Produtividade e politica social

Quando alguém de fora do governo fala que será necessário o Brasil crescer mais rápido para manter e ampliar as conquistas sociais de antes (antes de 2003) e depois da criação do Brasil (a partir de 2003), muitos falam que isso é tolice porque é possível  fazer mais do mesmo – que o Brasil havia encontrado um modelo de sucesso que combinava maior crescimento com maior distribuição de renda.

É claro que o Brasil não encontrou e nem inventou modelo algum como tantas vezes já falei aqui neste blog. Apenas fizemos desde meados da década de 1990 o que deveríamos ter feito antes: combatemos a inflação, privatizamos, abraçamos uma agenda de responsabilidade fiscal , passamos a investir mais e melhor em educação desde a criação do FUNDEF e passamos a focalizar melhor o gasto social com o bolsa escola que foi ampliado e se transformou no bolsa família. Além disso tudo, como fala Samuel Pessoa, a continuidade da dupla Malan e Palocci trouxe estabilidade macro que foi perdida desde 2008/2009, quando alguém tentou inventar uma “nova matriz econômica”.

É claro que a política de salário mínimo foi importante porque ,até o 1994, o salário mínimo era muito baixo no Brasil. Mas será que fazer mais do mesmo nos levará a ais uma década de crescimento inclusivo? Duvido e ninguém melhor para responder essa pergunta que um dos técnicos mais respeitados do governo que saber fazer cálculos: Ricardo Paes de Barros (mais conhecido por suas iniciais PB). Em uma curta entrevista à revista Exame, PB mostra que sem crescimento de produtividade, será impossível continuar com os fantásticos aumentos do salário mínimo.

Se qualquer outros economista de fora do governo tivesse a ousadia de falar o que PB falou, logo começariam os ataques aos economistas “ortodoxos” contra a política de salário mínimo e os jornais colocariam um boa pimenta no assunto. Mas sendo honesto, só economistas muito ruins acreditam na tese que o Brasil poderá continuar com forte crescimento da renda e do salário mínimo crescendo 1,5% ao ano. A propósito, os relatórios que acabam de chagar na minha caixa postal indicam já tem gente do mercado apostando em crescimento do PIB de 1% este ano.

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2 pensamentos sobre “Produtividade e politica social

  1. Tabulando lado a lado crescimento médio entre 2009-2012 e carga tributária média, fica claro que a maioria absoluta dos países com carga acima de 35%, não conseguiu crescer mais de 2,5% a.a.. Ao mesmo tempo, nos países até 20-25%, poucos cresceram menos que isso. Acho dificil nosso país voltar a crescer em produtividade, tão cedo, se não houverem reformas profundas, principalmente trabalhista, tributária e previdenciária. De qualquer forma, dificil será ver carga tributária baixando, e direitos trabalhistas e previdenciários sendo retirados. Difícil até acreditar que simplifiquem tributário e trabalhista. É uma armadilha tremenda para nosso país.

    Tá tão ruim, que o FBCF logo voltará a ser o que era, malemal superando a própria taxa de depreciação do capital fixo. E capital humano, pode ser o melhor possível, com essa “burrocracia”, não produz. Talvez se os salários se depreciarem em termos reais (aquele tal de ULC lá do BC), a gente consiga manter o desemprego baixo e a pobreza moderada. Mas se continuarem tentando segurar os salário médios no patamar atual, com essa produtividade… não vai virar. Ou vai, um mar de desemprego, antes que possamos ver.

    O brasil vai precisar implodir e recomeçar denovo. Coisa para uns 30 anos no futuro, com sorte.

    • Prezado Mansueto,
      Sei que o debate não é esse nem é seu mas a argumentação abaixo do Sr. Soares está correta ?
      Abraço.
      Eduardo

      FSP
      Sergei Soares: Um país mais igualitário, sim

      15/06/2014
      Em coluna publicada no dia 8, (“Dilma se engana sobre desigualdade”, “Mundo”), o jornalista Clóvis Rossi considera que se engana quem afirma que a desigualdade no Brasil está diminuindo, na contracorrente do mundo. Tenho imenso respeito pelas opiniões do sr. Rossi em outros assuntos, mas neste caso devo discordar frontalmente.

      A argumentação do sr. Rossi é, grosso modo, a seguinte. As principais fontes que apontam a redução da desigualdade no Brasil são as pesquisas domiciliares, que subestimam a renda dos muito ricos e, principalmente, a renda do capital. Ele conclui que não poderíamos afirmar que a queda da desigualdade observada nas pesquisas domiciliares seja real.

      Antes de tudo, gostaria de apontar limitações das pesquisas domiciliares como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE), que subestimam a renda do capital. No entanto, o fato de um instrumento ser imperfeito não invalida seu uso. Um termômetro de mercúrio comprado em farmácia é notoriamente mais impreciso que um termopar usado em laboratório. Mas se meu termômetro diz que minha filha está com febre, não deixo de medicá-la.

      Além disso, como corretamente apontado pelo colunista, pesquisas domiciliares em outros países sofrem das mesmas limitações. Comparações no tempo entre pesquisas domiciliares idênticas mostram que a desigualdade aumenta em quase todo o mundo, mas cai no Brasil. Ou seja, o mesmo instrumento revela tendências distintas entre o que ocorre no Brasil e na maior parte dos países.

      Podemos dividir a desigualdade total na soma da desigualdade dentro de cada tipo de renda (trabalho, transferências públicas e do capital) mais a desigualdade entre as médias de diferentes tipos de rendas. Dado que a desigualdade advinda das rendas do trabalho e de transferências está em forte queda, para que a desigualdade total estivesse subindo seriam necessários um aumento na concentração das rendas do capital ou um aumento de sua participação na renda total.

      Sabemos pelas contas nacionais que os salários como porcentagem do PIB estão aumentando desde 2003. Se em 2004 a massa salarial era equivalente a 39,3% do PIB, em 2009 (últimas tabelas sinóticas disponíveis) tinha subido para 43,6%. Como o rendimento do capital está de fato diminuindo como porcentagem do PIB, a única explicação para um aumento da desigualdade total seria uma brutal concentração dos rendimentos do capital em cada vez menos mãos. Nada indica que isto esteja acontecendo.

      Ao contrário, a pesquisa que mede um pouco melhor os rendimentos do capital (ainda imperfeita, mas melhor que a Pnad), a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE), aponta uma queda na concentração dos rendimentos do capital. Segundo a POF, a queda na desigualdade de 2003 para 2008 foi de 4,0 pontos de Gini –quase idêntica à queda de 3,7 pontos medida pela Pnad no mesmo período.

      É possível que a desigualdade no Brasil esteja estável ou subindo? Tudo é possível, mas é tão improvável quanto um termômetro de mercúrio calibrado apontar uma temperatura de 40 graus quando não há febre.

      SERGEI SOARES é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

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