As regras do debate econômico

Vocês conhecem a expressão em inglês “leveling the playing field”? A primeira vez que escutei essa expressão foi da Alice Amsden em uma aula sobre política industrial.

No nosso contexto atual, a expressão serve para tentar entender como será o debate eleitoral. Há diversos temas espinhosos que serão difíceis de discutir na campanha porque, qualquer tentativa de discussão profunda, um dos lados acusa o outro de “sincericidio”.

Fiquei estarrecido com a coluna da jornalista Claudia Safatle hoje no valor quando fala que:

Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à reeleição, não pretende cometer “sincericídio” durante a campanha, mas já estaria ciente de que 2015 será um ano de ajuste.

Durante a campanha, portanto, Dilma não tratará de temas espinhosos. Longe do palanque o discurso é mais pé no chão, asseguram fontes oficiais. Ela saberia, por exemplo, que a atual política de valorização do salário mínimo já cumpriu a função e sua continuidade é insustentável. A lei deve ser revista. O mesmo ocorreria com o abono salarial, o seguro desemprego, as pensões por morte e, provavelmente, com a amplitude e o custo das desonerações da folha.”

Ou seja, as supostas maldades que muitos colunistas teimam em colocar no colo dos partidos de oposição, como já falei várias vezes, são na verdades debates técnicos que alguns no governo concordam, mas que não tiveram espaço político para fazer esse debate. Alguns até deixaram o governo por causa disso.

Assim, felizmente ou infelizmente, o próximo governo deverá ser um governo de ajuste para consertar os sucessivos erros de política econômica que se traduziram no que se convencionou chamar de nova matriz econômica.

Alguém acha que essa nova matriz foi um sucesso? Sim, escutei de um amigo no governo que a nova matriz econômica e o plano Brasil maior deveriam ter sido um sucesso. O único problema, segundo ele, foi que o contexto mundial não evoluiu como eles haviam imaginado.

Há um problema com essa linha de argumentação. Desde o início de 2012, alguns economistas já apontavam para os problemas que estamos vivenciando agora. Vou apontar quatro deles de quem escutei este cenário em uma reunião em 2012: Afonso Celso Pastore, Alexandre Schwartsman, Mario Mesquita e Beny Parnes. Todos eles com passagem pelo Banco Central.

Em resumo, os próximos anos serão anos de ajustes seja quem for o presidente. Para nivelar o campo do debate é bom que todos saibam disso. Querer colocar o debate do ajuste como uma briga entre a direita versus a esquerda, entre o governo bonzinho e os outros ruinzinhos é não apenas intelectualmente desonesto, mas uma grande mentira.

12 pensamentos sobre “As regras do debate econômico

  1. mas alguém tem dúvida de que essa desonestidade e essa mentira serão praticadas pela candidata do PT? a manutenção do poder a qualquer custo do poder não é na verdade o único projeto do partido?

  2. Belo post como sempre, Mansueto. Mas devo dizer que, embora discorde da turma da “nova matriz econômica”, a conjuntura econômica internacional teve um peso razoável recentemente, não?

    Inclusive para a adoção da nova matriz (seja lá o que for isso; me pareceu meio chamar a necessidade de virtude). Outro dia no Financial TImes eles lembravam que a política econômica ficou menos ortodoxa a partir da crise do Euro.

    Não estou dizendo que a política anti-crise tenha dado certo (acho que elas foram esticadas demais e desequilibraram a economia), mas eu acho que algumas críticas às políticas do governo subestimam o quanto elas foram políticas anti-crise, admitindo-se, é claro, que também houve vários erros não-forçados.

    Nesse assunto, eu é que torço para o pessoal da oposição não estar discutindo em público mas estar se planejando pra lidar com isso em caso de vitória. A China vai continuar desinflando.

    • Excelentes ponderações. Mas eles reagiram bem, em 2009, mas exageraram depois. Tenho a impressão que todo mundo tem consciência dos problemas.

      No caso do cenário internacional, sem dúvida afetou mas não na magnitude que eles falam.

    • Caro Celso

      “Nesse assunto, eu é que torço para o pessoal da oposição não estar discutindo em público mas estar se planejando pra lidar com isso em caso de vitória.”

      Devo considerar, por esse fragmento do comentário, que você não vai mais votar na Dilma agora em 2014?. Você fez campanha aberta a favor dela em 2010. Nada contra. Cada um vota em que quem quiser.

      Mas não entendi o que você quis dizer com a expressão “erros não-forçados”? O que isso quer dizer exatamente?

      Deixo outras perguntas, se quiser responder.

      Você acredita que a “nova matriz econômica” é um produto da crise? Que ela foi gestada como resposta a crise?

      Você acredita que a fritura do “neoliberal” Palocci em 2011 não foi executada a partir da cozinha nacional-desenvolvimentista do PT?

      Gleise Hoffman (filiada ao PC do B até 1989) substituiu Palocci (junho de 2011).

      O que disse Gleise na ocasião da revisão do Tratado de Itaipu, que triplicou os pagamentos ao Paraguai em maio de 2011?

      “A relatora do texto, senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), defende que os custos da adoção da medida serão arcados pelo Tesouro Nacional e não vão oneram diretamente os consumidores.”

      “Lugo comemora com festa no Paraguai revisão do Tratado de Itaipu pelo Brasil” (Agência Brasil, 12/05/2011).

      Não discuto o compromisso de Lula com Lugo a respeito da revisão. Chamo atenção para a recorrente presença da ideia de que o Tesouro é o pão para todas as bocas nacional-desenvolvimentistas.

      Quando o FMI cortou a projeção de crescimento do Brasil para 2,5% em 2013 e criticou a tal da nova matriz econômica, Gleise vocalizou o pensamento dessa turma que hoje você discorda:

      Gleise reafirmou que o governo da presidente Dilma Rousseff “tem compromisso com a estabilidade fiscal” e assegurou: “Não trabalhamos com política fiscal frouxa. Trabalhamos com política anticíclica. Foi o que fizermos na crise de 2008 e é o que estamos fazendo agora.”

      “Gleisi rebate revisão do PIB e diz que Brasil ‘dispensa receituário’ do FMI

      No documento, o FMI considera “um equívoco” a adoção de novos estímulos à economia” (Estadão Conteúdo, 11/07/2013)

      Erros “não-forçados”? Ou recorrência dogmática em erros que historicamente são mais antigos que o PT?

      Abs.

  3. Mansueto, atual presidente orientada por algum marqueteiro, pois ela tem não jogo de cintura (não tem viés politico) já começou jogar no colo dos opositores o saco de (maldades) dizendo que eles irão tomar medidas como redução da meta de inflação, corte de gastos sociais para continuar faturando em cima de seus súditos dos programas sociais.
    No seu governo, estabeleceu medidas populista autoritárias equivocadas, erros estratégicos e apoio a governos de ditadores (Cuba, Venezuela).
    Corrupção correu solta na barra da sua saia (Erenice Guerra) Casa Civil, estatais Petrobras, Fundos de Pensão Petros Postalis mais visíveis com direção de sindicalistas e um rosário de outros problemas que se a oposição quiser explorar no debate econômico terá farta munição.
    Quanto ao próximos quatro anos, com certeza, serão difíceis e muitas medidas para consertar a economia terão de ser tomadas com reflexo no crescimento econômico e talvez um pequeno período recessivo.

  4. Todos esses economistas q vc citou são de direita e trabalham no mercado financeiro. Mais do que isso, são bem formados, estudam e procuram falar o mínimo de asneiras o possível.

    Para ser justo, teríamos que ter a opinião do Belluzzo, Nakano, Bresser e Oreiro, embora faltem a esses certas qualidades, por assim dizer.

  5. Vale lembrar da imensa sinceridade de FHC em 1998, quando prometeu a manutenção do regime de câmbio. Logo depois das eleições, em janeiro de 1999, o regime de câmbio fixo ficou insustentável.

  6. Mansueto,

    Tudo bem? Esse debate é importante. Talvez você tenha escrito rápido o post e o sobrenome da Alice saiu errado. É “Amsden”, correto?

    Concordo com as dificuldades de um debate nivelado, mas parece que essa dificuldade ocorre mundo afora. Lembro-me agora mesmo dos debates entre Obama e McCain e também entre Sarkozy e Hollande, por exemplo. Foram fracos no campo econômico.

    Abraço,

    Rodrigo

    • Sim, sempre é difícil. Mas aqui tenho a impressão que a situação exagera – nós somos bonzinhos e os demais são ruins e querem recessão. Você sabe que isso não é verdade. E sendo justo com o PT, há muita gente séria no partido que está preocupada.

      • Não sei se você ficou sabendo da repercussão no ES daquele estudo da gestão fiscal capixaba que fiz com dois colegas. Foi muito difícil e ainda está complicado o debate porque é ano eleitoral. Talvez aquela frase infeliz do ministro Ricupero seja a maldição da nossa política: “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.”

        Espero que não. (rsrsrs) Li certa vez que Thomas Jefferson teria dito que o preço da liberdade (democracia) é a eterna vigilância. Parabéns pelo bom combate.

        Forte abraço,

      • Soube da confusão, inclusive, que pessoas do governo do estado, acharam que era um estudo para atingir o governador. Deveriam ter interpretado como um alerta técnico. Mas este ano tudo está difícil. Ânimos acirrados.

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