A política industrial deu certo?

Há diversas forma de se avaliar o sucesso de uma política industrial. Mas antes é preciso mostra de forma muito clara o que está sendo avaliado e, neste caso, há diversos problemas com a nossa política industrial.

Um dos principais problemas decorre da própria definição dos indicadores de política industrial. As metas do Plano Brasil Maior adotado, em 2011, com validade para 2014 são, entre outras: (i) elevar a taxa de investimento de 18,4% (2010) para 22,4% do PIB; (ii) elevar dispêndio empresarial em P&D em % do PIB (meta compartilhada com Estratégia Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação – ENCTI) de 0,59% do PIB, em 2010, para 0,90% do PIB, em 2014; (iii) diversificar as exportações brasileiras, ampliando a participação do país no comércio internacional de 1,36% para 1,60%; (iv) elevar % da indústria intensiva em conhecimento -VTI da indústria de alta e média-alta tecnologia/VTI total da indústria- 30,1% para 31,5%, (v) aumentar a qualificação de RH: % dos trabalhadores da indústria com pelo menos nível médio de 53,7%, em 2010, para 65%, em 2014, etc. (clique aqui para ver todas as metas do Plano Brasil Maior).

Quando alguém for avaliar se essas metas foram alcançadas, um avaliação que assusta os meus conhecidos da ABDI e do MDIC, se fácil concluir que a grande maioria dessas metas não foram alcançadas. De quem é a culpa? É sempre do setor externo e do Partido Comunista da China.

Ou seja, alguém define como indicadores da política industrial indicadores macro, que são ruins para se avaliar o sucesso da política industrial e, quando as metas não são alcançadas, a culpa é o do resto do mundo. E se as metas tivessem sido alcançadas? Neste caso o “sucesso” seria, integralmente, de quem formulou a política industrial.

E quem acha que a política industrial foi um sucesso sugiro passar na FGV-SP e conversar por dez minutos com o professor Bresser Pereira. Perguntem a ele se a indústria brasileira hoje é mais competitiva do que era há quatro ou oito anos? Se quiserem, passem no IEDI e conversem com o Pedro Passos. Estou aqui citando apenas pessoas que simpatizam com política industrial.

Mas vamos aos números. Primeiro, em relação à taxa de investimento, esta taxa em 2013 foi de 18,4% do PIB, valor semelhante ao de 2010. Este ano deve ficar muito próxima desse valor e, assim, será impossível cumprir a meta de 22,4% do PIB previsto no Plano Brasil Maior. Por que? Segundo o governo porque os empresários foram MUITO pessimistas. Ou seja, para os meus amigos do governo ,o erro não foi do governo mas sim dos empresários. Alguns ainda têm a coragem de dizer que o governo foi capturado como se o governo não tivesse por meio de suas ações se deixado capturar.

Segundo, elevar o dispêndio empresarial em P&D será outra das metas que não conseguiremos atingir e quem diz isso não é “ninguém menos” do que os próprios técnicos do IPEA que acompanham o Plano Brasil Maior. Segundo análise do ex-Diretor adjunto do IPEA, Ricardo Cavalcante, e pela atual Diretora da DISET, Fernanda DeNegri, publicada em fevereiro de 2014 (clique aqui e veja p.24), o gasto empresarial em P&D na verdade se reduziu de 2008 a 2011 de 0,53% do PIB para 0,50%. Os pesquisadores corrigiram a amostra e identificaram que o crescimento que havia sido identificado decorria da mudança da amostra.

Alguém acredita que esse número vai para 0,90% do PIB em 2014 como está nas metas do Plano Brasil Maior? Impossível. De 2005 a 2011, praticamente esse indicador não aumentou, passou de 0,49% do PIB para 0,50%. Por que agora cresceria 80% em apenas três anos? Mais uma meta que ficará no papel e que, mais uma vez, alguém muito “inteligente” culpará os empresários pele fato de desenvolverem aqui o princípio ativo do remédio para curar a AIDS ou por não terem inventado o IPAD.

Terceiro, outra meta da política industrial era a diversificação das exportações e aumento da participação do Brasil nas exportações mundiais. Isso vai ocorrer? Infelizmente não. No caso da pauta de exportação, a participação dos manufaturados na nossa pauta de exportação que, de 1981 até 2007 sempre foi acima de 50% das exportações, passou para menos de 40% desde 2010. Em 2010, 39,4% de nossas exportações eram de produtos manufaturados e, no ano passado, passou para 38,7%. Mas se “diversificação” for as variedades de soja geneticamente modificadas que exportamos é possível que a pauta esteja mais diversificada com tipos de soja diferentes que plantamos e exportamos.

No caso da nossa participação no comércio mundial, nossa participação era de 1,35% das exportação mundial, em 2010 (Brasil exportou US$ 201,9 bilhões de R$ 14,9 trilhões de exportação mundial), e passou para 1,29%, em 2013: exportamos US$ 242,1 bilhões de US$ 18,78 trilhões. Ou seja, perdemos participação o que deve ser repetir neste ano de 2104. Assim, não conseguiremos cumprir a meta do Plano Brasil Maior de 1,60% de participação nas exportações mundiais.

Quarto, ainda não consegui os dados para a participação dos setores mais intensivos em conhecimento mas acredito que não tenha crescido. Mas podemos utilizar uma proxy. Vamos olhar para o índice de produção física dos setores mais intensivos em tecnologia da indústria: (i) indústria farmacêutica, (ii) material eletrônico e equipamento de comunicação; (iii) equipamento de instrumentalização médico hospitalar. O que aconteceu? A tabela abaixo mostra o comportamento da produção física desde maio de 2008, quando foi lançada a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) que depois foi ampliada pelo Plano Brasil Maior, em 2011. Com exceção do médico hospitalar que é um setor pequeno na nossa indústria, os demais tiveram queda da produção física em relação a 2008. E mesmo o médico hospitalar mostra quase nenhum crescimento desde 2011.

Índice da Produção Física – Setores Selecionados da Indústria – 2008-2014

TabPROD FIS

Fonte: PIM-IBGE

OBS: média do ano. Para 2014, utilizou-se a média de janeiro e fevereiro

Por fim, para coroar o “sucesso” da nossa política industrial, acho que o gráfico abaixo é bastante ilustrativo. Se a quase contínua perda de participação da indústria no PIB desde 2004 pode ser considerado um sucesso de política industrial, então vamos definir melhor que “sucesso” é este.

Participação da Indústria de Transformação no PIB – %

INDPIB

Fonte: IBGE

Se o “sucesso” da política industrial for a primarização da nossa pauta de exportação, queda do dispêndio privado em P&D, queda ou estagnação da produção física da indústria e perda de participação da indústria de transformação no PIB , sem dúvida a política foi “bem sucedida”.

Mas se isso não tem nada a ver com a política industrial e muito mais com questões macroeconômicas, o que em parte é verdadeiro, então há dois problemas. Primeiro, falhamos na administração da política macroeconômica – um quase consenso entre 100% dos economista de fora e de alguns de dentro do governo.  Segundo, por que a turma da política industrial estabeleceu macro metas para a política industrial (tais como taxa de investimento e participação das exportações do Brasil nas exportações mundiais) se a culpa do não cumprimento das metas seria direcionada para taxa de câmbio e para a política macroeconômica?

A coisa mais difícil hoje é encontrar alguém dentro e fora do governo  que acredite que a indústria vai bem. A grande diferença, no entanto, é que algumas (não são todas) pessoas no governo acham que o culpado é o “pessimismo” dos empresários ou que a “estrutura industrial” do Brasil está errada – temos os setores errados e nos faltam os setores certos. É mesmo? interessante!

E os empresários o que acham disso tudo? Conversem com eles e vocês saberão qual a opinião deles. O que me surpreende é o Brasil ter tantos empresários bons e de sucesso no meio de tanta confusão e instabilidade de regras.

 

2 pensamentos sobre “A política industrial deu certo?

  1. O governo usa os recursos do BNDES, subsidiados pelo Tesouro para os “eleitos” e ao mesmo tempo mantém o financiamento privado refém, pois esse não tem como competir com essas taxas. Inverte toda uma lógica de livre mercado quando resolve financiar até 70% das concessões das novas rodovias. É uma lógica de mercado totalmente invertida.

    Excelente artigo, mais uma vez.

  2. Mansueto: eu já li (mas não lembro onde) a opinião de um defensor da atual “política industrial”, argumentando que a indústria perdeu participação no PIB, sim, mas ela continuou crescendo, só que os outros segmentos cresceram muito mais. Ou seja, em valores, a indústria também cresceu, mas como cresceu muito menos que os outros, ela perdeu o share que tinha antes. É bom destacar isto e levantar os números, porque se você exibe apenas o gráfico Indústria X PIB os “red boys” vão tentar derrubar o seu argumento. No mais, muito obrigado por mais um artigo excelente: eu preciso produzir um pequeno texto sobre a política industrial atual, para uma aula de Economia Contemporânea, e neste artigo você me forneceu os subsídios necessários À montagem deste resumo. Abraço!

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