Coisas esquisitas que escutei ou li recentemente

Sabe quando chega uma hora que você literalmente se cansa de debater? Você escuta várias coisas supostamente interessantes, mas que não fazem muito sentido e, para não ser chamado de chato, é melhor ficar calado. Ao longo das últimas duas semanas tenho escutado ou lido coisas que me assustam.

(1) Governo segura tarifas para conter inflação, diz ministro: Mercadante admite controle de preços de combustíveis e energia elétrica (Folha de São Paulo 14 de maio de 2014).

Eu chequei com dois ex-presidentes do Banco Central do Brasil se isso fazia sentido. Eu poderia estar defasado nessa literatura, mas não. Eles me falaram que nunca escutaram algo tão absurdo. Mas se o nosso ministro de fato acredita em tamanho absurdo é capaz de o governo tentar um mega controle de preços à la Argentina para controlar a inflação após eleição (se reeleito). A única forma de ser otimista é achar que o ministro da Casa Civil não acredita no que falou. Mas se ele de fato acreditar, ………

(2) Dilma desconfia do mercado como regulador de preços: Assessores afirmam que petista quer conter “lucros excessivos” de empresários e proteger consumidores (Folha de São Paulo 19 de maio de 2014)

Essa matéria me surpreendeu e acho que isso deve ser claramente intriga da oposição. Não é possível que nossa presidenta tenha feito as declarações que a ela são imputadas pela matéria. Se isso fosse verdade, significaria que a presidenta acha que a sua vontade consegue fazer a mágica de reduzir preços, apesar do aumento da proteção comercial no seu governo. Esse trecho não pode ser verdade:

“No início de seu mandato, em 2011, Dilma Rousseff fez uma cobrança dura à equipe: na sua opinião, eles não estavam fazendo nada para segurar o aumento, considerado por ela “exagerado”, das passagens aéreas. Ao ouvir de assessores que os preços do setor são livres, a presidente, irritada, gritou: “Isso é coisa de tucano”. Foi então lembrada que a última normatização sobre a área havia sido feita em 2006 –no governo Lula, portanto.”

(3) Custos do PAC disparam na gestão Dilma (Valor Econômico 19 de maio de 2014). Como isso pode ser possível se o PAC foi concebido para melhorar o planejamento e o acompanhamento das obras públicas? A matéria fala que:

“Na contramão dos atrasos recorrentes em seus cronogramas de execução, o orçamento das “megaobras” da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) disparou nos quase três anos e meio de mandato da presidente Dilma Rousseff. Falhas em projetos de engenharia, aditivos contratuais, compensações socioambientais acima das estimativas iniciais e até reajustes salariais de trabalhadores superiores à inflação fizeram o valor total de 12 grandes empreendimentos subir R$ 42,7 bilhões desde dezembro de 2010.”

Isso não pode ser verdade. Será? Bom, espero que a matéria esteja errada. Mas uma coisa me deixou com uma pulga atrás da orelha. Uma grande empreiteira brasileira recentemente terminou um novo estudo sobre o custo do Trem de Alta Velocidade. Custo sem a desapropriação das terras? R$ 85 bilhões. O governo acredita que pode fazer por menos. A ver. Mas se esse projeto sair, eu de fato vou para o time dos pessimistas.

(4) Para ajudar no superávit, governo tenta segurar R$ 1,32 bi do PIS: Campanha publicitária para incentivar a retirada do benefício é suspensa (Jornal O Globo 16 de maio de 2014).

Que o governo terá MUITA dificuldade para entregar a meta do primário de 1,9% do PIB este ano já se sabe. Agora segurar os recursos do pagamento do abono salarial para melhorar o resultado primário de apenas um mês é um desespero muito além do que eu esperava. Segundo a matéria:

“O prazo para o recebimento do abono encerra no dia 30 de junho. Em anos anteriores, o governo fez campanhas publicitárias para alertar as pessoas a procurarem as agências da Caixa Econômica Federal e sacar o dinheiro dentro do prazo. Este ano, em março, o Ministério do Trabalho iniciou os preparativos da campanha publicitária, mas ela foi suspensa. De acordo com integrantes do governo, a orientação partiu do Ministério da Fazenda e o objetivo é reservar os recursos para compor o superávit primário, economia que o governo faz para o pagamento dos juros da dívida.”

O ministério da fazenda negou tal prática, mas as fontes da matéria do jornal são funcionários do próprio governo. Ficou o dito pelo não dito e vamos torcer para que isso não seja verdade.

(5) CCJ aprova aumento acima do teto para juízes e membros do MP: Presidente do Supremo, ministro Joaquim Barbosa defendeu criação de adicional por tempo de serviço. (Congresso em Foco)

A minha visão pessoal como economista, por favor não me processem por divulgar minha opinião, é que o teto vale para todo mundo. Mas hoje a CCJ aprovou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que estabelece o pagamento de adicional por tempo de serviço a juízes e membros do Ministério Público da União, dos estados e do Distrito Federal. A concessão do benefício permitirá que essas categorias recebam acima do teto constitucional, fixado atualmente em R$ 29,4 mil.

Mas hoje também o Ministro do STF, Marco Aurélio Mello, reviu liminar que havia concedido e mandou suspender os supersalários no Congresso Nacional (clique aqui). Ou seja, cria-se uma gratificação para permitir que juízes e membros do Min. Público possam ganhar acima do teto e no mesmo dia um Ministro do STF manda cortar os salários dos 1.800 funcionários do Congresso Nacional que recebem acima do teto?

Qual a mensagem que fica? Que todos os demais funcionários públicos devem lutar por gratificações por adicional por tempo de serviço como fez os juízes e membros MP para que as demais carreiras possam furar o teto constitucional de R$ 29,4 mil.

Justiça seja feita. Neste caso, ao contrário dos demais, os senadores do PT votaram contra, bem como o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). Mas o PMDB votou a favor e a emenda foi apresentada pelo senador Gim Argello (PTB-DF).

(6) PF diz haver suspeita de atuação de ‘organização criminosa’ na Petrobras (Folha de São Paulo 21 de maio de 2014).

Para terminar a rodada de noticias malucas que ando lendo, matéria da Folha de São Paulo afirma que: “Relatório da Polícia Federal que faz parte do inquérito que apura a compra da refinaria de Pasadena (EUA) afirma haver a suspeita da existência de uma “organização criminosa no seio da empresa Petrobras” que patrocinaria desvio de recursos públicos para o exterior e consequente “retorno de numerário via empresas offshore”.

Vamos torcer para que o relatório da Polícia Federal esteja errado e que a suspeita de uma organização criminosa no seio da empresa Petrobras não se confirme. Uma coisa no entanto podemos confirmar.

Alguém deste governo teve uma excelente ideia de aumentar excessivamente a exigência de conteúdo nacional dos investimentos no Pré Sal, atrasar os reajustes do preço dos combustíveis, ocasionado um problema na geração de caixa da Petrobras e levando a empresa a um super endividamento que superou US$ 100 bilhões no primeiro trimestre deste ano – uma dívida equivalente a quatro vezes sua geração de caixa operacional – leiam aqui o post do excelente blog de noticias de mercado do jornalista Geraldo Samor da VEJA mercados. Como fala corretamente o colunista: “A Petrobras não precisa ser privatizada. Só de voltar a pertencer ao Brasil, a ação já valeria o dobro.”

Mas nessa confusão sobre a Petrobras só não entendi uma coisa. Acho que escutei alguém do governo falar que a oposição queria destruir a Petrobras (clique aqui). Eu não sabia que era a oposição que nomeava os diretores e presidente da Petrobras. Eu também não sabia que era a oposição que determinava a política de reajuste dos preços combustíveis. Que oposição é esta?

Acho que a melhor coisa a fazer para ficar otimista é assistir Dora Aventureira ou Diego com o meu filho de três anos. Pelo menos nesses casos tenho certeza que a Dora vai conseguir passar pelos obstáculos do mapa e o Diego vai ter sucesso em salvar o animal em perigo.

Boa Noite!

 

 

 

17 pensamentos sobre “Coisas esquisitas que escutei ou li recentemente

  1. Acho o exemplo das rodovias ruim. O governo colocou um preço, o mercado disse não. Foi feito um preço melhor, o mercado aceitou. Quando se diz que o mercado determina os preços significa que é uma decisão unilateral? Se uma empresa coloca o serviço muito caro, o cliente rejeita e o preço baixa. O que houve de diferente disso no caso das rodovias?

    • Não entendi o exemplo. Rodovia é uma concessão. Normalmente vc estabelece um teto da tarifa e a competição entre as empresas faz sair o menor preço. A competição está aqui…

    • No caso das rodovias, pode ser também a modalidade outorga, onde o preço inclui a manutenção de estradas vicinais etc. O modelo adotado pelo atual governo federal,parece aceitar o menor preço, além de exigir a menor taxa de retorno, ou seja, tenta controlar o lucro dos investimentos da concessionaria. Apesar de haver quem ache bom esse congelamento das taxas de retorno por R$ investido”, porém, rapidamente, o vencedor reivindica adequação financeira do contrato. Não poderia ocorrer algo diferente disso. Como pode alguém investir recursos em algo que exige elevados montantes de capital e ter interferência em quanto terá de retorno pelo que investiu?

  2. Eu tenho uma sensação bem parecida com a sua, Mansueto. Existe sim uma falha muito grave na formação (de boa parte) dos economistas brasileiros. Em alguns casos, a falha é de caráter, inclusive com relação à honestidade intelectual, e aí não há muito jeito. Mas o desserviço que a UFRJ e a UNICAMP fazem ao Brasil é muito grande. Os estudantes saem destas escolas sem a menor condição de exercer a profissão. E digo isso não como crítica aos jovens, mas aos professores e responsáveis por esse lamentável estado de coisas.
    Em minha trajetória pessoal, acabei estudando na USP por acaso. Qdo estava terminando, decidi fazer ANPEC, pois sentia que minha formação havia sido muito falha – o que pude comprovar no meu primeiro dia de EPGE.
    Mesmo após isso, ao ingressar no mercado entendi que a formação como economista leva muitos anos, e só se completa, digamos, depois de uns dez anos. Claro que durante a vida se aprende muito, mas dá pra ter uma boa base com isso. E aqui infelizmente a questão é a seguinte: o sujeito que só faz a graduação e depois não trabalha em ambientes meritocráticos tem probabilidade muito grande de não se tornar bom economista. Esse é justamente o caso da Dilma, Mercadante e Mantega. Eles não sabem o que fazem. E se sabem…

  3. Acho que o tom irônico é o que resta aos pessimistas como eu.
    O que temos aqui é:
    Gaslighting is a form of mental abuse in which false information is presented with the intent of making a victim doubt his or her own memory, perception and sanity.[1] Instances may range simply from the denial by an abuser that previous abusive incidents ever occurred, up to the staging of bizarre events by the abuser with the intention of disorienting the victim.

    “Não houve mensalão, pasadena foi bom negócio à época, muito me honra o apoio da base”… Ontem, tomei conhecimento dos péssimos resultados do Caged e da 54ª posição do Brasil entre 60 países quanto a ambiente favorável a negócios..E depois ouvi na Voz do Brasil (ok, não deveria aceitar essa tortura) eufóricos comentários de como continuamos a gerar empregos e informações sobre novos regulamentos para cadastrar agricultores, pescadores, etc.
    Estamos divididos entre os que sabem o que está acontecendo e os que não sabem. O primeiro grupo se subdivide entre os que repudiam tudo isso e os que se aproveitam da situação (campeões nacionais, comissionados, apoios políticos em troca daquilo, sindicatos, UNE, MST, artistas).
    O segundo grupo não tem condições de avaliar bem e julgar. São os que punirão o sincericídio.

    • Essa questão de aumento das taxas de emprego ou de redução das taxas de desemprego teria a ver com o que explicam e/ou esclarecem os mais lúcidos? Ou seja, os desalentados, aqueles que procuram emprego, não encontram e param de procurar, não são contabilizados como desempregados pelos órgãos oficiais de pesquisa de emprego e desemprego? Se for assim, logo logo estaremos em situação de pleno emprego.Se não for assim, continua sendo um esbulho tão brutal como dizer que a inflação em 6% ainda estaria dentro da meta do governo, sendo que o mandado do BC é trazer aos preços para o centro do intervalo de metas, que é de 4,5%. Creio estarmos vivendo em algum momento esquizo em nossa amada terra.

  4. Mansueto,

    Se faz urgente o esclarecimento sobre a matéria veiculada na Foia hoje, afirmando que os gastos com a Copa equivalem a apenas um mês de despesas com educação.

    A contabilidade do PT se estendeu ao Pasquim de São Paulo. Misturaram despesas e investimento.

      • Desculpem pela intromissão, Luís e José Luiz. Mas, ao que consta, tudo que se refere a gastos com a Copa agora sao chamdos de “legados da Copa para o Brasil”. Ou seja, arenas mal ajambradas, arquibancadas postiças etc. serão “legados da Copa ao povo brasileiro”. Agora Metrô e outros meios de transporte para chegar nas proximidades das arenas, são “babaquices” segundo o ex-presidente de 2002/2010, que recomendou jumentos para o povo ir ver os jogos ou para o povão ir mesmo a pé.
        O que dá para concluir é que o legado é babaquice. E o que ficará, como real, serão jumentos e pés inchados de tanto caminhar.
        Assim, só deve embalar quem pariu, numa aproximação capenga do famoso ditado.

  5. Matéria ( reportagem) interessante da revista Exame.

    http://exame.abril.com.br/economia/noticias/por-que-os-alunos-de-economia-se-revoltaram-e-o-que-querem#comentar

    Não é por menos que o Samuel Pessoa, além de alguns outros, estão mudando sua estratégia, e ampliando o leque de estudo e entendimento da dinâmica da economia, em geral.

    O fiscalismo restrito em si próprio, assim como o monetarismo, enfim, o chamado “pensamento único” necessitam de um maior e melhor entendimento do funcionamento de uma economia. A economia política…..social…etc…..

    Abraço

  6. Caro Mansueto,

    Você teria alguma sugestão de artigos, papers ou livros que abordam as reformas econômicas que ocorreram no Brasil nos anos 1990? Tenho pesquisado no google, mas não encontrei muita coisa boa.

    Obrigado, Jean (Banco do Brasil).

    • Finanças públicas, de fábio giambiagi e ana além
      Se quiser uma leitura mais do tipo história, saga brasileira, de miriam leitão.

  7. Matéria ( reportagem) interessante da revista Exame.

    http://exame.abril.com.br/economia/noticias/por-que-os-alunos-de-economia-se-revoltaram-e-o-que-querem#comentar

    Não é por menos que o Samuel Pessoa, além de alguns outros, estão mudando sua estratégia, e ampliando o leque de estudo e entendimento da dinâmica da economia, em geral.

    O fiscalismo restrito em si próprio, assim como o monetarismo, enfim, o chamado “pensamento único” necessitam de um maior e melhor entendimento do funcionamento de uma economia. A economia política…..social…etc…..

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