Pensões novamente: as regras são justas?

No debate intenso do meu último post, notei que algumas pessoas se concentraram muito mais em criticar o exemplo equivocado dado pelo Samuel e evitaram a discussão das regras injustas do nosso sistema de pensões de que tratou o artigo do economista Bernard Appy.

Samuel de fato cometeu um deslize no seu exemplo de pensão de funcionários públicos porque isso mudou por meio da Emenda Constitucional No 41 de 2003. Por esta emenda, o valor das pensões de funcionários públicos tem uma redução de 30% no valor que ultrapassar o teto do Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Assim parte do problema foi resolvido mas não a sua totalidade, que de fato está ligado na categoria de “direito adquirido”.

No caso mais geral, as anomalias que Bernard Appy mostra no seu artigo no Estado de São Paulo continuam. O pesquisador do IPEA, Marcelo Abi-Ramia Caetano há anos escreve sobre isso e tem repetido o problema das regras que regulam a concessão de pensões no Brasil em relação ao resto do mundo – leiam este texto dele com o pesquisador Roberto de Rezende Rocha– O sistema Previdenciário Brasileiro: uma avaliação de desemprenho comparada; TD 1331 IPEA, março de 2008.

O Gráfico abaixo do texto acima deixa muito claro nossa anomalia. Sei que tem gente que detesta comparação internacional, mas para o bem ou para o mal essa é forma de identificar nossas anomalias. É muito difícil alguém achar que, no Brasil, o gasto público é baixo quando nos comparamos com países de renda per capita semelhante a nossa.

pensões

Neste debate, até mesmo o Ministério da Previdência vem enfatizando a anomalia das nossas regras de concessão de pensão por morte. Reproduzo abaixo parte de uma entrevista do Ministro Garibaldi Alves, que tem destacado esse problema desde 2011/2012:

“Uma das intenções (do governo) é alterar a regra que permite a manutenção da pensão em casos de viúvos que se casam novamente e filhos que deixam de ser dependentes. O objetivo é acabar com situações em que jovens se casam com pessoas mais velhas só para herdar o benefício e continuam com a pensão mesmo quando se casam novamente.

Já prevendo uma reação negativa, ele afirmou que não se trata de reduzir o direito das viúvas, mas conceder pensões de maneira “mais justa”. “É reconhecer o direito a quem verdadeiramente o tem. Os recursos do Tesouro são finitos. E o déficit da Previdência é coberto por recursos de todos os brasileiros”, afirmou. Segundo Garibaldi, a reforma será feita sem ferir direitos adquiridos, apenas para novos benefícios.

O governo também deve propor mudanças na norma que permite deixar pensão após a morte para familiares de pessoas que fizeram uma única contribuição ao INSS. Pela regra em vigor, os dependentes de um trabalhador com 25 anos de contribuição e que ficou quatro anos sem contribuir não têm direito à pensão. Mas se um outro segurado morrer no primeiro mês de contribuição, a pensão será paga…….

…… “Não é possível que uma pessoa ao falecer, e que fez apenas uma contribuição, vá ter os mesmos direitos de quem contribuiu 35 anos. É uma injustiça. Está na nossa legislação. Se não pudermos fazer isso agora, qual será a hora de fazer?”, disse o ministro. (integra da matéria do Jornal da Tarde aqui).

Neste debate é importante ter em mente duas coisas. Primeiro, no caso do funcionários públicos, parte relevante do problema será resolvido ao longo do tempo dada a aprovação do FUNPRESP no governo Dilma. O efeito não será imediato, mas o FUNPRESP sem dúvida resolverá esse problema no futuro já que a aposentadoria de funcionários públicos com o fundo passará a ser pelo sistema contribuição definida.

Segundo, as anomalias do RGPS continuam como mostrado na entrevista do ministro indicada acima e no artigo do Bernard Appy. O que não sei dizer é qual o tamanho da economia com uma reforma do sistema de pensões. Como qualquer reforma, em princípio, uma reforma não deverá alterar direitos garantidos e a economia seria gradual e ao longo do tempo. Mas reformar as regras da concessão de pensões por morte é um debate importante e ligado à justiça social.

Quando isso nos puxará para a média mundial não sei, mas é o correto a fazer. Agora se não quisermos fazer nada também é uma opção, mas isso significa que continuaremos com um gasto previdenciário e com pensões extremamente elevado dada a nossa taxa de dependência dos mais velhos (pessoas com mais de 65 anos dividido pela população em idade ativa).

Vale lembrar que pelos dados das Nações Unidas, o Brasil tem uma taxa de dependência de 11.8% e gasta com previdência algo próximo a 12% do PIB (inclui LOAS e pensões). A França com uma razão de dependência (old-age dependency ratio) de 28,2% gasta com previdência 12,8% do PIB. É muito difícil achar que está tudo bem, quando sabemos que a nossa taxa de dependência vai duplicar ao longo dos próximos vinte anos.

21 pensamentos sobre “Pensões novamente: as regras são justas?

  1. A previdência em geral vai quebrar o governo.

    Outro dia vimos aqui que só o IBGe custa 700 milhões por ano em previdência (e subindo 100m por ano). Ano passado eu li uma notícia que o setor público consolidado dá um déficit de 62 bilhões de reais por ano para 900 e poucos mil aposentados ( mais de 60k por cabeça/ano, apenas de déficit). A previdência urbana com 4 trabalhando pra 1 recebendo tá com míseros 25 bi de superávit e a rural (que é quase um LOAS) tá com 70 bi de déficit. E ainda tem os próprios LOAS que custam mais uns 25 bi/ano.

    Ou seja, somando td, com a economia bombando em termos de emprego formal, tamo torrando uns 20% do orçamento federal (liquido de repasses) só com previdência. Imaginem na primeira crise… imaginemos daqui 10 anos qdo vamos começar a sair do bonus demografico…

    Jesus amado.. já vejo o salário mínimo minimizando e o IRPF subindo pra 40% pra comer um pouco desse excesso dos supersalários do setor público.

    • A situação do setor público está mais ou menos administrada em longo prazo por causa da EC 41 e da implantação do Funpresp. Isso para os novos entrantes. O que temos que solucionar agora é a questão dos pré 2003, possivelmente alterando a idade de aposentadoria. A expectativa de vida de um servidor público que chega aos 55 anos (idade em que a maioria se aposenta) facilmente passa de 80 anos. É neste ponto que devemos trabalhar. A idade de aposentadoria tem que ser elevada para 65 anos com urgência. E o gap entre a idade de saída da mulher e do homem deve ser fortemente reduzido, pra não dizer eliminado, pois a mulher possui expectativa de vida maior que o homem.

      Outro ponto a ser atacado é o benefício de pensão. Não há motivos para uma viúva jovem receber o mesmo que uma viúva idosa. O benefício da viúva jovem (por exemplo, abaixo de 50 anos – só uma proposta) deve ser temporário e depender – uma outra sugestão – da situação trabalhista dela. Se ela trabalhou nos últimos 2 anos, por exemplo, deve ter um benefício temporário no valor de um percentual da remuneração do cônjuge.

      Os demais colegas não fiquem aborrecidos comigo, ok?

      São só propostas para estimular o debate 😉
      Este é o problema mais dramático do Brasil da primeira metade do século XXI.

      • Dificil crer em algum longo prazo, quando se trata das contas do governo. Despesas crescendo o dobro nominalmente das receitas, superávits primário evaporando, Gastos com juro subindo (apesar dos swaps do BC estarem dando uma maquiada temporária nesse item, mas logo as pedras ressurgem do fundo novamente). O país está estrangulado financeiramente, com a receita virtualmente toda comprometida por despesas obrigatórias, e as despesas cavalgando cada vez mais rápido.

        To esperando pra ver quais serão as mágicas que o governo federal adotará nos proximos anos, pra manter sob controle suas contas. Por ora é maquiagem nas contas e aumentos pontuais de impostos (e vários aumentos!).

        A previdência paga pelo governo está fadada ao fracasso. Isso é inexorável. O governo não poupa o que recolhe, para devolver no futuro, como uma previdência privada. Ele recolhe de qm paga para pagar quem já tá aposentado. É uma espécie de INSSexfree. Esquemão de Ponzi. Isso aí vai desabar logo. Não sei se em 5 ou 10 anos, mas mais que isso o esquemão não aguenta. Vai faltar gente na ativa pra pagar o pessoa aposentado. Daí vão ter que recorrer a um tesouro ainda mais asfixiado.

        Só me pergunto se será cortando o valor dos benefícios ou se vão deixar a inflação comer solta por meio de impressão de dinheiro no BC, ou se vão subir os impostos ainda mais pra terminar de enforcar o já asfixiado setor privado brasileiro. De qualquer forma é bem díficil escapar de um xeque-mate nas próximas jogadas….

      • Não considero o Regime de Repartição Simples um esquema ponzi ou uma fraude. Acontece que ele ficou obsoleto nos anos 90 e não conseguiram mudar pra capitalização. Nem FHC teve coragem de propor isso.

        Só lembrando que muitos seguros são estruturados em regime de repartição simples, como saúde e vida.

        Provavelmente este regime estará encerrado nos próximos 10 anos. Só que será no estilo corte. Somente os novos entrantes serão colocados em capitalização. O resto vai continuar na repartição com o governo aportando pra garantir as aposentadorias. Coisa pra mais 30 anos a partir de quando reformarem o sistema. Por isso eu digo que atacar a idade de aposentadoria para todos os trabalhadores é essencial pra reduzir este déficit.

        Mas concordo em linhas gerais com seu comentário. A previdência brasileira é o assunto mais dramático da primeira metade do século XXI.

      • Repartição simples, é qm tá ocorrendo hoje, eu pago e vai diretamente para alguém receber… capitalização é o jeito privado, ok?

        Bem, HOJE, o gasto com previdência do governo é ao redor de uns 300 bi/ano. Coisa de 8% do PIB. Se a gente for colocar todo mundo que ainda tá na fila pra receber por esse sistema, e em determinado momento, a partir dele, colocar os novos entrantes num sistema “de capitalização”, o estado perderia as receitas atuais, mas continuaria tendo que pagar a despesa. Ou seja, seria 8, 10, 12 pontos do PIB por ano de pagamento de previdencia, até começar a baixar em determinado ponto ao longo de 30 anos.

        O país não vai aguentar isso. Não tem imposto que aguente (tão se espremendo pra conseguir míseros pontinhos de arrecadação), e certamente a divida publica naõ poderá ser eternamente inflada pagando previdência.

        Não sei qual a saída. Se vão derreter o salário mínimo (atual indexador pra 70% dos aposentos do INSS), ou se vão tacar IR sobre todo mundo (um jeito de diminuir o salário sem diminuí-lo hehe). Mas tudo passa por cortar o social. Por esse povo que hj vive do estado pra trabalhar.

        Só sei que é um beco sem saída. Qqr atitude que se tome, ou detona de vez as contas públicas, ou quebram de vez o país de tantos impostos.

        Brasil quis ser rico sem ser, aí está o resultado.

      • Bem, eu disse que deveríamos criar um regime de capitalização para os novos trabalhadores e manter o sistema atual para os já ingressados. O ponto que você tocou vai ocorrer sim, perda de receitas. Por isso deveríamos encontrar uma idade de saída que ajudasse a não pressionar tanto as contas. Outra opção a ser usada em conjunto com o aumento da idade seria a criação de um fundo com destinação a amortizar este passivo. Se combinássemos coisa de 0,5% do PIB com elevação da idade de aposentadoria para 65 anos para os dois sexos, bem como alguns ajustes nas pensões por morte, acho que daria pra levar.

        Infelizmente não tenho como fazer as projeções. Mas digamos que 1% do PIB fosse reservado para este fim anualmente. Em 10 anos seriam 500 bilhões de Reais guardados. Ainda assim seria suficiente pra financiar apenas 1 ano de previdência social, já que hoje são gastos cerca de 520 bilhões por ano (11% do PIB). Ainda assim talvez seja necessário desvincular o salário mínimo da previdência. Corrigí-lo sempre acima da inflação em longo prazo agrava e muito o nosso problema.

        Então, resumidamente, temos o seguinte:

        1 – Fazer um corte. A partir de hoje todo mundo que começar a trabalhar já entra em regime de capitalização. O de repartição fica somente para quem já tá dentro.
        2 – Criar um fundo para reservar dinheiro pra cobrir a conta.
        3 – Aumento de idade de aposentadoria. 65 anos para os dois sexos.
        4 – Modificar o sistema de pensões por morte. Além da redução salarial que já existe, diferenciar os percentuais de acordo com a idade do cônjuge, bem como criar pensões temporárias de acordo com o status de trabalho da pessoa.
        5 – Salário mínimo diferenciado para previdência.
        6 – Reduzir o assistencialismo.

        A coisa tá muito feia pra previdência. Apesar de amar este tema, tenho mais medo a cada vez que faço estas contas de papel de pão. Não vejo como não ter aumento de carga tributária pra cobrir este problema. Só se cortar no social, mas não é esta a tendência.

        Coitado do presidente que pegar esta bomba. Nunca mais se elege nem pra síndico.

      • Pedro,

        obrigado pelos comentários interessantes. Eu como você enxergo o problema e sabemos mais ou menos a rota do que fazer mas nesta rota há vários caminhos. Depois vou tentar resumir por aqui o que andei lendo e as propostas diferentes.

        Por favor continue com os comentários. Aprendo muito com todos os comentários. Essa é a parte boa do blog. Abs, Mansueto

      • Obrigado. Estimule mais o assunto em novos tópicos que poderemos continuar a conversa. Ou crie um link fixo no seu blog para debates permanentes sobre a reforma da previdência.

  2. Prezado Mansueto,

    O problema associado a esse debate nada tem a ver com os fatos, mas com os argumentos tendenciosamente coligidos. É evidente que o sistema previdenciário brasileiro, seja no âmbito do regime geral, seja no do regime do servidor público, há muito vem merecendo ampla reformulação. Nesse particular, estamos todos de acordo. Agora, do ponto de vista do contribuinte individual, a história é completamente diversa. O servidor público, e os argumentos de Samuel são dirigidos a essa categoria, contribui com somas extremamente elevadas para constituir os benefícios previdenciários de que deverá desfrutar no futuro. A forma de contribuição é completamente diferente daquela que vige nas relações privadas de trabalho, assim como o nível de contribuição representa um múltiplo daquele que se observa entre empregados celetistas. Portanto, não vale, a bem da verdade, discutir eventuais exageros, da perspectiva dos benefícios, sem que se discutam, também, demasias do ponto de vista do regime contributivo que existe no serviço público.

    Não há qualquer prevenção ou preconceito em relação a experiências ou contextos de análise tomados de empréstimo de outros países. Muito ao contrário, podemos, sempre, aprender. Agora, as comparações dessa ordem devem ser muito cuidadosas e precisas, coisa difícil de se ver entre nossos acadêmicos, muito acostumados às generalidades e aos argumentos de autoridade.

    E mais: não são apenas as relações previdenciárias que carecem, no Brasil, de uma ampla reformulação. Na esteira desse debate, também as relações de trabalho, na fase ativa da vida profissional, estão, há muito, merecendo revisão. Nossas leis do trabalho são anacrônicas, há uma cunha fiscal enorme pressionando o custo da mão-de-obra, e a jurisdição trabalhista constitui serviço público de duvidosa eficácia socioeconômica.

    Não por outra razão, pululam esquemas e subterfúgios para contornar os entraves legais que envenenam as relações entre patrões e empregados, notadamente no âmbito dos negócios privados. Hoje, principalmente em instituições de ensino privadas e em veículos da mídia, não há mais empregados, mas “prestadores de serviços”, contratados sob arranjos jurídicos perfeitamente ilusórios na ótica da legislação tributária e previdenciária.

    Essas considerações são feitas não para estancar o debate, mas para qualificá-lo e ampliá-lo. Duvido que Samuel, Appy e Singer queiram pregar no deserto. Eles querem e, de fato, conseguiram suscitar a discussão.

    Agradeço a você a gentileza deste espaço e a iniciativa de trazer o tema ao debate. Boa noite.

    • Bons pontos. Depois vou falar da minha experiência com tributação pessoa jurídica com apenas um contratante – isso é sem duvida um grande problema. Abs, Mansueto

  3. Um funcionário público federal que ganhe 5 mil reais paga 550 de previdência. O governo paga outros 1100.
    Precisamos acabar com essa história de previdência pública! 1650 reais por mês é uma boa quantia para o funcionário fazer o que bem entender: queimar, investir, pagar uma previdência privada, apostar em cassinos ou pagar prêmios de seguro de vida ou invalidez.
    Se for pra ficar reformando, vamos ter que reformar pra sempre. Melhor resolver de uma vez.
    Quanto ao Funpresp, parece ter potencial para melhorar bastante a questão dos déficits lá na frente, mas como será no período de hiato, quando milhões receberão benefícios e ninguém mais contribuirá?

    • Devemos mexer na idade de aposentadoria e nos critérios para a concessão de pensão por morte. Isso reduzirá o impacto fiscal do pessoal pré EC 41.

    • Terá um custo. Isso já estava na conta quando foi criado.

      Inclusive, alguns países que passaram por mudanças semelhantes em seus sistemas previdenciários chegaram a criar fundos soberanos para fazer frente aos custos futuros de modo a suavizar os gastos previstos. Dessa forma, evitaram um grande impacto, concentrado, sobre a carga tributária ou dívida pública.

      Abs

      • Valeu pelas informações.
        Se já estava na conta, ficou transparente? Disseram qual seria o custo e como ele seria pago?
        Se o déficit atual é de 60 bi, com as receitas, imagina sem as receitas lá na frente e com despesas muito maiores.
        Vai ser difícil ser transparente com isso, pq o rombo esperado deve ser de um PIB…

    • Bernardo, uma coisa que ficou faltando no meu último comentário foi a respeito do “ter que ficar reformando”.

      Atuária é assim mesmo. Mesmo com uma reforma da previdência completa e 100% impopular, daqui a alguns anos será necessária uma nova reforma.

      Este é o princípio da atuária. Gerenciar bem o risco no curto prazo de forma contínua e reiterada para preservar o dinheiro no longo prazo.

  4. sempre bom ver seus comentários sobre temas econômicos ou sobre comentários de outros comentadores…acho que a previdência tem muitas questões para atacar, como idade mínima (ou regra idade+tempo de contribuição), as pensões que em muitos casos me parecem indevidas, apesar de legais e especialmente a questão da previdência rural…que mais é assistência social do que previdência mesmo…
    Vera

  5. Outro erro do samuel foi considerar que a pensão é calculada com base no salário integral. Na verdade, o beneficio é calculado com base na média da remuneracao de 80% do período contributivo.

  6. Mais um motivo para aumentar a idade de saída pra 65 anos e equiparar homens e mulheres em tempo de contribuição e idade de saída.

    Carioca não quer parar
    Pesquisa mostra que 41% pretendem continuar trabalhando após a aposentadoria

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    IONE LUQUES (
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    Publicado:
    4/05/14 – 7h00
    Atualizado:
    4/05/14 – 10h22

    Trabalhadores participam da pesquisa sobre aposentadoria, realizada pela UniCarioca, no Centro do Rio
    Foto: Divulgação
    Trabalhadores participam da pesquisa sobre aposentadoria, realizada pela UniCarioca, no Centro do Rio Divulgação
    RIO — “Eu ainda me sinto totalmente produtiva” — reage, quando perguntada por que não parou de trabalhar, a analista de sistemas Luciene Caruso, de 52 anos, que se aposentou há um ano e meio, mas continua na ativa, a todo o vapor.
    Luciene, na verdade, faz coro com um sem-número de brasileiros, que só faz crescer. Estudo divulgado no início do ano pelo Banco Mundial mostra que, dentro de 37 anos, pessoas com mais de 60 anos devem responder por 49% da população economicamente ativa do Brasil, contra os 12% de hoje. Os cariocas que o digam. Independentemente da idade, pesquisa feita para o Boa Chance pela UniCarioca informa que, hoje, 41% dos entrevistados pretendem continuar trabalhando após a aposentadoria.
    Para a metade destes, a principal razão de se manter no mercado é o fato de o valor pago pela Previdência Social ser muito baixo e haver necessidade de complementá-lo. Para 18%, pela oportunidade de manter ou melhorar o padrão e a qualidade de vida. De qualquer forma, todos estão conscientes de que o tipo de trabalho encontrado mais facilmente pós-aposentadoria não costuma ter os mesmos níveis de remuneração e prestígio anteriores.
    Dificuldade de planejar a aposentadoria
    Ainda de acordo com os dados da enquete, que ouviu 1.396 trabalhadores no Centro do Rio, 24% dos entrevistados garantem que não vão trabalhar após se aposentarem. Enquanto 35% disseram que ainda não pararam para pensar no assunto — o que, segundo analista, além de mostrar que o brasileiro não consegue desenvolver a cultura de pensar em seu futuro, evidencia problemas financeiros.
    — A fotografia revelada pela pesquisa leva a entender que existe certa dificuldade em planejar no longo prazo, devido principalmente a questões financeiras. Em muitos casos, ganha-se pouco, e fica complicado contribuir com uma aposentadoria complementar para garantir pensão digna e certo conforto no futuro — destaca o professor Jalme Pereira, coordenador do Laboratório de Pesquisas da UniCarioca, responsável pelo levantamento.
    Professora do Ibmec e sócia-diretora da Yluminarh, Ylana Miller reforça a ideia: lembra que no Brasil é pouco representativo o contingente de pessoas que se planejam para a aposentadoria, o que explica a necessidade de complementar a renda:
    — O planejamento financeiro ameniza a ansiedade e riscos dessa nova fase de vida. Entretanto, mesmo aqueles que se sentem amparadas por reservas financeiras, acabam optando por continuar a exercer atividades profissionais. São pessoas que buscam uma atividade para se manterem ativos, visando a qualidade de vida física e mental.
    Para 17%, o que vale é o gosto pelo trabalho
    Estes, aliás, são outros motivos importantes apontados pelos entrevistados para continuar no mercado de trabalho: afinal, 17% deles dizem que gostam de trabalhar, enquanto outros 10% admitem que têm medo de ficar ociosos. Como indica a análise da pesquisa, “o receio de deixar a rotina e o sentimento de perda de identidade fazem com que muitos profissionais adiem o fim de carreira”.
    — Neste momento, o foco não será a carreira e, sim, uma atividade profissional em que o profissional colocará em prática o seu diferencial, de preferência o que faz de melhor e que o deixa mais realizado e feliz — conclui Ylana.
    55% querem atuar na mesma área
    Trabalhando no laboratório farmacêutico GSK há 22 anos, Luciene Caruso viu se aproximar o momento de se aposentar, mas não tinha pretensão de parar. Mas, só por questões financeiras, deu entrada na aposentadoria: a motivação continua e ela sabe que tem muito a aprender e um grande potencial para produzir:
    — A troca com a empresa é muito boa, e continuo ocupando o cargo de anos. O importante é não ficar no ócio, continuar com a cabeça funcionando, ter uma ocupação— diz, acrescentando que sua meta é parar quando mente e corpo não corresponderem. — Quando não for produtiva o suficiente para a empresa, eu paro. Enquanto isso não acontecer, continuo por aqui.
    Luciene admite que só começou a planejar sua aposentadoria após cumprir com algumas prioridades, como a educação dos filhos. Daí passou a se preocupar com um plano de aposentadoria e aumentar a poupança para a fase que estaria por vir.
    — Não se trata apenas de uma questão de planejamento. Às vezes a pessoa não tem condições de se preparar porque as prioridades são outras. Costumo dizer, brincando, que já fiz a curva e, agora, preciso levar mais a sério este planejamento, já que estou mais perto de uma aposentadoria real.
    A pesquisa da UniCarioca mostra, ainda, que quando perguntados sobre o que fazer após a aposentadoria, a exemplo de Luciene, 55% pretendem continuar trabalhando na mesma área, 24% querem abrir o próprio negócio, 12% mudar totalmente de área e 9% querem atuar como consultores.
    Aprendizagem em primeiro lugar
    Seja qual for a opção escolhida, os especialistas são unânimes em um ponto: o importante é manter-se atualizado, ler bastante e navegar pela internet, para se inteirar sobre as novidades do mercado e buscar oportunidades através de sua rede de relacionamentos.
    — Mudar de área ou abrir o próprio negócio implica aprendizagem, reciclagem e atualização — ressalta o professor Jalme Pereira, da UniCarioca.
    Para a sócia-diretora da Yluminarh, Ylana Miller, os profissionais aposentados ou em processo de aposentadoria devem investir no seu legado. Disseminar conhecimentos e habilidades, além de formar novos talentos é um grande desafio que deve ser feito sem receio de perda de espaço, afirma:
    — A maior riqueza é a troca, a interação e a aprendizagem mútua entre pessoas de diferentes gerações. A autoconfiança dos profissionais mais seniores será a grande diferença neste processo.
    Por outro lado, quais são os principais motivos que levam as pessoas a não pensar em trabalho após aposentaria? Para a maioria dos que pensam assim (30%), pesa o desejo de descansar e desfrutar daquilo que conquistaram. Para 24%, a vontade de cuidar e curtir a família é o mais importante.
    Outros 16% dizem que o que mais os preocupam é perder a saúde após a aposentadoria e, assim, não poder aproveitar suas conquistas. E ter tempo para outros projetos é o que vale para 12% dos entrevistados.
    Embora uma das conclusões da pesquisa seja de que ainda há conflitos entre a vontade de parar de trabalhar para descansar, entre curtir a vida ou fazer atividades mais prazerosas e a necessidade de complementar a renda, o coordenador da UniCarioca identifica uma mudança na mentalidade das pessoas com relação ao assunto, pois já percebem que outras opções rotineiras, além do trabalho, são atraentes e saudáveis.
    Responsabilidade compartilhada
    Pereira volta a bater na mesma tecla: o que precisa mudar profundamente é a forma de planejar. E esta responsabilidade poderá ser compartilhada entre os principais atores: o empregado, investindo na aposentadoria, seja poupando ou contribuindo desde jovem; a empresa, desenvolvendo uma política de recursos humanos que apoie o investimento do profissional e o prepare para um novo ciclo; e o governo, com políticas que garantam a qualidade de vida dessas pessoas.
    — Chegará o tempo em que continuar trabalhando não será uma necessidade e, sim, uma opção de vida, como tantas outras.

    Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/emprego/carioca-nao-quer-parar-12367505#ixzz30lM0lD1j
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