Onde estão os IPADs e IPHONEs “Made in Brazil”?

No início do governo Dilma, muito se falou da “revolução” que seria produzir Ipads e Iphones no Brasil. O governo brasileiro fez esforços para que, o maior fabricante desses aparelhos, a empresa Foxconn de Taiwan, aumentasse os investimentos no Brasil. A Foxconn opera megas fábricas na China. Algumas com mais de 300 mil trabalhadores.

A ideia era que, a ampliação dos investimentos da Foxconn, no Brasil, traria novos investimentos para o país e aumentaria a “densidade” da cadeia de eletro-eletrônicos. No futuro, o Brasil se tornaria um pólo de exportação desses produtos eletrônicos.

Alguns dos meus amigos na academia americana enxergaram nessa estratégia do governo brasileiro um sinal de conhecimento sofisticado do funcionamento de cadeias globais de produção. Segundo eles, o governo brasileiro estaria adotando a estratégia correta de atrair investimentos da Foxconn e, em seguida, fazer o mesmo com os fornecedores da Foxconn.

Há algum sinal de sucesso dessa estratégia? Absolutamente nenhum sinal. Primeiro, como o Brasil é um país relativamente fechado, seria natural que a Foxconn e Apple produzissem alguns dos Iphones e Ipads no Brasil para vender aqui e no Mercosul, desde que contassem com incentivos fiscais – o que ocorreu. Mas achar que o Brasil se tornaria um grande pólo de exportação desses produtos, um país de custo de produção elevado, é fantasioso.

Segundo, para decepção de todos e vergonha geral da nação, quando os produtos “made in Brazil” chegaram às lojas, os preços cobrados eram exatamente os mesmos dos produtos importados – o que seria o esperado por qualquer economista. No entanto, algumas pessoas acreditavam na forte queda dos preços quando aqui fossem produzidos os Iphones e Ipads. Assim, o governo concedeu subsídios para a Foxconn, mas os produtos não tiveram os preços reduzidos. O preço era o mesmo que antes pagávamos pelos importados. Isso é coisa de gênio!

Ainda bem que o Secretário de Políticas de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, Virgílio Almeida, esclareceu que as regras do Processo Produtivo Básico (PPB) – regras que as empresas precisam cumprir para terem direito aos incentivos fiscais- não exigem que as companhias reduzam os preços dos aparelhos. Afinal, o objetivo era ter empresas de classe mundial produzindo um produto aqui: “….. empresas estão produzindo aqui um equipamento de classe mundial, e essa tecnologia vai se irradiando, o ecossistema industrial se alimenta dessa tecnologia”, afirma o secretário.”(clique aqui).

Terceiro, qual grupo empresarial apostou neste plano de produzir Iphones e Ipads no Brasil? Talvez algum grupo com vasta experiência em gestão de empresas e que, ao longo de décadas, cresceu e se diversificou. Será que os acionistas da 3G capital apostaram nisso? Será que o grupo Votorantim apostou nisso? Ou que tal nossas grandes empreiteiras como Odebrecht, etc.? Não, os dois grandes sócios da Foxconn, no Brasil, seriam Eike Batista e o BNDES. Não sei sobre o Banco, mas duvido que Eike Batista queira e possa agora continuar nessa empreitada.

Os Iphones e Ipads já são produzidos no Brasil, mas nada mudou para o consumidor, que continua pagando um preço muito caro por esses aparelhos. Nada mudou também em relação aos nossos indicadores agregados de inovação e de exportação de manufaturas, que continuam patinando. Em 2006, o saldo da balança comercial de manufaturas foi de US$ 5 bilhões e, em 2013, esse saldo se transformou em um déficit de US$ 105 bilhões. A culpa não foi do Ipad ou do Iphone.

O que de fato mudou foi que, nunca mais,  representantes do governo falaram da revolução que seria produzir Ipads e Iphones, no Brasil. E os lançamentos dos novos modelos desses aparelhos continuam chegando no mercado brasileiro com atraso em relação ao mercado internacional.

“E dai? o que importa é que hoje produzimos Iphones e Ipads”. Produzimos carros também, mas o crescimento do PIB neste e no próximo ano será abaixo de 2%. Adicionalmente, se o governo continuar com o seu plano de  resolver os nossos problemas com a concessão indiscriminada de subsídios, o que parece ser a política oficial, o resultado será novos aumentos de carga tributária, aumento da dívida e/ou  mais inflação.

Infelizmente, ainda existem pessoas que acham que fabricar Iphones e Ipads, no Brasil, é exemplo de política industrial moderna. Essas mesmas pessoas acreditam que um desequilíbrio macroeconômico é justificável desde que o resultado seja a criação de um parque tecnológico. Se olhassem com mais cuidado para a Coreia, saberiam que aquele país tinha elevada poupança e limitada rede de assistência social quando adotou políticas industriais ativas. Não é hoje o caso do Brasil.

Há espaço para se fazer política industrial? Sim, mas não na magnitude que pessoas no governo acreditam. Ao que parece, o nosso maior “sucesso” da política industrial foi a criação de uma mega frigorífico (JBS/Friboi), uma empresa que o governo possui 30% do seu capital e que está perto de se tornar a segunda maior empresa do Brasil, atrás apenas da Petrobras. O Brasil é hoje um país mais inovador? Não. Se não acreditam, convidem o meu amigo Silvio Meira  (UFPE e C.E.S.A.R) para um bate papo.

OBS: Em 2011, escrevi neste blog sobre o meu ceticismo em relação ao plano do governo de incentivar a produção de Iphones e Ipads no Brasil (clique aqui). Ao que parece, eu estava correto.

genio

11 pensamentos sobre “Onde estão os IPADs e IPHONEs “Made in Brazil”?

  1. Outro dia tinha uma reportagem em algum lugar, falando que o governo já tinha lançado quarenta e poucos planos de “incentivo” à indústria, desde o começo da gestão atual. Destes me lembro muito bem do “Brasil maior”. Bom, três anos de fiascos depois, a única coisa que vemos é a indústria manufatureira (exceto autos, e autos agora mais recentemente) definhando a passos largos, principalmente depois dos “estimulantes” estímulos do ano passado (finame a 3%, que bombou indústria de caminhões e equipamentos). Outro dado interessante desse governo está nas contas nacionais do primeiro trimestre. Pela ótica da demanda, dos cinco setores só tinha um no azul: consumo do governo. E foi quem segurou as coisas no azul. O resto, todos os outros jogando PIB e pra baixo. A gente sabe que esses estímulos ou terminam em inflação ou um imenso buraco nas contas públicas. O futuro é cada vez mais negro.

  2. Mansueto, análise impecável, mas já estou cansado de ver nego reclamar do preço do iCoisa e não atacar o ponto central: AS PESSOAS PAGAM ESSE PREÇO!!!! Tanto faz se tem subsídio ou não, tanto faz se veio da Coréia, do Brasil ou de Marte! É caro pois as pessoas pagam caro e ponto final!

    • Mais ou menos. O preço aqui é impactado na verdade por impostos e burocracia. Se as pessoas não comprassem o produto não chegaria aqui.

  3. Mansueto, parabéns pela participação no programa Painel. Muito bom.
    O que você acha desse projeto louvável de destinar 10% do PIB para educação? Seguindo a linha do seu raciocínio de argumento Robin Hood, o Brasil possui condições de atingir esse gasto? Não pioraria ainda mais nossas taxas de investimento, poupança? Claro que concordamos que é fundamental melhorar nossa educação, mas será que feito assim por canetada é sustentável?

    Abraço!

  4. Pode não ter diminuído o preço, pode não ter política industrial mas alguns bons empregos foram criados. Você saberia dizer quantos ?

    • Alguns bons empregos? qual o custo da criação dos bons empregos? criar bons empregos sempre é possível mas o custo pode não compensar o benefício. Se o governo resolver trazer a NASA para o Brasil bis empregos serão criados mas dificilmente essa opção passaria em uma análise custo benefício. E a Foxconn já estava no Brasil e a fabrica prevista para Itu não saiu do papel.

  5. Pingback: Um Retrato da Política Industrial do Governo - Instituto Liberal

  6. Prezado Mansueto:
    E o que dizer daquela fábrica de semicondutores da Intel que seria instalada aqui e acabou indo para a América Central? Tenho a impressão que as premissas foram as mesmas

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