Sobre o nosso rebaixamento

Sem entrar no mérito dos erros e acertos das agências de rating e independentemente do que isso significa, o fato é que o cenário hoje descrito pela analista da S&P em entrevista ao jornal folha de São Paulo (ver entrevista da Lisa Schineller) já está no radar de analistas independentes há muito tempo.

Não temos risco de calote, mas estamos presos em um equilíbrio ruim caracterizado por: (i) baixo crescimento (2% ao ano); (ii) taxa de juros básica elevada acima de 10% ao ano, (iii) uma conta de subsídios (equalização de juros) que será transformada em divida em algum momento; (iv) um gasto público que pelas regras atuais continuará crescendo acima do crescimento do PIB, o que implicará em aumento de carga tributária; (v) incertezas em relação ao comportamento do investimento público e em relação à política econômica, inclusive ajuste dos preços da tarifa de energia e do preço dos combustíveis, empréstimos para bancos públicos, etc.

Tudo isso descrito acima vem sendo discutido com certa regularidade e consistência por vários analistas econômicos e repassado também com regularidade para economistas de bancos e consultorias de fora que visitam o Brasil. Isso tudo significa menos dinheiro externo para financiamento de empresas brasileiras e/ou custo mais elevado. Escutei recentemente de um analista de um banco de fora o seguinte: “sim, se vocês continuarem me pagando um juro real elevado acima de 6% vou continuar comprando títulos brasileiros”. Vale lembrar que o governo atual “planejava” trazer a taxa de juros real no seu último ano para 2% – algo que não será possível nem em sonho.

Não há risco de calote do governo brasileiro, mas as empresas terão que arcar com juros mais elevados para se financiarem. Isso afetará nossas grandes empresas que têm acesso ao mercado internacional e que vinham utilizando com frequência este canal de financiamento. O que aconteceu esta semana com o rebaixamento do nosso rating pela S&P vinha sendo construído pela nossa equipe econômica já há algum tempo.

Quando alguém me manda um e-mail perguntando o que eu acho da política econômica, eu explico o que discordo, mas sempre falava que o governo estava passando por um processo de aprendizado e que as coisas iriam melhorar. Deixei de ser otimista quando passei a escutar de economistas próximos ao governo que eles têm dúvidas do “real” aprendizado da equipe econômica. Todo mundo sabem quem são esses economistas.

E o que se escuta dos economistas mais heteredoxos que criticam os “economistas assustados”? (i) que superávit primário não é importante; (ii) que o governo pode financiar qualquer déficit nominal; (iii) que elevar a taxa de juros para combater inflação é burrice; e (iv) que o crescimento mais rápido do PIB decorrente do plano de concessões resolverá todo e qualquer problema fiscal.; (v) e que a taxa de cambio mais desvalorizada levará a mais crescimento. Nada disso a meu ver está correto.

Um vez escutei de um economista famoso a seguinte frase: “é triste ver tantos garotos discutindo sobre superávit primário, quando há tantas coisas mais importantes”. De fato, termos tantos “garotos” discutindo sobre superávit primário mostra como andamos para trás e criamos novamente um problema que já havia sido resolvido. Projeções de superávit primário para que a dívida não cresça era um exercício que ninguém mais fazia e que agora todo mundo voltou a fazer.

“Mas o desemprego está baixo, a nossa pobreza caiu, a queda da desigualdade no Brasil foi uma das maiores do mundo nos últimos doze anos e temos hoje mais da metade da população na classe média?”

sim, mas estamos falando de superávit primário, inflação, divida, carga tributária e crescimento. Não se está discutindo queda da pobreza. Mas se continuarmos no mesmo curso, em algum momento do debate macro pode encontrar esse outro lado até porque, como tenho exaustivamente repetido, não há mais espaço para continuar com a expansão da política social simplesmente aumentando o gasto, a não ser que estejamos dispostos a ter uma carga tributária superior a 40% do PIB em 2018.

Exemplo de um bom artigo

Querem ver um bom exemplo de um artigo bem escrito sobre a relação taxa de câmbio, indústria e crescimento, leiam a coluna de hoje do Samuel Pessôa na Folha de São Paulo. Ao contrário dos economistas “excepcionais” que têm a resposta definitiva sobre a relação desvalorização da taxa de câmbio e crescimento, Samuel mostra que os resultados não são muito robustos.

Há de fato evidência de que câmbio valorizado correlaciona-se negativamente o crescimento, mas não há evidência robusta que câmbio mais desvalorizado esteja correlacionado com maior crescimento.

Já no caso de educação e inovação, há evidência que são atividades de elevado retorno social maior que o retorno individual e, assim, passíveis de subsídios. O problema surge quando alguém quer definir que determinadas atividades são superiores a outras, por exemplo, que exportar minério de ferro é ruim e exportar Iphone é bom e/ou que agricultura é uma atividade menos nobre que a indústria.

Leiam a coluna do Samuel Pessôa aqui.

 

Crescer 2% ou 4% faz diferença do ponto de vista fiscal?

Ontem, alguém me perguntou qual seria o superávit primário necessário para estabilizar a relação divida/PIB. Meu interlocutor me disse que havia escutado alguém falar que um superávit de 1% do PIB ao ano seria suficiente. Não é. Vou utilizar o trecho de um relatório, do início de 2013, de um analista que respeito muito e que estava otimista, apesar das mutretas fiscais de 2012:

“……as sinalizações são de que, tanto para 2013 como para 2014, o governo deverá reduzir de fato a meta de resultado primário. Nossas contas apontam que, para um crescimento do PIB próximo de 4% a.a. e com uma Selic média de cerca de 8% a.a. (admitindo também um spread de 1,7 p.p. em relação à Selic do custo implícito da DBGG, bem como uma remuneração média de 4,7% a.a. dos créditos do governo geral), um resultado primário de 1% do PIB estabiliza a relação DLSP/PIB e ainda mantém a trajetória de redução da DBGG/PIB”.

Todos esses parâmetros mudaram. Primeiro, o crescimento médio estimado pelo mercado para o PIB está por volta de 2% ao ano e não 4% ao ano. Segundo, a Selic não é mais de 8% do ano, mas de 10,75% com a possibilidade de se manter elevada ao longo dos próximos dois anos dado o reajuste inevitável no preço dos combustíveis, energia, tarifas de ônibus, etc. e ainda um mercado de trabalho relativamente aquecido, o que sinaliza que ainda vamos conviver com inflação elevada pelos próximos dois anos.

Terceiro, o custo da DLSP aumentou muito devido a acumulação de reservas (18% do PIB) e crescimento do estoque de empréstimos para bancos públicos, próximo a 10% do PIB ante 0,5% do PIB no início de 2008. Pela tabela do Banco Central que traz a taxa de juros implícita da DLSP, esta taxa acumulada em 12 meses até janeiro de 2014 foi de 17,4%.

É muito provável que, dada a imensa diferença entre a TJLP (5% ao ano) e a Selic (10,75% ao ano) e o elevado estoque de reservas (18% do PIB), a taxa de juros implícita na DLSP continuará elevada o que significa uma necessidade maior de superávit primário apenas para estabilizar a DLSP (% do PIB).

Vamos supor baseado em uma conta não muito rigorosa que: (1) taxa de juros implícita da DLSP se mantenha em 17% ao ano pelos próximos dois anos; (2) crescimento médio real do PIB fica em 2% ao ano; (3) PIB nominal cresce 9,5% ao ano. Com essas hipóteses e, dada uma DLSP do setor público de 33,5% do PIB, chega-se à conclusão que o primário exigido para estabilizar a DLSP seria algo próximo a 2,3% do PIB. (OBS: claro que esses números variam com a desvalorização do Real que nos deixa mais rico, pois o setor público é credor líquido em Dólar).

Mas vamos supor que o governo queira sinalizar um compromisso fiscal maior para conseguir uma redução mais rápida da divida liquida e bruta para pagar menos juros. Neste caso, estamos falando de um primário mais perto de 3% do PIB nos próximos dois anos (2015 e 2016). Mas para conseguir isso seria necessário: “rever desonerações e aumentar carga tributária”.

Qual a outra opção para não mexer no nosso bolso (aumento carga tributária)? Literalmente queimar reservas, reduzir drasticamente a diferença entre TJLP e Selic e ainda cortar investimento público. Mesmo assim, teriam que mexer no nosso bolso.

Queimar reservas é um risco para uma economia ainda tão dependente de poupança externa e reduzir a diferença entre TJLP e Selic vai aumentar o custo dos empréstimos para as empresas, inclusive, para as novas concessionárias de serviços públicos. Adicionalmente, elevar TJLP aumenta o custo de equalização dos juros do PSI – a equalização do Tesouro em cima dos mais de R$ 250 bilhões já emprestados e em cima dos R$ 70 bilhões que ainda serão emprestados via PSI.

Mas não vamos escapar de aumentar a TJLP e isso já deveria ter começado. Com dois telefonemas se aumenta a TJLP, pois agora nem mais reuniões presenciais o Conselho Monetário Nacional (CMN) faz. Não sabia? Pois fique sabendo que as reuniões do CMN passaram, nos últimos dois anos, a ser “não presenciais”, i.e. ocorre via troca de e-mails e por telefone, segundo me falou em “off” uma fonte do CMN.

A novela do primário vai continuar não apenas neste, mas nos próximos dois anos pelo menos. Se fizermos tudo certo (e não vou entrar em detalhes) poderemos ter uma conta de juros menor e cadente a partir de meados de 2016. Mas aqui há um grande “se”. Podem ter certeza de uma coisa: independentemente de quem seja o próximo governo, precisaremos de economistas chatos, ou melhor, MUITO chatos.

E se não fizermos nada e tentarmos empurrar o problema com a barriga? Eu preciso dizer? É claro que torço para tudo que falei acima esteja errado. Nesses últimos meses, passei a torcer contra meus próprios cenários para me manter otimista. Estou ainda na fase do que se denominaria “cognitive dissonance”.

Tento me conformar lendo os heterodoxos, mas eles só falam da indústria e da revolução industrial.  Por favor colegas heterodoxos, escrevam sobre como resolver o problema fiscal e venham para o lado “negro da força”. Depois que resolvermos o problema fiscal, os chatos passarão a conversar a apenas sobre indústria e revolução industrial.

Investimento Público do Governo Federal – 1999-2013

Aqui vai uma nota rápida sobre o investimento público do governo federal. Neste debate é importante ter em mente três coisas. Primeiro, essa é tradicionalmente a variável de ajuste quando há a necessidade de se fazer rapidamente um ajuste fiscal. Foi assim em 1999 e, novamente, em 2003. Ao longo do governo Lula o investimento se recuperou para voltar basicamente ao mesmo nível de 2002 (% do PIB).

Segundo, havia uma grande esperança, minha inclusive, que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) fosse resolver o problema do investimento público. Isso aconteceu? Não. O PAC começou de forma promissora, mas depois perdeu o ímpeto. Mas aqui há uma diferença importante.

Um programa do PAC que o governo teve sucesso na sua execução foi o Minha Casa Minha Vida (MCMV) porque o papel do governo neste programa é conceder subsídios. Como os subsídios passaram a ser considerados investimento, isso puxou um pouco o dado de investimento do governo federal como % do PIB.

Como vocês podem observar no gráfico abaixo, com o MCMV, o investimento público do governo federal, em 2013, foi de 1,31% do PIB; uma queda ainda que pequena em relação à 2012. Mas se excluirmos o MCMV que são subsídios, o investimento público do governo federal, em 2013, foi de apenas 1,01% do PIB e já vem em queda (% do PIB) desde 2010. O valor do ano passado foi o menor dos últimos cinco anos.

 Investimento Público Federal – % do PIB – 1999-2013- com e sem MCMV

INV2014A

Fonte: SIAFI. Elaboração: Mansueto Almeida

Terceiro e último ponto, o investimento público só não foi pior nos últimos anos porque houve uma forte mudança na sua composição. De 2009 a 2013, aumentou muito a porcentagem do investimento público do governo federal em educação e defesa. Essas duas áreas respondiam por 22,8% do investimento em 2009 e passaram a responder por 35,7% do investimento (média 2012-2013). O investimento nessas áreas tem algumas características especiais.

 Participação do Investimento em Educação e Defesa no Investimento Público Federal – 2009, 2012-2013

INV2014B

Fonte: SIAFI. Elaboração: Mansueto Almeida

 

No caso da educação, o investimento é basicamente construção de prédios de universidades e escolas. Algo que não é muito complicado. No caso da defesa, o investimento é fortemente afetado por compras de material como peças para aeronaves, submarinos, etc. Ou seja, esses dois casos são um tipo diferente de investimento que geralmente não requer muito planejamento e nem tão pouco envolve problemas com licença ambiental, etc.

O grande desafio para o próximo governo é conseguir desamarrar os entraves ao investimento público. Mas isso depois de resolver um outro problema: garantir o recurso fiscal para o investimento. Para um país com carga tributária próxima a 36% do PIB, o investimento público federal de 1% do PIB somado a 1,5% do PIB para estados e municípios (sem estatais) e totalizando 2,5% do PIB é muito baixo.

Aumentar o investimento público é um dos grandes desafios do Brasil, apesar de termos repassado parte dessa agenda, depois de muita relutância, para o setor privado via concessões. Mas o governo tem também que fazer a sua parte.

Os economistas “chatos”

Há um grupo de economistas no Brasil que, tradicionalmente, são apontados por muitos como chatos porque gostam de lembrar uma lei máxima da economia: “não existe almoço grátis”. Eu conheço todos eles por circunstâncias diferentes.

Um desses economistas é o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore. Quando fui estudante na USP eu era louco para conhecê-lo, mas tinha medo de me aproximar dele. A clareza de pensamento do Pastore e sua critica, quase sempre correta, intimida um estudante de 23 anos. O meu trauma foi solucionado quando nos conhecemos, em 2011, graças ao blog, e desde então temos mantido contato. Pastore é um dos economistas mais técnicos e brilhantes do Brasil e, apesar de seu vasto conhecimento, deixa à vontade o seu interlocutor no debate. Os seus relatórios são agradáveis de ler e baseados em análises econométricas rigorosas. Pode-se até discordar dele, mas duvido que alguém tenha coragem de insinuar algo sobre a qualidade de suas análises.

Outro do grupo dos “chatos” é o Alexandre Schwartzman. Fomos contemporâneos de USP e, para infelicidade dos estudantes, a sala do Alexandre era vizinho ao local do café, o que significa que todos nós levávamos bronca dele que queria estudar e ficávamos fazendo barulho na porta da sala. Só voltei a encontra-lo, em 2009, por circunstância do Blog. Trocamos alguns e-mails e de vez em quando nos encontramos. Perdi o medo das broncas do cafezinho!

O terceiro do meu grupo de economistas chatos é o Fábio Giambiagi. Já escutei muita gente criticá-lo pelas suas posições em relação à reforma da previdência e pelo fato dele escrever sobre tudo em economia. Fábio não escreve sobre todas as coisas. Ele lê sobre tudo, escreve sobre finanças públicas e em outros assuntos organiza livros, pois ele conversa com os melhores especialistas em todas as áreas. Tem um talento natural de descobrir pessoas jovens competentes e é, sem dúvida, o melhor editor de economia. Dada a sua imensa facilidade e disciplina para escrever é uma das pessoas que mais contribuem para o debate econômico no Brasil. Nos conhecemos, em 2004, quando ele estava no IPEA e desde então mantemos contato.

O quarto economista chato é o Armando Castelar. Apesar de ambos sermos do IPEA, há um mundo entre o IPEA Rio e o IPEA Brasilia. Eu devo conhecer no máximo 5 ou 6 pessoas do IPEA Rio. Nos encontramos em 2011 em uma reunião da FIESP, em São Paulo. Armando é outro economista que gosta de olhar cuidadosamente para os dados e faz suas análises de forma desapaixonada. Faz aquelas perguntas lógicas que “acabam com a festa”. Antes de começar o ciclo atual de concessões, advertiu que os empréstimos subsidiados do BNDES deveriam ter como indexador um índice de preço porque, em algum momento, o governo teria que aumentar a TJLP que se deslocou fortemente da Selic e isso alteraria os subsídios das empresas que apostaram em uma tarifa menor, contando com subsídios elevados dos empréstimos do BNDES. Esse problema já chegou e está sem solução. Uma diferença de mais de 5 pontos de percentagem entre TJLP e Selic é insustentável.

Mas por que estou falando desses quatro economistas? Porque nas últimas discussões que tivemos e baseado no que eles escrevem este grupo sempre esteve mais pessimista do que eu em relação ao comportamento da economia para os próximos anos. Nesses últimos dias, confesso que comecei a “comprar” o cenário deles. O Brasil, a partir do próximo ano, vai precisar conciliar o aumento do superávit primário para algo como 2,5% a 3% do PIB; e fazer frente ao inevitável crescimento do gasto público não financeiro ligado às áreas de educação e saúde e passivos a serem reconhecidos – subsídios do PSI via BNDES, conta de energia, etc.

O que tudo isso significa? Uma busca desesperada por receita cuja primeira tentativa foi justamente a MP 627/2013 que trata da tributação do lucro de empresas no exterior (o economista Marcos Jank da brf fez um bom resumo do problema – clique aqui). Qual será o tamanho da mordida do Leão dependerá do sucesso no controle no crescimento do gasto, que por enquanto é incerto.

O meu cientista político preferido, Marcus André Melo da UFPe, acredita que não dá mais para tentar equilibrar o desejo de maior gasto com a necessidade de aumentar o primário via carga tributária e o ajuste vem pelo lado da despesa – clique aqui. Acho que ele subestima a capacidade da Receita de extrair impostos da sociedade, o uso da contabilidade criativa e superestima a real convicção da sociedade por um ajuste da despesa.

Há meses falo que o meu cenário para o Brasil é moderadamente otimista. Não é mais. ” Senhor, eu tenho dúvidas“. O próximo governo, seja ele quem for, tem uma agenda difícil pela frente. Será preciso muita convicção para arrumar a casa como foi feito em 1994/95, 1999 e 2003. Assim, os nomes da nova equipe econômica serão essenciais. Não é só questão de nomes bons, mas de nomes de economistas com independência (como Armínio Fraga e Henrique Meirelles) para até discordar de quem seja o presidente, que precisará de um esforço redobrado para se comunicar com a sociedade e viabilizar (i) aumento de carga tributária; e/ou (ii) controle do gasto. Nos dois casos, muita gente vai ficar com raiva.

Infelizmente, os economistas “chatos” parecem estar corretos. O Brasil está quebrado? Claro que não e o grupo acima não fala isso. Não era preciso o Krugman falar isso por dezenas (ou centenas) de milhares de dólares. Eu e outros falaríamos de graça. Mas os economistas que falam que tudo está bem não dizem absolutamente nada de concreto sobre como resolver a situação de conciliar aumento do primário com o desejo da sociedade por maiores gasto em educação, saúde e transferências. Acho até que muito deles adorariam ver a reencarnação dos seus ídolos que já se foram (como Keynes por exemplo) para solucionar os problemas. Sim, se você não sabe fique sabendo que há um grupo de economistas que tentam adivinhar o que Keynes pensaria, o que  Milton Friedman faria, se duvidar até o que Marx hoje falaria sobre o problema da renda dos 1% nos EUA. Não seria melhor simplesmente olhar para evidência empírica?

O próximo governo precisará escutar com mais cuidado os economistas “chatos”. E claro que esses economistas não têm nada de chatos, apenas um grande defeito para alguns: eles gostam de falar a verdade e têm convicção do que falam. Em geral, eles mais acertam do que erram e, por isso, são respeitados. Eles têm a solução para os problemas do Brasil? Claro que não e nem se propõem a isso. Mas eles sabem apontar na área macro o que está errado e alertar para o duvidoso sucesso de planos mirabolantes. Muita gente reclama deles, mas ninguém deixa de ler o que eles escrevem ou de conversar com eles.

De quem eu gosto mais? claramente do grupo mais espírita que quer convocar o espírito de Keynes (e o espírito animal) para resolver os nossos problemas e que sempre nos enche de otimismo e não falam de custo algum. Mas aprendo mais com os “chatos”.

Sentiu falta de alguns nomes na lista dos chatos? é porque esses outros nomes não participam muito do debate de conjuntura apesar da presença maior que passaram a ter pelo seus artigos (Pedro Cavalcanti e Renato Fragelli) ou porque estão no meu grupo dos quase chatos: Samuel Pessoa, Marcos Lisboa, Ricardo Paes de Barros, Edmar Bacha, etc.

PS: vem ai um livro de dois dos economistas aqui mencionados. Vou comprar. ler, criticar e fazer propaganda.

livro Fabio

Seminário sobre 50 anos do orçamento

Hoje, o IDP promove um excelente seminário sobre 50 anos da Lei de Orçamento. Será um seminário muito bom com muita gente boa. Vale a pena assistir e terá transmissão ao vivo pela internet. Clique aqui para acessar a página do eventos para se inscrever e ou assistir o seminário hoje à tarde. 

CONVITE_50ANOS_FINAL

Debate na Revista Época Negócios -2

Neste post, completo minhas impressões das dez entrevistas da revista Época Negócios com economistas de diferentes visões.

(6) Otaviano Canuto: gosto muito do Otaviano por vários motivos, dentre os quais, ele sabe escutar e debater de forma extremamente elegante. Otaviano coloca corretamente que o principal desafio para o próximo governo é revisitar o gasto público, i.e. reduzir o crescimento da despesa não financeira. Se isso não for feito, o equilíbrio virá pelo aumento da carga tributária; exatamente o mesmo ponto destacado pelo economista Samuel Pessôa.

Canuto destaca o problema da burocracia de pagar impostos no Brasil que, segundo o Banco Mundial, exige 2,6 mil homens-hora por ano. Assim, da mesma forma que Samuel, Canuto mostra que reduzir o número de impostos e a burocracia no pagamento de impostos aumentaria a eficiência das empresas.

Canuto não avança muito sobre quais gastos do setor público deveriam ser controlados, mas corretamente aponta para um amplo levantamento da eficácia das políticas públicas. Como ele fala, “há no gasto público direitos conquistados, benesses resultado de intervenções no passado que não são mais justificáveis”. Para bom entendedor meia palavra basta.

(7) Luiz Carlos Mendonça de Barros: o economista mostra a complementariedade entre os governos FHC e Lula. Um vez as reformas necessárias para o Brasil crescer e o outro deu continuidade a política econômica e ampliou os programas de transferência de renda. O resultado foi uma década de crescimento inclusivo, com o apoio do boom das commodities.

O economista mostra que o governo Dilma errou no diagnóstico do problema de crescimento do Brasil, ao incentivar a demanda quando o problema não era mais escassez de demanda. Fala que a “turma do governo” por um tempo agrediu o setor privado, mas que no período recente houve algum aprendizado, como é o caso da política de concessões. Critica também a política fiscal expansionista do governo que, na sua visão, atrapalha a tarefa do Banco Central de reduzir a inflação.

Um dos grandes equívocos da entrevista do economista é falar que o senador Aécio Neves fala através do Samuel Pessôa: reduzir salários, fazer reforma, etc. Nunca escutei algo do tipo “reduzir salários”. Mas a preocupação do economista reflete bem algo que escutei recentemente de político já aposentado: “há um programa para ganhar eleição e há outro para governar”. Será que não há como ser mais honesto com o eleitor? É isso que a sociedade de fato quer? Ótimo, então vamos discutir princípios gerais na eleição e esquecer programas de governo. Mas acho que os jornalistas não aceitarão.

No mais, outro equivoco do economista e de muitos outras pessoas é afirmar que reformas são sempre ruins e impopulares. A única forma de manter a conquista da classe média não é com mais subsídios, mas sim com o controle do crescimento do gasto, o que exigirá mudanças de regras (reformas), para que não haja um novo aumento de carga tributária. O economista fala que facilmente se recompõe o superávit primário no Brasil. Sim, com aumento de carga tributária e reversão das desonerações; mas não sei se isso é fácil como ele Mendonça de Barros afirma.

(8) Paulo Rabelo de Castro: achei a entrevista um pouco confusa e parte de um pressuposto, equivocado, que o grande problema do crescimento do gasto público está ligado a um problema de gestão. Isso não é verdade para o Governo Central. De 1999 a 2013, mais de 80% do crescimento da despesa não financeira do Governo Central decorre dos programas de transferência de renda e previdência. Poderia chamar o melhor gestor do mundo e com as regras atuais ele não poderia fazer absolutamente nada.

Confesso que não entendo quando o economista fala que o mercado bate palmas para a política econômica e para o desequilíbrio macroeconômico. Não conheço ninguém no mercado que “bate palmas para a política econômica”. Todos xingam, principalmente em ambientes fechados.

O economista critica a ênfase no aumento do primário que, segundo ele, quanto maior pior. Como assim? Ele está propondo superávit primário “zero”? aumento da dívida pública? É essa a proposta do economista Paulo Rabello de Castro?  Não, parece que ele está criticando o aumento do primário via aumento de impostos quando o caminho deveria ser cortar o gasto.

OK, entendi. Mas cortar quais gastos? Bom, o economista fala que a despesa corrente do governo está descontrolada mas não fala exatamente “qual despesa corrente”. Passa a impressão que um choque de gestão resolve tudo e critica o senador Aécio por não falar como vai reduzir a despesa com juros do setor público para em seguida falar que o governo Dilma tentou reduzir os juros de forma voluntariosa e errou. Mas esse é o debate.

O Brasil só conseguirá reduzir juros com um superávit primário maior que reduza de forma mais rápida a divida bruta e líquida e é falacioso achar que o aumento do superávit primário virá integralmente de corte de gastos. Isso é impossível no curto prazo a não ser com um corte brutal dos gastos sociais. É esta a proposta de ajuste do economista?

Da mesma forma que o economista Bresser Pereira, Paulo Rabelo de Castro não acredita que nenhum dos candidatos tenha coragem de implementar o que ele defende. E o mais irônico é que tanto ele quando Bresser não concordam entre si, ou seja, não daria para eles se unirem e formarem um novo partido.

(9) Luiz Gonzaga Belluzzo: Bem no estilo Belluzzo fala que a indústria brasileira saiu derrotada nos últimos 35 anos e que adotamos políticas macroeconômicas ilusórias baseadas na valorização da taxa de câmbio e abertura da economia. Levando essa critica ao pé da letra, o ex-presidente Lula para ele foi tão ruim quanto os demais ao permitir a valorização do Real, que atrapalhou a indústria.

Esse é o problema dialético dessa turma: querem elogiar o presidente Lula mas têm vergonha da política econômica do presidente Lula baseado na expansão dos gastos sociais e do consumo com a valorização do Real. Eles queriam um Lula que tivesse olhado com amor para indústria com taxa de câmbio mais desvalorizada  e ampliado as políticas de transferência de renda e o consumo – uma combinação de políticas contraditórias. Exaltam a democracia mas sempre citam a política industrial da China como modelo.

Corretamente, o professor Belluzzo fica incomodado com o pouco esforço inovador do empresariado brasileiro. Por que será? Talvez porque não precise ser tão inovador dado o nível de proteção que temos. Mas ele tem razão quando fala da necessidade de incentivos à inovação a fundo perdido – todo mundo concorda.

O professor escorrega quando parte para afirmações vagas quando é questionado sobre inflação e diz que não vai entrar no fetichismo dos números. Pelo santo Deus o que é isso? Diz que a inflação não pode sair do controle, mas parece mostrar um certo saudosismo do crescimento com inflação de 10% ao ano!! Mas pelo menos reconhece a necessidade de um ajuste fiscal, embora não diga como fazê-lo.

Por fim, diz que não vê consistência nos candidatos da oposição e externa a esperança que a presidente Dilma seja “mais política e menos operacional”. O que isso significa? Será que o professor reprova a atuação de nossa presidenta como economista?

(10) João Paulo dos Reis Velloso: Tenho um grande respeito pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso e por continuar participando ativamente do debate econômico. Fala que no Brasil de hoje não temos uma visão estratégica e que há uma preocupação excessiva com o curto-prazo. É verdade.

Apesar de o seu foco em planejamento e no longo prazo, fala que temos problemas macroeconômicos e que a área fiscal está sendo mal conduzida. Acredita que qualquer um dos candidatos pode fazer as reformas necessárias, i.e. construir um plano estratégico de crescimento desde que haja vontade.

Comete um deslize ao ligar o problema do gasto público e o baixo investimento com o número de ministérios. O seu irmão Raul Velloso mostra como outros analistas que o que pesa são as transferências para famílias. Assim, fechar ministérios ajuda, dá um sinal positivo de austeridade, mas não resolve o problema. No mais, defende uma reforma trabalhista, algo que nenhum dos outros economistas falou.

Minhas considerações finais

O esforço da revista foi muito bom e, mais uma vez, gostaria de parabenizar os editores e os repórteres, dentre os quais José Paulo Kupfer, Cristiane Barbieri, Darcio Oliveira, David Cohen e Marcelo Cabral pelo trabalho.

Como já comentei antes, não vi ninguém elogiando a política macroeconômica do governo Dilma e notei que vários falam do resgate de credibilidade. A questão fiscal é minimizada por apenas dois dos dez economistas entrevistados: (1) Luiz Carlos Mendonça de Barros, que acredita ser fácil resolver o problema, e (2) Paulo Rabello de Castro que não aceita aumento do primário pelo aumento da receita.

Outros falam da importância de aumentar o primário mas não dizem como: (1) Reis Velloso, (2) Belluzzo, (3) Otaviano Canuto, (4) Bresser; (5) Delfim e (6) André Lara Resende.

Apenas dois entrevistados, Samuel Pessôa e Nelson Barbosa, são mais explícitos ao afirmar que há necessidade de controlar o crescimento dos gastos sociais, caso contrário, o equilíbrio virá exclusivamente pelo aumento da carga tributária. Coincidentemente ou não, os dois economistas conversam todas as segundas no IBRE-FGV.

Não podemos dizer que dessas entrevistas sai um modelo ou um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil. Luiz Carlos Mendonça de Barros fala em manter as conquistas de FHC e Lula mas não fala como; Bresser tem um modelo analítico na cabeça mas falta um político que compre a ideia e um eleitor que olhe mais para o futuro do que para o presente; Belluzzo insiste na importância da indústria e da taxa de câmbio desvalorizada na linha do professor Bresser; mas não entra em detalhes para escapar do fetichismo dos números e nem explica como renegociar o contrato social.

No final, chega-se facilmente a uma conclusão. Os políticos parecem ter uma ideia melhor do que fazer e o que não fazer do que os economistas. No mais, ninguém fez menção a “nova matriz econômica” que, como já comentei antes, é uma agenda cada vez mais sem paternidade. Em algum momento teremos que fazer um teste de DNA.