O tamanho do problema do setor elétrico

Quem quiser entender o tamanho do problema do setor elétrico sugiro que assista ao programa da jornalista Miriam Leitão da semana passada na Globo News. Um post sobre o programa e o link para o programa podem ser acessados aqui no blog da Miriam Leitão.

Miriam entrevistou um dos maiores especialista do setor elétrico no Brasil, Mario Veiga da PSR. Em 2012, Mario era um dos consultores do governo federal e um dos defensores da MP No 579 de 11 de setembro de 2012, que definiu o novo marco regulatório para o setor elétrico. Lembro de um debate que participei , em 2012, no qual ele defendia o novo marco do setor elétrico e Elena Landau criticava fortemente.

A suposta lua de mel entre Mario Veiga e o governo terminou ao que parece porque o governo não concordou com as análises do consultor ao longo de 2013 e, possivelmente, o consultor deve ter discordado da redução forçada do preço da energia apesar do uso da térmicas ao longo de 2013.  Hoje o consultor é uma das pessoas na lista negra do governo, com todas aquelas que ousam a discordar das projeções, em geral erradas, do governo.

A entrevista que Mario Veiga deu à Miriam Leitão é uma verdadeira aula sobre o problema do setor elétrico. Vou destacar quatro pontos. Primeiro, o nível dos reservatórios, em abril deste ano, está no menor nível desde 2001. O gráfico abaixo apresentado no programa deixa isso muito claro.

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Segundo, os reservatórios perdem grande parte do seu volume ao longo do ano, como se observa em outro gráfico apresentado no programa e reproduzido abaixo para 2010 e 2012. O volume dos reservatórios baixam de um valor próximo a 80% no inicio do ano para 30% no final do ano em anos com período chuvoso normal. Agora já estamos com um nível dos reservatórios de 37%. Qual será o nível mo final do ano?

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Mesmo com o acionamento das térmicas ao longo do ano, como em 2013, isso não resolverá o problema como não resolveu em 2013 que não teve nem um evento atípico e os reservatórios estavam, em abril de 2013, acima de 60%. Mario Veiga mostra que, possivelmente, a oferta de energia das hidrelétricas está superestimada pelo governo e o valor real da capacidade do sistema é muito menor do que o dado divulgado pelo governo.

Terceiro, o custo da redução forçada da conta de energia, em 2013 e 2014, pode passar de R$ 50 bilhões. Em 2013, o governo bancou via Tesouro R$ 8 bilhões de subsídios e mais R$ 10 bilhões em empréstimos para distribuidoras que serão pagos pelos consumidores ao longo dos próximos anos. Mario lembra que a receita total das distribuidoras não chega a R$ 10 bilhões e, assim, o volume de subsídios e empréstimos as distribuidoras é bastante elevado.

Para 2014, o governo já garantiu um novo subsídio de R$ 10 bilhões do Tesouro Nacional e novos empréstimos às distribuidoras entre R$ 12 e R$ 24 bilhões. Assim, a conta de 2013 e 2014 com subsídios e empréstimos corresponderá a algo entre R$ 40 bilhões e R$ 52 bilhões, uma parte será paga por nós via impostos e outra parte via aumento na conta de luz que pode chegar a 35%.

Quarto e último ponto, apesar desse custo enorme, há ainda o risco sério de apagão se não houver racionamento. O que grande parte do mercado aposta a partir das estimativas de Mário Veiga é que, se não houver um racionamento imediato já a partir de maio, o racionamento inevitavelmente virá em 2015. Alguns bancos já falam até em recessão em 2015.

O que o governo diz? O governo fez nos últimos 30 dias duas reuniões com analistas de bancos para garantir que não há risco de racionamento. A primeira dessas reuniões foi em Brasília e, a segunda, na semana passada em São Paulo. A impressão que fica neste debate é que os números de Mario Veiga são muito fortes e mostram um problema real que o governo não consegue refutar.

Um amigo com trânsito na Empresa de Pesquisa Energética (EPE) me garantiu que o humor por lá na semana passada também não anda nada bem e que alguns técnicos já reconhecem a necessidade de medidas restritivas ao consumo: racionamento.  Ao longo do ano saberemos quem está com a razão neste debate. Se for o consultor Mario Veiga, isso significará mais um duro golpe não apenas na credibilidade do governo, mas também da ANEEL e da EPE. A ver.

13 pensamentos sobre “O tamanho do problema do setor elétrico

  1. Acompanhei a apresentação do Sr. Veiga, e perdi o chão. Pelo que ele apresentou há uma ou duas chances em cinco de que haja não um apagão, mas uma parada total do sistema. Seria como hoje ter desligar Estados ou Regiões em sequencia para poder manter o sistema minimamente em pé.
    Um ponto que acho importante, é que para a maioria dos reservatórios, chegar a 10% de capacidade significa não haver mais potência de geração de energia, ou seja há a parada
    Eu me considero um crítico de muitas opções do governo atual, mas imaginar tal cenário é imaginar uma crise sem precedentes – coisa que não desejo.

  2. Muito interessantes ambos, seu post e a entrevista. Será que o governo tem coragem de agora em maio decretar medidas de restrição ao uso da energia elétrica? O impacto eleitoral, nesse caso,parece certo e não desprezivel.

  3. Especialistas na área ambiental já previam este tipo de coisa há muito tempo. Desmatamento = inconstância no ciclo hidrológico, entre outros impactos. E isso aí é só o começo. Um país como o Brasil não pode desmatar 90% da Mata Atlântica e achar que o clima no sul/sudeste vai continuar sendo como era antes. E, com o desmatamento da Amazônia, a coisa vai ficar pior ainda, conforme alertam especialistas há décadas: http://www.ecodebate.com.br/2009/01/14/sem-chuva-da-amazonia-sp-vira-deserto-entrevista-com-antonio-nobre-pesquisador-do-inpe/

  4. Entrevista combinada. O consultor tinha até cola para a pergunta. E se nada ocorrer? Fica por isso mesmo. A Miriam Leitão fala que vai ter apagão quase todo ano. E a credibilidade das análises dela?
    Analisar o nível dos reservatórios sem levar em conta a capacidade é enganar bobos.
    30% de 10 e 30% de 20 são a mesma coisa? E onde estão estes reservatórios? Tem como transmitir a energia para outras regiões.

    Estou aguardando o dia em que a Cemig vai entregar as hidrelétricas que não foram renovadas no ano passado com desconto e ter que bancar seu custo sem essas receitas. Jestao do PSDB.

    Vide deixar faltar água no pais com mais recursos hídricos do mundo

    • Alberto, até 2012, Mario Veiga era consultor do governo. Miriam Leitão não fez estudo algum. Quem fez foi o entrevistado, Mario Veiga, que é um dos mais respeitados especialistas no setor elétrico. Hoje tem um artigo no valor de outro especialista falando a mesma coisa e até mesmo técnicos da EPE confirmam a possibilidade elevada de racionamento. Querer colocar a culpa na CEMIG é forçar muito a barra.

      • Mansueto, ele pode ser assessor do Papa. Se não fosse para falar o que disse ele não iria.
        A Miriam Leitão fala desse racionamento a anos e ele nunca veio. Às vezes troca o “consultor”. Às vezes chama os mesmos. Se chamasse um pajé daria na mesma desde que fale que há um enorme risco de ter racionamento.
        A Globonews é uma igreja que prega para convertidos para não deixar que eles pensem diferente.

        Os gráficos dele não resistem a uma análise meia boca. Como disse, para comparar a água nos reservatórios é necessário comparar a capacidade deles. 30% de 10 não é 30% de 20.
        O segundo, quando fala da eficiência, trata tudo como uma relação linear, o que não é.

        Qualquer analista do setor elétrico sabe que a eficiência não é sinônimo de economia. Para relacionar isso, basta levar em consideração as distâncias entre a hidrelétrica e o centro de consumo. Quando os reservatórios estão cheios, usam-se as mais baratas e não as mais eficientes.

        Pegue o mesmo gráfico do “consultor” nestes meses de uso mais eficiente para concluir que a capacidade instalada é maior por causa da eficiência.

        E o consultor não sabe disso? Claro que sabe, só que ele quer dar uma de pajé e, se não chover, dizer que avisou mas não foi ouvido. Sempre tem gente arriscando nesse tipo de análise. No começo do ano um tal de Sr. Dinheiro disse que teríamos o estouro da bolha de imóveis nesse semestre. Repercutiu como uma verdade. Já estamos no fim de abril e até agora nada.

        Pesquisa operacional e Simplex já chegaram no setor elétrico na década de 70. Tem muita eficiência nessa gestão. Os modelos são válidos e as decisões são avaliadas no risco e custo.

        No Brasil, chove sempre em algum lugar. As redes foram interligadas o que aumentou a complexidade de gerenciamento e os riscos na transmissão de energia. Mas, a eficiência aumentou. Para mitigar os riscos, foram definidas várias linhas com prioridades diferentes. Quando tem uma queda, aumenta o número de impactados em favor de usuários preferenciais. Falta energia em mais municípios, mas não cai hospitais por exemplo.
        Isso é eficiência na gestão.

        E é por isso que os 30% de hoje não disparam um racionamento e em 2001, os mesmos 30%, disparou o processo. Hoje é mais bem gerenciado. Pode ser que tenhamos um holocausto? Claro que pode. Mas, ele foi evitado ao máximo.

        Quanto à CEMIG, confesso minha dificuldade em expressar. A CEMIG não renovou com desconto suas hidrelétricas que vencem as concessões, logo, seu caixa é maior. E mesmo assim solicitou quase 30% de aumento à ANEEL. A COPEL, também influenciada pelo PSDB, fez a mesma coisa. Estão melhores financeiramente? Não. E porquê? Porquê não foi isso a causa dos problemas e sim o despacho ininterrupto das térmicas. E elas não deveriam ter sido ligadas? Claro que deveriam, no fim de 2013 e início de 2014 quase não choveu. Além disso, a demanda está muito maior. Alguém fala disso? Claro que não. Isso é dar crédito a uma gestão “o mais eficiente possível”. É muito mais simples falar que a culpa é da Dilma. Dou um desconto para quem ignora isso. Mas, tem gente que faz por maldade. Prefere desinformar.

        Acho que o desconto da Dilma foi uma forma de dar competitividade às indústrias diminuindo os custos de energia e tirar proveitos eleitorais. Na minha opinião, vai no caminho errado. A energia deveria é ser cara o suficiente para tornar viáveis energias renováveis. Mesmo que possa ser produzida mais barata. Deveria ter uma CID na energia para viabilizar esse tipo de investimento. A natureza agradece.

    • Nossa, me dá uma preguiça desse povo que fica colocando a culpa na Globo.

      Você escreveu 1000 linhas e conseguiu não agregar absolutamente nada. Falou que os gráficos não se sustentam, mas não explicou o porquê, nem colocou alternativas. Falou que a rede está interligada. Está interligada em alguns pontos. No norte (onde está a maior parte da água doce que você citou), a grande parte do sistema não está interligada. No nordeste, onde foram feitos investimentos em energia eólica, até hoje não há interligação a diversos projetos (apesar de, por contrato, termos que pagar aos geradores. Afinal, construíram as usinas com a promessa de que haveria os investimentos em distribuição).

      Falou que 30% de 10 não é 30% de 20. Sério? E um reservatório de 10 tem o mesmo gasto que um de 20? O governo teve mais de 10 anos para preparar o sistema de modo a evitar novos racionamentos como o que ocorreu no início dos anos 2000.

      E o que o Governo faz? Dá desconto nas tarifas, passando todos os sinais equivocados. Estimulando o consumo quando deveria fazer o contrário. Não vou nem entrar no mérito da forma como o fez, porque aí realmente precisa ser um gênio para entender a lógica por traz do mecanismo criado. Basta saber que a conta futura vai ficar para a viúva.

      Daqui a pouco vão falar que os atrasos nos estádios, que deveriam ter ficado prontos há mais de um ano (todos eles, segundo compromisso do governo acordado nos encargos contratados junto à FIFA), são culpa da Globo.

      Que os atrasos nos aeroportos são culpa da Globo. Que os atrasos (e, muitas vezes, retirada de projetos do “Legado da Copa”) são culpa da Globo.

      Para finalizar, uma coisa que acho bem engraçada é o fato de que, ao ler blogs voltados para a esquerda, vejo milhões de críticas à Miriam Leitão, só para citar um exemplo. Entretanto, quando leio blogs voltados para a direita, vejo críticas semelhantes, só que em sentido oposto. Seria ela representante do PMDB então?

      Abs

    • A gestão da presidente na infraestrutura, com os leilões maravilhosos de 2012, e no setor elétrico foram muito bons mesmo. Estou confiante na gerentona! Só a Globonews não vê!
      E esses jornalistas que ficam dando manchetes negativas deveriam mostrar o alvorescer na mata, o nascimento de filhotinhos de sabiás, o pôr do sol em Ipanema… Maldita mídia. Maldita liberdade de imprensa.

    • Caro Alberto,
      Concordo com você que a entrevistadora deixa muito a desejar, mas me pareceu pouco combinado. Que a ML queria muito falar que o governo é horrivel é fato, as perguntas eram péssimas os comentários pobres, mas o Mario Veiga apontou problemas estruturais importantes. Que o ONS tem ferramentas estatísticas descentes não foi questionado, o que ele sugere é que o volume dos reservatórios é menor que o nominal e isso é uma denúncia grave, se isso se confirmar não é culpa da Dilma, do Lula, Do FHC, é uma falha estrutural desde o tempos dos Milicos de não ter um plano de mensurar isso periodicamente.
      Outra falha da entrevista foi sobre os leilões, ele diz que o Governo não efetuou os leilões e a entrevistadora não aprofunda nesse tema. Porque não fez? Qual alternativa? A entrevistadora ficou perguntando várias vezes se a culpa era do governo até escutar isso.
      Tirando isso, os dados dele, se forem verdade e parece que são, assustam. Tentar tirar a parcela de culpa do governo de tudo, ao meu ver, é tão pouco produtivo quanto jogar toda a culpa nos “petralhas”.
      Ele faz duas afirmativas de problemas claras
      “Temos uma capacidade real muito menor que a nominal”
      “A falha nos leilões gerou um aumento absurdo no custo das operadoras”
      Independente do catastrofismo, mesmo que a hidrologia seja favorável essas duas questões merecem análise séria.

      • Tentei agora pelo celular e funcionou..Engraçado que quando tentei antes, apenas esse vídeo não funcionava, os outros do site funcionaram.. por isso achei curioso.

        Agora sobre o tema, o governo está claramente dando “all in”. Só fica a dúvida sobre o impacto do El Niño, que é provável que ocorra..

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