O problema de Cuba são os EUA? Não, são os ditadores de Cuba.

O artigo do eminente físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite na Folha de São Paulo desta terça feira de carnaval (clique aqui) é para mim um tanto quanto esquisito. Em sua defesa do programa Mais Médicos e da questão dos médicos de Cuba, o professor da Unicamp faz, na minha opinião pessoal, três grandes erros.

Primeiro, tentar culpar os EUA e as sanções econômicas deste país contra Cuba como o culpado da “extrema pobreza daquele povo”. O que os EUA fez pode sim ser criticado, mas daí dizer que isso explica “a pobreza daquele povo” é a mesma coisa que tentar dizer o mesmo para a Coreia do Norte. Cuba é um país pobre por causa de um modelo econômico de uma ditadura de esquerda.

A propósito, existe no mundo algum país rico que seja governado por uma ditadura de esquerda? A china? mas a China é muito mais  aberta para investimentos estrangeiros e abraçou práticas de uma economia capitalista desde o final da década de 1970. Por que Cuba não fez o mesmo? Assim, o culpado da pobreza de Cuba são os seus dirigentes. Mas é impressionante muita gente em pleno século XXI ainda achar um regime ditatorial algo normal.

Segundo, o eminente físico defende o contrato dos médicos cubanos com o duplo propósito de (1) reduzir a miséria das famílias dos participantes do programa Mais Médicos, (2) garantir a sobrevivência de centenas de milhares de indivíduos daquele país. Aqui tem outro grande erro. Achar que redução de pobreza em um país é questão de bondade dos outros.

Os livros do William Easterly (professor da NYU),  o livro Why Nations Fail, 2012 do Acemoglu e Robinson, e o mais recente do Angus Deaton da universidade de Princenton (The Great Escape: Health, Wealth, and the Origins of Inequality, 2013) mostram de forma um tanto quanto clara que redução de pobreza depende do funcionamento de instituições domésticas e da boa governança que, infelizmente, não pode ser importada.

A melhor forma de Cuba reduzir a sua miséria é permitir o empreendedorismo dos seus habitantes, permitir eleições livres e democráticas, atrair investimento estrangeiro e tributar esses investimentos para continuar investindo em saúde e educação. A mudança pode ser gradual, mas no caso da ilha há um gradualismo exagerado.

Terceiro, me causou espanto quanto o físico escreveu que: “Se meia dúzia de médicos cubanos oportunistas se valeu desse subterfúgio para se refastelar nas praias da rica Miami, às custas de um programa ignóbil da potência americana, não deveríamos enaltecê-la, mas deplorá-la, pois apenas 1 em 1.000 traiu o seu compromisso com o Brasil e com o seu povo.

O que me causa espanto aqui, dado que estamos falando de um cientista do conselho editorial da Folha de São Paulo, é chamar de “oportunista” decisões de indivíduos que têm o direito legítimo de desejar liberdade de escolha e o que fazer de sua vida. É uma versão até mais radical do Brasil dos anos 70: “Cuba, ame ou não ame e não deixe”.

Qual o problema de uma pessoa querer morar nas praias ricas de Miami, do Rio ou da França? Absolutamente nenhum. Parece que o eminente físico não sabe que as pessoas que tentam a sorte em Miami vão trabalhar duramente e não “refastelar” (acomodar-se, recostar-se, etc.) nas praias ricas.

Por que resolvi comentar este artigo aqui? Por duas coisas. Primeiro, devido ao currículo de quem o escreveu. Não esperava ver um professor emérito de física da Unicamp escrever tamanho absurdo. Segundo, porque mesmo os físicos mais brilhantes cometem erros grandes quando se trata de desenvolvimento econômico, como este aqui:

“I am convinced there is only one way to eliminate (the) grave ills (of capitalism), namely through the establishment of a socialist economy….A planned economy, which adjusts production to the needs of the community, would distribute the work…and guarantee a livelihood to every man, woman and child. (Albert Eistein, Why Socialism?)

No entanto, há uma grande diferença. Albert Einstein escreveu isso em 1949, quando ainda se podia aceitar ou questionar se o socialismo daria certo. Mas em pleno século XXI e depois da queda do muro de Berlim e com toda a evidência história e científica da riqueza das nações ou por que as nações fracassam é difícil aceitar que o problema de Cuba seja os EUA ou que o tipo de contratação dos médicos cubanos seja uma ajuda humanitária. E o mais impressionante é que este tipo de argumentação venha de um Doutor em física formado na prestigiosa Universidade de Sorbonne em Paris. Tenho certeza que outros doutores formados por Sorbonee pensam diferente.

28 pensamentos sobre “O problema de Cuba são os EUA? Não, são os ditadores de Cuba.

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  2. Mansueto,
    É um pouco de exagero chamar Sorbonne de prestigiosa.
    Eu também não omitiria o qualificativo “militar” após cada menção à ditadura cubana.
    Mais, a visão do físico que condena pessoas por emigrar é feudal.

  3. Mansueto

    Profª Maria Sylvia de Carvalho Franco tem uma frase ótima e que explica manifestações como esta do Cerqueira Leite: “a ideologia emburrece”

  4. Há um livro que vale a pena ser lido todas as vezes que alguém sobe em tamanco alheio, quer dizer, sai de sua área de competência e passa para outra onde não é competente: “Todo mundo é incompetente inclusive você: As leis da incompetência” , por Laurence J. Peter / Raymond Hull – Editora: Livraria José Olympio, 1970.

    O fato do grande Rogério Cezar de Cerqueira Leite foi, a seu tempo, um físico primoroso. Mas isso em hipótese alguma o qualifica para fazer café ou trocar a tomada. Tal o Zé, meu funcionário, que mal assina o nome na CTPS mas exímio azulejista e hábil na arte de ajustar o café com a quantidade de açúcar.

    O leitor será convencido politicamente pelo artigo publicado na Folha, porquanto escrito pelo físico Cerqueira Leite, por mais incompetente e absurda a análise da questão cubana feita por ele, que de física não tem absolutamente nada.

    Se alguém desejar se inteirar mais um pouco sobre a portentosa ignorância desse físico, leia o artigo de Reinaldo Azevedo, quando o cientista se meteu a falar abobrinhas, lá, na área do Direito. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/as-tolices-cerqueira-leite-nos-emirados-saderes/

    Como vivemos em um país onde reina o famoso argumento da autoridade, ele passará por sábio e entendido tanto quanto eu por gênio em física quântica!

  5. A esquerda é prodigiosa em culpar os outros pelos seus erros e os EUA são seu principal espantalho! A propósito, tem um paisinho, miserável até pouco tempo, sem qualquer recurso natural, que se agarrou no liberalismo e, hoje, tem renda 40% superior à sua metrópole, Hong Kong. Convém estudar o que ocorreu alí!

  6. Muito oportuno, Mansueto
    Essas informações, que não são levadas ao grande público imbecilizado, deveriam constar nas cartilhas das escolas públicas em lugar das aulas de homoafetividade forçada e luta de classes.
    Parabéns

  7. O físico escreveu:

    “(…)
    Quando um país é ameaçado, o seu governo atribui a um grupo de cidadãos, voluntária ou compulsoriamente, a missão de defendê-lo. Essa é uma prática universal.

    Com frequência, os salários desses soldados são insignificantes. Não obstante, se qualquer um se recusar a servir seu país, será considerado um criminoso.
    (…)”

    Nossa. Então se as altas autoridades planaltianas decidirem que a solução para os graves problemas da economia brasileira é exigir o serviço compulsório de uma categoria econômica para ser vendido ao exterior em troca de divisas, está tudo certo.

    O socialismo do século XXI não deu em nada, mas o físico já encontrou a justificativa para o escravagismo do século XXI.
    Os escravos estão apenas defendendo compulsoriamente a pátria que os vendeu.

    Que medo dessa gente.

  8. Só um complemento. Não existe nenhum país rico sob ditadura, seja de esquerda ou de direita. Como o próprio autor afirmou, é ridículo aceitar um sistema ditatorial em pleno ano de 2014.

  9. Bom texto, Mansueto! Antes de 1959, os EUA eram um dos principais problemas cubanos, tendo em vista que cerca de 80% da exportação de açúcar do país tinha como destino os EUA. O “imperialismo” econômico americano era, nesse sentido, um dos principais problemas do país, aliado à ditadura de Batista. Depois de 1959, não surpreendentemente, o problema americano continua a ser fundamental para a compreensão do problemas cubanos. O rompimento de relações diplomáticas e o bloqueio passaram a ser os problemas. Enfim, ter relações era um problema, não as ter também se constituiu um problema grave. Parece-me que há, como você bem lembrou, uma dificuldade em reconhecer que os problemas do desenvolvimento podem estar no próprio país e em suas instituições. Sem dúvida, condicionalidades externas explicam parte da equação, mas não podem dominar (e camuflar) fatores reais.

    Aliás, apenas para relembrar a história, o governo americano impediu, em 1958, a venda de armas para o regime de Batista. Isso, sem dúvida, favoreceu a ascensão da revolução cubana.

    Não li o livro do Deaton, mas já está em minha lista de leitura!

    Um abraço,

  10. Um sujeito que viveu a utopia comunista na década de 60, que repudiou a ditadura no Brasil, pode ter cristalizado a sua maneira de ver o mundo de tal forma que não consiga ver a realidade?
    Acho que não! Muito do que é escrito apenas explicita a grande máquina de propaganda de esquerda governista, com benefícios a quem se posiciona a favor da ignorância e do populismo proto-comunista.

  11. Menos, menos, …. a infinita lista de bobagens e erros dos governos cubanos pós-batista não isentam equívocos iguais ou piores dos vizinhos do norte. Cuba poderá ser no futuro um hub comercial para toda a América Central. Alguns think tanks norte-americanos já perceberam isso há anos, basta procurar 5 minutos no Google. Cuba merece um debate menos ideológico, à esquerda e à direita, certo?

    • Sim poderá ser um grande hub comercial desde que se abra para o comércio e investimento estrangeiro. E poderá até ser uma grande país se abraçar a democracia. Não dá para defender ditadura militar seja na China seja em Cuba.

      Enquanto o destino de um país estiver sendo determinado pela cabeça de uns poucos, acho difícil confiar em crescimento. Se não quiser ter eleições Cuba poderia pelo menos tentar imitar a China. No entanto, sou cético que uma ditadura militar traga desenvolvimento, seja de esquerda ou de direita. Pode trazer surtos de crescimento, mas não desenvolvimento.

  12. Mansueto, o sujeito que você criticou me pareceu muito o também físico Dr. Robert Stadler do livro A Revolta de Atlas de Ayn Rand. Se ainda não o leu recomendo fortemente.

  13. mansueto

    e se cuba tivesse sido capitalista desde de sempre, nao teriamos aqui uma outra honduras, uma outra guatemala, me parece que existem capitalismos e capitalismos, e te pergunto vc prefere morar na cuba comunista ou na honduras capitalista ?

    • Deixa eu ver se eu entendi? a razão para uma ditadura é que poderíamos ter um sistema capitalista muito pior, apesar de democrático? Meu tio General reformado do exército vive me falando a mesma coisa. Na verdade, eu preferia morar na Alemanha ou Finlândia. Quando se fala em bem estar social, a esquerda deveria olhar mais para os países escandinavos ou países como Alemanha e Inglaterra e menos para Cuba.

      Quando se olha a evidência empírica, mesmo do século XIX, países capitalistas como Alemanha, Bélgica, França, EUA, Inglaterra tiveram forte crescimento da renda média e da urbanização. Não é à toa que as experiências de socialismo ocorreram em países capitalistas atrasados e não nos mais prósperos.

      Assim, Honduras e Cuba para mim são dois casos ruins, mas pelo menos Honduras tem eleição, algo que não existe em Cuba que é uma ditadura militar. Você quer que o Brasil volte a ter uma ditadura militar e alguns poucos iluminados decidam por nós eleitores o que o país deve fazer? Esse é o modelo Cubano. Da mesma forma que não defendo Cuba também não defendo China e nem a Rússia, que é uma plutocracia.

      • Conheci um cara saudável que morreu atropelado, então fumar crack não é tão ruim como falam. É isso?
        E o Pinochet? Sob sua ótica, ele deveria entrar para história como um excelente governante? Um cara admirável? Um exemplo para o Brasil?
        Você está errado: Pinochet foi ruim, Castro é muito pior e crack deve ser evitado.

    • Na pior das hipóteses, sem Castro, Cuba seria um Chile. Pois antes de Castro, Cuba era um dos países mais ricos da America Latina. Tanto que os cubanos exilados – alguns milhões deles – estão entre as minorias mais bem sucedidas nos EUA.

  14. mansueto nao quis dizer isto, nao estou concordando com o modelo e a ditadura cubana, um trilhao de vezes prefiro o capitalismo (quando funciona),apenas estava analisando (superficialmente) o cenario politico e historico de desenvolvimento destes paises capitastas da america central, a coisa e tao ruim (em se tratando de america central), que ate cuba e melhor, o que e uma grande piada, estava pensando que o capitalismo quando nao bem conduzido e pior que o comunismo de cuba, pelo menos na america central, logico que uma democracia sempre tem chance de se corrigir, mas isto nao parece que ocorre na america central, o idh destes paises sao baixissimos,

    • Ah, entendo o seu ponto agora. Sim, tens toda razão e o mais frustrante é que não sabemos como “consertar” isso pois não sabemos como criar boas instituições.

      Por isso que a população de muitos desses países da América Central e África, capitalistas, ainda vão sofrer muito. Abs, Mansueto

  15. O que poderia ser interessante, mas, na realidade, não o é, é que sempre são exigidas mudanças dos e nos EUA e nunca de e em Cuba. Ninguém defende mais com tanta ênfase o boicote dos EUA, com o fim da bipolaridade ideológica. Os EUA deveriam, sim, abrir sua economia para produtos cubanos. De uma forma ou outra, tais produts já podem estar por lá, por algumas vias mais do que variadas. Mas, o regime cubano deveria mostrar que manter a mesma política de deixar a população à margem, sob o argumento de defender “as conquistas da revolução”, já passou das raias do absurdo. E por que dessas birras com médicos cubanos que vindos ao Brasil, preferem mudar-se para para terceiros países? Isso não seria uma mostra de que a “revolução” falhou como provedora e o povo, do mais simples ao médico formado, deseja mais do que lhe é ofertado? E por que o Brasil foi buscar mais médicos em Cuba e não na melhoria do SUS, nos salários e na formação dos medicos brasileiros? Ah, mas os brasileiros não querem ir aos cafundós? Por que será, então, que os cubanos teriam de aceitar enfiar-se Brasil adentro, sem falar a língua, recebendo o que a “revolução” paga e sofrer riscos com erros graves que possam ser cometidos por falta de condições locais da sanemanto básico e de transporte dentre outras. É um erro ideologizar uma questão que não tem nada de idelogia, mas de competências. Ou será que os médicos do SUS que atendem no interior do Brasil são todos revolucionários do Brasil do Brics, do Brasil Emergente, do Brasil com economia equivalente à do Reino Unido e outras balelas que tais? Brincadeira, não?

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