Nós somos a “elite”

Recentemente estava com um grupo de amigos em um restaurante, em Brasília, e falei que todos nós naquela mesa fazíamos parte da elite do Brasil. A reação da mesa foi de espanto. Como poderia um grupo de funcionários públicos participar da elite? Nós que pagamos planos de saúde, colégio caro para os filhos e não temos imóvel em Miami e nem fazemos compras na Oscar Freire? Explico.

O salário inicial de várias carreiras de nível superior no governo federal é acima de R$ 13.500. Assim, se você passa em um concurso público, automaticamente, passa a participar, segundo dados do IBGE, da elite da distribuição de renda no Brasil, aquele grupo cujo vencimento mensal é maior do que 20 salários mínimos (renda mensal superior a R$ 13.560 pelo valor do salário mínimo atual de R$ 678).

A tabela abaixo baseado nos dados da PNAD do IBGE mostra o rendimento (todas as fontes de rendimento) mensal da pessoa de referência da família, por classes de rendimento em salários mínimos. Como se observa, apenas 1% das pessoas de referencia da família possuem rendimento mensal superior a 20 salários mínimos (superior a R$ 13.560,00). Assim, quem ganha acima desse valor está no 1%!

Tabela 1 – Estrutura do Rendimento das Pessoas de Referência da Família em Salários Mínimos – %

renda01

Fonte: PNAD, IBGE

Se adotarmos um grupo mais abrangente, o rendimento mensal das pessoas com 10 anos ou mais de idade ocupadas, a proporção daqueles com rendimento mensal do trabalho superior a 20 salários mínimos (R$ 13.560,00) é ainda menor: 0,67% das pessoas ocupadas.

Tabela 2 – Estrutura do Rendimento das Pessoas Ocupadas com mais de 10 anos de Idade em Salários Mínimos – %

renda02

Fonte: PNAD, IBGE

E se olharmos para um conceito de renda mais amplo: renda mensal familiar? Se olharmos para renda mensal familiar, apenas 2% das famílias têm renda mensal superior a 20 salários mínimos (equivalente a R$ 13.560,00).

Tabela 3 – Estrutura da Renda Familiar em Salários Mínimos – %

renda03

Fonte: PNAD, IBGE

Por que todos esses números? Porque há duas coisas que me incomodam muito no debate no Brasil. Primeiro, muitas pessoas desconhecem a estrutura de rendimentos no Brasil. Meus amigos funcionários públicos, todos economistas e com mestrado, se espantaram quando eu falei que todos nós participávamos da elite. Em geral, as pessoas com rendimento superior a R$ 13,5 mil não se vêm como “elite”, mas são da elite para o padrão de rendimento no Brasil. Isso não significa que essa “elite” seja homogênea tanto do ponto de vista de rendimento quando de valores. Não é um grupo homogêneo.

Segundo, há um grupo grande de economistas, que se auto-rotulam de esquerda, e sempre apontam nas suas análises que as nossas mazelas são culpa da elite. Esses economistas são todos da “elite”. Muitos deles conversam diretamente com a Presidente da República, alguns outros são diretores de universidades privadas, outros tiveram uma carreira de sucesso no setor privado em grandes redes de varejo, muitos deles já passaram pelo governo em cargos da alta hierarquia no serviço público, etc. Esses economistas sempre falam da “elite” como se eles não fizessem parte desta elite. Adicionalmente, muitos deles passam a impressão que apenas os banqueiros seriam a elite.

E o que mais me irrita é um político de partido de esquerda falar da suposta “conspiração da elite contra o governo”, quando esses políticos de esquerda fazem parte da elite. Alguém acha que um governador ou prefeito de capital de um partido de esquerda ganha menos de R$ 13,5 mil por mês?  ou um deputado federal? ou um senador? Todos são da elite.

Quando vocês escutarem economistas ou políticos falarem da “elite do Brasil”, podem ter certeza que esses economistas e políticos participam desta elite: o grupo dos 1% com maior rendimento pelos dados da PNAD.

Assim, a elite somos nós e não apenas aqueles que fazem compras na Oscar Freire e possuem apartamentos em Miami. Dito isso, vamos discutir ideias e não jogar pedras na “elite” porque, neste caso, seria difícil encontrar um candidato a prefeito, governador ou presidente. Todos são da elite como muitos de nós funcionários públicos federais, professores universitários e vários profissionais liberais.

33 pensamentos sobre “Nós somos a “elite”

  1. As elites ligadas ao governo têm uma coisa em comum: a mais completa mediocridade além do cinismo de acusar qualquer um que não pensa igual de pertencer à direita. Eu pertenço à direita liberal mas não acredito na distribuição de renda forçada como instrumento da pseudo justiça social.

  2. Excelente texto. Essa auto análise seria ótima antes de servidores públicos decidirem fazer greve. Você poderia completar a análise informando qual gasto do governo federal com pessoal.

    • Fernando eu já havia escrito sobre isso no blog – gasto do governo federal com servidores. Vou ver se no próximo ano escrevo algo mais completo por nível de governo e poder. Abs, Mansueto

  3. Prezado Mansueto, é por isso que eu gosto das suas análises: precisas e desmistificadoras! Irritante perceber como essa “elite”, que não se vê como elite, se utiliza do discurso para encobrir os próprios interesses ou sua posição política, econômica e social.

    • bem lembrado Fábio, quando falei de professores universitários estava pensando nos meus amigos do Rio e São Paulo que com consultoria e com aulas nos MBAs aumentam a renda.. Mas foi bom o seu ponto e tens razão.

  4. CARALHO, VCS GANHAM MAIS DE 13 MIL E NÃO SABIAM QUE TAVAM NA ELITE!?
    GENTE, MAS ESSA ELITE É MAIS BURRA DO QUE EU PENSAVA! ahehahhaeha

  5. Masueto, boa tarde

    Mias um texto brilhante

    Aproveito para manifestar minha admirao pelo seu trabalho e desejar um excelente 2014 para voc e apra os seus

    abs S

  6. Boa análise Mansueto,

    Uma pequeno adendo: para os marxistas e alguns estruturalistas, o termo “elite” não está associado à classe de renda, mas sim a posse dos meios de produção.

    Abs

  7. Adorei a sua análise e parece que vc consegue fazer terapia colocando em palavras (e tb tabelas e gráficos) algumas coisa que andam te irritando…parabéns…e FELIZ 2014…só uma ressalva, não são todos os servidores públicos que estão nessa faixa de renda, especialmente nos Estados e Municípios…nesse caso, apenas algumas categorias ganham bem…e quanto a comprar na Oscar Freire, dá para comprar lá, dependendo do produto e ocasião – lá tb tem liquidação…bjs

  8. Mansueto, como o Francisco pontuou, tenho certeza que esses economistas de esquerda não estão pensando que pelo mero fato de estar no topo da pirâmide (que como você mesmo diz, tem vários topos e recortes) se é “elite”. Para não ficar só no marxismo, poderíamos falar como o Acemoglu que temos elites extrativas. É muito dificil entender a sociedade brasileira sem falar de um grupo de poucas famílias que detêm uma parcela desproporcional dos meios de produção, comunicação e dos ativos políticos. Ganhar 10 mil, 20 mil reais com toda certeza não põe ninguém nesses círculos por si só. O conceito de elite é feliz também porque permite entender fatores culturais que herdamos de nosso passado colonial e escravocrata. Temos o caso recente da PEC das domésticas, a mera extensão dos direitos trabalhistas a uma categoria excluída. Pelas declarações infelizes que apareceram no momento, deu para ver que não precisava nem ter 13.000 de salário para se comportar como elite: frente a essa camada mais baixa da população que são as domésticas, tinha muita gente com renda de classe média soando como senhor de engenho.

    essa discussão sobre o uso do termo classe é bem interessante. O Jessé de Sousa fez um bom comentário sobre o livro do Marcelo Neri recentemente, enfatizando como a análise pelo corte da renda é bastante frágil.

    • Entendo seu ponto. O que queria destacar é que somos um país de renda média e nossa elite inclui muita gente que não se considera de elite. Agora há um grupo grande de esquerda que fala de elite, sem perceber que participa da elite.

      Com todo respeito, o presidente Lula é uma pessoa da elite. Em uma palestra ele consegue ganhar o equivalente ou mais do que ganhamos em um ano. Isso não é demérito e sei que ele tem uma preocupação genuína com os pobres, mas ele tem hoje um renda e padrão de vida da elite.

      O Brasil é um país muito desigual. Vamos precisar de muito crescimento e melhorar muito mais a distribuição de renda para termos uma “verdadeira classe média”. Vou ler esse comentário do Jessé de Souza que você sugeriu. Abs.

  9. Manuseio, esperava observar na tabela 1 o aumento da representatividade dos indivíduos com rendimento de até 10 salários, como consequência da evolução da economia nos últimos anos. Entretanto, esse valor apresentou ligeira queda e chama atenção o aumento da representatividade dos sem rendimento ou declaração, o que seria isso?

    Abs

  10. É verdade. Existem os “esquerdistas tomadores de whisky” entre os detratadores das elites. E também os mensaleiros e o seu chefão impune. Às elites da Sociedade Civil cabe articular um projeto para o Desenvolvimento na rota da Sustentabilidade para o Brasil.

  11. Interessante ressaltar também que a faixa dos que ganham menos de 1/2 salário mínimo é bem estreita e de baixa dispersão, sendo fácil de ser estudada e contextualizada.
    Já a faixa dos que ganham mais de 20 salários mínimos é muito ampla e dispersa, porém é complicado fazer algo a respeito a partir de pesquisas do IBGE, até porque a probabilidade de encontrar aleatoriamente uma pessoa que ganha mais de R$100.000,00 por mês é muito baixa e muito complicado de se obter uma resposta correta desse tipo de pessoa. Uma estratificação dessa faixa acima de 20 salários mínimos é disponibilizada pela receita federal?
    Concordo com o leitor Thor Ribeiro em sua análise sobre a elite e sobre a classe média (senhores do engenho). O que mais me preocupa é o fato de que os mais ricos pagam proporcionalmente menos impostos que os mais pobres e isso é um agravante na situação fiscal do país. O duro é saber que no congresso o interesse dos mais ricos são muito mais bem representados que o interesse dos mais pobres.

  12. Pingback: Elite, Salário Mínimo, liberalismo e debates para 2014 | Blog Pra falar de coisas

  13. Tirando um pouco o foco do assunto elite e focando um pouco no fato de os servidores ganharem salários iniciais superiores a 20 mínimos: evidentemente, apenas uma minoria ganha isso, mas, ainda assim, quantos realmente merecem receber essas remunerações considerando as funções que executam e os resultados que entregam? E ainda brigamos por aumentos e outros benefícios.
    E mesmo os que recebem menos ainda possuem uma média consideravelmente superior a dos trabalhadores da iniciativa privada. Sem pressão por resultados na maior parte dos casos. Sem risco de demissão. Sem terem que se estressar.
    Basta olhar a quantidade de pessoas querendo passar em concursos públicos para ver que os benefícios são grandes demais para um país como o Brasil.
    Um supergestor teria seu valor, Mansueto, nem que fosse apenas para racionalizar essa questão, reduzindo o ingresso de mais servidores sem necessidade. Quantos funcionários com essa remuneração realmente seriam necessários aí no IPEA? Tenho certeza que na área administrativa seriam bem menos do que os existentes atualmente. O Itaú tem milhares de funcionários, mas pouquíssimos ganham isso e os que ganham têm a cabeça em risco diariamente. Não seria possível fazer isso nos órgãos públicos (sem que ninguém corresse sérios riscos de demissão)?
    Torço para ficarmos muitos anos sem aumento. Aí nossos salários voltarão a um patamar razoável para o Brasil e os melhores jovens voltarão a buscar a iniciativa privada, onde a riqueza é realmente criada (“mas é necessário um estado bem equipado para ‘azeitar’ as relações entre os privados”. blá blá blá).
    Abs. O serviço público é a nossa meia entrada!

    • No caso do serviço público, a grande distorção que vejo é que os salários de entrada são elevados mas não necessariamente os salários de saída. Mas você tem toda razão nas suas criticas. Mas as distorções são ainda maiores no Legislativo e Judiciário. Por mim, eu acabaria com todo tipo de ajuda extra salário e deixaria explicito nos salários esses benefícios.

      Segundo, é meio hipocrisia acharmos que um secretário executivo de um ministério com um salário de R$ 25 mil bruto ou menos é bem remunerado. Se for fraco não deveria ser secretário executivo (vice ministro) e se for muito bom, esse salário não é competitivo para segurá-lo no setor público. Em geral, a forma de burlar isso é colocando a pessoa em vários conselhos de administração de empresas que o governo indica. Abs, Mansueto

      • Tens razão com relação aos “altos executivos” do serviço público, mas não podemos esquecer que todos chegaremos ao teto de nossos órgãos (merecendo ou não). Ou seja, se 1% dos servidores mereceriam ganhar mais do que 25 mil, outros 99% não são exigidos e/ou não têm responsabilidades que justifiquem essa quantia.
        Aí entra o supergestor.
        Mas, como costumo acabar meus comentários, os salários são decididos por lei. As leis são feitas pelos parlamentares. Os parlamentares são escolhidos pela população. Ou seja, a população quer que nossos salários sejam superiores a 20 salários mínimos.
        Precisamos de uma solução. Dá um jeito, Mansu! Estarei na praia bebendo uma cerveja enquanto isso.
        Grande abraço e parabéns pela mensagem do texto e pelo novo post sobre o salário mínimo.
        Pela quantidade de comentários, 2014 será um tremendo sucesso!

      • Mas eu também estou aqui na praia em Recife de Férias! Volto a Brasilia apenas na próxima semana. Grande abraço e custa as férias. Vou depois de aprofundar neste tema.

  14. Muito bom o post, meus cumprimentos ! Mas há um outro ponto que eu gostaria de salientar: dentro desta elite há um conjunto de corporações que são tão “rent seeking” como qualquer grupo empresarial e que tem tido grande sucesso na sua busca por renda. Refiro-me a delegados, juízes, promotores e procuradores de justiça. Estes grupos concentram renda no Brasil e tem padrões sociais muito superiores as de outros países desenvolvidos. Por observação pessoal vi que um juiz no Brasil é muito mais rico que um juiz na Australia ou na Alemanha.
    Aí tem gente que diz que o tamanho do governo no Brasil não é muito alto, que as despesas são incomprimíveis, etc etc…

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