Racionamento de Energia: risco real para o mercado financeiro

Pode até ser exagero, mas o mercado financeiro embarcou de vez naqueles cálculos chatos de quem ganha e quem perde com o racionamento de energia. Não é mera especulação. O mercado passou a considerar nos seus modelos o efeito do clima e o uso intensivo das térmicas na conta de energia dos consumidores, impactos sobre o superávit primário e impacto na valorização  e desvalorização de ações.

No dia 14 de fevereiro, o UBS soltou um relatório interessante com o título sugestivo “Listening to the weatherman: danger ahead, rationing is around the corner”. O relatório fala que: “The risk of rationing of higher magnitude seems strong for 2014 and for following years. …….we see the need for >15% cut in demand as early as April 2014 for months, and assuming full thermo dispatch (there are means of mitigating the severity of rationing, though).”

O ITAU-BBA, um banco de investimento que normalmente não olha muito para o que pensa São Pedro quando faz suas projeções macroeconômicas de curto prazo, traz três slides no seu power point de projeções de fevereiro de 2014 com o título: “(1) clima – incerteza maior em 2014; (2) Balanço energético – uso das térmicas sobe e riscos de racionamento voltam à pauta; e um slide de simulações (3) Balanço energético – simulação.”

O HSBC soltou hoje dia 26 de fevereiro de 2014 um relatório interessante com o título “Electricity rationing: gains and pains” no qual identifica quais setores ganham e quais perdem se houver um racionamento de energia. O banco aposta que não haverá racionamento, em 2014, por motivos políticos mais do que técnicos, mas que isso aumentaria o risco de racionamento em 2015 (chance de 40%), a depender do regime de chuvas e das reservas no Sudeste e Centro-Oeste. Mas se houver racionamento este ano:

“If energy rationing cannot be avoided in coming months, there is a risk it could have a political knock-on impact and potentially affect the outcome of the October presidential elections. In 2001, electricity rationing had a severe negative impact on the administration’s approval rating. This extreme scenario could end up being favourable for the opposition candidates (e.g.: from PSB or PSDB)…..”

E para completar a rodada de preocupação sobre racionamento o Santander reúne uma equipe top para conversar esta semana em conference call sobre: “Electricity Rationing in Brazil Again?”. O debate será conduzido por quatro economistas do banco, analisando o risco de agora com aquele de 2001, impactos setoriais e impactos macroeconômicos.

E os outros bancos? Claro que não tive tempo de ler todos os relatórios de outros bancos e nem recebo relatórios de todos. Mas a única certeza que se tem quando se passa os olhos por esses estudos detalhados e nos conference call anunciados pelos bancos é que o risco de racionamento está sendo levado mais a sério pelo mercado financeiro do que pelo governo que sempre descartou o risco de um eventual racionamento.

Ao que parece, o baixo crescimento do PIB pode até ser uma boa notícia para o governo tanto pelo lado da inflação quanto pelo lado do risco de racionamento em um ano eleitoral. Com um mercado de trabalho aquecido, é melhor encarar o risco de um aumento da taxa de desemprego para perto de 6% com ainda algum ganho de renda para os trabalhadores do que mandar nós eleitores desligar a TV mais cedo e perder a novela das 9 ou o nosso jogo de futebol favorito em um ano de Copa do Mundo aqui no Brasil.

Vamos rezar para São Pedro e, no meu caso que sou cearense, vou rezar para São José. E se tudo isso não der certo vamos ter que encarar o racionamento neste ou no próximo ano. “C’est la vie”.

Vela

9 pensamentos sobre “Racionamento de Energia: risco real para o mercado financeiro

  1. Mansueto,

    Repare que os níveis dos reservatórios do sul e sudeste estão baixíssimos, praticamente mínima histórica, mas que o do nordeste está ebm alto e crescendo. Todos estes reservatórios são interligados.

    MINHA OPINIÃO: estão propositadamente segurando a água no nordeste pra abalar a imagem do PSDB nas cidades do sudeste e sul.

    • O aperto do sistema energético é tão grande que não há como eventualmente fazer uma gestão desse tipo, mesmo que houvesse interesse. O sistema é interligado, salvo algumas partes do norte. Se cair uma região, a rede toda fica prejudicada.

    • O negócio funciona assim: ligaram todas as térmicas no talo. Total: 390gwh por dia gerados. precisa de mais 1300 pra compeltar. ligam as usinas conforme dá.

      Nordeste tá com reservatórios baixos, sudeste tá com furnas baixissima, sul ta com foz do areia (o principal reservatorio da regiao) baixando meio metro por dia e faltando uns 10m (de 50) pra acabar a agua (e assim vao parar todas as usinas subsequentes do iguacu).

      Bixo ta pegando! Se chover menos de 65% da média, no mes que vem, sobre o sudeste, especialmente minas, é racionamento na certa em abril em diante.

  2. Enquanto isso, o G1¹ contou hoje que um servidor público foi o primeiro brasiliense a instalar um sistema de produção de energia solar ligado por smart grid, que possibilita que o excedente da produção seja entregue à CEB. “A adesão ao sistema custou R$ 16,5 mil e levou sete meses para ser concluída”. Imagine a burocracia.

    Em outros países essas placas são subsidiadas ou financiadas por bancos que recuperam o valor com a venda do excedente. A EDF, na França, paga 10% de rendimento pra quem faz isso.

    ¹http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2014/02/morador-do-df-produz-energia-em-casa-e-devolve-parte-rede-publica.html

  3. Ano passado o racionamento era improvável, este ano é possível mas não provável. A cada ano que passa o consumo se aproxima do limite da geração.

    São Pedro precisa colaborar enviando chuvas fartas para que nossa falta de investimento no setor de geração, transmissão e distribuição não afetem a população.

    Veja só o problema celestial: Papa argentino orando para resolver o problema energético dos portenhos, Deus brasileiro tendo que dar uma forcinha em nossas nuvens chuvosas. Só cuidando da energia, como Deus e seus anjos terão tempo para os demais problemas mundiais como a Síria e a Ucrânia?

    Daqui a pouco Deus se cansa e joga o problema para Neves, Campos ou Silva (a Marina, não o Luís).

  4. Mansueto, fugindo do assunto, vc não achou estranho o “salto” que os investimentos deram no quarto trimestre não? Será que não tem gato por lebre nessa conta?
    abs

  5. Do jornal Valor de hoje

    “Decisões de governo também levaram a uma pesada distorção no mercado de energia. As três empresas estaduais de energia – Cemig, Cesp e Copel – que rejeitaram os termos do acordo oferecido por Dilma para renovar por 30 anos os contratos de concessões de suas hidrelétricas estão, hoje, nadando em dinheiro com a disparada de preços no mercado livre. Essas companhias, ironicamente controladas por governos de oposição, venderam energia em fevereiro a R$ 822,83 o MWh. Já a Eletrobras, que contra a vontade dos acionistas minoritários teve que aderir ao acordo, vende boa parcela da energia que produz por menos de R$ 30,00 o MWh.

    Cálculos do J.P.Morgan apontam que as três empresas, em um cenário de manutenção dos preços de fevereiro, poderão ganhar R$ 7 bilhões de receitas adicionais este ano. Valor superior ao que embolsariam nos 30 anos de concessão, calculam especialistas.

    Foi para controlar a inflação que o governo interferiu nos preços da energia. Mesmo assim, a inflação no país continua alta.”

    O artigo é da Cláudia Saflatle. Não sei se o título é dela:”É hora de desistir do controle de preços”

    É hora ou passou da hora? Um bom título, porém impublicável, seria: “Controle de preços de Dilma deu merda”

    E uma frase que está no fim do artigo:

    “Na questão energética, sua especialidade, Dilma ainda não estaria convencida das soluções.”

    Especialista em questão energética! Soluções!?

    “Essas companhias, ironicamente controladas por governos de oposição, venderam energia em fevereiro a R$ 822,83 o MWh. Já a Eletrobras, que contra a vontade dos acionistas minoritários teve que aderir ao acordo, vende boa parcela da energia que produz por menos de R$ 30,00 o MWh.”

    Pra frente, Brasil!

Os comentários estão desativados.