, enquanto o dolar estava num valor de 2,5 pra cima e os custos internos eram algo em torno de uns 30-40% do que são hoje (em reais), esse câmbio encobria esses problemas e a indústria tava se recuperando e voltando a crescer. Talvez o cambio tivesse se mantido naquele patamar e o populismo do gov não tivesse jogado o SM (e os outros custos que são todos derivados deste) tão pra cima, a indústria poderia ir se adaptando, comprando novos maquinários e ir ganhando competitividade.

    Mas o dolar caiu rápido demais, os custos subiram rapidos demais, e aí estamos. seis, sete anos com indústria andando de lado, e tirando a protegida indústria automotiva (essa só cresce) o restante tá quase tudo caindo.

    Agora que a indústria podia ganhar um folego, já que o desequilibrio das contas externas em tese deveria jogar a moeda pra cima… aí vem o BC e fica segurando a 2,20 pra segurar a inflação causada em boa parte pelos proprios aumentos do salário mínimo.

    A indústria ainda vai afundar muito antes de começar a se recuperar, lá quando o setor externo passar de deteriorado para completamente putrefo.

  4. Gostaria de ter “postado” esta resposta na coluna reservada ao tema “spread bancário”. Não foi possível. Cheguei atrasado, e os comentários já haviam sido desativados. Por isso, tomo a liberdade de postar nesta coluna, fora de lugar, portanto.

    Sei que você é um economista muito preparado e que dedica grandes esforços ao estudo de amplas temáticas. Só me cabe parabenizá-lo por isso e, em respeito à sua postura, faço alguns comentários de caráter crítico ao seu texto. Direto aos comentários.

    Venho estudando a temática que envolve os bancos, os spreads bancários em particular, há muitos anos. E o faço com o único propósito de oferecer respostas, de fundo econômico, para o desempenho que os bancos ostentam no Brasil. Muito especificamente, respostas que permitam avaliar os resultados bancários objetivamente, haja vista que os bancos brasileiros, de fato, praticam elevadas taxas de juros, se as compararmos ao padrão internacional, e exibem lucratividade quase sem par.

    Pois bem. Cheguei a algumas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, à conclusão de que há requerimento de rentabilidade mínima com o qual se defronta cada banco, tomado por suas características operacionais. Sim, há um requerimento de rentabilidade mínima. Em segundo lugar, de que esse requerimento de rentabilidade está associado à saúde financeira da instituição, de modo que, abaixo desse mínimo, se torna insustentável a continuidade de suas operações na linha do tempo. Em terceiro lugar, à conclusão de que os bancos brasileiros enfrentam condições verdadeiramente adversas no que tange a custos. Os elevados custos catapultam o requerimento de mínima rentabilidade, de modo que os bancos brasileiros ficam na contingência de realizar lucros elevados a fim de se manterem em estrito equilíbrio econômico. Em quarto e último lugar, de que os spreads entre retornos e custos, tomados em sua acepção ampla, envolvendo, pois, elementos financeiros e não financeiros, são praticamente nulos no Brasil. E assim tem sido nos últimos dez ou doze anos.

    A fórmula de cálculo da rentabilidade, associando-a ao spread entre retornos e custos e à alavancagem bancária, é uma função linear relativamente simples. O coeficiente angular dessa reta é dado pela alavancagem, de modo que, sendo a alavancagem uma característica diferenciadora entre os bancos, via de regra os bancos exibem rentabilidade bastante diversa entre si, embora pareçam, patrimonialmente, quase semelhantes.

    A temática é bem mais ampla e profunda do que as suas e estas minhas observações. Caso tenha interesse, poderemos aprofundar a discussão…

    Respeitosamente,

    Fernando

  5. Dr. Mansueto, Recentemente tive o privilégio de ouví-lo no programa Painel juntamento com o prof. Raul Velloso. Gostaria que o sr. fizesse alguns comentários sobre o que escreveu em 2011, se não me engano, prevendo o estouro da bolha imobiliária em 2015. Com o preço dos imóveis ultrapassando os patamares da irracionalidade, tenho 2 perguntas: 1) poderá haver um impacto do tipo calote no crédito oferecido pelos bancos públicos via LCIs? 2) teremos como cenário o estouro da bolha imobiliária? O que virá em seguida?

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