Perspectivas de crescimento: medíocres.

Há cerca de três anos muitos pensavam que o Brasil cresceria por volta de 4% ao ano. Na ANPEC, em 2011, tive a chance de escutar colegas economistas da academia e do setor financeiro falar dessa expectativa otimista. Em 11 de dezembro de 2011 escrevi aqui neste blog (clique aqui):

“Todas as noites, na ANPEC, há uma mesa especial de debate de conjuntura e, para a minha surpresa, notei que economistas tradicionalmente alinhados com escolas mais liberais do pensamento econômico estavam otimistas e, por outro lado, economistas mais alinhados com a ala heterodoxa me pareceriam mais cautelosos. Para os mais liberais, o Brasil vai muito bem e há chance concreta de termos um crescimento (real) de 3% a 4% ao ano ao longo dos próximos dez anos.

Todos os problemas relativos ao excesso de crescimento de gastos (mesmo que sejam transferências para famílias), a necessidade de aumentar o investimento público, novos gastos com saúde e educação, o controle da inflação etc. serão adequadamente resolvidos quase que por necessidade, ou seja, “o governo sabe que tem que ser responsável na solução desses problemas” senão ele será punido pelo eleitor.”

Bom, os problemas não foram resolvidos e o governo de fato está sendo punido pelo eleitor. De acordo com a última pesquisa CNI/Ibope, pela primeira vez desde o inicio do seu mandato, em 2011, a avaliação do governo ruim/péssimo (33%) ultrapassou a avaliação ótimo/bom (31%). Apenas a título de comparação, quando a nossa presidenta foi eleita, em 2010, a taxa de avaliação do governo como ruim/péssimo era de apenas 4%!

Taxa de avaliação do governo federal – março/2011-junho/2014 – % de respostas

CNI_IBOPE

Fonte: CNI/IBOPE

A situação pintada pela última pesquisa do CNI/IBOPE é que 50% dos entrevistados desaprovam o governo e 52% não confiam no governo. Isso mesmo, mais da metade dos entrevistados não confiam no governo. Qual a tendência dos indicadores acima? Ninguém sabe, mas a tendência preocupa o governo.

Adicionalmente, no meio desse crescimento da desaprovação do governo, as noticias de crescimento do PIB são cada vez piores. As projeções de crescimento do PIB estão sendo revisadas para baixo e, agora, crescimento de 1,5% este ano, passou a ser otimista. As projeções do mercado já apontam para crescimento do PIB de apenas 1,16% este ano e de 1,60%, em 2015. E tem gente no mercado que acredita que essas expectativas ainda são otimistas.

O banco Santander já aposta em crescimento de 0,9% este ano e de 1,5%, em 2015. O economista Affonso Celso Pastore e sua equipe apostam em crescimento de 1% este ano e de 0,8% no próximo.

Em resumo, no início de 2011, o atual governo apostava em crescimento real do PIB de 5% ao ano e muitos economistas apostavam em 4% ao ano. Estamos terminando o mandato com a perspectiva de crescimento real entre 1% e 1,5% ao ano e, se você for MUITO otimista, é possível acreditar em crescimento real de 2% para 2015 que é a expectativa do banco Bradesco. E apesar do crescimento raquítico, a inflação insiste em ameaçar o teto da meta de 6,5%.

Adicionalmente, com a economia crescendo em termos reais por volta de 1% ao ano, esse baixo crescimento cria uma pressão muito grande do lado fiscal e uma tendência inequívoca de queda adicional do resultado primário pelo forte crescimento da despesa primária (% do PIB). E o que mais impressionante é que tem gente do governo que acha que a “Nova Matriz Econômica” foi um sucesso e se criou no Brasil as condições para o crescimento sustentável. Acredite, se quiser!

8 pensamentos sobre “Perspectivas de crescimento: medíocres.

  1. Considerando que (i) até o momento os atuais operadores do Estado não tem a mínima ideia do que fazer – além de criar novas siglas (PTN) para fazer fumaça eleitoral – e que (ii) Dilma se reelege, tudo indica que o ajuste macro se fará pela pior via: crescimento pífio + inflação alta = .> desemprego.

    A se confirmar tal cenário, a probabilidade dos anos vindouros serem pontuados por forte instabilidade política não pode ser desprezada. A ver.

  2. Mansueto, você poderia falar um pouco sobre a influência do crescimento demográfico no crescimento real do PIB? O fato de crescermos pouco, mesmo estando no melhor momento da transição demográfica, não é extremamente preocupante? Quando perdermos esse bônus demográfico lá por 2030/2035 necessariamente não teremos taxas menores de crescimento, já que apenas o aumento da produtividade não seria suficiente para explicar o crescimento real da economia?
    Grato pela atenção.
    Abraços!

    • Sim você está correto e, na verdade, já estamos sentindo o efeito do fim do bônus demográfico.

      Pelos cálculos da turma do IBRE, de 1992 a 2012, o crescimento da mão de obra garantia um crescimento mínimo de 2% ao ano.

      De 2012 a 2022, justamente pela questão demográfica, o crescimento da mão de obra só garantirá um crescimento do PIB de 1%. Para crescer acima de 1% ao ano precisaremos aumentar a produtividade. Ou sejam para crescermos 2,4% ao ano, precisaremos de um crescimento da produtividade do trabalho de 1,4% ao ano, algo que não é impossível mas também não será fácil.

      Leia o posto que escrevi sobre isso em 2013: http://wp.me/pAMib-QC

  3. Mansueto, parabéns por mais um grande artigo. Porém, incomou-me um pouco sua citação:

    “(…) notei que economistas tradicionalmente alinhados com escolas mais liberais do pensamento econômico estavam otimistas e, por outro lado, economistas mais alinhados com a ala heterodoxa me pareceriam mais cautelosos. Para os mais liberais, o Brasil vai muito bem(..)”

    O que vc considera economistas liberais? Tenho um grande contato com a Escola Austríaca e seus pensadores sempre disseram, desde o começo do governo, que suas políticas seriam insustentáveis. E eu entendo essa escola como um pensamento liberal, visto que não compactua com as inúmeras intervenções do governo.

    Fiquei confuso hehe.

  4. É imcompreensível como o “mercado” prevê 2% para o ano que vem, sabendo que será, inevitavelmente (a menos que o presidente seja louco), um ano de ajuste fiscal, e possivelmente um ajuste bem severo dada a quantidade de “erros” a serem corrigidos. Ainda mais quando se olham os números desse primeiro trimestre, e se vê que quem tá segurando o número no azul, é somente o gasto público, exatamente aquele que inevtiavelmente terá de ser severamente contido ano que vem.

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