Por que Piketty não estudou o Brasil?

Hoje o economista Thomas Piketty dá uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo (clique aqui) sobre as suas teses que estão no seu livro que tem sido um sucesso de vendas. Quando indagado por que não estudou o Brasil, o economista francês respondeu:

“Não tivemos condições de apurar dados precisos sobre o Brasil. Tentamos muitas vezes, mas não conseguimos dados apropriados para a nossa pesquisa. O problema é a falta de transparência em dados referentes a Imposto de Renda, por exemplo.”

Há anos escuto de um amigo pesquisador exatamente a mesma queixa. Mas este meu amigo já me disse que o melhor estudo que conhece com dados de pagamento de imposto de renda é um que tem como base um CD pirata comprado em algum lugar no centro de São Paulo.

É difícil acreditar nisso, mas bem que a Receita Federal poderia fazer um estudo sério sobre a progressividade do imposto de renda com dados detalhados por faixas de renda. Há no Brasil um debate se é ou não possível aumentar a progressividade do imposto de renda, acabar com as distorções de pessoas físicas que pagam imposto de renda como pessoas jurídicas (depois vou escrever sobre este ponto) e a arrecadação potencial que viria da criação de um alíquota extra mais alta de imposto de renda.

Antes de jogarem pedras em mim, estou falando de estudos e não que se deve aumentar impostos. Essa discussão da progressividade da estrutura de arrecadação no Brasil tem sido ausente no debate aqui porque, dada o nosso o nível de desenvolvimento, temos uma carga tributária excessivamente elevada: 36% do PIB.

A forma de arrecadar impostos no Brasil nos torna um país com uma estrutura tributária fortemente regressiva, já que 49% da nossa arrecadação de impostos vem de impostos indiretos ,segundo dados da Receita Federal. A média da OCDE de arrecadação via impostos indiretos é de 33% do total da arrecadação.

Estrutura da Arrecadação de Impostos e Contribuições no Brasil -2010-2011-2012

Estrutura de arrecadação no Brasil

 

Fonte: Receita Federal.

Há como tornar o sistema tributário no Brasil mais progressivo? Acho difícil dado o nosso elevado nível de arrecadação e a estrutura do mercado de trabalho. Por exemplo, a renda mediana anual de um trabalhador nos EUA é de US$ 27 mil e a faixa de isenção do imposto de renda por lá é de US$ 9.000, 33% da renda mediana.

No Brasil, a nossa renda mediana mensal no mercado de trabalho é de mais ou menos R$ 1.200 e a nossa faixa de isenção do imposto de renda é perto de R$ 1.800; 50% acima da renda mediana. Se fôssemos replicar a estrutura do imposto de renda nos EUA, a faixa de isenção deveria ser de R$ 400 – o que seria evidentemente um absurdo dado que o salário mínimo Brasil é de R$ 724 e, assim, não é possível tributar uma renda menor do que o mínimo. Mas mesmo que começássemos a tributar quem ganha R$ 800, ainda assim seria um absurdo.

Em resumo, com uma carga tributária tão elevada, 36% do PIB, não nos resta muita opção se não continuar arrecadando fortemente via impostos indiretos, o que torna os nossos produtos caros para o consumidor. De qualquer forma, seria bom se a Receita Federal abrisse a caixa preta da arrecadação e soubéssemos um pouco melhor a arrecadação de imposto de renda por faixa de contribuição, renda dos contribuintes, etc.

51 pensamentos sobre “Por que Piketty não estudou o Brasil?

  1. acho que formas de aumentarmos a tributacao direta. No proprio IR, podemos aumentar o numero de faixas e aliquotas. Depois, podemos aumentar impostos diretos diversos como heranca, grandes fortunas etc. Isso SEM aumentar a carga tributaria. Ou seja, diminuir os impostos indiretos, mantendo o gasto pubico

  2. Mansueto, temos de:
    1. reduzir agressivamente impostos sobre bens e serviços
    2. aumentar a progressividade
    3. aumentar impostos sobre herança

    Isso é muito difícil de implementar, mas solucionaria o que você está apontando. Não acha?

    • Não. Não temos que aumentar carga tributária alguma. Mesmo a respeito do IGF, quem pagará a conta é a classe média, já que os partidos que propõem o imposto querem considerar grande fortuna = R$ 2 milhões.

      O detentor de grande fortuna mudará seu domicílio fiscal na hora. A classe média, impossibilitada de fazer isso, pagará a conta. Provavelmente você também.

      Aumento de progressividade da impostos também não é viável, quem pagará a conta, novamente, é a classe média.

      Nós temos que reduzir a carga de impostos indiretos sem qualquer contrapartida de aumento de carga de impostos diretos.

      Quem propõe qualquer tipo de aumento de carga tributária no Brasil não devfe ser levado a sério.

      • Apenas um complemento.

        É interessante que todo debate acerca de “desigualdade social”, no intuito de afirmar que o rico paga menos impostos proporcionalmente que o pobre, apresenta como solução o aumento dos impostos dos ricos. Reduzir os impostos dos pobres ninguém menciona.

        E como pobres, não falo de salário mínimo, falo de classe média baixa. São eles quem pagam a conta.

    • Os gráficos apresentados pelo artigo corroboram os dados de Piketty. Ele jamais disse que o aumento da riqueza dos mais ricos é “inexorável” (até porque isso seria uma bobagem que invalidaria seus próprios dados a partir de 1950), mas que a participação deles no montante de riqueza global segue um padrão cíclico e que estamos assistindo desde 1970 a uma inversão do ciclo com tendência de aumento da desigualdade. E ele inclusive dá um monte de “dicas” para inverter novamente o ciclo, o que mostra que essa tal “inexorabilidade” é embuste de quem não leu seu livro. No mais, o autor demonstra desconhecimento absoluto sobre Keynes, que não só jamais desdenhou dos dados de Kuznets, como os citou e elogiou mais de uma vez em sua Teoria Geral. Libertários em pânico estão fazendo aquilo que socialistas fazem quando confrontados com uma ideia “perigosa” para suas prescrições políticas: criam um espantalho dessa ideia para tentar surrá-la, enquanto fecham o olho para o problema bem real que está diante de si.

  3. Mansueto,

    Acho que houve um pequeno erro de digitação. Ao escrever “33% abaixo da renda mediana” imagino que a intenção tenha sido escrever 33% da renda mediana”, não é isso?

    Abs

  4. Mansueto, interessante seus argumentos. Ao contrário do que você diz, vejo pouco essa discussão ser feita de modo mais aprofundada. Me espanta que pela esquerda não venham propostas nesse sentido.

    Minha impressão (leiga) é que o maior conflito a uma maior progressividade é federativo. Aumento de imposto sobre a renda (federal) e a propriedade (municipal) teriam de compensar uma diminuição dos indiretos, em particular o ICMS. Como não há uma maneira de articular isso (o histórico recente do Confaz mostra isso bem) ficamos sem uma solução.

    Sem falar nos entraves políticos. A visibilidade dos impostos diretos tornam eles vítimas fáceis do populismo legislativo, como foi o caso do aumento do IPTU em São Paulo.

  5. A tabela do IR é uma bizarrice total. Poucas faixas, nem tanta diferença entre elas e muita tributação no baixo-meio da pirâmide. Podíamos distribuir melhor essa tributação, criando mais categorias e aumentando a cobrança proporcionalmente para quem ganha mais. hoje quem se lasca mesmo no IR é a classe média-baixa (não chamo negada com renda de R$1,5 mil como classe média, isso é maluquice que não tem nada a ver com o mundo real).

  6. Como disse o colega ali em cima, o livro do piketty é besteirol de quinta. Um livro desses só recebe tanta mídia, pq é do interesse de diversos economistas e governos continuar aumentando sua sanha arrecadatória, como se a população trabalhadora fosse composta de escravos semi libertos que tem a obrigação de ficar sustentando essa corja que nos manda e só pensa em mais poder e essa outra corjinha que não trabalha, e acha que é obrigação de quem o faz ficar sustentando-os. No Brasil já temos algumas dezenas de milhões de pessoas nessa condição. Gente com dois braços, duas pernas, amplamente capazes, vivendo do governo e coçando o saco diuturnamente, ao invés de irem trabalhar.

    Até quando teremos que repetir: Imposto é roubo. Pode tá legalizado, mas continua sendo roubo.

    Em 1850 o bastiat já dizia no seu livro (n lembro o nome agora) todas essas medonhas artimanhas que os socialistas estão usando hoje para deturpar a lei e beneficiar pessoas que não trabalham, em detrimento dos trabalhadores, inclusive mandando pra cadeia quem se recusa a ser espoliado legalmente.

    O pior, é que os socialistas não percebem o imenso dano que se causa ao retirar o dinheiro de qm produz e dar a quem nada faz. Praticamente todos os países altamente desenvolvidos, tão aplicando taxações absurdas, roçando os 40-50%.E praticamente todos estes pararam de crescer produtivamente faz tempo. Tem seus surtos de crescimento do PIB lastreados meramente em injeções massivas de capital e taxas de juros reduzidas.

    Enquanto isso os países com menos impostos (<25%) lavam a égua e crescem como nunca.

    • discordo profundamente do seu comentário (não li o livro do tal Piketty), mas muitos economistas respeitados fizeram resenhas boas: a afirmação de que ele “é um besteirol do começo ao fim” não parece ser (nem um pouco) verdadeira 🙂

      • Vários economistas defendem câmbio fixo, defendem controle de capitais, defendem o bolsa banqueiro, defendem as medidas intervencionistas do governo… e nem por isso qualquer coisa disso é boa. A bottom line do livro é a asserção e defesa de IR de 80% pra salários maiores de um tanto lá, acho que é um milhão. E dar o dinheiro pra quem? Para o governo? Esse supremo que não tem a menor responsabilidade sobre a destinação dos recursos que espolia? Certa tempo atrás li uma frase sensacional. “O crescimento econômico e da riqueza das pessoas depende fundamentalmente de duas coisas: Poupar dinheiro e reinvestir esse dinheiro sabiamente em coisas que produzam mais bens e mais serviços, de interesse da população. O governo não consegue poupar dinheiro, e muito menos investir sabiamente.” Não não.. deixa o dinheiro na mão das pessoas. Podem ficar podre de ricas. A riqueza delas não me fará mais pobre. Muito pelo contrário.

    • Seus comentários também são, começando pelo costume bem tosco de tachar todo proponente de uma política redistributiva como “socialista”, o que ofende a memória e a inteligência de todo o pensamento conservador cujas raízes são muito mais antigas que as da escola austríaca, esta sim fortemente influenciada por pensadores “revolucionários” e radicais franceses do séc. XVIII – tal qual sua prima-irmã socialista.

  7. tá bem estranho esse dado: “[…] a renda mediana anual de um trabalhador nos EUA é de US$ 27 mil […]” (só isso mesmo?) – esse também: “[…] e a faixa de isenção do imposto de renda por lá é de US$ 9.000 […]” – qual a fonte das informações?

    * a forma de cobrança de Imposto de Renda nos EUA e no Brasil são bem diferentes (por exemplo, a sonegação desse imposto lá é altíssima, por não ter retenção em fonte…): não dá pra comparar os dois desta forma: “[…] Se fôssemos
    replicar a estrutura do imposto de renda nos EUA […]” (tenha em mente que “replicar” tb afeta a sonegação, no caso)

  8. Caros vamos debater à vontade, mas vamos manter o nível. Ninguém precisa concordar com as propostas do Piketty, agora achar que o livro é uma droga significa falar mal de vários economistas que discordam das propostas mas que gostaram do livro: Mankiw, Rogoff, Dani Rodrik e mesmo Daron Acemoglu, que discorda da tendência natural de aumento da desigualdade no capitalismo mas que gostou da analise empírica do livro.

    E nesse debate uma coisa é consensual. A desigualdade nos EUA aumentou muito desde a década de 1970 e, mesmo quem aponta fatores tecnológicos, educação e comércio internacional por trás do crescimento da desigualdade nos EUA, apontam que há sim uma concentração excessiva de ganhos nos 1% mais ricos. Algo que parece ter acontecido nos EUA e UK.

    Dois exemplos: Angus Deaton no seu mais novo livro corrobora a analise do Piketty do aumento da desigualdade de renda nos EUA e o próprio Daron Acemoglu. Leiam, por exemplo, este posto do Acemoglu: http://whynationsfail.com/blog/2012/3/9/is-the-one-percent-the-same-everywhere.html

    Podemos discordar de tudo que o Piketty fala e de suas propostas. Mas os dados estão corretos e mesmo os economistas que discordam dele gostaram da evidência empírica e a parte histórica do livro.

    No caso do Brasil a discussão é um pouco diferente. Aqui, antes de pensar em mais tributação é necessário acabar com privilégios muito dos quais são direcionados para ricos que não precisam.

  9. A reforma tributária, de fato, mexe com interesses diversos, influentes e com poder de voto no Congresso Nacional ( 3/5 para emenda constitucional). Daí a dificuldade em discuti-la e tentar mudar algo.

    Como vc sugere, Mansueto, a tendência, pelo menos a curto/médio prazo, é que se empurre com a barriga, e fique tudo como está.

    Um dos empecilhos está na repartição dos 50% da arrecadação de impostos indiretos aos entes federativos ( estados e municípios ). Como diminuir as alíquotas incidentes sobre consumo, produção de bens e serviços, ( e, importações) ?? Sem afetar os FPE e FPM ??. Além da manutenção dos gastos federais no projeto de inclusão social vigente na atual política do governo central ??

    Outro obstáculo será ( ou, seria ) a majoração dos impostos sobre as rendas e patrimônio, e heranças. Temos uma elite bastante conservadora, e até, de certo modo, “atrasada, retrógrada”.

    Enfim, a situação é complicada. Como sugere o Piketty, o modelo mais adequado, e menos concentrador é “penalizar” os impostos diretos, gravando menos o consumo e a produção. Quem sabe…um dia….. no Brasil.

    Temos então, nos países membros da OCDE um estrutura tributária em que a participação dos impostos indiretos é bem menor que o imposto direto, e no Brasil temos uma estrutura regressiva no que tange aos impostos indiretos, penalizando as camadas de menor renda. E, inversamente ( aqui no Brasil ) os impostos diretos têm alíquotas menores. Em algum momento, teremos que encarar essa distorção da estrutura tributária brasileira.

    Note que o jovem economista francês edificou seu trabalho, tendo como base pesquisa da história econômica, financeira e política de vários países, e chegando a conclusões e resultados muito interessantes —– que pode muito ajudar na melhor compreensão por parte dos economistas ( principalmente ) de questões relativas à concentração de renda e riqueza, de desigualdade sócio-econômica, particularmente nas últimas décadas.

    Outro dia, vc comentou que o Samuel Pessoa estava a ler livro sobre a história da revolução constitucionalista paulista, de 1932, que muito me agradou, pois sou seu admirador, mesmo tratando-se de um economista de perfil conservador. Quem sabe, janelas se abrem, pontos de vistas novos não aprimoram e desenvolvem ainda mais o seu pensamento.

    Ótimo debate, Mansueto.

    • Reforma tributária só poderá ser feita após redução drástica do tamanho do Estado. Comecemos extinguindo/privatizando 2/3 das empresas estatais. Passemos por redução de 50% no número de ministérios e suspendamos os concursos púlicos por 4 anos (não estou falando nem de demitir ninguém. Só de manter o quadro de pessoal atual por 1 mandato eletivo de presidente – as aposentadorias farão o trabalho de redução do quadro). Uma redução forte no número de cargos em comissão também seria muito bem vinda. Nos anos PT foram criados milhares destes cargos. Podemos extinguir a metade.

      Fazer reforma tributária com o tamanho atual de nosso Estado vai gerar aumento de impostos, não redução.

      A simplificação tributária ajudaria a estabilizar o quadro de servidores fazendários. Assim a necessidade de mão de obra para fiscalização tributária e demais serviços relacionados seria reduzida.

      Devo lembrar que a reforma tributária deve ser feita em conjunto, também, com a desburocratização necessária para estimular o empreendedorismo. Empreendedorismo gera empregos. Redução de carga tributária aumenta a quantidade de empregos formais.

      Mas claro, o PT jamais fará isso. Precisamos de um partido genuinamente comprometido com o desenvolvimento do país.

      • Mentira não, mas seu raciocínio está bem incorreto – para explicitar isso, cito esse trecho de seu comentário em que relaciona coisas totalmente independendes (mas convicções políticas talvez o façam pensar o contrário):

        “[…] Fazer reforma tributária com o tamanho atual de nosso Estado vai gerar aumento de impostos, não redução. […]”

      • Não vejo como são idependentes a reforma tributária e a reforma do Estado. Ou se reduz o tamanho do Estado pra que se reduzam os impostos ou a reforma tributária não será pra beneficiar, mas sim pra prejudicar ainda mais o setor produtivo e a população, via aumento de impostos.

        Reforma tributária que se preze, além de simplificar, tem que reduzir a carga tributária.

  10. Foco em desigualdade é papo de rico

    O socialismo sempre foi defendido por muita gente rica, e quem leu meu livro sobre a esquerda caviar não ficará surpreso com isso. O foco obsessivo na desigualdade é um luxo de quem já deixou a pobreza para trás há muito tempo. Quem é pobre prefere focar no crescimento, na criação de riqueza. Já parte da elite abastada gosta de expiar seus “pecados” com o discurso igualitário.

    Esse foi o tema da coluna de Marcos Troyjo hoje na Folha, criticando a nova sensação das esquerdas, o economista francês Thomas Piketty. Troyjo, que tenta fomentar o empreendedorismo nos países emergentes, mais especificamente nos BRICs, condena a bandeira socialista levantada por milionários ou por intelectuais de países ricos. Ele está mais preocupado com a criação de riqueza, enquanto os ricos podem se dar ao luxo de debater apenas sua melhor distribuição. Diz ele:

    Decepciona, em Piketty, não ver referência a “empreendedorismo”, “competitividade”, “start-ups”, “papel da inovação”, ou à “destruição criativa” de Schumpeter.

    A principal tensão do mundo contemporâneo não advém do conflito distributivo entre capital e trabalho. O cabo de guerra é entre empreendedores e burocratas, seja na forma da grossa camada de gestores cujo intuito é a autopreservação ou nas inúmeras esferas estatais que esclerosam o dinamismo econômico.

    Para países como o Brasil, o grande desafio é encontrar seu próprio modelo de capitalismo competitivo que o permita pagar o preço da civilização.

    Deixemos para amanhã manuais de instalação de um “Welfare State 2.0″, como o IPS ou o tijolo de Piketty. Concentremo-nos, agora, nas lições de Acemoglu e Robinson em “Por que as Nações Fracassam”.

    No alvo! O problema não é o capitalismo, nem mesmo a desigualdade, e sim a burocracia excessiva, as estatais paquidérmicas, a carga tributária absurda, o “capitalismo de estado”. Falta mais empreendedorismo, mais investimento em “start-ups”, em empresas inovadoras e dinâmicas, mais meritocracia, mais liberdade econômica.

    Pensar em adotar modelos ainda mais concentradores de poder e recursos no estado, em nome do combate à desigualdade, é dar um tiro no pé de nosso crescimento. É engessar nossa economia a ponto de punir de maneira insensível os mais pobres, que precisam de mais crescimento, não de esmolas estatais.

    Só discordo de Troyjo quanto à possibilidade de um welfare state 2.0 funcionar nos países ricos. Nem lá isso funciona! Sim, os ricos podem se dar ao luxo de distribuir riquezas sem uma catástrofe iminente. Vivem de herança, que leva tempo até ser consumida.

    Mas um dia acaba, se as galinhas dos ovos de ouro forem mortas. E são, sempre que o estado resolve que seu papel não é garantir as regras do jogo no livre mercado, e sim bancar o deus onisciente que vai distribuir recursos de forma mais “justa” por aí. Ou seja, nem mesmo os ricos suportam por muito tempo o socialismo igualitário, que dura até acabar o dinheiro dos outros, como dizia Thatcher…

    Rodrigo Constantino

    http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/socialismo/foco-em-desigualdade-e-papo-de-rico/

    • É tanta falácia junta que faria o Schopenhauer escrever um novo manual – isso se não o “enchesse de preguiça”..

      “O socialismo sempre foi defendido por muita gente rica, e quem leu meu livro sobre a esquerda caviar não ficará surpreso com isso. O foco obsessivo na desigualdade é um luxo de quem já deixou a pobreza para trás há muito tempo. Quem é pobre prefere focar no crescimento, na criação de riqueza. Já parte da elite abastada gosta de expiar seus “pecados” com o discurso igualitário.”

      Qualquer economista sério sabe que abordar um determinado problema econômico não significa “obsessão”, mas legítimo interesse científico e político. Então o primeiro parágrafo de Constantino já é um convite à mandar seu texto para a lata de lixo, pois é incapaz de mostrar seriedade suficiente para iniciar um debate.

      “Esse foi o tema da coluna de Marcos Troyjo hoje na Folha, criticando a nova sensação das esquerdas, o economista francês Thomas Piketty. Troyjo, que tenta fomentar o empreendedorismo nos países emergentes, mais especificamente nos BRICs, condena a bandeira socialista levantada por milionários ou por intelectuais de países ricos. Ele está mais preocupado com a criação de riqueza, enquanto os ricos podem se dar ao luxo de debater apenas sua melhor distribuição. Diz ele:
      Decepciona, em Piketty, não ver referência a “empreendedorismo”, “competitividade”, “start-ups”, “papel da inovação”, ou à “destruição criativa” de Schumpeter.”

      Pois é Troyjo. Também decepciona não ver referência aos efeitos das políticas sociais do governo, da ação social da igreja evangélica nos presídios, da influência dos valores familiares propagados pelas novelas e das homilias do Papa na discussão sobre como enfrentar o aumento da criminalidade no país. Se as pessoas lembrassem disso talvez tivessem outro foco que não o endurecimento das penas e o aumento da eficiência do sistema judiciário né? Mas peraí, já parou pra pensar que talvez tudo isso não seja dicutido porque NÃO FUNCIONA ou NÃO TEM RELAÇÃO COM O PROBLEMA? Você tem alguma evidência de que empreendedorismo e destruição criativa reduzem desigualdade? Se não, porque critica um economista por não citar esses temas num livro SOBRE DESIGUALDADE??

      “A principal tensão do mundo contemporâneo não advém do conflito distributivo entre capital e trabalho. O cabo de guerra é entre empreendedores e burocratas, seja na forma da grossa camada de gestores cujo intuito é a autopreservação ou nas inúmeras esferas estatais que esclerosam o dinamismo econômico.”

      É verdade, o mundo se divide entre bravos empreendedores tentando crescer e burocratas empedernidos tentando diminui-los. E c’est tout. Agora, podemos voltar ao livro do Picketty que (por acaso) era o tema da conversa?

      “Para países como o Brasil, o grande desafio é encontrar seu próprio modelo de capitalismo competitivo que o permita pagar o preço da civilização.”

      O que seria o “preço da civilização” – talvez o valor do suborno que os empreendedores devem pagar aos burocratas para poderem trabalhar? E de novo, sem querer ser chato.. mas cadê o Picketty?

      “Deixemos para amanhã manuais de instalação de um “Welfare State 2.0″, como o IPS ou o tijolo de Piketty. Concentremo-nos, agora, nas lições de Acemoglu e Robinson em “Por que as Nações Fracassam”.”

      É melhor mesmo, você pelo visto não leu o livro dele Constantino.

      “No alvo! O problema não é o capitalismo, nem mesmo a desigualdade, e sim a burocracia excessiva, as estatais paquidérmicas, a carga tributária absurda, o “capitalismo de estado”. Falta mais empreendedorismo, mais investimento em “start-ups”, em empresas inovadoras e dinâmicas, mais meritocracia, mais liberdade econômica.”

      Jesus, pelo visto também não leu o livro do Acemoglu, que jamais associou propriedade estatal e carga tributária com alguma relação inversa ao desenvolvimento (a não ser quisesse ser ridicularizado e pouco vendido na Europa, especialmente nos países nórdicos). Aliás, é engraçado o Constantino citar o Acemoglu como contraponto ao Picketty, ignorando que ele fez questão de redigir um baita texto elogioso às propostas do Picketty no seu blog intitulado.. “por que as nações falham”!.Nem o blog dele você leu Constantino? tsc tsc

      “Pensar em adotar modelos ainda mais concentradores de poder e recursos no estado, em nome do combate à desigualdade, é dar um tiro no pé de nosso crescimento. É engessar nossa economia a ponto de punir de maneira insensível os mais pobres, que precisam de mais crescimento, não de esmolas estatais.”

      Constantino não passou da segunda metade do manual de Economia que estudou. Esqueceu-se (ou nunca soube) que nem todo valor tributável deve necessariamente passar pela mão do Estado – na verdade é bastante comum nos países desenvolvidos que uma boa parte dele saia direto do bolso dos ricos para financiar projetos de filantropia e de inovação e progresso científico (incluindo as start ups que você tanto gosta cara)! O nome desse mecanismo miraculoso se chama “isenção tributária”, e até o Brasil pratica a sua, especialmente com gastos de saúde e educação. Há inclusive vários estudos que consideram o elevado grau de ISENÇÃO TRIBUTÁRIA no país como uma das causas da desigualdade, pois o rico além de ter mais educação que o pobre, ainda recebe um bônus do governo para investir e ter mais ainda. Mas tudo isso não vem ao caso. Na cabeça do Constantino, todo recurso tributado deve necessariamente passar pela mão de um burocrata empedernido inimigo do emprendedorismo. Oh dó.

      “Só discordo de Troyjo quanto à possibilidade de um welfare state 2.0 funcionar nos países ricos. Nem lá isso funciona! Sim, os ricos podem se dar ao luxo de distribuir riquezas sem uma catástrofe iminente. Vivem de herança, que leva tempo até ser consumida.
      Mas um dia acaba, se as galinhas dos ovos de ouro forem mortas. E são, sempre que o estado resolve que seu papel não é garantir as regras do jogo no livre mercado, e sim bancar o deus onisciente que vai distribuir recursos de forma mais “justa” por aí. Ou seja, nem mesmo os ricos suportam por muito tempo o socialismo igualitário, que dura até acabar o dinheiro dos outros, como dizia Thatcher…”

      Pobres ricos dos países ricos, estão condenados a ficarem pobres “consumindo” suas heranças. Segundo Constantino “o marxista austríaco”, há uma “lei inexorável” do capitalismo que prevê que o rico necessariamente ficará pobre um dia a não ser que trate de continuar rico. E isso, que já é uma tarefa muito difícil, fica quase impossível quando ele tem de enfrentar, além das agruras do capitalismo dos rendimentos decrescentes do capital, também as agruras do Estado socialista que tentar tirar o pouco que ele consegue juntar. Realmente, a experiência do mundo desenvolvido é um atestado de quão difícil tem sido a vida dos ricos em manter sua riqueza, com o Estado crescendo cada vez mais e o capital rendendo cada vez menos. A única explicação para seu sucesso – evidenciado no óbvio e ululante aumento da desigualdade mundo afora – deve ser algo do sobrenatural, talvez a vontade de Deus ou coisa do tipo. Pois as leis inexoráveis do capitalismo continuam a conspirar contra eles. Ah Constantino, só você mesmo para me colocar um sorriso neste final de semana..

  11. mmmmm…..Tributos indiretos segundo a tabela apresentada pelo Mansuetto representam 50 % da arrecadação ….mmmm…50 % da fonte de sustento do Estado são os impostos indiretos…mmmm…. bens e serviços estão ligados ao consumo…..quanto maior o consumo maior a arrecadação……voilá !!!!! mmmm….mas para ter consumo precisamos ter crescimento…..mas para ter crescimento precisamos de investimento e poupança interna…..mmmmmm….mas não temos poupança interna…..o que fazer então ?…” simples, credito para todos , assim conseguiremos crescer artificialmente e arrecadar mais…” mas perai , isso tem prazo de validade para acabar “….mmmmm…”.não faz mal , pensemos a curto prazo e nas proximas eleições, depois a gente vê o que faz “….. Mansuetto , será esse o resumão do modo de pensar e agir de nossos politicos e da nossa elite burocrata estatal ?

  12. Mansueto, Lembrando que nos EUA também se paga imposto de renda estadual e também municipal.
    Por outro lado, trazer simplesmente o percentual crú não é tão simples. A receita de IR dessas faixas mais baixas seria significativa em relação ao custo operacional de obtê-la? Com nossa desigualdade, eu tenho certeza que as faixas de 39% iriam dar uma boa grana.
    Em todo caso, temos altíssimas alíquotas de imposto indireto que incidem sobre a base da pirâmide. Eu realmente gostaria de ver um estudo sério nesse sentido. Quanto essa faixa aumentaria em poder de compra? Será que deixar de pagar quase 30% de imposto sobre tudo que gasta e pagar uns 5% do que ganha não valeria a pena?
    Em relação aos EUA, olhe esse gráfico de imposto efetivo: http://www.nytimes.com/interactive/2012/01/18/us/effective-income-tax-rates.html?_r=0.
    O imposto indireto também atrapalha a concorrência, a margem de manobra sobre os preços é reduzida, eu não posso cortar 20% do preço do produto para concorrer ou para baixar o estoque. O imposto indireto é pago mesmo que eu não obtenha lucro.

  13. http://www.institutoliberal.org.br/blog/xavier-sala-martin-sobre-piketty/

    Xavier Sala-i-Martin sobre Piketty
    Por João Luiz Mauad em 22/05/2014

    Um dos meus economistas preferidos, Xavier Sala-i-Martin, escreveu uma crítica contundente e detalhada sobre o best-seller do momento, O Capital no Século XXI, do francês Thomas Piketty. Vale uma conferida, principalmente por aqueles que desconfiam das estatísticas, por saberem que a maneira mais eficiente e insidiosa de construir um sofisma é através da leitura enviesada e parcial dos dados. Segue abaixo uma tradução livre da conclusão do autor:

    Piketty escreveu um livro muito interessante, de grande impacto, que deve ser felicitado. Os dados apresentados são importantes e devem ser analisados pelos analistas econômicos. A leitura destes dados, no entanto, é frequentemente parcial e incorreta. Como um resumo, deixe-me colocar uma lista dos erros de interpretação de Piketty:

    Primeiro, que a taxa de retorno sobre o capital é maior que a taxa de crescimento da economia, o famoso ‘r>g’, não implica a existência de algumas dinastias de pessoas abastadas que apropriam uma parte cada vez mais importante da riqueza. Esta taxa de retorno é compatível com e sem heranças (e, portanto, sem dinastias), ou com heranças que desaparecem após uma ou duas gerações. A desigualdade ‘r> g’ é uma medida da eficiência dinâmica da economia e não tem nada a ver com a distribuição da riqueza de um país, desde que é compatível com desigualdades crescentes, decrescentes ou constantes.

    Segundo, a maior parte do aumento do capital durante a segunda metade do século XX é devido ao aumento do valor das habitações e não tem nada a ver com o relato de capitalistas que apropriam os meios de produção e exploram os trabalhadores.

    Em terceiro lugar, as desigualdades de riqueza e renda nos países analisados diminuíram ao longo do último século. Só a partir de 1970 elas tiveram uma tendência ascendente. Apesar disso, Piketty argumenta que a tendência natural é de aumento, porque o período de redução das desigualdades é uma exceção histórica. Mas Piketty nunca demonstra essa afirmação. Há razões para pensar que a exceção é, na realidade, o período pós 1970, com a incorporação do ‘baby boom’ e de 4 bilhões de cidadãos asiáticos e europeus das ex-ditaduras comunistas no mercado de trabalho global, um fenômeno que certamente não voltará a acontecer.

    Em quarto lugar, o aumento das desigualdades de renda desde 1980 é perfeitamente compatível com a mudança tecnológica, que aumentou as receitas de toda uma série de inovadores super ricos (Bill Gates, Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Larry Page e Sergei Brinn). Piketty diz que esta teoria é “tautológica e arbitrária”. Sua tese é que, ”a partir de 1980, a sociedade passou a aceitar a remuneração estratosférica dos CEOs de empresas”. Mas, sem uma teoria para essa “aceitação social”, tal interpretação também é tautológica e arbitrária.

    Em quinto lugar, a análise da fração da riqueza total, possuída pelos super-ricos da lista da Forbes, tem uma grande falha conceitual: as dinastias a que pertencem os super-ricos não são as mesmas no início do século XX, em 1987 ou em 2013.

    E, finalmente, depois de escrever um livro sobre a evolução da desigualdade, Piketty falha em explicar por que as desigualdades são importantes. Ele expõe uma vaga teoria que diz que desigualdade gera instabilidade social. Mas, ao não formular uma teoria precisa, não sabemos se as desigualdades que importam são as desigualdades dentro dos países (que tem aumentado desde 1980), ou as globais (incluindo as desigualdades entre países, que decaíram desde 1970, graças a grande convergência dos países emergentes). As desigualdades globais experimentaram um declínio entre 1970 e 2012.

    Depois de ler o livro de Piketty, tem-se a impressão de que a economia capitalista é um desastre que gera aumentos de desigualdade infinitos, especialmente durante as últimas quatro décadas. Mas se considerarmos a evolução da economia mundial, especialmente durante as últimas quatro décadas, percebemos que as taxas de pobreza no mundo foram reduzidas como nunca antes, as desigualdades globais são cada vez menores e os indicadores de educação, mortalidade, expectativa de vida, saúde, liberdade e democracia são melhores em quase todos os cantos do planeta. É verdade que as desigualdades dentro dos países têm crescido, embora depois de ler o livro “Capital no século XXI”, não possamos saber ao certo se esta é uma tendência que irá perpetuar-se ao longo do tempo ou simplesmente desaparecer. Embora Piketty tenha claro para onde vai o futuro, infelizmente isso é baseado mais na sua ideologia e sua opinião que nos dados fornecidos por ele mesmo.

    Graças ao sistema capitalista, Thomas Piketty vai ganhar muito dinheiro com as vendas do seu agora famoso livro. Uma parte importante irá para o governo francês, que ele ajudou a chegar ao poder no ano passado. O resto ele pode gastar como quiser: fazendo festas, comprando livros, guardando para sua aposentadoria… ou mesmo fazendo algo tão nojento como deixar em herança para seus filhos. Liberdade para escolher, Thomas, eis a beleza do capitalismo no século XXI!

  14. Fantasia ou desfaçatez?
    Por Leonardo Correa em 22/05/2014

    OCapitalnoseculoXXI

    Não li o bestseller “O Capital no século XXI” do francês Thomas Piketty, portanto não me sinto qualificado para comentar o livro. Todavia, pululam críticas – positivas ou não – por toda a mídia. Tenho sérias dúvidas se a obra já foi lida ou não pelos que emitiram os comentários. Seria leviano, também, descartar a hipótese de que o livro acabará como decoração de bibliotecas. Mas, a cada dia alguém emite um pitaco sobre a “obra do momento” – que, na versão em inglês, tem 696 páginas – e causa um tremendo alvoroço.

    Diante das críticas, aparentemente o novo “Capital” trataria de desigualdades na distribuição de renda. Ao cabo, a conclusão seria no sentido de uma altíssima tributação (chegando a até 80% dos ganhos), além, é claro, da criação de um imposto global. Os comentaristas brasileiros que defendem a tese do livro não explicam a mágica das “propostas” de Piketty.

    Se, de fato, a conclusão final for essa mesmo, surgem diversas indagações. Quais são as causas da desigualdade nos rendimentos dos indivíduos? Sinceramente, 696 páginas – redigidas por um economista – não parecem ser suficientes para abordar o fenômeno de forma minimamente profunda, e, muito menos, definitiva. Para tanto, seria preciso navegar pela sociologia, psicologia, filosofia, economia, e, também, pelo direito. Além disso, uma pergunta crucial se impõe: há eficiência na desigualdade ou na igualdade? Noutros termos, se todos fôssemos iguais, pensássemos de forma igual e agíssemos de forma igual, como faríamos para nos tolerar em sociedade?

    Se o leitor for adepto a experiências, sugiro sentar-se sozinho em frente ao espelho para conversar com si próprio. Quanto tempo alguém conseguiria ficar assim? Chegaria aonde? Minha resposta é simples: lugar algum. A diversidade individual é a maior criadora de vida – no sentido mais amplo da palavra. No entanto, a diversidade é a mãe da desigualdade.

    Ora, é absolutamente impossível falar em diversidade com igualdade. Os conceitos são absolutamente antagônicos. Pessoas diferentes têm as mais variadas opções e fazem escolhas diversas. Alguém, por exemplo, pode querer trabalhar incessantemente com o intuito de maximizar seus ganhos financeiros, outros podem optar por uma vida mais modesta com tempo superior para si próprios (ou para suas famílias). Por que o workaholic – sem a conotação pejorativa – deveria ganhar o mesmo que os demais?

    Essa mania de falar em desigualdade de renda é uma bandeira velha e surrada. O combate à desigualdade não nos deu computadores, aviões, literatura e música da mais alta qualidade, artistas espetaculares e atletas (de todos os esportes) que marcaram nossas vidas em diversos momentos. Ao contrário, foram as diferenças e habilidades particulares que nos deram tudo isso. Para os apreciadores de tênis, e.g., qual seria a motivação (ou o incentivo) de um Roger Federer para sacrificar diversos prazeres da vida com o objetivo de lutar bravamente para ser o número 1, se ele fosse taxado – como aparentemente propõe Piketty – em 80% de seus ganhos?

    A questão é complexa, e, antes de tudo, por que taxar tão agressivamente? Por que as pessoas deveriam ser obrigadas a entregar quase todo o produto de seu trabalho para o Estado? O que o Estado tem de tão magnânimo que possibilite criar boas condições para todos indistintamente. Aliás, por acaso o Estado gera riquezas? O Estado cria tecnologia? As respostas são óbvias, mas é preciso considerar, outrossim, que a concentração de renda no Estado aumenta o poder central, e, como a história nos mostra, destrói a diversidade e a liberdade.

    Quanto mais poder se concentra nas mão do Estado – e um meio grotesco de isso ocorrer é pela tributação –, a diversidade e a liberdade são assassinadas aos poucos. É uma morte lenta, muitas vezes imperceptível. Sendo assim, com base nas críticas sobre o livro, vejo o projeto de Piketty como um homicídio da civilização. Nesse último parágrafo, aproveito para destacar um detalhe relacionado ao tal imposto global. Isso, meus senhores, é o primeiro tijolo para a criação de um “Governo Global”. Curiosamente, portanto, “O Capital no Século XXI” pode ser uma obra em defesa da divisão de renda, mas, ao mesmo tempo, ela acaba sendo uma proposta de concentração de poder estatal. Em suma, quais foram os motivadores do bestseller: fantasia ou desfaçatez? Termino, com não poderia deixar de ser, com a famosa advertência de Lord Acton: “o poder corrompe; e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

    http://www.institutoliberal.org.br/blog/fantasia-ou-desfacatez/

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