Brasil vs. Bangladesh: Somos diferentes?

Além do fato de os dois países serem populosos, não temos quase nada em comum com Bangladesh. Lá o salário mínimo é de US$ 37 e o país é um dos maiores exportadores de confecção do mundo – algo como US$ 20 bilhões. O Brasil tem um salário mínimo de mais de US$ 300 e não somos e nem seremos um grande exportador de confecção.

Do ponto de vista institucional também não cabe comparações. O funcionamento das instituições, no Brasil, ao contrário do que muitos pensam, é um sonho quando comparado a grande maioria dos países de renda baixa e média. Podemos falar que, em geral, as instituições no Brasil funcionam.

No caso de Bangladesh, o problema de corrupção e do uso da máquina pública em anos de eleições é tão sério que, nesses períodos, quem assume o governo é um governo temporário (clique aqui) por 90 ou 120 dias, pois não há como controlar o uso da máquina pública pelos partidos políticos. Esse sistema vigorou até 2011 e foi abolido sob protestos. É claro que, no Brasil, somos mais desenvolvidos e o governo não mistura o uso da máquina pública com eleições. Será?

Fiquei com dúvidas depois de ver o pronunciamento da nosso presidenta em cadeia nacional de rádio e televisão no Dia do Trabalho, quando aproveitou para bater na oposição e ainda anunciar o reajuste do programa bolsa família, temas alheios à comemoração do Dia do Trabalho.

O jornal Folha de São Paulo, que cada vez mais me impressiona pelos seus editoriais, publicou um excelente editorial sobre o pronunciamento da nossa presidenta: País das maravilhas – clique aqui.  Como fala o editorial do jornal:

“A ocasião era a mensagem relativa ao Dia do Trabalho. É aceitável que o governante recorra a discursos oficiais para defender suas políticas…..Mas a presidente engajou-se no debate eleitoral…..Dilma Rousseff atacou adversários com palavras e atos, por exemplo com promessas realizáveis apenas se reeleita”.

Será que somos assim tão diferentes de Bangladesh? Sim, somos muito diferentes. Mas este episódio do uso de um pronunciamento oficial para fazer propaganda política é algo que eu não esperaria mais ver no Brasil do sec. XXI e espero que não se torne tradição para que não venhamos a cogitar ter um “caretaker government”.

3 pensamentos sobre “Brasil vs. Bangladesh: Somos diferentes?

  1. O discurso foi abjeto, mostrando que sofremos, na verdade, uma desmoralização na ética das instituições, cujos valores na verdade, acabam refletindo as ações oriundas no próprio seio da própria população.

  2. Foi um dos pronunciamentos mais lamentáveis de todos os tempos, feito pela equipe de governo mais lamentável dos últimos 25 anos.

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