Os fundamentos econômicos estão ótimos? Brincadeira de mau gosto.

Só pode ser brincadeira. Hoje na Folha de São Paulo (clique aqui) ha uma matéria que diz que a presidenta Dilma busca um interlocutor na área econômica para acalmar o mercado. O que me impressionou foi a explicação de um ministro (que como sempre fala em off porque tem “convicção”) no final da matéria:  “Um ministro explica que a posição do governo será a de bater na tecla do presente, de que “os fundamentos do país estão ótimos” entre as principais economias do mundo: PIB, geração de emprego, reservas cambias e superávit.”

Isso só pode ser brincadeira e esse tipo de atitude serve apenas para piorar a falta de confiança do mercado no governo. Será que o governo teria coragem de falar o seguinte: “os fundamentos econômicos do Brasil estão ótimos e a desaceleração da economia é explicada, integralmente, pelos problemas do resto do mundo e pela incerteza em relação as eleições deste ano. A política econômica denominada de “Nova Matriz Econômica” será reforçada pelo governo do PT”.

Parece que não “caiu a ficha” do governo em relação ao desastre da “Nova Matriz Econômica”. Os jornais deveriam procurar os economistas ligados ao governo, como fizeram no aniversário do Plano Real, para “comemorar” o aniversário da Nova Matriz Econômica. O problema é que os economistas fogem da autoria da Nova Matriz Econômica como o diabo foge da cruz.

A verdade é que, com exceção do emprego, todos os indicadores econômicos pioraram nos últimos três anos. E o que causa preocupação no mercado é não saber se, em caso de reeleição, haverá de fato mudanças. Os nossos “fundamentos ótimos” são:

(i) A inflação consolidada perto do teto da meta de 6,5% e sem perspectiva que volte ao centro da meta;

(ii) O crescimento do PIB para este e o próximo ano na faixa de 1% a 1,5% e risco do baixo crescimento começar a afetar a taxa de desemprego já no segundo semestre deste ano;

(iii) Saldo da balança comercial piorou muito desde 2011 (passou de US$ 30 bilhões, em 2011, para US$ 2,6 bilhões em 2013) e déficit em conta corrente aumentou mais de 50% no mesmo período, sem o correspondente aumento da taxa de investimento;

(iv) A participação dos básicos na pauta de exportação passou de 50% no primeiro semestre deste ano e o Brasil vem perdendo participação nas exportações mundiais desde 2011, apesar da retórica recorrente do governo da importância da indústria e das exportações;

(v)  Os indicadores de confiança da FGV do comércio, serviços e industria estão todos em quedas consecutivas nos últimos quatro meses (seis meses no caso da industria). Índice de confiança da indústria está no seu menor nível desde maio de 2009,

(vi) O superávit primário, em 12 meses até maio, foi de  1,5% do PIB, queda de 50% em relação ao primeiro ano do governo atual (2011), quando foi de 3,1% do PIB. Se descontarmos as receitas extraordinárias de  novembro (leilão de libra e Refis), o primário em 12 meses até maio cai para 0,7% do PIB. Se descontarmos truques com restos a pagar, a conta de precatórios e sentenças judiciais que são tradicionalmente pagas em abril e neste ano foram postergadas para o final do ano, primário de 12 meses fica entre “zero” e 0,5% do PIB;

(vii) A taxa de juros Selic de 11% ao ano hoje é maior do que no início do governo Dilma quando era de 10,75% aa. Adicionalmente, a taxa de juros para pessoa física no segmento de crédito livre voltou para faixa de 42% ao ano -mesma taxa de 2011;

(viii) crescimento da despesa primária do governo federal em três anos de governo Dilma já foi de 1,5 pontos do PIB (ainda falta 2014), muito próximo aos oito anos de governo, quando foi de 1,7 pontos do PIB. A esse ritmo é certo que o governo aumentará a carga tributária ou a dívida. Neste ano até maio, a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) já cresceu em 1 ponto do PIB e a tendência para os próximos anos, dada a política econômica atual, é de crescimento;

(ix) De acordo com dados do IBRE-FGV, a produtividade da economia (PTF) está estagnada nos últimos três anos e a produtividade do trabalho estagnada nos últimos dois anos;

 (x) Taxa de investimento na economia está estagnada nos últimos três anos, por volta de 18% do PIB em valores correntes ou de 20% do PIB a preços constantes do último ano. O que preocupa é o forte aumento do déficit em conta corrente – em mais de 50% em três anos- apesar da estabilidade da taxa de investimento; 

O que podemos falar em relação à tendência? A tendência é de os indicadores melhorarem? Não, com a política econômica e com a equipe econômica atual, da qual a presidenta faz parte ativamente, a tendência é piorar porque a despesa pública continua crescendo a um ritmo muito acima do crescimento da receita, o que significa queda do primário; não há perspectiva de forte crescimento das exportações do Brasil e, logo, o déficit em conta corrente pode até melhorar mas continuará perigosamente elevado; e com inflação próxima ao teto da meta e ainda com a perspectiva de reajuste dos preços dos combustíveis e tarifas de energia, a inflação continuará elevada neste e no próximo ano e, logo, as taxas de juros permanecerão elevadas.

Por fim,  os empresários não voltarão a investir enquanto não enxergarem de forma muito clara como o (novo) governo resolverá os problemas acima. É bom mesmo que o governo indique o grupo de economistas que está pensando a “novíssima matriz econômica”. O problema é que, mesmo as pessoas próximas ao governo hoje, já namoram com a ideia que o melhor é voltar ao passado e restabelecer o tripé macroeconômico e a retomada da agenda de reformas.

12 pensamentos sobre “Os fundamentos econômicos estão ótimos? Brincadeira de mau gosto.

  1. Existe alguma novidade econômica, ou de simples pensamento econômico, vindo do governo. O governo, ou a governanta, é autista, auto-suficiente e satisfeito consigo mesmo.
    Tem o contentamento dos beatos, dos simples, dos ingênuos, dos ignorantes…

  2. Mansueto

    Há muita especulação (muito off) na reportagem da FSP.

    Eu não entendo esses jornalistas. Por que é tão difícil para eles perceberem que esse monte de off é muito mais evidência que o núcleo duro petista não sabe o que fazer para reverter o legado de “pibinhos” do governo Dilma?

    O nome de Barbosa, mais uma vez, reapareceu. E agora disputando a pole position com Mercadante!

    É uma coisa estapafúrdia juntar Barbosa e Mercadante nessa disputa. Qualquer um minimamente informado sabe que Mercadante não apita nada no PT em termos de condução de política econômica. Pode ser um palpiteiro, mas formulador não é e nunca foi.

    Mercadante nunca foi seriamente cogitado para a Fazenda desde a primeira eleição de Lula em 2002. E aparece agora? Quem pode levar essa especulação a sério? E outra, se for mesmo um dos nomes cogitados, puta que o pariu (desculpe o termo chulo)! Estão mesmo bem encalacrados e num beco sem saída.

    E Barbosa? Foi fritado por Dilma e por isso saiu. Arno Augustin é petista fundador e ligado à corrente Democracia Socialista. Trabalhou com Dilma no governo Olívio Dutra no RS. Barbosa, apesar de antigo eleitor de Lula, nunca se filiou ao PT. Barbosa talvez seja “cogitado” por lulistas do “volta Lula”. Afinal, quando perguntados em off por jornalistas precisam dizer um nome ou insinuar um. E então vão de Barbosa. Por que não vão perguntar diretamente ao Barbosa se ele de fato está dentro dessa?

    Dilma goitar Barbosa? Duvido. Barbosa é um estranho no ninho dos economistas de Dilma.

    Barbosa, desde que saiu, ocupa nas especulações dos jornalistas o papel de eterno “cogitado”. Surgiu pela primeira vez como forte “cogitado” para assumir a vaga do petista Pimentel no Ministério do Desenvolvimento.

    E Dilma colocou quem no no lugar do mineiro? Mauro Borges, presidente da ABDI (órgão do MDIC) e professor titular do Departamento de Ciências Econômicas da UFMG.

  3. Os nomes dessa lista são de fazer chorar qualquer um. Que lástima ver que nos encaminhamos para mais 4 anos de governo lixo, sabendo que os principais partidos de oposição possuem nomes muito mais qualificados. Os do PT sequer experiência de mercado possuem, são todos políticos e burocratas.

  4. Sem querer fazer polêmica, mas o típico eleitor petista é minoria, fez sociologia na USP e mora na V. Madalena. Eu creio honestamente que em 2010 havia motivos sólidos para votar na Dilma. Ela era poste do Lula, mas além disso, dizia-se, era uma eleição de “gerentes”. Parecia que o pais não abandonaria certos fundamentos e conquistas. Acho que até 2012 houve o benefício da dúvida, mas depois ficou claro que o projeto populista era o objetivo. Não esperava, contudo, que a mascara cairia tão rápido, e que as medidas populistas já se mostrassem fracassadas em tão pouco tempo. Basta ler o blog q vc verá todas elas: energia, Petrobras, juros, campeões nacionais, e por aí vai. Talvez o melhor previsor tenha sido o Celso R. Barros, em seu excelente artigo sobre a Dilma na hora H, em que seu único problema lógico era achar que o nacional- desenvolvimentismo era uma coisa boa… Um petista típico.

    • Com certeza. Com 80% de aprovação não era de se estranhar que ela fosse eleita. Mas a propaganda desinformativa e vitimista está mantendo as intenções de voto no mesmo nível.

  5. nao se esquecam que as bandeiras da esquerda de desigualdade e diminuicao da pobreza foram destruidas pelo governo Dilma

    desigualdade: toda a ajuda ao empresariado (BNDES, restricao de importacoes) foi muito maior do que valor do Bolsa Familia. Diria que a desigualdade cresceu durante o governo Dilma

    reducao da pobreza: o valor pago pelo Bolsa Famillia esta defasado e com certeza algumas dezenas de milhoes de pessoas ja voltaram ao nivel de miseravel.

    Isso sem dizer que o imposto alto no consumo prejudica muito mais aqueles de baixa renda e a restricao de importacao os afeta mais tambem ja que nao vao ao exterior fazer compras.

    Que um governo que se considera de esquerda faca isso e absolutamente patetico. O que eles querem nao e melhorar a vida dos pobres e sim “engolir” o capitalismo de livre mercado, feito por decisoes da sociedade, para dentro do governo controlando tudo na economia.

  6. Ironia: a Dilma começou o mandato dando aulas de Economia para a Alemanha, e terminamos, em casa, recebendo aulas de Futebol dos Alemães.

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