A política equivocada do reajuste dos preços dos combustíveis

O jornal o Estado de São Paulo do último domingo (O fracasso da Petrobras – clique aqui) e segunda-feira (As carências da Petrobras – clique aqui) de carnaval escreveu editoriais sobre os problemas da Petrobras. Não é preciso muito esforço para entender o problema.

A explicação nacionalista é que o petróleo é nosso e que podemos cobrar um preço baixo porque “deveríamos ser, mas ainda não somos” auto-suficientes. O Brasil não precisa se preocupar com o aumento do consumo de gasolina nem com o seu preço porque temos muito petróleo (ainda embaixo da terra, mas temos).

A explicação real é muito menos glamorosa. A Presidente da República tem utilizado o não reajuste dos preços dos combustíveis para controlar a inflação e isso afeta negativamente a geração de caixa e rentabilidade da empresa. Isso deveria uma medida temporária, mas com o tempo e com a inflação elevada ficou cada vez mais difícil reverter o “congelamento temporário dos combustíveis”.

Quais são os resultados dessa política de congelamento dos combustíveis? Vários. Primeiro, o governo acaba subsidiando o transporte individual privado, principalmente daqueles consumidores com carros grandes que gastam muita gasolina, em detrimento do transporte público.

Segundo, a política de congelamento dos combustíveis causa vultosos prejuízos na área de distribuição da Petrobras, o que significa que a empresa tem uma menor geração de caixa e, assim, necessita aumentar o seu endividamento para continuar com o seu plano de investimento, inclusive, os necessários para extrair o petróleo do pré-sal.

Terceiro, embora o governo vá sempre negar que faça isso, é fato que até 2006, a Petrobras não pegava quase nenhum empréstimo com bancos públicos – os dados estão disponíveis nos balanços da Petrobras. Mas desde então os bancos públicos passaram a ser utilizados como forma de compensar com crédito barato (crédito subsidiado à custa de nós todos) a política de contenção planejada no preço dos combustíveis.

 Endividamento da Petrobras junto a bancos públicos – 2006-2013 – R$ bilhões

Petrobras

Fonte: Petrobras. * 2013 posição de setembro.

Como os bancos público não têm dinheiro suficiente, o governo “faz a bondade” de aumentar a sua dívida para emprestar para bancos públicos que, entre outras coisas, emprestar recursos baratinhos para a Petrobras. Mas mesmo essa política de estudante de primeiro semestre de economia tem seus limites porque o endividamento da empresa passou a ser excessivo.

Qual será o resultado disso tudo? Por algum temo o governo vai continuar empurrando o problema com a barriga, pois não se arriscará a perder popularidade com aumento substancial no preço dos combustíveis em um ano eleitoral. Mas deve vir ajuste na política de preços do combustíveis depois das eleições, caso contrário, a Petrobras seguirá com problemas de caixa e o governo terá que convencer à sociedade da necessidade de mais uma capitalização na empresa ou a Petrobras continuará vendendo seus ativos.

A política de contenção do reajuste do preço dos combustíveis foi um dos grandes erros de política econômica do governo atual. Se o objetivo foi promover o transporte individual e garantir gasolina barata, a política foi um sucesso. Mas o efeito colateral disso foi o grande prejuízo que essa política causou para a Petrobras, para o investimento da empresa e, logo, para a economia brasileira. De quem foi a culpa? É preciso dizer o nome? A culpa é de quem nomeia a diretoria da Petrobras, o seu presidente e também o presidente do Conselho de Administração da empresa. Aqui vai uma dica. Não é o presidente dos EUA.

12 pensamentos sobre “A política equivocada do reajuste dos preços dos combustíveis

  1. “Primeiro, o governo acaba subsidiando o transporte individual privado, principalmente daqueles consumidores com carros grandes que gastam muita gasolina, em detrimento do transporte público.”

    Há uma explicação hedônica possível:

    “Graça Foster diz que “acha lindo engarrafamento” e descarta aumento de combustíveis” -> na FSP de 14/4/13

  2. Oi Mansueto,

    Gostei da análise, e achei especialmente interessante o dado nº 3 (empréstimos junto a bancos públicos).

    Só gostaria de tirar uma dúvida em relação ao ponto 1: considerando que o transporte público brasileiro consiste basicamente em ônibus, e não em metrô, podemos mesmo dizer que o congelamento do preço dos combustíveis é tão marcadamente um subsídio ao transporte individual em detrimento do público? Para mim, o congelamento subsidia o transporte individual (dã), o transporte público de ônibus (via redução de custos, com impacto na tarifa) mas, aí sim, prejudica especificamente alguns tipos de transporte público como o metrô (via falta de investimento).

  3. Alem disso tudo, não podemos esquecer que a competitividade do álcool foi afetada. Juntamente com outros fatores fez que boa parte das usinas de açúcar e alcool encerrase o ano com péssimos resultados, levando junto seus grandes fornecedores e industrias de base. Quem vive no interior de sp como eu sabe o que isso representou.

  4. Meu caro Mansueto,
    Não é só a política de combustíveis, ou especificamente a política de preços de combustíveis aplicada pela Petrobras — uma monopolista de fato, para o governo do PT de “direito” – que está errada, mas é toda a política energética do governo, em toda a matriz de energia do Brasil, que tem erros clamarosos, equívocos inacreditáveis, desde o início dos governos lulo-petistas, dos quais a administração atual é um triste prolongamento ainda mais equivoca, submisso e incompetente, e lembre-se que o setor, os vários setores da matriz energética, aliás, estiveram sempre sob os cuidados incompetentes daquela que é considerada a gerentona, a mãe disso e daquilo, seja como, inicialmente, ministra das Minas e Energia, seja depois na Casa Civil, seja agora na última, ou primeira, instância de poder, com o preposto da área que evidentemente não manda nada e apenas manifesta sua ignorância completa do setor.
    Mas, para ficar apenas no terreno dos combustíveis, não é só a política de preços para derivados do petróleo que está profundamente equivocada. As políticas para o etanol e para o biodiesel também estão completamente erradas, e isso desde o começo para o biodiesel, clamorosamente submetido a políticas alopradas (estou sendo generoso), e a partir de certo momento para o etanol, quando justamente ele foi vítima da decisão esquizofrênica de congelar os preços na bomba.
    Nunca antes neste país pessoas tão incompetentes, tão irresponsáveis e (do lado da Petrobras) tão submissas estiveram no comando de nossa política energética e especificamente de combustíveis.
    O mal que essas pessoas fizeram ao Brasil, à economia energética, à Petrobras (aqui com prejuízos certos para os seus acionistas, mas para o setor de combustíveis, como um todo, também) é incomensurável, pois além das perdas contábeis micro e macroeconômicas, existem os custos de oportunidade que nunca poderão ser medidos adequadamente, devido aos diferentes mixes de insumos que podem ser adotados para a matriz energética.
    Deixo de mencionar os crimes cometidos contra o balanço de pagamentos, especificamente na balança comercial, ao ser o Brasil convertido em importador de crus, de derivados e de etanol, justamente dos EUA, quando anos atrás pensávamos processar os EUA na OMC pela política discriminatória e ilegal de subsídio ao álcool de milho. Hoje estamos importando milhões de galões de álcool subsidiado dos EUA, numa triste ironia, inteiramente devida à incompetência dos dirigentes.
    O mal que foi feito, volto a afirmar, é irreparável, e vai demorar anos — e muitos bilhões — para ser corrigido.
    Paulo Roberto de Almeida

    • Paulo, o pior disso tudo é: aonde está a oposição pra bater forte nesse governo?

      É tanto erro, tanto desmando, tanta idiotice, tanta incompetência e tanta subserviência aos caprichos da comandante que até eu mesmo, em programa televisivo, seria capaz de humilhar esta mulher em rede nacional.

      Aonde está a oposição pra bater nela? Só posso concluir que eles não querem assumir a bomba agora, deixando pra 2018.

  5. Mansueto, a gente viu a dívida liquida da petrobrás aumentar quase 50% no último ano. Atualmente 220 bi, e pelo visto vai continuar a subir… A pergunta é, não corre o risco de em algum determinado momento, no futuro próximo, o custo anual de manter tal dívida (juros sobre ela) ultrapassar a própria capacidade da empresa de gerar lucro pra pagá-la?

    • A situação não é de todo ruin porque pelo menos o subsidio da gasolina tira da PBR dia capacidade de investir no pré-sal (que, aliás, não existe).

  6. Mansueto,

    “A política de contenção do reajuste do preço dos combustíveis foi um dos grandes erros de política econômica do governo atual”

    Há alguma coisa na política econômica do governo que não tenha sido um erro?

  7. CertíssImo, a Petrobras é mais efetiva no combate à inflação que o BC.
    O efeito psicológico do aumento de preços de combustíveis é inflação na veia.

    A Petrobras não pode reajustar seus preços ao sabor dos preços de mercado. O mercado não é livre. Ela detém um monopólio. Os acionistas sabem disso.

    O dia que um liberal defender regras de mercado e o fim do monopólio ao mesmo tempo darei ouvidos a este tipo de crítica.

  8. Nesse período a necessidade de financiamento da empresa aumentou muito (obiviamente, que a política de preços ajudou e mt!), mas pra comprar a ideia que o gov tá ajudando a compensar com empréstimo de Bcos públicos tb teríamos q avaliar se a participação desses Bcos no endividamento da Cia tb cresceu muito.
    abçs e parabéns pelo blog.

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