GloboNews Painel – Resumo e link para o programa

Painel 01

Para quem não teve a chance de assistir o programa, coloco aqui o link para o debate sobre contas públicas no programa Painel na GloboNews com os meus colegas Raul Veloso e Mauricio Oreng do Itaú-Unibanco. Eu gostei muito do programa e tentei ser o mais didático possível nas minhas intervenções. Eu basicamente tentei destacar quatro teses.

Primeiro, a nossa situação fiscal claramente piorou. Não é uma situação de crise, mas a economia que o governo faz para pagar a divida e o serviço da dívida, o superávit primário, caiu fortemente. O superávit primário do Governo Central sem receita de dividendos e concessões foi, em média, de 3,1% do PIB de 2001 a 2008. Este valor foi reduzido para 1,5% do PIB de 2009 a 2013, sem que tenha ocorrido um crescimento forte do investimento público.

Assim, vamos terminar o governo com um primário (sem receita de concessões e dividendos) um pouco abaixo de 1% do PIB, valor que não é suficiente para estabilizar a divida bruta ou líquida. Além disso, ainda com o desafio de aumentar o investimento público. Como falei no início do programa, equação difícil de resolver.

Segundo, como já destaquei diversas vezes neste blog, o forte crescimento do gasto público (% do PIB) é explicado pelo forte crescimento dos gastos com transferência de renda – INSS, LOAS, Seguro Desemprego, Abono Salarial e Bolsa Família. Esses programas – que são transferência de renda- explicam 80% do crescimento da despesa não financeira do Governo Central de 1999 a 2013. Por isso que falei de “regras” como sendo mais importante do que gestão para explicar o crescimento do gasto publico.

Adicionalmente, quanto mais rápido crescermos, mais poderemos gastar com social. Mas é ilusório achar que teremos educação ou saúde de primeiro mundo com um PIB per capita de US$ 11 mil. Por isso, no programa, fiz a comparação Brasil versus Alemanha em relação ao gasto com saúde. Em política social há claramente o que Peter Lindert chama de paradoxo de Robin Hood. Quem gasta mais com o “social” não são os países mais pobres e que mais precisam, mas sim os mais ricos.

Painel 02

Terceiro, outra tese que procurei destacar é que, apesar de ser possível justificar o crescimento dos gastos sociais no Brasil como um resultado direto da nossa Constituição Federal de 1988 e, portanto pelo contrato social, há espaço para melhorar substancialmente este contrato. Reproduzo abaixo uma tabela do trabalho “Time for Equality de 2010 da CEPAL. Como destaquei no programa, Brasil e América Latina não conseguem reduzir fortemente a desigualdade de renda do trabalho por meio de impostos e transferências. Depois vou explicar neste blog melhor esse problema, inclusive, com a evidência empírica mais recente.

Queda percentual na desigualdade de renda (Índice de Gini) depois de impostos e transferências – 2008

desdigaldade

Quarto, no final do programa falei que não estamos em uma situação de “explosão fiscal”. No entanto, como destaquei, é incerto o que acontecerá. Por um lado, temos ainda espaço para piorar, o que aumentaria nossos problemas mais à frente e teríamos um ajuste imposto por uma crise, que é a tradição do Brasil e América Latina e de muitos outros países. O outro caminho é que o próximo presidente, seja quem for, consiga convencer a sociedade e a classe política da necessidade de reformas e de um maior controle do gasto público.

Difícil saber para onde caminhamos. Independentemente dos cenários, espero que tenham gostado do programa.

9 pensamentos sobre “GloboNews Painel – Resumo e link para o programa

  1. Parabéns Mansueto vc. é o cara, aliás nas minhas apresentações em audiências públicas no meu município tenho acompanhado suas ideias e compartilhado com o Legislativo as grandes dificuldades. O modelo brasileiro tornam os municípios dependentes de recursos do Federal e Estadual para investimento em equipamentos como: UBS, UPA´s, Creches, porém a manutenção desses equipamentos (m.obra, equipamentos e outros) ficará a cargo dos municípios, e não havendo crescimento nas receitas surgirá um péssimo serviço e um rombo para os cofres dos municípios.

  2. Foi muito boa a entrevista Mansueto. Sinceramente, eu preferia que você tivesse o programa inteiro para falar sozinho, rs. Eu acho que você poderia ter mais espaço para falar sobre tudo o que você já fala aqui no blog.
    Entretanto achei que você falou muito bem, com bastante didática para quem não entende muito do assunto. (Sou economista, então minha opinião talvez esteja um pouco enviesada rs)
    Espero poder presenciar boas entrevistas assim no decorrer deste ano eleitoral.
    Abraços.

    • OBS: Quando falo de “quem não entende muito do assunto” eu falo do telespectador. Pode parecer que eu falei que você não entende do assunto. hahahaha!

  3. Gostei muito do programa. Bastante esclarecedor. Estou no aguardo do artigo que tratará da redução da desigualdade de renda do trabalho por meio de impostos e transferências. Parabéns.

  4. O programa foi excelente, e suas explicações aqui ajudaram bastante no entendimento dos pontos discutidos. Parabéns a todos os participantes, foi uma aula de economia e gastos públicos!

  5. Mansueto, excelente participação. Do ponto de vista econômico não arrisco comentários. Pelo lado político, apesar de entender o argumento de que a situação atual deve-se a escolhas feitas “pela sociedade”, não acho que esse raciocínio nos leve muito longe. Em que pese a propalada migração da população para níveis de renda mais elevados, é inegável que a massa eleitoral brasileira continua sendo, em sua larga maioria, carente de informação e de educação apropriadas. Se todos pudessem entender e opinar sobre todos os assuntos, e com os recursos tecnológicos de hoje, era instalar democracia direta na veia: todo dia um plebiscito. A gente sabe onde isso nos levaria. O caminho é a alternativa representativa da democracia. É com os representantes da sociedade que esse debate tem que acontecer. A “sociedade”, o povo, não precisa entender de política fiscal e nem de economia. Precisa eleger seus representantes com o critério básico de serem pessoas de bem, com elevado padrão ético, e inteligentes. Enquanto pertencer a elite for defeito, enquanto for bonito o ignorante galgar o poder sem abrir mão da ignorância e dela se orgulhar, estaremos em péssimos lençóis.

  6. “Como destaquei no programa, Brasil e América Latina não conseguem reduzir fortemente a desigualdade de renda do trabalho por meio de impostos e transferências. Depois vou explicar neste blog melhor esse problema, inclusive, com a evidência empírica mais recente.”

    Bom tema.

  7. As suas intervenções foram muito didáticas e esclarecedoras. Gostaria apenas de solicitar, para efeito de um esclarecimento mais amplo, que você, por gentileza, detalha-se um pouco mais por que o Brasil distribui muito mal. E o que seria distribuir bem?
    Muito obrigado.
    Luiz Afonso

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