O problema do IBGE: orçamento.

Passado um pouco a poeira, vou dar a minha opinião sobre essa confusão envolvendo o IBGE. Li que algumas pessoas falaram que o possível adiamento da PNAD contínua era fruto de intervenção política no órgão. A tese é que, pela PNAD contínua, a taxa de desemprego nacional era maior em cerca de dois pontos de percentagem da taxa da PME para regiões metropolitanas. Assim, o governo resolveu adiar a PNAD continua por ser ano eleitoral.

Tenho imensa dificuldade de acreditar nessa ou em outras teorias conspiratórias por vários motivos. Destaco aqui três. Primeiro, porque mesmo que a taxa de desemprego seja maior, a trajetória é de queda e, assim, não haveria porque o governo ter medo de um dado que lhe é francamente favorável.

Segundo, os gerentes do IBGE bem com a sua presidente são funcionários de carreira do órgão e de reconhecida competência por todos que olham para as estatísticas do IBGE. Assim, é difícil acreditar em aparelhamento do órgão dado os profissionais que estão na direção do IBGE.

Terceiro e mais simples, se olharmos rapidamente para o orçamento do IBGE podemos ver de forma clara que o órgão tem sido colocado em um regime de contenção orçamentária brutal e, isso sim, poderia ser uma boa explicação para o problema de ampliar as pesquisas do órgão com recursos limitados.

A tabela 1 abaixo traz o orçamento executado (valores pagos do ano mais restos a pagar pagos) atualizados para valores de março de 2014 do orçamento do IBGE. Com exceção de 2010, que foi um ano que o órgão fez a pesquisa do censo o que exige um forte aumento do seu orçamento, de 2009 a 2013, o orçamento do IBGE não aumentou um único centavo. Na verdade teve uma pequena queda, passou de R$ 1,99 bilhão, em 2009, para R$ 1,97 bilhão, em 2013.

 Tabela 1 – Execução do Orçamento do IBGE – R$ milhões de março de 2014

IBGE

Fonte: SIAFI. Elaboração: Mansueto Almeida

Se da tabela acima retirarmos a conta dos funcionários aposentados, gastos do órgão com inativo, o orçamento executado do IBGE passa de R$ 1,34 bilhão, em 2009, para R$ 1,23 bilhão, em 2013, uma queda real de 8%. Neste mesmo período, a despesa não financeira do Governo Central cresceu em termos reais R$ 207 bilhões (ver tabela 2 abaixo).

 Gráfico 1 – Execução do Orçamento do IBGE sem aposentados – 2009-2013 – R$ milhões de março de 2014

IBGE_2

 

Tabela 2 – Despesa Não Financeira do Governo Central – 2009-2013 –R$ milhões de março de 2014

Desp Primaria

Em resumo, o que aconteceu no IBGE me pareceu um bom retrato da falta de planejamento. Não do IBGE, mas talvez do Ministério do Planejamento e Casa Civil, que são os órgãos que fazem o planejamento da gestão pública e definem a proposta orçamentária para cada um dos órgãos de acordo com as prioridades estabelecidas pelo governo.

Novamente, de 2009 a 2013, a despesa não financeira do governo central cresceu em termos reais R$ 207 bilhões a valores de março deste ano. Algo como R$ 500 a R$ 600 milhões a mais por ano para o IBGE permitira aumentar a execução orçamentária (sem aposentados) do órgão em 50% !!!! Por que não fizemos isso? porque alguém decidiu que não era prioritário. Simples assim. Não são necessárias teorias conspiratórias.

10 pensamentos sobre “O problema do IBGE: orçamento.

  1. Ah, paremo. 700 mi por ano só com inativos? Que que é isso. daqui uns dias o governo vai ser só pra pagar inativo e previdencia.

    Tenho uma sugestão.. ao final de 2012 saiu amplamente na mídia que o buraco da previdencia do setor publico era 62 bi (para 900 e pocos mil inativos, coisa de mais de 60 mil reais por cabeça de déficit). Em 2013 não ouvi abs nada no notíciario. Consegue ver qto deu o buraco no ano passado?

    È inacreditável gastar tanto com inativos…

  2. Mansueto

    O que ainda não entendi bem nessa história foi o que detonou a rebelião dos técnicos. Parece evidente que havia muita insatisfação entre os técnicos de carreira. E isso aflorou com a suspensão da pesquisa.

    Olhando de longe, fico com a impressão de que a suspensão da pesquisa foi a gota d’água no copo da mão pesada do governo, que é quem nomeia os que vão ocupar os altos cargos de direção no IBGE.

    A impressão que tenho é que a suspensão decidida monocraticamente e no segredo de um petit comité, sem consulta à equipe técnica responsável, foi a gota d’água.

    A decisão monocrática é uma afronta a accountability do IBGE. Foi um golpe que abalou a fé pública do prestigioso instituto que, em última instância, foi uma conquista produzida pelo trabalho de todos os técnicos, desde a criação do IBGE.

    Se foi isso, viva a rebelião dos técnicos!

      • Falando em rebelião quanto a cargos, carreiras e remuneração, mas olhando para uns mais graudos que estes de “altos cargos” no IBGE…
        Alguém saberia me dizer o que são “verbas indenizatórias” que totalizam R$57.603,19 na remuneração da Gleisi Hoffmann de fevereiro ?
        Tenho a mesma dúvida quanto ao caso do Alexandre Padilha…
        Obrigado
        Abs

  3. Bom Mansueto, isso significa que o governo estabelece prioridades? Eu não havia percebido até então. Se o que você pressupõe está correto, porque não vieram a público e explicaram direito? Ficou um debate de hipóteses que dá espaço para tudo, até para teorias conspiratórias. Eu não pensei que fosse teoria conspiratória porque isso exige inteligência, e essa é variável que falta ao Governo Dilma!

  4. Veja bem, se no governo de Fernando Henrique que era um professor o mesmo nunca valorizou o IBGE, o que poderíamos esperar desses dois governos
    Lula e Dilma? Só desvalorizar o único Instituto de credibilidade que através de pesquisas e coletas de dados vem por muito tempo publicando todas ocorrências informativas que serve de parâmetros para o desenvolvimento do nosso país.

  5. Alguém precisa avisar o Ricardo R que os gastos do governo com os inativos, não são despesas geradas por eles e sim retribuição pelo que lhes foi descontado ao longo de suas vidas. É muita falta de innformação alguem pensar que o bondoso governo da aposentadoria de graça para os servidores inativos

  6. Eu não enxerguei nenhuma relação de causa-efeito. De que forma a redução orçamentária causou a suspensão do PNAD? Você não demonstrou.
    Também não cabe argumentar que a direção do IBGE é composta por funcionários de carreira. Esses cargos são de livre nomeação e é muito simples entender que, dentre os diversos funcionários nomeáveis, haverá vários simpatizantes e até militantes do PT. Seria ingênuo supor que, no aparelhamento de todo o Estado, o PT teria poupado justamente o IBGE, que cuida de um assunto politicamente tão sensível.
    Mas o mais importante: como ignorar o famigerado papel representado pela ex-ministra Gleisi Hoffmann no Senado?
    Ela era exatamente a antiga ministra do MPOG (ao qual o IBGE é subordinado), conhecia absolutamente todo o órgão em detalhes, o suficiente para entender a repercussão política potencial dos dados gerados no PNAD.
    Bastou ela sair do ministério para questionar a metodologia do PNAD. Ora, por que ela não fez isso enquanto era ministra e tinha poderes de sobra para isso? Óbvio, porque esse tipo de ingerência geraria constrangimentos e suspeitas, geraria escândalo político (mais um). Mas agora, como representante do legislativo, supostamente ela possuiria isenção para fazer o questionamento e fornecer um motivo fajuto qualquer para suspender o PNAD.
    Não precisa ser gênio para perceber que não se suspende uma política de Estado por um mero questionamento de um parlamentar qualquer. Não percebeu isso? Não precisa ser muito sagaz para enxergar nesse fato a relação de causa-efeito que na sua desculpa do orçamento absolutamente não há.

  7. gil você sabe que eu sou da parte administrativa sinceramente quero ender mais sobre tudo isso que está acontecendo, a parte técnica endendemos menos voc~e poderia simplificar a coisa me explicando só pequenos detalhes pra não te pertubar.

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