Bolsa família e eleições. Há alguma relação?

Eu não posso afirmar, baseado apenas em dados de execução financeira, que há ou não alguma correlação positiva entre elevação do gasto com o bolsa família e benefício eleitoral: aumento nas intenções de voto no candidato da situação.  No entanto, seria um contra-senso alguém achar que a expansão de programas de transferências de renda em anos de eleição prejudicaria o governo incumbente.

Há anos eu defendo a tese que uso politico do gasto público, dada a estrutura do gasto público fortemente ligado a programas sociais, me parece estar mais ligado ao aumento de despesas de custeio, leia-se programas de transferência de renda, do que a execução das despesas de investimento.

Assim, o anúncio do reajuste do programa bolsa família ontem não foi uma surpresa para mim. Em novembro do ano passado eu apostei que isso iria ocorrer mas eu havia apostado em um reajuste maior de cerca de 20%. Apostava nisso baseado no que ocorreu, em 2006, quando o bolsa família foi fortemente ampliado e, coincidentemente ou não, nos meses imediatamente anteriores ao pleito de 2006 – a partir de julho de 2006.

Não é que o reajuste do programa bolsa família seja errado. O que me parece esquisito são os reajustes em anos de eleição, como correu agora e em 2006. Quem se interessar pode ler (clique aqui) matéria do Estado de São Paulo de agosto de 2006 dos jornalistas Fernando Dantas e Expedito Dantas, a partir de uma nota que havia escrito na época, quando trabalhava com o ex-senador Tasso Jereissati. Como fala a matéria:

“Os gastos com o Bolsa-Família estão crescendo justamente no período imediatamente anterior à eleição, como explica o economista Mansueto Almeida, assessor do presidente do PSDB, Tasso Jereissati, em trabalho realizado a partir de dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi).

Até julho, os benefícios do Bolsa-Família consumiram R$ 4,3 bilhões, faltando aproximadamente R$ 4 bilhões para serem despendidos até o fim do ano. Até junho, porém, a média mensal era de R$ 577 milhões.

A partir daí, a média mensal (para se desembolsar todos os recursos orçados para 2006) aumenta em 44%, para R$ 800 milhões, acompanhando meses eleitoralmente decisivos, como julho, agosto, setembro e, em caso de segundo turno, outubro……

O economista (Mansueto Almeida) nota que, tradicionalmente, era no item “investimentos” que a manipulação eleitoral dos gastos públicos era realizada, com aumento de despesas com obras. “O investimento aumentava muito, era o grande cabo eleitoral, o que fazia sentido na época em que o Brasil não tinha essa rede social montada”, diz. Hoje, avalia, “os gastos correntes, quando moeda eleitoral, são um canal muito mais rápido, direto e eficiente”.

O reajuste agora é muito menor até porque há outros programas sociais (Minha Casa Minha Vida e Minha Casa Melhor) que podem ser também turbinados. Esse reajuste de 10% do bolsa família vai mudar a intenção de voto na situação? não sei, pois o eleitor pode achar que os reajustes do bolsa família seriam um direito adquirido. Mas não é coincidência que esse reajuste ocorra em um ano eleitoral. Pode até não ajudar como o esperado, mas acho difícil alguém achar que atrapalha.

13 pensamentos sobre “Bolsa família e eleições. Há alguma relação?

  1. Mansueto, como a oposição irá se posicionar? Se for contra o aumento para programas sócias com Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Minha Casa Melhor, irão se estrepar. Se vierem com o argumento que as contas publicas serão prejudicas com esses aumentos o povão nem sabe o que é conta pública.
    A presidente disse que irão fazer o diabo para ganhar as eleições e só estão começando.
    Li em algum veiculo que você faz parte da equipe que irá assessorar o Aécio na formulação de programa econômico.
    Se for boa sorte, vamos precisar dela para tirar essa turma de PTralhas do poder.
    Abraço.

    • BF deveria se tornar um programa de Estado, não do PT, assim seu uso político se reduz. Concordo que é um programa importante para a redução da pobreza, pois ataca-a em famílias que não são atingidas pela previdência social.

      Mas sou da opinião que a abrangência dele deveria ser reduzida. Tem muita gente com condições de trabalhar que não deveria estar incluída no programa. Não há como conceber, dado os níveis de emprego do Rio de Janeiro capital, ou São Paulo capital, um cidadão qualquer receber BF, por exemplo.

      Já o MCMV deve ser interrompido com urgência. Ele ajudou a inflar uma bolha imobiliária no Brasil.

      E o MCM deve ser extinto com urgência. É tipicamente eleitoreiro e dá dinheiro para as pessoas comprarem coisas sem importância. De quebra, não pagarão a conta.

  2. Enquanto o trabalhador sem qualificação recebe 6,8% de aumento, o cidadão que não trabalha recebe 10%. Enquanto a “classe média” tem 4,5% de correção na tabela do IR, o “desalentado” ganha 10%.

    Este pronunciamento dela foi um tapa na cara de qualquer cidadão minimamente esclarecido.

    • Cara, concordo contigo em muitos outros pontos, mas acho especificamente esta uma crítica injusta:
      1) O BF é um programa redistributivo num país muito, muito desigual. Assim, reajustá-lo num nível maior do que o das rendas superiores pode ser uma forma de fechar o fosso.
      2) O governo até tem controle sobre a tabela do IR, mas muitos salários da economia não estão sob seu controle direto como está o BF.
      3) Quanto estamos falando numa renda para alívio de miséria, é uma renda baixa. Assim, 10% sobre uma base pequena são um aumento pequeno (https://xkcd.com/1252/), pelo menos do ponto de vista de quem recebe. Mesmo assim, para esse nível de pobreza, qualquer realzinho a mais é muito valioso (aqui, acho que até cabe falar no princípio da utilidade marginal decrescente).

      Obs. 1: Isso não exclui que critiquemos o efeito disso sobre o agregado da despesa – afinal, 10% de aumento sobre quase qualquer agregado governamental é coisa pra caramba, mesmo um programa relativamente barato com o BF.
      Obs. 2: Concordo com que prometer esse tipo de reajuste em ano eleitoral é complicado.

  3. Pergunta que vc mesmo, caro Mansueto, já sabe a resposta: a correlação é e será sempre positiva. Todos os governos, em qq lugar do mundo, “fazem isso”.

    Para R$ 70,00 médios, R$ 7,00 de reajuste, Valor alto ? Depende do ponto de vista. Para mim, tá de bom tamanho ( incide sobre uns R$ 36 BI ).

    Tenho visto, lido e ouvido muito “mimimi” na mídia corporativa e na oposição, sempre com o objetivo de depreciar a gestão da dupla Lula-Dilma ( últimos 11.5 anos ).

    Mas convenhamos, o exagero é notório: uma economia e sociedade que apresentam os dados abaixo deveria —- quando, criticada —- ter pelos algumas “ressalvas positivas” …………

    – praticamente vivemos um pleno emprego.
    – salário mínimo na faixa de USD 300,00. Lembrando que o Paulo Paim ( senador) propusera, há anos atrás indexação do salário mínimo à USD 100,00, o que na época seria um tremendo avanço. Hoje temos algo próximo à USD 300,00. Nada mal…….parece que melhoramos bastante…….
    – renda média em ascensão.
    – reservas cambiais ( ativos) na casa dos USD 380 BI ( seguro contra crises, e volatividades…).
    – dívida líquida estável….uns 35% do PIB.
    – estabilidade política e institucional se aprofundando ( vide casos mensalão, Petrobrás )
    – inflação estável ( embora tenhamos que baixá-la)
    – democracia cada vez mais se consolidando ( teremos, provavelmente, uma tentativa de desestabilização por parte e setores conservadores e insatisfeitos no período da Copa do Mundo, mas nada que ameace o bom ambiente institucional e democrático que vem se cristalizando.
    – crescimento no nível de investimento, em particular, na infra-estrutura, com as últimas concessões, que parece continuarão.

    O avanço da sociedade brasileira, inexoravelmente, ocorrerá independentemente do governo que estiver no comando. Já temos o norte a seguir.

    Abraço

    • Hilario, voce é sempre muito mais otimista do que Eu. Mas sempre paro para pensar com as suas intervenções e de outros aqui no blog.

      Isso é o lado bom do debate: aceitarmos as diferenças e refletirmos sobre os argumentos e contra argumentos de todos.

      Grande abraço, Mansueto

    • Mansueto, Militante Virtual detectado. Você sabe que tudo o que este senhor apresentou com números não passam de maquiagem. Depois de tudo o que se fala na mídia sobre “pleno” emprego (obtido com redução do denominador da conta) e de tudo o que você fala sobre a dívida líquida do setor público alguém ainda aparecer comentando sobre estes itens, só posso concluir que foi um pombo. Não os alimente.

      • Aprenda a argumentar, Hudson. Os dados apresentados são oficiais, e reconhecidos pela sociedade. Conteste-o com inteligência e educação, se for o caso, e se puder……… Poderá até quem sabe enriquecer o debate. Mas sem baixar o nível.

        Se não consegue “aceitar” a realidade, recolha-se. Parece fazer parte da direita raivosa, manipulada e inconformada.

        “Aceita pombinha” rebelde……

  4. Acho muito interessante esse ponto de vista, também acho desleal algo acontecer somente pela reeleição, isso é sujo mas, convenhamos, o Brasil convive com isso desde muito antes da era PT.
    Admiro o Bolsa Família e o seu objetivo, ninguém pode passar fome, e muitos que escrevem a respeito não tem a menor ideia do que é passar por isso. Criticar o Bolsa Família é muito simples quando você coloca o ideal de “vagabundos” que se aproveitam do benefício.
    Não estou defendendo-o em sua totalidade, acho muito plausível o início de qualquer mudança ser o “tapar buracos” que atrapalham o viver bem de uma sociedade, mas minha grande crítica é o Governo se utilizar apenas disso… Onde estão os projetos sociais que habilitam as pessoas que recebem o Bolsa Família a sair dessa condição? Isso auxiliaria na diminuição do montante envolvido hoje e no desenvolvimento de regiões que ainda não são desenvolvidas por falta de oportunidade e esclarecimento da população local.
    Acredito ser interessantíssimo todos esses pontos de vista, e os respeito, tenho o meu e tentei colocar de maneira geral e sem exemplos numéricos e de contas públicas, mesmo pq esses dados não representam a realidade… a tal da “contabilidade criativa”.
    Resumindo, as reclamações deveriam focar a dependência no longo prazo dessas famílias e não somente a atual. Onde estão os programas que o tirem disso no médio prazo? Somente a mudança de geração os fará sair dessa condição? Lamentável.
    Mais questionamentos nesse aspecto faria com que as pessoas parassem de pensar em atitudes governamentais de curto prazo que, na minha opinião é a doença brasileira, e enxergar o que se fazer com todo o benefício advindo das atitudes até o momento melhorando essa dependência “futuramente”.
    Bom, Monsueto, lhe sigo e lhe admiro pelos comentários e pontos de vista, tentei mostrar como acredito que pode ser o pensamento para esse, e alguns outros pontos que sempre são discutidos. Por exemplo, adorei o post sobre os gastos com Pensão, em muito momentos foram citados atitudes hoje para mudanças futuras.
    Grande abraço.

    • Que bom. Continue escrevendo e participando do debate. Eu aprecio muito um bom debate e quando discutimos é para aprendemos uns com os outros.

  5. Bem, talvez um reajuste no BF até seja perfeitamente justificável… mas a circunstância do anúncio foi péssima.

    É mais ou menos que nem aquela conversa de alterar o IPCA: não duvido de que haja motivos sérios para alterar a composição do IPCA, ou mesmo para o BACEN substituí-lo como índice de meta de inflação. Mas discutir isso agora, quando estamos quase estourando o teto, é subestimar a inteligência do povo (http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/04/23/quando-a-febre-nao-baixa-a-culpa-e-do-termometro/).

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