Exemplo de um bom artigo

Querem ver um bom exemplo de um artigo bem escrito sobre a relação taxa de câmbio, indústria e crescimento, leiam a coluna de hoje do Samuel Pessôa na Folha de São Paulo. Ao contrário dos economistas “excepcionais” que têm a resposta definitiva sobre a relação desvalorização da taxa de câmbio e crescimento, Samuel mostra que os resultados não são muito robustos.

Há de fato evidência de que câmbio valorizado correlaciona-se negativamente o crescimento, mas não há evidência robusta que câmbio mais desvalorizado esteja correlacionado com maior crescimento.

Já no caso de educação e inovação, há evidência que são atividades de elevado retorno social maior que o retorno individual e, assim, passíveis de subsídios. O problema surge quando alguém quer definir que determinadas atividades são superiores a outras, por exemplo, que exportar minério de ferro é ruim e exportar Iphone é bom e/ou que agricultura é uma atividade menos nobre que a indústria.

Leiam a coluna do Samuel Pessôa aqui.

 

8 pensamentos sobre “Exemplo de um bom artigo

  1. Samuel escreve bem e vai direto ao que interessa com concisão e clareza. Numa frase, ele conseguiu explicar para o leitor comum a confusão que se faz entre correlação e causalidade.

    Sabemos que a correlação entre câncer e tabaco implica necessariamente em causalidade porque isso já está fartamente fundamento nos elementos empíricos e lógicos da pesquisa científica. O mesmo parece não valer para correlação câmbio e crescimento, conforme texto do FMI citado por Samuel. Nas palavras de Samuel:

    “Em síntese, é possível que haja correlação positiva entre desvalorização do câmbio e crescimento econômico, mas esse resultado não é robusto. Adicionalmente, se de fato houver tal correlação, nada garante que exista causalidade do câmbio no crescimento.”

    E depois dessa simples mas necessária lição, Samuel propõem o exame de uma terceira variável, “a capacidade de poupança”, que altera “simultaneamente tanto o câmbio quanto o crescimento”, Ou seja, a análise do fenômeno deve considerar o elemento empírico “capacidade de poupança”, posto que esta é o “verdadeiro canal causal”.

    Mas a “prova do pudim” (que é comer o pudim) ficou para o próximo artigo, no qual, eu acho, ele vai retomar o que procurou explicar naquele Globo News com Belluzzo e Giannetti.

    De fato, excelente artigo

  2. Quando o Samuel Pessoal anunciou que iria escrever argumentos evidenciando que a manufatura não é importante para o processo de desenvolvimento econômico eu fiquei ansioso para ler esses argumentos. Pensei: finalmente um debate interessante! Ele deve criticar a idéia dos encadeamentos intersetoriais superiores da indústria, bem como seu protagonismo de geradora e difusora de inovações, entre outros. E de fato, se bem costurados dá para criticar esses pontos e apresentar uma visão robusta de que o setor de serviços (alguns segmentos) são dinâmicos também. Mas o Samuel não disse nada de novo e choveu no molhado. Falou que todos os setores são iguais (referencial clássico) e mais do mesmo….Além da inovação e P&D, faltou falar que a infra-estrutura também é relevante…Acho que o Samuel falhou na sua intenção.

    • A parte que trata da correlação entre câmbio e crescimento realmente está bem escrita, mas a parte que vem antes tem argumentos bastante questionáveis… Vale um exame minucioso:

      A: “Não há evidência de que a indústria de transformação seja especial sob algum critério. Isto é, não há evidência de que o retorno social da atividade industrial seja maior que o da agricultura, o da pecuária, o da indústria extrativa mineral ou o das diversas atividades do setor de serviços.”

      Só aí já dava um artigo. O autor introduz uma premissa altamente controversa sem nenhuma preocupação em prová-la. Dizer “não há evidência” é uma desonestidade com o amplo debate sobre o tema. Da forma como o argumento está colocado, não é mais que mera opinião pessoal, que o autor tenta empurrar ao leitor comum por ser autoridade no assunto.

      B: “Todas as atividades têm seu valor econômico definido pelo seu impacto no produto total. Desse ponto de vista, todas as atividades são igualmente importantes e seu impacto para o crescimento econômico é corretamente medido pelo seu impacto no produto.”

      Esse trecho é especialmente complicado. Primeiro, o autor toma o crescimento econômico como sinônimo de retorno social, como se essa fosse a única variável relevante. Ok, no modelo clássico, retorno social é isso mesmo, mas é bom lembrar que ele está escrevendo para o público amplo. Segundo, o autor conclui que “todas as atividades são igualmente importantes” porque todas as atividades podem impactar o crescimento econômico. Novamente, como se o decisivo para a importância de uma atividade fosse somente o crescimento econômico que ela gera. Externalidades, apropriação do excedente, geração de empregos, nada disso importa…

      C: “Com exceção de algumas poucas atividades, em que há claramente falhas de mercado que justifiquem tratamento especial, a política econômica deveria tratar os diversos setores da atividade produtiva de maneira simétrica.”

      Sim, porque a política econômica tem como único objetivo promover o crescimento econômico. Só que não…

      D: “As exceções mencionadas no parágrafo anterior referem-se à atividade de inovação tecnológica e ao investimento educacional. No primeiro caso, o ganho privado de inovar é claramente inferior ao ganho para a sociedade. A criação de um novo produto ou processo ou a adaptação de produtos e processos desenvolvidos alhures —quando bem-sucedidas— geram a possibilidade de muitos outros participantes entrarem nesses mercados. Quando malsucedida, o custo será incorrido somente pelo inovador.
      Com relação ao investimento educacional, os maiores salários futuros, fruto da melhora educacional, não são um bom colateral para o crédito educacional. Faz sentido o subsídio público.”

      Ok, mas a inovação e os empregos de alta especialidade estão distribuídos de maneira simétrica entre todos os setores? Não. Então estimular a inovação e os empregos de alta qualidade é por si só uma política setorial…

      E: “Mesmo não havendo, como já mencionado, evidência da natureza especial da indústria de transformação, há inúmeros analistas que pensam diferentemente. E, portanto, acreditam haver forte relação causal entre indústria e crescimento econômico.”

      Novamente, a prova que o autor usa para demonstrar que não há evidências da natureza especial da indústria de transformação é a sua própria afirmação de que não há evidências. Trata-se de uma petição de princípio.

      A partir daí ele corrige o rumo tratando da correlação câmbio x crescimento, mas a rigor, não há prova de que a indústria de transformação não deva ser incentivada.

      • Diogo

        Você escreveu:

        “Dizer “não há evidência” é uma desonestidade com o amplo debate sobre o tema”

        Por ora, vamos ficar apenas nos artigos da FSP e sem relevar que Samuel tem trabalho de pesquisa sobre o assunto. Assim, antes de acusar desonestidade intelectual é preciso ir aos fatos completos, ou seja, examinar os artigos de Samuel sobre o assunto e publicados no jornal.

        Nesses artigos, Samuel questiona sim certos axiomas ainda bastante influentes. O principal (acho), cuja matriz latino-americana é a Cepal, é que a especialização das economias na produção de bens primários nos condenaria à pobreza. Não são poucos os economistas que até hoje estão convencidos pelos argumentos cepalinos (vide Celso Furtado, os sociólogos da teoria da dependência e/ou do capitalismo tardio, economistas da UNICAMP e UFRJ, entre outros). Para estes, “a indústria de transformação tem papel de liderança no processo de desenvolvimento”. (ver: Samuel, Indústria e Câmbio, FSP, 09/03/2014).

        Você escreveu:

        “não há prova de que a indústria de transformação não deva ser incentivada”. Posto dessa maneira o debate fica manco.

        A pergunta de Samuel no artigo é: mesmo que aceitemos como verdadeiro o axioma do protagonismo da indústria de transformação no processo de desenvolvimento, deve a indústria ser protegida por uma política de desvalorização cambial? A resposta de é não.

        E pergunto a você: concordas ou não que a indústria deve ser protegida por uma política de desvalorização cambial?

        A questão da indústria de transformação como algo “especial sob algum critério” é marginal neste artigo. O foco do artigo é a crítica de um elemento do axioma desenvolvimentista:

        Câmbio desvalorizado como causa de crescimento da indústria e, portanto, de aumento do nível de bem-estar geral da população.

        O que está sendo questionado no artigo é exatamente essa relação da causalidade e, consequentemente, se essa política de proteger a indústria, via política cambial, é causa de bem-estar social geral ou causa de bem-estar social particular (restrito).

        Em “Câmbio e crescimento” (FSP, 02/03/2014) Samuel escreveu o que pensa, ou seja, não escondeu que:

        “Meu posicionamento é que não há relação direta entre câmbio e crescimento. Dessa forma, a taxa de câmbio não deveria ser variável de política econômica, com função de auxiliar a economia a crescer.” […]

        “O debate da relação entre câmbio e crescimento ocorre nesses campos. De um lado, a associação do estruturalismo latino-americano com uma particular leitura das contribuições de Keynes; do outro, a leitura liberal do desenvolvimento econômico de Adam Smith, atualizada pelo novo institucionalismo do Prêmio Nobel Douglas North, associada a certo ceticismo ao ativismo macroeconômico”

        Nos artigos está claro quais são os interlocutores de Samuel. Num campo, os autoproclamados neodesenvolvimentistas, herdeiros e divulgadores das ideias estruturalistas e de uma particular leitura de Keynes. Noutro campo, os ditos neoclássicos, na vertente do novo institucionalismo e céticos quanto ao ativismo macroeconomico dos neodesenvolvimentistas. (ver: Indústria e Câmbio, FSP, 09/03/2014). Até onde sei, parece que Samuel tem mais afinidade com os economistas do novo institucionalismo.

        Enfim, o artigo em questão tem como alvo a exposição, num curto espaço de jornal, do estado da arte desse debate de matiz cepalina. Exposição feita, o autor indica para o leitor que além desse conhecido e controverso debate há um outro, o qual ele avisa que vai apresentar no próximo artigo: “é possível que uma terceira variável, a capacidade de poupança do país, altere simultaneamente tanto o câmbio quanto o crescimento”.

        Vamos aguardar, portanto.

    • Anônimo

      Este é um artigo (e não um acadêmico paper para discussão) de uma série que Samuel vem publicando.

      Não conheço a literatura econômica que examina a correlação capacidade de poupança/câmbio e crescimento. Por outro lado, o artigo indica que há uma grande quantidade de economistas pensando a correlação desvalorização/crescimento (texto do FMI citado)

      Eu pergunto se há um debate entre economistas nesse caminho da capacidade de poupança .Que eu saiba, é somente Samuel que está indo por aí. Quem mais está pensando a correlação capacidade de poupança/câmbio e crescimento no Brasil? Os economistas do blog poderiam responder minha pergunta?

  3. mmmm…. o Samuel diz : a manufatura não é o mais importante para o processo de desenvolvimento e crescimento e que todos os setores devem ter o mesmo peso…..mais pra frente diz : inovação e educação é imprescindivel para o desenvolvimento…..mmmmm…..achei um pouco incoerente isso , senão vejamos….inovação e educação refletem em ganhos de produtividade,,,,mas os ganhos de produtividade são sentido de forma muito mais intensas na industria do que nos serviços….muitas vezes o setor de serviços chegam ao seu extremo no ganhos de produtividade….portanto discordo com ele neste ponto….industria é um dos mais importantes setores sim…..gostaria da opiniao do mestre Mansuetto…abraço a todos.

  4. Mansueto, não sei se vc chegou a ver, mas o relatório do Fundo Verde, de fevereiro, resume tão bem uma série de questões que vale a pena ser lido.

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