Tesouro e Mercado: queda de braço

Meus amigos operadores no mercado financeiro me fizeram a gentileza de me atualizar sobre algo que vem ocorrendo desde o início do ano: a briga entre o Tesouro e o Mercado.

No início deste ano algo como R$ 122 bilhões de títulos do Tesouro venceram e, sob circunstâncias normais de temperatura e pressão, montante próximo seria vendido ao mercado. Mas não foi.

Até o dia 23 de janeiro, o Tesouro vendeu algo próximo a R$ 30 bilhões e,na semana passada, fez um leilão de R$ 3,25 bilhões. Resgate líquido em janeiro ficou perto de R$ 90 bilhões.

Estamos nadando em dinheiro? Não. Banco Central fez a bondade de enxugar o mercado com operações compromissadas, venda de títulos por 30 dias. Nós trocamos um financiamento de prazo longo por um de prazo muito curto. Por que?

Porque o Tesouro não está aceitando as taxas de juros que o mercado está pedindo. Os operadores estão em pânico. Acham que o governo está sem saída e, como 25% da divida pública tem que ser rolada este ano, estão apertando o governo que está com uma condição fiscal muito pior do que todos nós esperávamos.

Hoje, o Tesouro mandou o seguinte comunicado para o mercado: “O Tesouro Nacional informa que, em razão das condições de mercado, não realizará o leilão tradicional de venda de LTN e NTN-F previsto para quinta-feira, 06/02/2014.

O que fazer? Se as expectativas melhorarem rapidamente, a estratégia do Tesouro pode dar resultado e o Tesouro vende seus títulos de prazo mais longo depois a um juros menor do que o atual. Mas acho difícil isso acontecer. E se não acontecer, vamos ter juros maiores e Banco Central aumentando operações compromissadas. Duas coisas ruins: juros em alta e prazo da divida encurtando.

E ainda tem gente que se gaba que a divida pública bruta do Brasil é de “apenas” 57% do PIB. A nossa realidade é triste. No ano passado, o setor publico no Brasil pagou de juros 5,2% do PIB. Isso é mais ou menos o que pagou a Grécia, em 2012, com uma divida de mais de 150% do PIB.

Para o Tesouro ganhar essa queda de braço terá que dar algum sinal concreto de melhora que ninguém hoje consegue enxergar. Por enquanto, o mercado está calmamente se preparando para a batalha e não está disposto a ser enganado novamente. Muito operadores acreditaram no discurso do governo e compraram títulos pré fixados com juros baixos no início de 2012 e hoje choram o prejuízo.

A batalha vai continuar………

18 pensamentos sobre “Tesouro e Mercado: queda de braço

  1. O Autoengano é uma marca forte deste governo que chama mensalão de caixa 2, apagão de falha no sistema e privatização de concessão. Agora acha que o mercado não faz a leitura correta e tenta ser mais realista do que o rei. Não importa como os outros os vêem mas sim a auto-imagem. Não sei se é patológico ou é má-fe.

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  4. Mansueto,

    Sou investidor de renda fixa.

    Tenho lido que não há nenhum título do tesouro com taxas atrativas neste momento, devido ao fato de que as taxas atuais estarão bem defasadas dentro de 1 ano ou pouco mais que isso, não valendo a pena comprar por X hoje e ficar, por exemplo, 10 anos recebendo taxa X, se daqui a 1 ano a taxa estará X+1, sendo mais interessante deixar dinheiro em outras aplicações de curto prazo e liquidez mais alta pra somente depois dessa subida de taxas transferir para aplicações no tesouro.

    Você acha esta possibilidade de taxas significativamente maiores num futuro de curto prazo factível? Tem bastante gente boa com este discurso.

    • Hudson, esta é a pergunta de US$ 1 milhão. Na média mercado espera juros mais elevados mas não crescimento muito forte. Difícil saber. Mas eu não opero.

  5. Mansueto: Existe o dinheiro no mercado para ser aplicado, o Tesouro precisa captar e o investidor aplicar. Se o BC entra no circuito, acaba atrapalhando a ação do Tesouro que é legítima em procurar os menores juros para seus papéis. O BC não está boicotando os esforços do Tesouro? Por que o Tesouro precisa pagar taxas elevadas se existe dinheiro disponível e por que o BC precisa fazer as tais operações compromissadas que acabam por ajudar o mercado a peitar o Tesouro?

      • Mansueto, só para ficar mais claro então: Selic está em 10,50%. Para mantê-la nesse patamar, Bacen precisou reduzir a liquidez do mercado interbancário, vendendo títulos com compromisso de recompra.
        O Tesouro queria vender títulos pagando menos de 10,50% (é isso?), o que seria possível (e inflacionário), caso o Bacen não interviesse para elevar a Selic.
        Neste trecho “Nós trocamos um financiamento de prazo longo por um de prazo muito curto”, parece que o Bacen está financiando o governo por meio dessas operações, mas não foi isso que ocorreu. O Bacen apenas trabalhou para elevar a Selic e impedir a expansão dos meios monetários.
        Entendi direito?
        Parabéns a você e ao Paulo Simões pelo debate.

  6. Mansueto :Por que os operadores do mercado estão em pânico? Será porque o Tesouro está sem saída ou porque, de alguma forma, o Tesouro conseguiu resgatar parte da sua dívida e consegue aguardar algum tempo antes de recompô-la? Para que serve o resultado primário se não for para resgatar a dívida pública?
    Sei que o governo tem sido muito displicente no trato das contas públicas e do endividamento. Mas será que o Tesouro não toma nenhuma ação que possa ser considerada correta como tentar pagar menores juros como parece ser o caso?

    • Tesouro está fazendo o que acha correto. E mercado faz a parte dele. O problema é que nosso primário não é suficiente nem para pagar juros. Lembre que temos deficit nominal . Logo, as novas emissões são superiores ao resgate.

  7. Muito operadores acreditaram no discurso do governo e compraram títulos pré fixados com juros baixos no início de 2012 e hoje choram o prejuízo.

    Isto é o risco de mercado. Está presente em qualquer atividade econômica seja investimento direto, investimento em renda variável, investimento no mercado imobiliária e, no caso apresentado, investimento em pré-fixados.

    Quando estes mesmos operadores compraram títulos pré fixados com juros altos, antes do período da queda da Selic, riram do lucro.

    Rir e chorar faz parte da atividade de investir. O máximo que o Tesouro pode fazer é distribuir alguns lenços de papel para quem especulou de modo errado.

      • E com isso, o CDS do Brasil que há pouco tempo era igual ao do México virou o dobro. Eu fico impressionado com a incompetência econômica dessa equipe. O pior é que não é por falta de quadros. O BCB e a STN estão cheios de servidores mestres e doutores nas melhores escolas de economia do Brasil e dos EUA. Pena que seus conhecimentos não são utilizados.

  8. caro amigo, lhe sobra disposição acadêmica mas lhe falta alguma vivência de mercado.
    O verdadeiro culpado por essa confusão chama-se Tombini. Quando ele sinaliza a redução de ritmo e volta atrás, ele está jogando contra a sua baliza. O credor não confia mais nele.
    Ele perdeu a identidade quando resolveu virar monetarista. Nessa altura do campeonato juro alto é gasolina no incêndio.
    Aí vai a receita para uma vitória na batalha contra o ataque especulativo: fim do ciclo de alta da Selic, venda maciça de dólar pronto. Se vier acompanhada de algumas medidas pró mercado como aumento contundente no superávit primário e um macro prudencial como alta da tjlp, a chance de liderar a saída global pra crise seria alta. E garanto a reeleição da dilma.

    • Se O BC parar com a selic em 10,5% por exemplo ficaria tudo mais tranquilo? Será que os investidores não iriam reforçar a percepção de descaso com inflação? Ou mesmo uma intervenção política de novo no BC? O que iria acontecer com o câmbio caso o ambiente externo continue piorando? Vender reservas segura a taxa se a maré não estiver mudado mesmo. Me parece que o câmbio andando com os pares reforça a confiança macro e resiliência aos choques. Mas se o tema é reeleição você pode até estar certo. Falando em gnomos, se o governo possuir uma bala de canhão fiscal…

  9. Não percebo ainda uma queda de braço, que seria o caso se o BC punisse a liquidez com taxas mais baixas, deixando a selic e as compromissadas caírem muito abaixo da meta de 10,5%. Isso já foi feito antes e o resultado é sempre desastroso. O ponto importante, na mesma medida que no câmbio, é que estamos vendo preços com intervenções.
    Mas acredito que a atuação está correta e não visa proteger o investidor e sim o “mercado”. Retirar excessos no longo prazo beneficia o tomador, que poderá rolar sua dívida com juros menores. O mercado de renda fixa é gigantesco e é a base para o mercado de capital inteiro, então gerenciar é também cortar excessos.

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