Esperança no futuro. Qual futuro?

Na entrevista que o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, deu à revista Conjuntura Econômica na edição de abril de 2014, com o titulo “Esperança no Futuro”, o secretário falou que:

“Os investidores estrangeiros têm visto o Brasil de forma muito positiva e isso pode ser demonstrado facilmente. O investimento feito por eles cada vez mais ocupa uma parcela maior da dívida interna. Isso significa que estão entrando para investir na nossa dívida e confiam, portanto, nela e também nas nossas emissões externas…”

Essa é uma meia verdade e digo isso porque já fiz a mesma pergunta a vários investidores estrangeiros. Nenhum investidor estrangeiro acredita que o Brasil, um país que é credor liquido em dólar, corre o risco de dar calote. Assim, ninguém trabalha com o risco de default. Todos consideram a gestão macroeconômica recente desastrosa, mas como me falou um deles:

“Quem sem importa! Você estão me pagando muito bem para eu colocar meu dinheiro aqui em renda fixa e ainda tenho a segurança da taxa de câmbio com as intervenções do Banco Central. Vocês que deveriam estar preocupados com uma combinação de juros altos, baixo crescimento e inflação elevada”.

Vamos aos fatos. Em outubro de 2010, o governo brasileiro elevou o IOF sobre aplicações em renda fixa de 2% para 6%. O sinal era muito claro: não queremos a entrada forte de recursos  para renda fixa. A queda da taxa de juros também ajudou a reduzir a atratividade do investimento estrangeiro em renda fixa.

O gráfico abaixo mostra que, um ano depois dessa medida, o investimento externo líquido em renda fixa no Brasil (série 8225 do BACEN), acumulado em 12 meses,  passou de um saldo positivo de US$ 16,6 bilhões para um saldo negativo de US$ 735 milhões. Em outubro de 2011, o Investimento Direto Externo (IDE) em 12 meses era de US$ 75 bilhões para um déficit em conta corrente em 12 meses de US$ 48 bilhões. Ou seja, o IDE era mais do que suficiente para financiar o déficit em conta corrente no final de 2011.

Tudo isso mudou para pior. O déficit em conta corrente agora é de US$ 81 bilhões e o IDE foi reduzido para US$ 64,4 bilhões, insuficiente para cobrir o déficit em conta corrente. Em condições normais de temperatura e pressão, a taxa de câmbio deveria estar se desvalorizando, mas as intervenções do Banco Central no mercado cambial e a forte entrada de recursos para investimento em renda fixa evitam a depreciação do Real.

E no caso do investimento em renda fixa, o governo agradece a forte entrada de capital que, em 12 meses até abril de 2014, alcançou um saldo liquido acumulado de quase US$ 37 bilhões, ante um saldo negativo de US$ 735 milhões em 12 meses de outubro de 2011. O que aconteceu? Duas coisas. A forte elevação da taxa de juros doméstica de 7,25% ao ano para 11% ao ano e o governo, em junho de 2013, reduziu o IOF sobre aplicações de estrangeiros em renda fixa de 6% para “zero” – observem o forte crescimento do investimento estrangeiro em renda fixa de maio a setembro de 2013.

Moral da história: a turma de fora está trazendo muita grana para o Brasil não porque “confia no Brasil”, mas sim porque : (i) pagamos a eles uma taxa de juros estratosférica, (ii) o governo reduziu de 6% para “zero” o IOF de aplicações de estrangeiros em renda fixa, e (iii) ainda sinalizamos este ano uma banda cambial que diminui o risco de aplicar em renda fixa no mercado doméstico.

Atrair “capital especulativo” é uma política consciente do governo e uma forma de financiar nosso déficit em conta corrente sem perder reservas cambiais. Não é sinal de confiança. Estamos pagando muito caro para que os estrangeiros “confiem no Brasil”. 

Investimento Externo em Carteira – Renda Fixa Curto e Longo Prazo negociado no País  (líquido) – acumulado em 12 meses – JAN/2008-ABR/2014 – US$ bilhões

BACEN01

 

Saldo em Conta Corrente – acumulado em 12 meses – JAN/2008-ABR/2014 – US$ bilhões

BACEN02

Investimento Direto Externo- acumulado em 12 meses – JAN/2008-ABR/2014 – US$ bilhões

BACEN3

 

 

29 pensamentos sobre “Esperança no futuro. Qual futuro?

  1. Somos o 4º ou 5º maior receptor de capital de longo prazo do mundo — IED. Num universo de mais de 150 estados nacionais, até que não estamos tão mal assim.

    È um sinal vital de que a economia brasileira, a longo prazo, oferece bom retorno aos investidores internacionais.

    Os capitais de curo prazo são um complemento.

    Em breve, teremos uma razoável desvalorização do R$, que será benéfica às contas externas, e à economia como um todo. Mais um ajuste no câmbio ocorrerá.

    Teremos, sim, que administrar a velocidade dessa futura desvalorização e os inevitáveis impactos nos preços da economia, em geral. Nada de crises e alarmismos.

    Estamos há, pelo menos, uns três anos vivendo um anti-clímax de crises, “tempestades perfeitas”, etc…..etc…..

    Os investimentos em infra-estruturas estão em processo de maturação —- o que acarretarão impacto positivo no “custo Brasil” e na produtividade.

    Às vezes, exageramos nos comentários e análises. Veja o evento de entretenimento —– Copa do Mundo. Seria um fracasso, sem aeroportos, sem mobilidade para os torcedores e turistas, segurança seria falha, etc….

    E o que estamos observando, de fato ?? A Copa vem sendo um sucesso sob todos os aspectos, a despeito de todas aquelas previsões alarmistas da mídia corporativa. Na verdade, procuraram “atacar” a Copa com finalidades eleitorais….óbvias.

    Final do mês deverão ser criados o Banco dos Brics ( desenvolvimento ), e um fundo de contingência ( tipo FMI ) —– o que significará maiores oportunidades para nossa economia.

    • Copa do mundo está indo muito bem e aeroportos estão dando conta da situação. Mas quando olhamos para macroeconomia, não tenho como ficar otimista.

      o IDE se direciona principalmente para setor de serviços e para aquisição, não é greenfield. Logo, não terá grande impacto nas exportações.

      Por outro lado, desvalorização real significa no curto prazo redução real de salários que o governo quer evitar a qualquer custo. Assim, se houve desvalorização será muito mais imposta por mudanças no front externo.

      Quase US$ 40 bi de renda fixa, com o IOF zero e déficit em conta corrente de quase 4% do PIB com taxa de investimento em 18% do PIB? me parece um equilíbrio muito ruim.

      Ninguém está falando em catástrofe, mas em equilíbrio medíocre: inflação perto de 6,5% juros em dois dígitos e crescimento abaixo de 2% ao ano.

      E não vejo no governo hoje ninguém com clareza para resolver a situação. Quem na sua opinião é o grande formulador da política macro do governo?

      E o banco do BRIC é um absurdo. Qual a vantagem? se for para pegar dinheiro barato da China nem precisa criar um banco. E nós não temos poupança nem para capitalizar o BNDES (fazemos por aumento da divida) e vamos “criar” para capitalizar um banco do BRIC? desastre.

      • Sim, o equilíbrio é medíocre, mas não é “privilégio” nosso.

        Veja a U.E., os EUA, enfim. Estamos(ocidente) convalescendo da maior crise financeira, fiscal e econômica ( recessão, baixo crescimento e desemprego ) desde os idos da década de 1930, nos países centrais da OCDE.

        O equilíbrio externo —- que é o mais importante —- a curto prazo será ajustado ( assim, eu espero ). As concessões ao setor privado permitirão maior competitividade à economia como um todo, e está em processo de maturação.

        Não fossem as reservas cambiais acumuladas, creio, estaríamos, aí sim, em seríssimas dificuldades. Dado nosso nível de reservas aliado ao controle/decrescente nível de dívida líquida interna a economia brasileira mantém-se aceitavelmente estável.

        Não podemos esquecer que ainda temos cerca de 40 à 50 milhões de brasileiros “doidos” e prestes a serem incluídos na “vida” econômica do país. Então, a médio prazo, num momento não muito distante teremos um novo e forte ciclo de demanda no país. Desta feita, espero, que não ocorra o descompasso ( demanda/oferta ) que ora vivemos. Além do desafio do controle da inflação e do câmbio,que não podem ser, e não serão escanteados.

        Sou otimista. Creio que conseguiremos avançar e incluir esses 50 milhões no mercado de consumo.

        Sabemos que o sistema Bretton-Woods —- que foi muito útil no período pós guerra —– vem se debilitando, em particular, pós crise de 2007/2008.

        A partir daí abriu-se um flanco, um espaço —- que a China busca ocupar.
        Não sairemos do âmbito ocidental, pois continuaremos sócios das instituições multilaterais…FMI, BIRD, BID……

        Espero que as negociações e os acordos a serem firmados fortaleçam o posicionamento do Brasil. Só o tempo dirá. O fato é que o BIRD e o FMI, além dos tesouros e bacens ocidentais estão em sérias dificuldades.

        No fundo, e na realidade trata-se uma disputa política. Aliás, como quase tudo em economia, a precedência é de caráter político.

      • sim, eu errei. Não espero inflação em dois digitos. Na verdade queria falar juros alto em dois dígitos. Há cerca de dis anos muitos apostavam que os juros no Brasil ficaria abaixo de 10% ao ano e poderiamos a ter sonhar em zerar défict nominal. Mas não deu certo. Vou corrigir.

    • A posição vendida dos swaps cambiais deve estar por volta dos USD 80 BI à USD 100 BI. O Bacen tem obtido bom retorno nessas operações, dada a queda do dólar.

      O mais importante é o conceito do passivo externo líquido — uns USD 800 BI, acho. É mais abrangente pois inclui o estoque de IED.

      • Sim, mas o correto seria, dado o déficit em conta corrente de 3,6% do PIB, o Real se desvalorizar. O BACEN está adiando o ajuste por causa da inflação.

        Segundo, o nosso passivo externo liquido de US$ 860 bi é mais do que o dobro do que era no final de 2005: US$ 326 bilhões. Ou seja, do ponto de vista financeiro estamos mais exposto à conjuntura internacional.

        Terceiro, dado que a poupança doméstica vem caindo, aumentamos também a nosso dependência do resto do mundo para aumentar a taxa de investimento.

        Tudo isso aconteceu apesar da acumulação das reservas.

  2. Vcs que são de Brasília, acharam que o Aeroporto funcionou bem ontem? Acho que a vitória ameniza, mas não funcionou não.

  3. Mansueto, qual é o custo do dinheiro do FMI? Certamente não é maior que 11% a.a. Melhor seria financiar o déficit externo com os recursos desta instituição pois o sacrifício em termos de serviço da dívida seria menor.

  4. Problemas de lotação e decolagem. A questão é que funcionar com horas de atraso não mata; só de raiva. Nos tempos do apagão aéreo, tb.
    Eu acho o seguinte: pra quem mora em SP e ouviu o jogo do Brasil pelo rádio, é difícil dizer que funcionou – o Pelé seu primeiro jogo pelo rádio desde a Copa de 1950. Houve invasão em dois jogos no Maracanã. Tanto que vai ser feriado amanhã. O estádio de abertura funcionou com 10% a menos de capacidade. Fazer funcionar um evento simples (são só 64 jogos em 12 cidades), parando um país de 200 milhões fica fácil. Nada apocalíptico como o que ocorreu com a Colômbia, que perdeu o direito de sediar, ou com os jogos de Munique. O que está funcionando é dentro de campo, que a Copa realmente está bem jogada. E no fundo isso é o que mais interessa.

  5. A “ida” ao FMI significa que o país está num processo iminente de insolvência. Seu risco de crédito ( calote, ou não pagamento por impossibilidade técnica ) vem subindo rapidamente. Assim, as taxas de juros cobradas do “iminente insolvente” sobem sobremaneira.

    E o mercado de crédito em geral, principalmente o interbancário ( curto prazo ) praticamente congela as linhas para o quase insolvente, e o país fica sem qualquer linha de financiamento.

    O governo FHC viveu três (3) vezes essa situação, de ter que recorrer ao FMI. As taxas de juros são mais baixas, sim. Mas as condicionantes são basicamente: aumento brutal das taxas de juros, corte de gastos, desvalorização do câmbio, com consequente aumento do desemprego, e renda.
    O FMI foi criado no pós-2ª guerra com esse objetivo.

    Portanto, o recurso de se recorrer ao FMI é péssimo para a sociedade,e para a população.

    A alta rejeição ao FHC (perto de 60%), mesmo passados 12 anos de sua saída do Planalto, tem relação estreita com as condicionalidades a que me referi acima.

  6. Hilário

    Eu gosto de futebol e adoro copa do mundo.

    No entanto, eu também pergunto: Se a maioria dos clubes brasileiros não tem renda pra financiar um time, se a maioria dos torcedores brasileiros não tem grana pra pagar um ingresso, o que fazer com esses estádios depois da Copa?

    Quanto vai custar para os clubes jogar nesses estádios? Quanto vai custar o ingresso para jogos nesses estádios?

    Quem vai bancar o custeio das Arenas de Manaus, Cuiabá, Natal, Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Curitiba? Aliás, alguém já fez a conta de quanto vai custar por ano a manutenção desses estádios?

    Não incluo BH porque não sei. O que tem viabilidade é POA, SP e RJ.

    O Arena Pernambuco fica no município de São Lourenço da Mata na Região Metropolitana e a 19 km de Recife, com capacidade para mais de 40.000 torcedores.

    O site da FIFA anunciou que o Náutico fechou um acordo para fazer todos os seus jogos em São Lourenço. Não sei se o Náutico combinou com os torcedores.

    http://pt.fifa.com/worldcup/destination/stadiums/stadium=5025134/index.html

    Qual a média de pagantes por jogo no campeonato pernambucano?

    Alguém sabe como estão hoje os estádios da África do Sul?

    O ESP publicou uma reportagem sobre os estádios construídos em Portugal para a Eurocopa de 2004 com capacidade para 30.000 torcedores (os nossos são para mais de 40.000). De acordo com a reportagem, discute-se seriamente a demolição de estádios como alternativa aos custos de manutenção.

    http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,portugal-projeta-demolicao-de-estadios-ociosos,1060595

    PS; Você citou “previsões alarmistas da mídia corporativa”. Poderia explicar o conceito “mídia corporativa”? O que é “mídia corporativa”?

  7. Um país ter que decretar ponto facultativo/feriado nas sedes em dias de jogos é a maior prova da incompetência total para se organizar uma copa.

    Quanto à economia, acho que temos que parar de ficar sempre buscando uma causa externa. A culpa é da crise externa, a culpa é dos EUA, a culpa é do FMI, a culpa é da desaceleração da China… Enquanto não fizermos uma análise crítica honesta de nossos próprios erros vamos ficar com esse discurso institucional que mais parece propaganda partidária. Quando vai mal a culpa é dos outros, quando vamos bem o mérito é nosso.

    Mansueto, parabéns por ser um dos poucos analistas que vão a fundo nas questões, com números e argumentos sólidos. As conclusões eventualmente podem estar equivocadas, mas para serem refutadas os críticos precisam de argumentos, pelo menos tão sólidos quanto os apresentados. Quando leio críticas baseadas em achismos e suposições sinto até um pouco de vergonha alheia.

  8. Paulo Araújo, é uma expressão utilizada para identificar, basicamente, quatro (4) grandes empresas de comunicação, de viés patriarcal e familiar: as famílias Marinho, Frias, Civita e Mesquita.

    E dominam o mercado de publicidade e audiência —- particularmente o complexo Globo. A TV Globo detém uma média de 35% à 40%, embora cadente.

    Como contraponto, a CBS (EUA) detém no máximo 12% da audiência americana; o concorrente mais próximo, 8%.

    Uma nova lei de mídia ( TV e rádio ) precisa ser votada e aprovada no Congresso Nacional —- afinal de contas, trata-se de concessão de serviço público.

    Até o México e Argentina, recentemente aprovaram novas legislações, e iniciaram o processo de “desmontagem ” da Televisa e do Clarin, respectivamente.

    Aqui….no Brasil dizem que “querem” implantar uma ditadura, censura, e outras baboseiras mais………….

    Agora mesmo, vivemos um “terrorismo midiático” contra a Copa do Mundo —– que do ponto de vista racional foi “inexplicável”……..de fato, havia uma explicação……eleições de outubro…..

    Assisti, ontem à noite, a própria Globo ( SporTV ) “reconhecendo” e exortando o sucesso da Copa em todos os sentidos. O caos propagado não ocorreu.

    Não podemos ficar submetidos a monopólios e oligopólios da mídia. Precisamos fracionar a informação.

    O mundo ocidental todo regula e controla seus meios de comunicação.

    • O principal problema ai é a concentração de receita publicitária na Globo, que mesmo com a audiencia caindo tem as receitas aumentadas, atraves de práticas pouco concorenciais, como o tal bonus de volume, etc..É realmente um mercado que precisa de regulação, mas não é prioridade do Governo e nem do País, que também tem que parar de falar em regulação de mídia, mas sim regulação do mercado de mídia. Agora, imaginem se ganha o outro candidato o que não poderá fazer ? É só ver o que é a mídia no estado que foi governado por ele. Mais chapa branca impossivel. Ai sim é complicado.

    • Hilário

      Eu torço pela seleção e fui e sou contra a copa no Brasil.

      Você exagera ao propor a correlação “terrorismo midiático” e “eleições de outubro”.

      A Globo vive de vender publicidade com base em audiência, certo? O que a Globo teria a ganhar apostando no fiasco da copa e na desclassificação do Brasil? Nada. A Globo só teria a perder. Perderia faturamento.

      Retorno à questão central do propalado legado da copa.

      A FIFA propôs ao governo uma copa mais regionalizada com 8 estádios. O governo brasileiro recusou e apresentou contra-proposta para 12 estádios. Um megalomaníaco aumento de 50% sobre a proposta original de 8 estádios!. E o governo fez isso sem mirar as eleições de 2014?

      O problema do custo, financiamento e renda das Arenas é uma encrenca mundial. Vários países não sabem o que fazer com esses estádios depois das copas e dos eventos olímpicos. Discute-se se já não passamos de um limite razoável. Em 2004 a FiFA exigia estádios para um mínimo de 30.000 torcedores. O mínimo subiu para 40.000.

      A FIFA está pouco se lixando para o custo de reforma e construção dos estádios. E tem outra: as exigências da FIFA são tais que elas impedem a flexibilização desses estádios para servirem de palco a outros eventos.

      Somente em 2012 surgiu um índice baseado em custos de construção e taxa de ocupação das Arenas após os megaeventos esportivos para as quais são construídas. Trata-se do World Stadium Index. Stadiums built for major sporting events – bright future or future burden?

      This report from the Danish Institute for Sports Studies/Play the Game has the objective to obtain a greater understanding of the sporting legacy of stadiums built for or having undergone major renovations to host a major international sporting event. Several brand new stadiums have been built or renovated for
      specific events, but the legacy of such stadiums and to what extent they are used after the event are in many cases unclear.

      http://www.playthegame.org/media/1965212/world_stadium_index_final.pdf

      O texto é longo com mais de 100 páginas e muitos gráficos. Li bons artigos na imprensa estrangeira a respeito. É só jogar no google que aparece.

      Qual será o futuro do Engenhão quando Flamengo e Fluminense voltarem a jogar no Maracanã?

      A principal crítica que hoje se faz à megalomania dos grandes eventos é que a diferença entre benefícios e custos para o país que sedia não é a maravilha anunciada. Isso vale para o Brasil e para outros países.

      O que se critica hoje é a prevalência do “viés de otimismo” no momento da decisão de trazer ao país um megaevento. Viés que depois não se confirma. Ou, como dizem os economistas, ocorre deliberadamente a “deturpação estratégica” que superestima os benefícios e subestima os custos para aumentar a probabilidade de aprovação de alguns projetos em detrimento de outros que lhe são concorrentes.

      E isso não ocorre só no Brasil.

      O melhor ensinamento que podemos retirar da decisão da fazer copa no Brasil é que toda vez vez que um operador do Estado apresentar um projeto de alto custo, será preciso não ter receio de enfrentar as acusações de pessimista-anti-Brasil e ir fundo na crítica das estimativas de custos e benefícios apresentadas.

      Na minha opinião, a imprensa não cumpriu esse papel. Limitou-se mais a repercutir as denúncias de atrasos, superfaturamento e protestos nas ruas do que ir fundo na investigação das estimativas de custos e benefícios.

      • Paulo Araújo, como disse o SoulSurfer, é uma questão de ponto de vista, lógico…..

        A Globo já havia repassado os direitos de transmissão com antecedência, e “fechado” com a grande maioria dos patrocinadores. Obviamente, a Globo não é a favor da desclassificação prematura do Brasil.

        Toda essa questão custo/benefício, realmente, é polêmica. E mais uma vez, depende muito do viés de análise. O economista Pedro Trengrouse, da FGV-RIO, p.ex., sustenta por suas análises e projeções que a Copa do Mundo no Brasil será benéfica ao país.

        O Engenhão voltará a ser pelo gerido pelo Botafogo, e após as reformas de seu entorno, provavelmente, será negociado um bom valor em naming rights.

        Não é nenhuma maravilha, todos sabemos disso, nem resolverá todos os problemas de qq sociedade, claro, mas, no meu ponte de vista, os benefícios superam os custos. Mais uma vez: depende muito do enfoque.

        Não vejo concorrência alguma. O custo dos estádios é pequeníssimo ( R$ 9 bilhões ), sendo metade financiado por recursos privados. R$ 4,5 BI financiados por BNDES e Cef, com fianças e garantias bancárias,ou seja, risco de crédito baixo.

        Para um PIB estimado em R$ 4,8 TRI, quanto representa o valor de R$ 9 BI (estádios) ??

        Apenas, aproximadamente, 0,2% do PIB. Ou seja algo próximo a R$ 9 BI.

        Fazendo uma analogia, supondo que percebo R$ 5,000,00 mensais, gastaria uns R$ 10,00 para promover uma festa em minha casa para meu neto. Ou seja, quase nada……. “de graça”……

        Ou seja, o tão propalado “gasto exuberante” nos estádios da Copa, no fundo mesmo, é uma mistificação, uma manipulação. È preciso lembrar que temos o 5º ou 6º maior PIB do mundo.

        A chamada mídia patriarcal deslocou o foco para um viés nitidamente negativo, no que se refere aos serviços correlatos ao evento, esquecendo-se de que a Copa do Mundo, antes de tudo, é um evento de entretenimento.

        Evidentemente, teve um viés de desgaste do governo federal ( eleições….).

        Aliás, seu derradeiro parágrafo corrobora meu ponto de vista —– no que concerne à atuação da grande mídia. Concordo integralmente.

      • Hilário

        Fazer estádio padrão FIFA é caro em qualquer lugar do mundo. Aqui ficou um pouco mais caro, algo em torno de 10% a 15%, se comparado com o padrão internacional, exceto BSB, BH e RJ que ficaram bem acima da média (para as comparações, ver World Stadium Index)

        Sem dúvida não concordamos no que não só para mim é essencial. Eu me alinho com muita gente que pensa que a racionalidade que ordenou e executou a copa do mundo no Brasil é a mesma que defende a prioridade para a execução do trem-bala. A lógica é a mesma: subestimação dos custos e superestimação dos benefícios.

        Não posso concordar com o raciocínio que prioriza a construção estádios de futebol. Nossas prioridades são outras: saneamento básico, transporte urbano etc.

        Por mais que me mostre os seus números de PIB X gastos com a copa, você não me convence que R$ 9 bilhões é dinheiro de pinga. Por esse caminho, é possível também justificar a prioridade do trem-bala, cuja estimativa de custo pulou R$ 18 bilhões para R$ 35,6 bilhões até 2008. Não sei fazer atualização desse valor de 2008 para 2014, mas acho que subiu bastante.

        Quanto a estimativa de custo de 2008 representava do PIB? De acordo com o IBGE o PIB de 2008 foi R$ R$ 2,9 trilhões (não sei se esse número foi revisado). Seguindo sua lógica, a estimativa de custo do trem-bala equivaleria à “merreca” de 1,23% do PIB de 2008. Então, por que não fazer o trem-bala!?

        Você escreveu

        “A chamada mídia patriarcal deslocou o foco para um viés nitidamente negativo, no que se refere aos serviços correlatos ao evento, esquecendo-se de que a Copa do Mundo, antes de tudo, é um evento de entretenimento.”

        Entretenimento, sim. Porém, a maioria dos brasileiros não está dentro dos estádios e sim vendo a copa pela televisão. E aí tanto faz se ela é aqui ou no Japão.

        Você citou Pedro Trengrouse.

        Mas acho que você não viu a entrevista que ele deu para o Globo:

        “Governo errou ao criar expectativa exagerada e não conseguiu entregar”

        Em entrevista, advogado e consultor especializado em legislação e responsabilidade social do esporte diz que Copa é apenas uma festa

        Pedro Trengrouse não concorda com a arenga de que a “mídia patriarcal deslocou o foco para um viés nitidamente negativo”.

        O Globo: Que erros o governo cometeu para provocar tantos protestos contra a Copa?

        Pedro T: A Copa não passa de uma grande festa, não tem o poder de transformar a infraestrutura do Brasil ou de qualquer outro país. O GOVERNO ERROU ao associar a Copa a obras nos aeroportos, mobilidade urbana, telecomunicações ou segurança. O Brasil, uma das dez maiores economias do mundo, JÁ DEVERIA TER ISSO com ou sem Copa. Os recursos investidos nessa área já estavam nos cofres públicos, não foram trazidos pela Copa. O ERRO FOI INCLUIR ESSAS PROMESSAS no pacote da Copa. Criou-se uma expectativa EXAGERADA e não conseguiu entregar. A frustração é enorme, mas as obras da Copa são os estádios, que estão prontos. Todo o resto não diz respeito à Copa.

        Pedro Trengrouse defende a copa no Brasil e deixa claro para quem quer entender que os aspectos críticos relacionados à copa não foram uma invenção da “mídia corporativa”. O governo superestimou os benefícios (promessas não cumpridas e incluídas no pacote da Copa). O que a imprensa fez foi noticiar que o governo entregou menos do que prometeu.

        Pedro Trengrouse acerta na mosca: “Criou-se uma expectativa exagerada e não conseguiu entregar.” E quem criou o “viés otimista” e a “deturpação estratégica” foi o governo. A imprensa não inventou isso.

        Leia a entrevista toda.

        http://oglobo.globo.com/brasil/pedro-trengrouse-governo-errou-ao-criar-expectativa-exagerada-nao-conseguiu-entregar-12601216#ixzz35nM2exF4

  9. Hilario, com todo o respeito, pois seus argumentos são muito bons e é sempre bom ter um contraponto, acho que estamos um pouco longe demais.
    A copa está longe de ser um sucesso. Nós tivemos 7 anos para organizar o torneio, e o estádio da abertura, que ainda não está 100% pronto, e estava em obras importantes 40 dias antes do torneio. Com todo respeito isso mostra que somos ineficientes e desorganizados, e sempre deixamos tudo para a última hora na espera que tudo dê certo. Com uma copa do mundo, tudo bem, pois o estrago é pequeno. Mas vamos ter essa postura também em relação a bomba-relógio da previdência? Gastamos 12% do PIB, o mesmo que países consolidados demograficamente como França e Japão, em pleno bônus demográfico. Eu fico impressionado como isso é tão pouco debatido. se os países europeus já possuem sistemas pressionados, imagina o Brasil em 2040 quando a transição demográfica ocorrer, e o número de pessoas com 65 anos aumentar quase 400% (segundo expectativas do IBGE)? Vamos esperar que tudo se resolva em cima da hora como sempre? Portanto, a copa do mundo,e por isso a decepção, poderia ser uma mensagem para o mundo, mas principalmente para os brasileiros, que o Brasil estava realmente mudando a forma de encarar os desafios e de se organizar.

    Além do mais, quando o Brasil foi escolhido como sede, foi dito claramente que era a copa da iniciativa privada. O que se viu? Dinheiro público, e obras estourando o orçamento diversas vezes. Logo, o que temos para comemorar? O que mudou no Brasil realmente num sentido mais profundo? Isso sem contar estádios que terão pouco uso, e darão prejuízo como Manaus, Natal, Brasília.

    Se formos ainda para o futebol, o que essa copa ajudou para organizar o futebol brasileiro? Dos 23 jogadores 19 jogam no exterior (sendo que dos jogadores brasileiros que jogam aqui, 3 são reservas e dois são goleiros). O que foi feito para mudar isso? Absolutamente nada. A mesma corja continua no poder de gestão, os clubes cada vez mais endividados, e a média de público de futebol no Brasil caindo desde a década de 90 (atualmente perdemos em média de público para a China, EUA, segunda divisão de Alemanha/Inglaterra, é até vergonhoso comparar com as médias européias).

    Sobre o caos, havia dúvidas sim, pois a copa das confederações foi caótica. Quem poderia dizer se os protestos iriam aumentar ou não, se iriam ser violentos. Se a nossa infra-estrutura é precária, não vejo qualquer erro, ou interesse eleitoral, em extrapolar a dúvida para esse evento.

    O Brasil está se tornando um país violentíssimo novamente, o índice de assassinatos por 100 mil subiu para 29 em 2012, não era tão alto assim desde a década de 80.
    O nosso saneamento básico é horroroso e pouco avançamos em 20 anos.
    O nosso desempenho no teste PISA educacional é patético desde que ele começou em 2000. O pior é sem quebrarmos os testes, a gente vê que 60% chineses conseguiram a classificação máxima, contra menos de 1% dos brasileiros. Ora, isso nada mais é do que a perpetuação de uma elite intelectual, ou tirante esses 1% nós vamos ter condições de competir com chineses, coreanos, alemães, em mercados de alto valor agregado, onde é necessário muita educação?

    A nossa produtividade teve crescimento pífio na última década. Por qual motivo, com um sistema educacional precário, achamos que vamos aumentar a produtividade? Os nossos investimentos em menos de 18% são os menores da América Latina, nem podendo se comparar com outros emergentes, como nós vamos crescer com taxas assim? Se a nossa taxa de poupança é baixíssima, a menor desde 2001, como vamos nos financiar a não ser com dinheiro de fora, e se este dinheiro parar de vir por qualquer motivo, o país pára de crescer?

    Portanto, eu não vejo motivos para ser otimista a curto e médio prazo. O Brasil é um país continental com 200 milhões de habitantes, com quase todo território com potencial de aproveitamento econômico, sem grandes problemas étnicos e religiosos, ou seja não há nada justificável para sermos um país com números horríveis de IDH, GINI, educação e de renda. O que justifica é a nossa ineficiência, e o nosso eterno otimismo com o futuro, e nunca queremos encarar a dura realidade que nós temos limitações enquanto nação e povo, e trabalhar para vencer essas limitações.

    Abraço a todos.

    blog pensamentos financeiros

  10. Soulsurfer, o ponto fundamental a ser considerado é que a Copa do Mundo é uma grande festa. E partindo dessa premissa, a Copa vem sendo realizada com enorme sucesso.

    A propósito do “uso de recursos públicos na Copa”, copio e colo msg ao P.Aurujo, acima:

    “Não vejo concorrência alguma. O custo dos estádios é pequeníssimo ( R$ 9 bilhões ), sendo metade financiado por recursos privados. R$ 4,5 BI financiados por BNDES e Cef, com fianças e garantias bancárias,ou seja, risco de crédito baixo.

    Para um PIB estimado em R$ 4,8 TRI, quanto representa o valor de R$ 9 BI (estádios) ??

    Apenas, aproximadamente, 0,2% do PIB. Ou seja algo próximo a R$ 9 BI.

    Fazendo uma analogia, supondo que percebo R$ 5,000,00 mensais, gastaria uns R$ 10,00 para promover uma festa em minha casa para meu neto. Ou seja, quase nada……. “de graça”……

    Ou seja, o tão propalado “gasto exuberante” nos estádios da Copa, no fundo mesmo, é uma mistificação, uma manipulação. È preciso lembrar que temos o 5º ou 6º maior PIB do mundo”.

    Voltando:

    A questão das propaladas reformas da previdência, tributária, etc.. de fato, teremos que enfrentar o nó atuarial (previdência) e encontrar saídas que equilibrem nossos orçamentos. Uma reforma política também se faz necessária. Concordo com vc.

    A discussão sobre o “interesse eleitoral” da grande mídia, é uma questão de ponto de vista: eu, notoriamente, percebi ação deliberada visando a desgastar e fragilizar o ente federal. Mas, considero seu enfoque.

    Com relação ao estoque do passivo social, tipo saneamento básico, educação, saúde, etc…. creio que estamos avançando ( não no ritmo que gostaríamos e precisaríamos ), mas……é o nosso ritmo.

    Digo até que a velocidade de inclusão sócio-econômica, assim como as ações visando à diminuição do estoque do passivo social teve razoável aceleração nas últimas duas décadas, vis-à-vis períodos passados.

    Os dados relativos ao IDH, Gini, renda e educação realmente deixam muito a desejar. Mas é preciso observar que a tendência, a curva aponta avanços ( no nosso ritmo, é claro ) em todos quesitos sócio-econômicos.

    Não podemos esquecer que – não obstante termos o 5º maior PIB (PPP) do mundo, éramos, e somos, ainda, um dos países com maior desigualdade na distribuição de renda e riqueza no mundo.

    O nosso estoque de passivo social é enorme. Temos ainda a integrar, a incluir no processo sócio-econômico cerca de 50 milhões de brasileiros. É uma árdua tarefa.

    Precisamos compreender que a prioridade é criar condições de acesso “aos marginalizados do processo econômico-social”. Para logo em seguida, priorizarmos o nível de qualidade dessa galera.

    Até porque não recursos orçamentários, no curto prazo, para o “acesso e qualificação” concomitante.

    Ou optaremos por deixar toda essa galera à margem da sociedade ???

    Minha opção é pelo acesso e inclusão.

  11. Nobre, o trem-bala já está em estado de stand-by há muito tempo.

    É óbvio que priorizamos os gastos(investimentos) em saneamento, educação, saúde, etc..

    E ninguém está priorizando estádio de futebol. Fato é, que nos propusemos a realizar uma Copa do Mundo. E o custo dos estádios —- como mostrei acima —–é muito baixo vis-à-vis nossa economia (PIB). E isso não está claro para a população, ainda.

    Como vc mesmo afirmou: a grande mídia “trabalhou mal” na investigação das estimativas de custos e benefícios. Motivos óbvios.

    Espero que a análise racional quanto ao discurso-dilema estádios X educação-saúde prevaleça no tempo. Ou em outras palavras, não havia restrição orçamentária no tocante ao custo dos estádios.

    Não há problema algum. Trata-se de divergência de pontos de vista —- o que é muito salutar, e normal.

    Mas, a rigor, tudo foi entregue a contento e a tempo. “A Copa das Copas” é um sucesso dentro e fora dos campos. Fato.

    Em Copacabana, assisti ao Trengrouse, e a visão por ele explanada foi nitidamente favorável —- com ajustes pontuais inerentes a um mega evento —- á realização da Copa.

    Agora, convenhamos: discordo frontalmente, e com todo respeito, quanto à consideração de que a “grande mídia” não apostou no caos urbano, aeroportos mal, metrôs….. , segurança….., etc…

    Como disse o Ruy Castro, a grande mídia cumpriu o papel conhecido como “espírito de porco”.

    Enfim, falando de futebol: defesa chilena tem estatura baixa para os padrões de hoje. Então, é cavar faltinhas e escanteios e jogar bola na área para nossos zagueiros marcarem. E o “poste” do Fred, também. E esperar que Neymar não seja expulso, nem se contunda.

  12. Acho que concordamos. Acho que a seleção deve imitar a Holanda, que fez o gol explorando uma deficiência intransponível (para o Chile) do espetacular time chileno: são baixinhos.

    Ruy Castro é um falastrão. O que foi mostrado naquele programa? Que a imprensa estrangeira é quem mais fala no caos. Estranho que Ruy Castro não tenha citado nenhuma manchete da imprensa no Brasil que corroborasse as da imprensa estrangeira.

    Cite uma manchete da imprensa do Brasil porque eu não lembro de ter lido nada parecido.

  13. Tostão, eu e mais um monte de gente que gosta de futebol torceremos para o Chile, na hipótese (toc,toc,toc) do Brasil não passar.

  14. “Mas, a rigor, tudo foi entregue a contento e a tempo. “A Copa das Copas” é um sucesso dentro e fora dos campos. Fato.”

    É só pegar a matriz de responsabilidades inicial que vai ver que isso não é verdade. Na verdade, muito pouco do que foi prometido foi entregue.

  15. Your excellent comments on the government’s economic policies and my suspicions that there might be malevolent reasons behind them bring to mind the quote below:
    Never ascribe to malice, that which can be explained by incompetence.
    —Napoleon

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