Sobre o nosso rebaixamento

Sem entrar no mérito dos erros e acertos das agências de rating e independentemente do que isso significa, o fato é que o cenário hoje descrito pela analista da S&P em entrevista ao jornal folha de São Paulo (ver entrevista da Lisa Schineller) já está no radar de analistas independentes há muito tempo.

Não temos risco de calote, mas estamos presos em um equilíbrio ruim caracterizado por: (i) baixo crescimento (2% ao ano); (ii) taxa de juros básica elevada acima de 10% ao ano, (iii) uma conta de subsídios (equalização de juros) que será transformada em divida em algum momento; (iv) um gasto público que pelas regras atuais continuará crescendo acima do crescimento do PIB, o que implicará em aumento de carga tributária; (v) incertezas em relação ao comportamento do investimento público e em relação à política econômica, inclusive ajuste dos preços da tarifa de energia e do preço dos combustíveis, empréstimos para bancos públicos, etc.

Tudo isso descrito acima vem sendo discutido com certa regularidade e consistência por vários analistas econômicos e repassado também com regularidade para economistas de bancos e consultorias de fora que visitam o Brasil. Isso tudo significa menos dinheiro externo para financiamento de empresas brasileiras e/ou custo mais elevado. Escutei recentemente de um analista de um banco de fora o seguinte: “sim, se vocês continuarem me pagando um juro real elevado acima de 6% vou continuar comprando títulos brasileiros”. Vale lembrar que o governo atual “planejava” trazer a taxa de juros real no seu último ano para 2% – algo que não será possível nem em sonho.

Não há risco de calote do governo brasileiro, mas as empresas terão que arcar com juros mais elevados para se financiarem. Isso afetará nossas grandes empresas que têm acesso ao mercado internacional e que vinham utilizando com frequência este canal de financiamento. O que aconteceu esta semana com o rebaixamento do nosso rating pela S&P vinha sendo construído pela nossa equipe econômica já há algum tempo.

Quando alguém me manda um e-mail perguntando o que eu acho da política econômica, eu explico o que discordo, mas sempre falava que o governo estava passando por um processo de aprendizado e que as coisas iriam melhorar. Deixei de ser otimista quando passei a escutar de economistas próximos ao governo que eles têm dúvidas do “real” aprendizado da equipe econômica. Todo mundo sabem quem são esses economistas.

E o que se escuta dos economistas mais heteredoxos que criticam os “economistas assustados”? (i) que superávit primário não é importante; (ii) que o governo pode financiar qualquer déficit nominal; (iii) que elevar a taxa de juros para combater inflação é burrice; e (iv) que o crescimento mais rápido do PIB decorrente do plano de concessões resolverá todo e qualquer problema fiscal.; (v) e que a taxa de cambio mais desvalorizada levará a mais crescimento. Nada disso a meu ver está correto.

Um vez escutei de um economista famoso a seguinte frase: “é triste ver tantos garotos discutindo sobre superávit primário, quando há tantas coisas mais importantes”. De fato, termos tantos “garotos” discutindo sobre superávit primário mostra como andamos para trás e criamos novamente um problema que já havia sido resolvido. Projeções de superávit primário para que a dívida não cresça era um exercício que ninguém mais fazia e que agora todo mundo voltou a fazer.

“Mas o desemprego está baixo, a nossa pobreza caiu, a queda da desigualdade no Brasil foi uma das maiores do mundo nos últimos doze anos e temos hoje mais da metade da população na classe média?”

sim, mas estamos falando de superávit primário, inflação, divida, carga tributária e crescimento. Não se está discutindo queda da pobreza. Mas se continuarmos no mesmo curso, em algum momento do debate macro pode encontrar esse outro lado até porque, como tenho exaustivamente repetido, não há mais espaço para continuar com a expansão da política social simplesmente aumentando o gasto, a não ser que estejamos dispostos a ter uma carga tributária superior a 40% do PIB em 2018.

9 pensamentos sobre “Sobre o nosso rebaixamento

  1. Mansueto

    “Um vez escutei de um economista famoso a seguinte frase: “é triste ver tantos garotos discutindo sobre superávit primário, quando há tantas coisas mais importantes”. De fato, termos tantos “garotos” discutindo sobre superávit primário mostra como andamos para trás e criamos novamente um problema que já havia sido resolvido.”

    Some-se a isso os recentes episódios dos investimentos US$ bilionários da Petrobrás em refinarias e a crescente importação da gasolina vendida a preço subsidiado, bagunçando o planejamento da empresa e afetando negativamente os investimentos das usinas para produção de etanol. E desastrada intervenção do governo no setor elétrico.

    São essas mazelas (primário, Petrobrás, setor elétrico, etc) que deveriam entristecer o economista famoso que gostaria de estar discutindo coisas que, de fato, são mais importantes. Mas não é a imprensa e muito menos os economistas “velho do rastelo” que nos fazem andar para trás para enfrentar novamente problemas que todos pensávamos superados.

  2. Mansueto, os dois últimos parágrafos de seu texto são o cerne da discussão: o embate entre gastos(investimentos) sociais VERSUS restrição orçamentária.

    O próprio Samuel Pessoa já há algum tempo captou e aceitou que esse é o núcleo da discussão: nada ( ou pouco ) adianta discutir a questão fiscal pelo prisma puramente ortodoxo ( fiscalista). Temos que entender e inserir na discussão as demandas da nova classe média —- que de alguma forma acaba por esbarrar na limitação orçamentária.

    Esse é o nosso dilema: como compatibilizá-los ?? Dado que o aumento do nível de gastos sociais e investimentos é um movimento que inexoravelmente seguirá em frente —- salvo contratempo inesperado.

    “Mas o desemprego está baixo, a nossa pobreza caiu, a queda da desigualdade no Brasil foi uma das maiores do mundo nos últimos doze anos e temos hoje mais da metade da população na classe média?”

    “sim, mas estamos falando de superávit primário, inflação, divida, carga tributária e crescimento. Não se está discutindo queda da pobreza. Mas se continuarmos no mesmo curso, em algum momento do debate macro pode encontrar esse outro lado até porque, como tenho exaustivamente repetido, não há mais espaço para continuar com a expansão da política social simplesmente aumentando o gasto, a não ser que estejamos dispostos a ter uma carga tributária superior a 40% do PIB em 2018.”

    Quanto aos alertas da S&P ( lembra até uma versão light do FMI de outrora, analistas da rating vieram a Brasília escrutinar as contas brasileiras) parecem válidos pois ajudarão o governo e a sociedade como um todo a discutirem, e a encontrarem alternativas para o dilema a que me referi acima.

    A propósito da S&P, talvez alguns não saibam, e é sempre bom lembrar: o Departamento de Justiça Federal americano está processando a S&P por cumplicidade e fraude nas classificações de risco de crédito dadas a papéis (CDOs), em que deram nota máxima ( triple AAA ) para títulos que continham “empacotadas” muitas hipotecas subprime.
    Assim a S&P avalizou a negociação de papéis tóxicos por parte de fundos de pensão, de investimentos, etc….. sendo ator importante da fraude e da crise financeira eclodida, em setembro de 2008 —— que ocasionou prejuízos bilionários aos investidores americanos e de grande parte do mundo.

    Outra da Stantard & Poors: concedeu triple AAA ao Lehman Brothers, um mês antes (agosto) da deblace do próprio BI, e da crise financeira eclodida em setembro de 2008.

    Como se vê, uma aliada da bandalheira de Wall Street.

    Portanto, sua credibilidade esta abaladíssima há algum tempo. Mas de toda forma, suas críticas são válidas para o debate brasileiro. Mas a ressalva tem que ser feita.

    Abraço

  3. Princípio da prudencia é coisa de contador, qualidade, se é que se pode chamar assim, que não pontua no perfil da atual equipe econômica do governo. Além de tecnicamente perfeita ,sua análise reflete o que mais falta para o governo.

  4. O que me deixa particularmente preocupado é a herança de desorganização institucional. O que são instituições fortes? Aquelas que não permitem que personalidades (quando poderosas) destruam as funções primordiais destas instituições. Nesse sentido, são frágeis as instituições brasileiras. Petrobras tenta controlar a inflação e não faz sua função. As Elétricas e a Aneel idem. O Bacen perdeu completamente a mão, inspirado, tal qual Gloria Perez, na Turquia (Saravá! – pro Bacen até dou uma colher de chá, pois está tentando retomar a credibilidade). O STF tem ex-advogado do PT. O Itamaraty apoia ditaduras caloteiras – chegamos ao ridículo de ver ditador deposto usar embaixada como trincheira. O Tesouro cuida da arrecadação, via contabilidade criativa, e o Ministério da Fazenda virou piada internacional (dou colher de chá também pra Receita Federal: essa cumpre muito bem seu papel, embora arrecade de maneira predatória). O BNDES financiou o Eike Batista (sem nenhuma avaliação de crédito séria), que não gerou aquilo que prometeu, mas investiu no terno do Lula, hotel, o Maracanã, UPP, show, restaurante, jogador de futebol, e ainda quis se intrometer nos assuntos da Vale. Bilhões para um sujeito com uma maluquice na cabeça e um power point na mão.
    Para fazer caixa em Cuba – é disso que se trata – e dar alguma satisfação com relação à péssima gestão da saúde, jogamos no lixo as leis trabalhistas. No Brasil, tem médico (cubano, evidentemente) que ganha menos que gari (nada contra os garis, pelo contrário).
    A Dilma chegou ao cúmulo da falta de noção e arrogância que quis dar lição de economia à Alemanha.
    A Presidência da República, por outro lado, é tão covarde que não cumprirá o dever de Chefe de Estado e fazer discurso da abertura da Copa. Mas se o Brasil ganhar, ela vai receber o Neymar em Brasília.

    Acho difícil haver uma mudança nesses rumos sem troca de guarda, honestamente. De toda a forma, ainda estamos em uma democracia, de modo que a alternância existirá, ainda que custe (mais) caro ou esteja mais distante.

    Assim espero, e foi com base nessa última premissa, o funcionamento da democracia, que a S&P manteve nosso grau de investimento.

  5. Me impressiona como tantos mitos são tomados como verdade. A classe média que ganha 1200 reais/mês de renda bruta (ainda é preciso descontar INSS em caso de trabalho formal), o desemprego de 5% que só cobre 6 regiões metropolitanas, enquanto o desemprego de 7,4% da PNAD contínua é mais alto que a média mundial. E ainda a questão da pobreza e a extrema pobreza de 2 dólares/pessoa/dia e 1 dólar/pessoa/dia, que já caia fortemente nos anos 90 com crescimento mais baixo, o que mostra a baixa exigência do indicador.

  6. Após reclamar de rebaixamento, governo divulga deficit em fevereiro
    Por Dinheiro Público & Cia
    27/03/14 15:07

    Depois de reclamar do rebaixamento da nota do Brasil por uma agência de classificação de risco, o governo divulgou um buraco nas contas do Tesouro Nacional em fevereiro.

    No mês passado, os gastos federais com pessoal, programas sociais, custeio administrativo e investimentos superaram em R$ 3,1 bilhões as receitas.

    Isso significa que, em vez de poupar para o abatimento de sua dívida, o Tesouro Nacional precisou tomar dinheiro emprestado para bancar suas despesas cotidianas e as obras públicas.

    É o que se chama, em economês, de deficit primário. O resultado contrasta com a promessa, feita para convencer os investidores de que não haverá descontrole das contas neste ano eleitoral, de poupar -fazer um superavit primário- de R$ 80,8 bilhões até dezembro.

    Na segunda-feira, a agência Standard & Poor’s reduziu a nota da dívida pública brasileira de BBB para BBB-. Em caso de nova queda, emprestar ao governo deixa de ser considerado um investimento seguro.

    Em nota, o Ministério da Fazenda chamou a decisão de “inconsistente” e afirmou que “o país tem gerado um dos maiores superavits primários do mundo nos últimos 15 anos”.

    Verdadeira para o longo período mencionado, a afirmação omite a queda aguda do superavit de 2012 para cá.

    O Tesouro encerrou o primeiro bimestre com superavit de R$ 9,9 bilhões, bem abaixo dos R$ 19,7 bilhões do período correspondente de 2013 -ano encerrado com o menor superavit em 15 anos.

    Os números apontam que o governo Dilma Rousseff mantém os gastos em alta e se apoia em previsões perigosamente otimistas para a arrecadação de impostos.

    Nos dois primeiros meses do ano, as despesas cresceram 15,5% e somaram R$ 158,5 bilhões, enquanto as receitas, de R$ 168,3 bilhões, subiram apenas 7,3%.

    Os tributos sobre os lucros das empresas, casos do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) decepcionaram.

    Os resultados só não foram piores porque o Tesouro extraiu R$ 2,9 bilhões dos lucros das estatais para engordar seu caixa. Manobras do gênero foram citadas pela agência de risco ao explicar a decisão de rebaixar a nota brasileira.

  7. As Agências de notícias estão justificando a alta da Bovespa, e das ações da Petrobrás ( + ou – 8% ), dentre outras, de hoje, devido à queda no índice de aprovação do governo da presidente Dilma de 43% para 36%.

    “O “mercado” teria demonstrado otimismo com uma possível derrota de Dilma nas eleições e consequente mudança de governo”.

    As palavras acima estão nas Agências de notícias, repito.

    Estão especulando e faturando alto, além de se justificar volatividade nos preços das ações com pesquisas eleitorais.

    Além do que —- o mais importante —- a pesquisa CNI/Ibope, que teria justificado tal especulação, foi feita em datas anteriores a outra pesquisa que mostra a candidata Dilma no patamar de 43%, sem alteração significativa em relação à anterior. Assim como os demais candidatos têm variação marginal.

    Ou seja, pesquisas “aparentemente”, contraditórias. Ou talvez não: teríamos a seguinte leitura: mesmo caindo a aprovação de Dilma, a população não reconhece oposição capaz de “fazer melhor”. Até pode ser, mas não patrece crível.

    Como disse recentemente a conservadora economista da PUC-RJ, Monica de Bolle, estão misturando debate e discussão sobre política econômica com partidarismo político.

    E agora, o agravante de “o mercado” e “pesquisas eleitorais” potencializando a ação de especuladores do mercado financeiro.

  8. Parabéns pelo texto Mansueto. É triste estar em um programa de pós-graduação em economia no país e escutar outro economista famoso dizer coisas parecidas com as quais você escutou.

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