O país que cresce sem PIB

O titulo deste post é claramente uma provocação. Mas a provocação vai pegar carona no artigo do Samuel Pessôa hoje, na Folha de São Paulo (clique aqui), para chamar atenção para a diferença de crescimento da renda via pesquisas domiciliares (PNAD) e o crescimento do PIB per capita. Como fala Samuel no seu artigo hoje na Folha:

“Entre 2003 e 2012, ano da Pnad mais recente disponível, o PIB per capita cresceu em termos reais 28%, enquanto a renda mediana domiciliar per capita teve aumento de 78%! Houve defasagem na velocidade de crescimento dos PIBs “do povo” e “dos economistas” de 50 pontos percentuais.”

Essa polêmica (positiva) vem de alguns cálculos do nosso colega Marcelo Neri, que é um excelente economista e que há anos vem se dedicando a desvendar as fontes do crescimento da renda, redução da pobreza e queda de desigualdade de renda no Brasil.

Como Samuel, não tenho nenhum reparo dos dados que Marcelo Neri tem destacado, cuja tese básica é que o crescimento per capita das renda domiciliar e, principalmente, das famílias de baixa renda foi desde 2002 muito superior ao crescimento do PIB per capita.

A discordância que tenho é como algum utilizam esse dado para defender a tese que o Brasil tem um modelo de desenvolvimento, um modelo cujo dinamismo de alguma forma não está sendo plenamente captado pelo crescimento do PIB e do PIB per capita que são as variáveis de crescimento que se debruçam os macroeconomistas. Não existe tal modelo.

O que o Brasil faz muito bem é gastar muito além de suas possibilidades – na linguagem técnica, nós economistas falamos que o crescimento da absorção (gastos das famílias, consumo do governo e investimento) é maior que o crescimento o PIB e, assim, a conta só fecha porque podemos recorrer à ajuda do resto do mundo (déficit em conta corrente).

Isso em uma economia com recursos ociosos não é necessariamente ruim, inclusive se utilizarmos a ajuda do resto do mundo (produtos que importamos) para aumentar a taxa de investimento, com impacto positivo no crescimento, que pode, no futuro, se traduzir na redução da nossa dependência externa (que viria do aumento da poupança doméstica). Mas não é este o nosso caso.

A má notícia é que apesar de o crescimento do Brasil nos últimos 40 anos, não quebramos a nossa dependência de poupança externa (ajuda do resto do mundo) para crescer. E, nos últimos oitos anos, o nosso crescimento do déficit em conta corrente (ajuda do resto do mundo) se refletiu no forte crescimento do investimento até 2008, mas não depois, o que sugere que passamos a fazer um jogo perigoso: passamos desde 2008 a utilizar, excessivamente, a ajuda do resto do mundo não mais para investir, mas para aumentar o consumo.

Gráfico 1 – Saldo em Conta Corrente 12 meses (% do PIB) – dez/1990-abril/2014

Defict Conta Corrente

O que tudo isso significa? Se fizermos uma extrapolação do que ocorreu no passado recente para os próximos dez anos, acho que a grande maioria dos economistas há de concordar que não é aconselhável e talvez nem seja possível elevar o déficit em conta corrente para perto de 7% do PIB para que a renda e consumo cresçam muito além do crescimento do PIB. Dado que agora nem mesmo temos uma taxa de desemprego elevada como era o caso em 2003, a dinâmica do crescimento do Brasil (o PIB dos economistas) e do crescimento do PIB do povo (renda domiciliar per capita medida pela PNAD) dependerá cada vez mais do crescimento da produtividade, se não quisermos aumentar a nossa vulnerabilidade externa.

Que bom! Então há consenso? Não. De cada 100 economistas, todos concordam com a importância do crescimento da produtividade. Mas esses mesmos economistas não concordam “com a forma de aumentar a produtividade”. Por exemplo, o protecionismo e o excesso de intervenção da “Nova Matriz Econômica” é vista por alguns economistas do governo como uma forma legítima de aumentar o crescimento da produtividade. Outros economistas enxergam nessas intervenções justamente a causa da estagnação recente da nossa produtividade.

Qual a grande dúvida do mercado? Se a presidenta Dilma concorda com os seus economistas ou se passou a concordar com economistas críticos de sua política econômica. Em outras palavras, será que a Presidenta acredita que é possível que o PIB do povo (renda per capita medida pela PNAD como chama o Samuel) continue crescendo à uma taxa muito superior ao crescimento do PIB dos economistas?

Para terminar, se você economista quer entender como a bonança externa nos permitiu crescer mais rápido desde 2005 sem que para isso fosse preciso nos preocuparmos muito com reformas, além do excelente artigo do Samuel hoje na Folha, o economista Edmar Bacha se debruçou sobre isso no seu capítulo (Bonança externa e desindustrialização: uma análise do período 2005-211) no livro o Futuro da Industria no Brasil, 2013.

A preocupação de Bacha neste texto era entender de que forma o forte crescimento do gasto doméstico (com consumo e investimento) estava se traduzindo em perda de dinamismo da indústria. A analise de Bacha mostra que, de 2005 a 2011, o efeito ganho dos termos de troca mais transferências externas (ajuda do resto do mundo que toma a forma de déficit em conta corrente) nos permitiu que, neste período, o gasto doméstico crescesse entre 9 a 10 pontos de percentagem a mais do que o crescimento do PIB a preços constantes. Neste período, entre 2005 a 2008 houve crescimento do investimento, mas depois de 2008 o que se destaca é o crescimento do consumo.

Infelizmente, não existe país desenvolvido com crescimento da renda domiciliar per capita muito acima do crescimento do PIB per capita ao logo de duas, três ou mais décadas. O que fecha o nossos modelo recente de crescimento são os ganhos nos termos de troca e o aumento do déficit em conta corrente (o que estou chamando aqui de ajuda do resto do mundo). E sem os ganhos nos termos de troca, a partir de 2008, a situação de potencial desequilíbrio externo seria ainda pior, pois como lembra Samuel no seu artigo:

“Conta simples sugere que, se não tivesse havido a alteração dos preços em nosso favor, a variação do deficit de transações correntes entre 2003 e 2012 seria de mais de sete pontos percentuais do PIB, visto que nesse período a absorção (consumo e investimento dos setores público e privado) cresceu 60%, e o produto, 40%.”

Em resumo, o crescimento da renda domiciliar per capita ultrapassou o crescimento do PIB per capita? Sim! isso significa que o Brasil tem um modelo de crescimento sustentável e que o equipe econômica atual fez um bom trabalho para garantir o crescimento do país? Infelizmente, não, o que significa que será difícil termos mais uma década inclusiva como foi a anterior.

O forte crescimento do PIB do povo teve a ajuda do resto do mundo para o seu crescimento e ainda estamos com uma taxa de investimento baixa em relação aos nossos pares e sem a mínima ideia de como será a evolução do crescimento da produtividade nos próximos anos. Além disso, a poupança doméstica não cresceu e continuamos reduzindo o superávit primário e aumentando os subsídios. Difícil ver consistência macroeconômica nesses resultados.

18 pensamentos sobre “O país que cresce sem PIB

  1. Como sempre o mansuetto dando otimas lições de macroeconomia…..continue assim mestre,,,,nem pense em nos deixar na mão…..rssss

  2. Uma pequena crítica. Falou-se em produtividade, mas não se debruçou sobre ela. A produtividade dos mais pobres não teria aumentando também com a melhoria nos índices de educação e criação de cursos técnicos e de capacitação? Talvez não explique muito, mas creio que explique um pouco. Uma das poucas políticas boas para a classe baixa dessa administração (Lula + Dilma) talvez tenha sido investido nisso no início. Concordo que no geral a política é ruim e não terá efeitos duradouros, mas acho que uma das melhores forma de alavancar nossa economia é investir no aumento da produtividade das classes menos favorecidas que ainda é muito baixa. O problema é que, como você frisou, passaram a fazer de forma errada ao olhar mais para crescimento via consumo e, como a produtividade não deve estar crescendo tanto assim e temos poupado pouco, estamos fechando a conta via déficit externo. Não vou me alongar muito, meu ponto é só olhar com cuidado para a produtividade da camada mais embaixo. Gostaria que este governo, se continuar, fizesse isso ou que o próximo também o faça. Sou oriundo de classe baixa e subi através de investimento em capital humano e acho que este é um melhor modelo que transferências.

      • Pedro, melhorou sim. Por qualquer índice que você utilizar. Isto é fato (sou acadêmico, mas qualquer coisa pegunte ao Naércio de Menezes), não seja parcial. Poderíamos e deveríamos ter melhorado muito mais, mas melhorou sim e não só desde esse governo. Pare de opinar sem conhecer do assunto. Isto aqui não é uma discussão de partidos, vá para o facebook.

      • Diga isso para as minhas tias que são obrigadas a aprovar alunos. Diga isso pra diretora da escola aonde ela trabalha, que sofre pressão da CRE pra não reprovar crianças do primeiro e segundo ano, mesmo que não saibam ler. Diga isso pra uma das minhas tias que precisa ensinar crianças de 3 anos a ler e escrever, juntamente com toda a matéria do 2º e 3º ano, já que crianças que não aprendem a ler não aprendem o restante da matéria. Diga isso para a colega da minha tia, na sala ao lado, que dá aula e a tarde, ao ir fazer as compras de casa, vê o aluno dela furtando carteiras no bairro. Diga isso para as professoras que tem alunos com deficiência mental colocados para estudar junto com alunos sem deficiência e não conseguem acompanhar a matéria dada. Em outros casos, o aluno vai E por aí vai. Diga isso para os pais que são obrigados a ver um professor na escola falando que é o máximo um garoto namorar outro. Ou então diga isso pra quem ficou revoltado com a lei da palmada, que deu o direito ao Estado sequestrar os filhos de um cidadão se este se recusar a educar suas crianças da forma correta de se educar.

        A nossa educação melhora nos índices e piora na prática. Os índices são construídos para apresentar o que os governantes desejam. E, sim, isso aqui é uma discussão também de partidos, são eles, sem exceção, que levaram a educação pública a este estado falimentar. De repente até mesmo você faz parte disso, por isso fica aborrecido quando alguém toca na ferida.

        Não tente cercear meu direito de opinar. Eu não cerceio o seu.

      • Desculpem a intromissão, mas, creio, que transformar exames de avaliação de aprendizado e de qualidade de professores e escolas, para serem utilizados como um vestibular, não pode ser considerado como melhora da Educação básica, média e superior. Que podem ter havido melhorias, não duvido, mas as avaliações ficaram aquém da capacidade de captar realmente essas melhorias. Creio que o sistema anterior de premiar com mais verbas e equipamentos as escolas que formassem mas alunos realmente alfabetizados e capazes de sairem-se bem em exames avaliativos no Brasil e nos testes internacionais, seria bem mehor do que inchar os cursos médios e superiores com alunos que apresentam até analfabetismo funcional, ou sérias dificuldades de entender um enunciado de questões e a propositura de um texto de redação. E não haveria o elogio à “criatividade” nas redações onde alunos colocaram receitas de macarrão instantâneos e trechos de hinos de times de futebol. O recuo posterior não limpou tal mácula. Pena que, assim prosseguindo, estaremos criando uma triste ilusão de progresso, o que não é verdadeiro. Ainda cumpre-se deixar claro que há alunos de cursos de primeiro e segundo graus, que sequer sabem em que série se encontram. O efeito evidente disso é a desmotivação de professores e o quase total alheamento dos pais sobre a real condição escolar de seus filhos.

  3. Sempre que eu vejo essas pesquisas mostrando o aumento da renda do trabalhador – e os dados da coluna apontam que ela cresceu quase 80% em 10 anos – eu me pergunto: Qual a reforma foi feita nesse período que garantiu sustentavelmente esse ganho tão elevado? Obviamente nenhuma, no máximo alguns puxadinhos e uns remendos.

    Esse ganho é uma ilusão monstra. Num primeiro momento pela bonança mundial, mas no segundo momento, de 2008 pra cá, é nítido que o país tá vendendo a alma ao diabo pra continuar vivendo numa realidade irreal. Primeiro, injetaram-se quantiaddes anormais de crédito e dinheiro na economia, deram-se reajustes salariais absurdos, e tudo isso vai virando uma mega inflação. A indústria, coitada, vê o dolar quasi-travado, ao mesmo passo que os custos internos sobem escandalosamente. O governo impiedosamente segura o dolar, que destroça a indústria, para segurar a inflação monetária que ele mesmo criou. Entram importados, substitui-se a indústria, e o déficit externo vai aumentando…

    No fim, essa riqueza atual só dura enquanto as reservas restarem e o IED se mantiver nesse patamar elevadíssimo, coisas que obviamente não serão por muito tempo. É como o cidadão que perde o emprego, mas mantém o patamar de vida gastando o dinheiro que tem na poupança. Parece um deja vu do que aconteceu em 99, depois de 3-4 anos de uma riqueza inexplicavel pós introdução do real. E depois? Crise atrás de crise, até que um dia quem sabe, o país, no caos e na miséria, relembre que pra crescer tem que valorizar a produção e não o social.

  4. Mansueto, creio que no modelo de desenvolvimento a que se referem os economistas do governo está implícita, como prioridade, a determinação da inclusão social de grande parte da população que estava ( e, está ainda ) à margem da sociedade de consumo.

    Éramos, e ainda somos uns dos países mais desiguais do mundo —– o que justificaria tal prioridade.

    Estamos, agora, vivendo um período de transição econômico-social com inclusão —- que, nitidamente, vem perdendo força e vem se esgotando.

    Acho que “todos tem a consciência” de que o modelo amparado majoritariamente pelo consumo não se sustenta mais. As concessões ao setor privado, assim como o investimento em infraestrutura já sinalizam a mudança de rumo. Não que o modelo de consumo esteja totalmente esgotado —- ainda temos muito “a fazer e a consumir” —- dado que aproximadamente cinquenta (50) milhões de consumidores deverão entrar no mercado de consumo, a médio prazo.

    São as classes D e E.

    Fazendo um paralelo e um parenteses: uma das causas da disputa Ocidente X Rússia está no poder de consumo da população de mais ou menos 40 milhões de ucranianos, além do gás……etc…
    Portanto temos um celeiro de consumo ainda a ser explorado (classes D e E ).

    E, realmente, como vc diz, não existe tal modelo. Houve, de fato, uma decisão política em adotá-lo, ainda que transitoriamente.

    O consumo excessivo vaza para a conta corrente, porém o IED ( nessa fase transitória ) tem coberto o deficit em c/c ( aliado ao capital de portfólios, etc ). Além disso, temos um bom seguro ( reservas), o manejo dos swaps cambiais, as vendas de linhas, e mais ainda: o câmbio flutuante como limitador do descontrole do deficit corrente.

    Enfim, há instrumentos que sustentam essa fase de transição. E a realidade vem confirmado essa estratégia.

    A maturação dos investimentos e das concessões nos próximos anos elevarão o nível de produtividade da economia como um todo. Apenas não sabemos a que nível tal elevação impulsionará o crescimento do PIB real.

    Mas parece claro que essa é a estratégia de Lula e Dilma: inclusão social ( com ou sem crescimento do PIB ) como prioridade. “Nessa segunda fase”, a prioridade será o investimento e a oferta agregada.

  5. Correto no geral Mansueto. Apenas um reparo de ordem geral. A tese conhecida de que “perdemos a chance das reformas que nos garantiriam um futuro melhor, enquanto havia bonança externa” deve ser relativizada. Em primeiro lugar, há consenso sobre reformas estruturais há mais temo que o “período das bonanças”, se quisermos esticar o raciocínio, tivemos até um presidente legitimamente eleito que foi derrubado por conta das reformas “de base”. Segundo lugar, também consenso no nosso meio, crucificamos as equipes econômicas (no tempo do FHC era assim também, lembra?). As reformas que impactarão o custo sistêmico brasileiro dependem de complicadíssimos e imprevisíveis arranjos políticos até agora inimagináveis e sem viabilidade política. Pense por exemplo, na Reforma Tributária ou na Reforma Política e seus impactos na gestão fiscal e macroeconômica geral e os mecanismos de incentivos que regulam o pacto federativo ou a relação Executivo-Legislativo. Isso está MUITO, MUITO além da “equipe econômica” e de seus modelos.

  6. Mansueto

    A indústria brasileira produz apenas para o mercado interno e não se integrou às cadeias internacionais de valor.

    Do ponto de vista da integração brasileira no comércio mundial, nas estatísticas do Banco Mundial para 2012, a parcela das importações de bens e serviços no PIB do Brasil é de apenas 13%, o menor valor entre todos os 176 países para os quais o banco tem dados.

    Vivemos num dos países mais fechados ao comércio exterior. Somos um mercado muito atraente para o investimento direto das multinacionais. Elas vêm aqui para explorar o mercado interno protegido e não para integrar o país às suas cadeias produtivas mundiais, como ocorre com suas subsidiárias em outros países. Ganham dinheiro ao investir no país, mas o resto da economia definha, ao deslocar para a substituição protegida de importações recursos locais que poderiam ser empregados com maior eficiência em atividades exportadoras.

    É imperativo que deixe de ser um dos países mais fechados do mundo ao comércio internacional. Somente aumentando significativamente a participação das exportações no PIB é que deixaremos de ser apenas um exportador de commodities e conseguiremos desenvolver uma indústria e um setor de serviços internacionalmente competitivos. O exemplo da Embraer, que importa 70% do que exporta, indica o caminho para o futuro.

  7. Mansueto, uma dúvida: o título do gráfico não seria saldo em transações correntes? Está “déficit em transações correntes”. Matematicamente, um déficit negativo é um superávit.
    Excelente post.
    Abraços.

  8. Mansueto, vc não acha que o Neri está sendo poupado pelos economistas que não são alinhados ao governo? Afinal, os argumentos apresentados por vc e pelo Samuel não podem ser vistos como meros deslizes, principalmente para alguém com a experiência dele.

  9. Mansueto,

    Uma dúvida. Existe algum trabalho que mostre que a evolução da produtividade do trabalho é mais veloz com baixa taxa de desemprego que com alta taxa de desemprego? Meu raciocínio é que o incentivo para mecanizar e automatizar decorre da escassez de mão-de-obra. Se essa dinâmica é comum, talvez seja interessante tensionar o mercado de trabalho, mesmo que a extrapolação do curto prazo aponte um movimento insustentável.

    Abraço

  10. Meus caros,
    O Vet levantou o ponto acima e eu o reforço! Só universalizamos o ensino fundamental em 1998. Isto implica dizer que, até 2038 (40 anos depois), cada geração que sair do mercado de trabalho é substituida por outra bem mais educada. Este impacto de longo prazo é absurdamente positivo em termos macroeconômicos. Não é a toa que os rendimentos do trabalho sempre explicam a maior parte da queda da desigualdade e da informalidade na década passada. Como passamos por processo de desconcentração de renda, é óbvio que a renda mediana estava crescendo bem mais que a renda média.
    Mais, este processo pode se aprofundar, sim. Metade de nossos jovens não terminam o ensino médio e a qualidade do nosso ensino básico é sofrível. Governos que efetivamente busquem resolver este problema garantiriam nova rodada de crescimento econômico e desconcentração de renda (com a renda mediana crescendo bem mais que a média). Diga-se de passagem, isto não foi nem lembrado nas gestões federais desde 2002 (estes eram nossos problemas na educação, estes continuam a ser nossos problemas na educação).
    Por fim, mesmo com a qualidade sofrível de nossa educação, vamos pensar no incremento de capital humano que ela gerou sobre a população mais pobre (transformando alunos F em D). O impacto agregado disto é muito alto.
    Um grande abraço!

    • Curioso que na prática o que se vê são trabalhadores cada vez menos qualificados e crianças e adolescentes cada vez mais alienadas. Mas os índices dizem o contrário.

      Quem tá errado? O índice ou a experiência prática? Qualquer professor de escola municipal e estadual conta horrores sobre a vivência na escola. E vocês aí falando que a educação está melhorando…

  11. Mansueto

    Armínio Fraga e Marcos Lisboa em artigo em coautoria na FSP de domingo (“Hora de mudar o foco”) também falaram da importância do crescimento da produtividade. O que achei mais interessante foi a parceria de economistas que ocuparam postos importantes em governos do PSDB e do PT.

    Ainda acho que se Dilma de reeleger ela não vai chamar economistas críticos ao pensamento nacional-desenvolvimentista, hoje amplamente hegemônico no governo.

    Vamos lembrar os próceres dessa influente escola de pensamento da economia (ocuparam posições de poder desde o governo Sarney) e suas fracassadas mandrakarias ativadas para debelar a hiperinflação.

    A explicação do retorno dos “desenvolvimentistas” por um golpe do destino não me convence. Prefiro a metáfora da fábula da travessia do lago pelo sapo e o escorpião. Se somos o sapo dessa fábula, é certo que há o escorpião que, mesmo sabendo que vai se afogar no lago, ferroa porque esta é a sua natureza. Em outras palavras, esse pessoal da fracassada “nova matriz macroeconômica” é movido por dogmas. Eles estão dogmaticamente sempre certos e os responsáveis pelos seus fracassos são o outro maléfico: as “estruturas”, os “pessimistas”, o “mercado” etc.

    Dilma (ex-PDT) e o PT vinculam-se historicamente a essa dogmática. A curta gestão “neoliberal” do Palocci foi um ponto fora da curva, ou, como preferem explicar os petistas, um recuo tático da tropa nacional-desenvolvimentista.

    Como escreveram Fraga e Lisboa, “políticas de desenvolvimento baseadas em proteção, subsídios e incentivos a setores selecionados resultam no estabelecimento formal e informal de grupos de interesse, que dependem da sua manutenção. Esses grupos tendem a dificultar reformas que beneficiem a sociedade como um todo.”

    O PT e seus aliados são constitutivos desse heterogêneo grupo que é beneficiário direto do status quo nacional-desenvolvimentista. São, portanto, um grupo economicamente e politicamente conservador, a despeito do palavrório mudancista.

    Economistas divergem e expõem suas divergências em debates públicos. Isso é normal e necessário. Mas não acredito na viabilidade da formação de uma equipe econômica composta por economistas alinhados ao pensamento nacional-desenvolvimentista (mesmo considerando os matizes) e por outros que lhes são críticos. Isso não é funcional.

    Mansueto, você disponibilizou, via blog, o artigo para discussão Democracy and Growth in Brazil de Lisboa e Latif. Leu ou ouviu comentário relevante de algum “desenvolvimentista” a respeito?

    No final do artigo da FSP, a principal proposta (para mim) de Marcos e Zeina reapareceu no final do artigo da FSP em coautoria com Fraga: “A saída passa por adotar critérios e regras de políticas públicas voltados ao interesse maior da sociedade, promover avaliações regulares e independentes dessas políticas e garantir ao público o acesso a informações que permitam o contraditório.”

    Criar uma institucionalidade favorável à promoção de “avaliações regulares e independentes dessas políticas e garantir ao público o acesso a informações que permitam o contraditório” é, até prova em contrário, algo que soa como uma ingerência “neoliberal” aos ouvidos dos nacional-desenvolvimentistas.

    Goste-se ou não dos tucanos, o fato é que o PSDB é amigável à implantação dessa institucionalidade de avaliação independente dos resultados das “políticas de desenvolvimento baseadas em proteção, subsídios e incentivos”.

    É ilusória a esperança de que os atuais beneficiários da política “desenvolvimentista” aprovarão reformas contrárias aos seus interesses e que beneficiem a sociedade como um todo.

  12. Olha, “criar” uma sociedade de consumo, cria-se. Hoje, tem-se facilidades e subsídios para a aquisição de bens de consumo duráveis, notadamente automóveis e linha branca e linha marrom. Porém, a indústria patina, pela falta de capacitação de trabalhadores, de um lado. E de outro, o País aumenta a dependência de bens intermediários, que equipam os bens finais, importados. Ainda, facilita-se a aquisição de imóveis para moradia e institui-se subsídios para aquisição de bens de consumo para equipar as casas. POrém, os movimentos pró-moradia e as invasões de áreas públicas e privadas continuam num crescente. Então, onde estamos afinal? Melhrando economicamente, ou sendo melhorados mediante elevados subsídios que em algum momento do tempo terão de ser pagos? E quando isso ocorrer, os recursos serão ou virão de onde? Da boa gestão econômica ou das máquinas de impressão de dinheiro? E como avaliar adequadamente a situação de renda das pessoas, se já estamos com inflação acima de 6%aa. e produto em 1%aa., com previsão par este ano e para o ano que vem? Ou seja, se for feito o ajuste necessário, este terá de ser brutal. Primeiro, trazer a inflação, em R$, para o centro ou mais perto do centro da meta. Para isso, dá para imaginar o tamanho do ajuste dos juros necessário para tanto. Bem como, o tamanho do descontentamento de milhões que já se consideravam “bem de vida” que, de repente, receberão seus carnets, cujos valores tenderão a superar em muito sua renda “real”, aquela que ele pensava ser a verdadeira e que o fez mergulhar no consumo, no consignado, no cartão de crédito. Não dá para ser muito otimista num quadro destes. Nem a Copa está tendo o condão anterior de amortecer tais preocupações.

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