A nova matriz econômica falhou – 2

Dando continuidade a critica sobre o que se convencionou chamar de “nova matriz econômica”, recomendo a leitura de dois bons artigos que também mostram o fracasso dessa agenda.

Um dos artigo é do presidente do Banco Central ao longo dos oito anos de governo Lula: Henrique Meirelles. No seu artigo de hoje no jornal Folha de São Paulo (pecados nada originais – clique aqui), Meirelles fala que:

“Em 2011 foi introduzida uma novidade no Brasil, a “nova matriz econômica”. Os pontos centrais eram expansão fiscal com juros baixos e câmbio depreciado. Sua finalidade, elevar o crescimento e as exportações industriais.

Resultado: o crescimento caiu, os juros voltaram a subir após recrudescimento da inflação e as exportações industriais perderam participação de mercado. Resta a discussão sobre a questão fiscal.

A tese básica do artigo de Meirelles é que os ajustes institucionais antes do governo Lula (tripé econômico e Lei de Responsabilidade Fiscal) junto com política monetária e fiscal austeras trouxeram de volta o crescimento mais elevado de 2003 a 2010. Meirelles é taxativo: “Depois, vieram as novidades, e o crescimento caiu.”

O outro artigo que recomendo é o texto de Samuel Pessoa na edição de abril da Revista Conjuntura Econômica, no qual Pessôa procura entender o que está por trás do recente downgrade do Brasil pela Standard & Poor’s. Seria o motivo o nosso problema estrutural de crescimento do gasto público (e carga tributária) pós Constituição de 1988 ou a “nova matriz economia”? (clique aqui para ler o artigo).

Pessôa credita o nosso downgrade à piora fiscal decorrente de estímulos setoriais, sem que se tenha criado anteriormente o espaço fiscal para as desonerações setoriais, a piora no saldo da nossa conta corrente explicada em parte pela política de não reajuste dos combustíveis e falta de transparência das contas públicas com o uso e abuso dos truques contábeis. Essas ações junto com o excesso de intervenção na economia , segundo ele, formaria o conjunto de medidas por trás do nosso baixo crescimento e piora fiscal. Adicionalmente, Pessôa adverte que:

“…há um elemento que distingue a nova matriz econômica do contrato social da redemocratização. Enquanto este engloba políticas  que em geral são exaustivamente negociadas no Congresso Nacional, muitas das ações subjacentes à nova matriz econômica referem-se a elementos do gasto que não passam pelo parlamento e muitas vezes não aparecem de forma clara nas contas públicas.”

E quer saber o mais interessante disso tudo, não se sabe até hoje de quem foi a ideia do que se convencionou chamar da “nova matriz econômica”. O conjunto de políticas foi ideia de um grupo pequeno de economistas do governo? Foi ideia de um grupo ou de uma pessoa? Há consenso que esse conjunto de políticas não funcionou ou a percepção é que o modelo é correto, mas precisa de mais estímulos setoriais, por exemplo? Espero que a essa altura já se tenha percebido que a “nova matriz econômica” não funcionou.

5 pensamentos sobre “A nova matriz econômica falhou – 2

  1. Mansueto, a bomba relógio esta armada ou diversas. No próximo ano vamos observar como ela ou elas serão desarmadas.
    Não acredito que o atual governo caso reeleito tenha capacidade para os ajustes necessários pois parece que não querem admitir o erro de sua politica econômica.
    Como acreditar num governo que apoia ditaduras como Cuba, Venezuela, tem como parceiro comercial países com problemas muito maior que o nosso e neste momento ainda continua colocando a culpa no PDSB que fez todos os ajustes ficais e monetários para que o governo do PT recebesse um pais com a casa arrumada e diz ao contrario. Surfou na onda de boom das commodities e não aproveitou para se preparar para o futuro que chegou e fez uma politica dirigida somente ao consumo interno para manter o nível de emprego, seu grande trunfo para eleições.
    Um abacaxi bem grande nesta na nossa frente, quem irá descascar?
    2015, 2016 serão anos difíceis, a sociedade esta pronta para suportar?

    • Antonio,

      Meus investimentos em renda fixa agradecem. Ninguém no mundo paga IPCA + 6%aa que nem o Brasil. Ninguém tem taxa de juros de 11%aa – e que vai subir ainda mais – como o Brasil.

      Isso aqui, a despeito de todo o discurso social do PT contra rentistas, é paraíso de juros. Sempre foi e continuará sendo por muito tempo. Quem tem cabeça poupa dinheiro.

      e ainda vai fazer a festa quando a crise estourar de vez e os preços de ativos como imóveis ficarem baratinhos.

  2. Mansueto

    Algumas pistas que apontam o MF como origem da “nova matriz macroeconômica brasileira”.

    Na época, um monte de gente saudou a novidade. Hoje, estão bem caladinhos…

    Mantega anunciou a novidade “em apresentação no escritório de São Paulo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) na manhã de hoje” (23/11/2012), conforme reportagem da Revista Exame

    http://exame.abril.com.br/economia/noticias/2012-e-o-ano-da-desintoxicacao-da-economia-diz-mantega

    Mantega escreveu artigo no Valor comemorando o primeiro ano da nova matriz:

    “O primeiro ano da nova matriz econômica”; Autor(es): Por Guido Mantega; Valor Econômico – 19/12/2012

    “o país agora passa por nova mudança fundamental: a colocação das taxas de juros em níveis normais para uma economia sólida e com baixo risco”

    “O governo Dilma Rousseff elegeu como um dos seus principais desafios dar um salto de competitividade na economia brasileira […]. Nesse sentido, colocava-se como absolutamente estratégico remover, ou pelo menos minimizar, a distorção que havia nos dois principais preços do país: juros e câmbio.” […]

    “Mas o mais importante é que estão fixadas as bases para que o Brasil tenha taxas elevadas de crescimento por muitos anos, melhorando o emprego, a renda e diminuindo as desigualdades que subsistem em nosso país.”

    http://prosaeconomica.com/wp-content/uploads/2012/12/O-primeiro-ano-da-nova-matriz-econ%C3%B4mica-%E2%80%94-Mantega.pdf

    Relatório do MF oficializou a expressão em dezembro de 2012

    A expressão “nova matriz macroeconômica” apareceu no “sumário executivo” do relatório “Economia Brasileira em Perspectiva” (17ª edição), divulgado em 21/12/2012 pelo Ministério da Fazenda, com coordenação da Secretaria de Política Econômica.

    “O Brasil apresenta uma nova matriz macroeconômica, ímpar na história do país, muito promissora para o investimento, a produção e o emprego, com taxas de juros baixas, custos financeiros reduzidos para empresas e famílias, taxa de câmbio mais competitiva, e sólidos resultados fiscais. Por tudo isso, o país está preparado para experimentar mais um ciclo de longo prazo de crescimentos sustentável.” (p.7)

    http://www.fazenda.gov.br/divulgacao/publicacoes/economia-brasileira-em-perspectiva/economia_brasileira_em_perspectiva_pt_ed17_dez2012.pdf

    Márcio Holland apresentou palestra em maio de 2013 e destacou que a nova matriz engendraria “um novo ciclo de crescimento econômico sustentável”.

    Diálogos capitais-Fórum de economia
    Carta Capital 07/05/2013

    No slide 22:

    Síntese: a economia brasileira preparada para um novo ciclo de crescimento econômico sustentável

    Nova matriz macroeconômica
    .
    Taxas de juros reais baixas, em patamares similares aos
    das economias mundiais em condições de normalidade
    econômica.
    . Política fiscal anticíclica com redução progressiva da dívida
    pública associada com uma ampla política de desoneração
    tributária.
    . Taxas de câmbio mais competitivas, sob regime de câmbio
    flutuante

    http://www.fazenda.gov.br/divulgacao/publicacoes/apresentacoes-diversas/a_crise_economica_futuro_mercado_marcio_holland_07052013.pdf/view?searchterm=nova%20matriz

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