Os três grupos de economistas

No debate sobre a necessidade de um ajuste fiscal é possível identificar três grupos de economistas. Um primeiro grupo, no qual me incluo, espera forte ajuste, em 2015, independentemente de quem seja o presidente eleito. Isso não está garantido, mas o ajuste vem de uma dose de esperança que a nova equipe econômica mude o rumo da economia e coloque para discussão temas difíceis como a atual regra de reajuste do salário mínimo. Hoje, já se escuta economistas do Ministério da Fazenda muito timidamente falando isso. Não podem falar em público por restrições institucionais, mas falam em conversas fechadas.

O que baseia a minha visão positiva de um ajuste, em 2015, é que, no caso de Aécio ou Eduardo Campos, qualquer um dos dois faria o que fosse necessário para recuperar a credibilidade do mercado, ter um crescimento maior do PIB na segunda metade do mandato e ambos defenderiam uma política mais liberal, como fez o ex-presidente Lula no seu primeiro mandato, que foi melhor do que o segundo (apesar do mensalão). No caso da presidente Dilma, eu confio em um ajuste pela pressão da República do Ipiranga: o ex-presidente Lula e o ex-ministro Antonio Palocci. Os dois são influentes no PT, no governo e com capital político para negociar uma agenda de reformas e o controle de alguns programas sociais e/ou aumento de impostos. A dúvida que fica é se a presidenta estaria disposta a escutar mais o seu padrinho e mudar suas convicções. Não há como saber.

Um segundo grupo de economistas acredita que não importa quem vença as eleições, o custo político do ajuste ficou muito elevado por ser necessário tocar em temas sensíveis (política social e regra de reajuste do salário mínimo, empréstimos do BNDES) e, assim, será preciso antes um agravamento da crise já em curso e a perda de grau de investimento do Brasil para que a piora adicional dos indicadores econômicos, ao longo dos próximos dois anos, imponha o ajuste, entre 2016 e 2017. O próximo governo terminaria “mancando” e o próximo presidente de 2019-2022 receberia a casa arrumada e poderia até aumentar os gastos novamente.

Há ainda um terceiro grupo de economistas que acha que não há porque se preocupar. Vou chamar esse grupo de grupo Pollyanna. As concessões aumentarão a taxa de investimento, o crescimento do PIB e entraremos em um novo ciclo de crescimento moderado com o PIB crescendo 3,5% ao ano e a arrecadação do governo crescendo acima do PIB. Contra esse grupo de economistas pesa o fato que, muitos deles, afirmavam que o Brasil caminhava para o déficit nominal próximo de “zero” no final do governo Dilma e que o investimento iria para perto de 21% do PIB. Isso não aconteceu e as condições externas com o fim do “quantitative easing” dos EUA e um crescimento mais lento da China não nos permite muito otimismo.

Acho que nada está garantido, mas é nítido que não há mais como conciliar no curto prazo a politica social do governo com a sua agenda de promoção setorial via aumento da dívida pública e empréstimos ao BNDES e uso político da CEF. Vale lembrar que o ministro da fazenda não prometeu parar com os empréstimos aos bancos públicos. A promessa foi diminuir esses empréstimos, o que pode levar 2, 3 ou 20 anos. Os sinais que vêm da Fazenda são contraditórios.

Por fim, mesmo que o governo tenha uma receita extra de concessões, REFIS, dividendos, etc. de R$ 100 bilhões, algo como R$ 40 bilhões para este ano e R$ 60 bilhões para o próximo (estou propositadamente exagerando), isso a meu ver não modifica em nada o cenário econômico. Isso contribuiria para um superávit primário maior, mas como isso não é uma receita recorrente, não resolveria o nosso problema de fluxo – uma economia na qual o crescimento do PIB nominal está em 8% ao ano, a receita cresce na mesma velocidade, e o gasto não financeiro do governo federal cresce a dois dígitos, entre 12% e 14% ao ano.

Vou repetir mais uma vez o que já falei neste blog. De 1998 a 2010, a despesa não financeira do governo federal cresceu 2,4 pontos do PIB, passou de 15% do PIB, em 1998, para 17,43% do PIB, em 2010. Estamos aqui falando de 12 anos de governo. É muito provável que, ao longo do governo Dilma, o crescimento da despesa fique perto de 2 pontos do PIB, passe de 17,4% no final de 2010 para 19,3% no final de 2014. Ou seja, o gasto público do governo federal (sem juros) cresceria em quatro anos muito próximo ao que cresceu em 12 anos.

Em resumo, temos um problema fiscal que não será muito fácil desatar e será necessário mudanças de regras e/ou aumento de carga tributária. E se o PIB passar a crescer 3,5% ao ano, resolve? Ajuda mas não resolve porque, pelas regras atuais, crescimento maior do PIB significa também crescimento maior do salário mínimo e, logo, crescimento maior do gasto social. Eu sou contra o salário mínimo? claro que não e não tenho proposta para isso. O que quero é que o debate técnico seja o mais transparente possível e que a sociedade saiba o custo de suas escolhas e/ou de sua omissão.

A sociedade terá que decidir via seus representantes eleitos o que deseja. Infelizmente, não há como continuar com a forte expansão fiscal sem aumentar a carga tributária, mesmo combatendo a corrupção. E para piorar  há um grupo de pessoas que não sabem fazer contas e acham que “os rentistas e o capital financeiro” que estão prejudicando o Brasil.

Quem prejudicou o Brasil fomos nós mesmos, pois ninguém nos forçou a fazer as tolices que fizemos. O Brasil é muito desigual? É sim, então vamos melhorar a educação das escolas públicas, combater oligopólios, cobrar serviços de quem é rico e pode pagar, acabar com empréstimos subsidiados para pessoas ricas e aperfeiçoar a política social – priorizar programas mais baratos e mais focalizados.  Dar subsídios para grupos organizados da sociedade e escolher quem vai ser beneficiado na próxima rodada de redução da carga tributária não vai solucionar o problema. Nem aumentar mais ainda a divida pública bruta.

 

10 pensamentos sobre “Os três grupos de economistas

  1. Não é pecado ser contra o salário mínimo. Aliás, na aula 2 de introdução à economia vc aprende que salário mínimo causa desemprego, então será que é tão terrível mesmo ser contra salário mínimo? Detalhe, a Alemanha não tem salário mínimo e talvez seja o país com a economia mais forte no momento… Vamos parar com preconceitos, sem medo de argumentar contra o salário mínimo…

    • Já parou pra pensar que temos um paternalismo tão enraizado em nossa nação que o simples termo “fim do salário mínimo” poderia gerar um assassinato? rs

      Mas concordo com você. Fim do salário mínimo não significa condenar o povo à miséria. O salário passaria a ser regulado pela oferta e demanda do mercado, além de poder se remunerar mais barato os menos produtivos, o que traria ganhos de meritocracia para os bons funcionários e de produtividade para as empresas.

      Pra isso dar certo, primeiro teríamos que estimular a livre concorrência no Brasil. No momento não temos concorrência alguma. Por exemplo, temos cerca de 4 ou 5 empresas de telefonia dominando todo o mercado. Tv a cabo são umas 7. Saúde temos umas 5 ou 6 grandes também. Isso não é concorrência. Concorrência seria termos 20, 30 empresas, aí sim seria difícil fazer cartel e combinação de preços, o que impulsionaria as empresas a disputar os trabalhadores e consequentemente não causar redução drástica de seus salários. É um assunto meio complicado até mesmo de se explicar em poucas linhas.

      Do jeito que é o nosso capitalismo brasileiro, acabar com o salário mínimo é condenar as pessoas a trabalhar em troca de água e biscoito de maizena sem que os preços dos produtos realmente fiquem melhores pro nosso bolso.

  2. Pois é, além do “custo brasil” agora temos também o “custo de aprendizado” do PT. Olha, Mansueto, acho que neste caso em especial estou mais propenso a acreditar na linha do segundo grupo. O PT já teve motivos mais que suficientes para mudar a equipe econômica, mas não mudou por pura teimosia. Acho que vai continuar empurrando com a barriga até não dar mais.Infelizmente…

    • Aquino

      “O PT já teve motivos mais que suficientes para mudar a equipe econômica, mas não mudou por pura teimosia”

      O PT não é diferente dos outros partidos. Explico. Partidos são formados por indivíduos e grupos que não raro se digladiam em lutas fratricidas por posições de poder. No caso do PT, é exemplar o “caso Palocci”. É preciso ser muito militante ou desinformado para não entender que a inevitável demissão de Palocci foi engendrada no interior do PT.

      Como exercício de análise, vamos considerar que a hipótese de um “expurgo” da atual equipe econômica esteja na pauta do governo Dilma. Ainda como exercício, ponha-se no lugar dela e tente nos dizer quem (nomes) poderia assumir o lugar de Guido Mantega e com força suficiente para defenestrar o “exército de Brancaleone” que ele chefia?

      Dilma está no mato e com cachorros que estão tão perdidos quanto aqueles que caíram de caminhão de mudança. Como aventou Mansueto, os integrantes da Republica do Ipiranga sabem muito bem que a situação é grave. O Conselheiro Delfim, que de bobo não tem nada, também sabe. Mas qual alternativa? Que nomes eles podem indicar?

      A alternativa seria repetir 2002 e chamar os “neoliberais” do PT de volta? Mas esta alternativa é, no momento, apenas uma doída lembrança de “uma fotografia na parede”.

      Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
      Hoje sou funcionário público.
      Itabira é apenas uma fotografia na parede.
      Mas como dói! (C. Drumond).

      Não é por teimosia. É por falta de opção.

      Alguém se habilita na indicação de nomes alternativos para assumir a difícil e amarga tarefa de arrumação?

      O alerta de Delfim foi feito ao PT. Se a tempestade perfeita vier, o barco petista vai afundar, disse o Conselheiro. Sabemos que nestas situações são os ratos os primeiros a pular fora do barco. Portanto, é preciso prestar atenção no movimento dos ratos.

      Abs

  3. Um post aparentemente simples, mas com bastantes aspectos que se desenrolados o tornam bem complexo.

    Salário mínimo tem q claramente cair. Não por ódio à classe operária, mas simplesmente pq pro país competir globalmente, a soma do custo dos fatores de produção tem que bater a dos concorrentes externos. Como entre estes fatores tem uma pesada tributação, legislação trabalhista e problemas de ordem de infraestrutura, só tem um jeito de compensar, que é jogando os salários lá embaixo.

    Dado que tem sido feito exatamente o contrário… bem, é só pegar a produção industrial dos últimos 5 anos, excluir o setor automotivo (largtamente protegido pelo governo), e mais recentemente dar uma excluída nos bens de capital (102% financiado na base de finame subsidiado de 3% a.a.) e dar uma olhada o que resta. 20-30% a menos em 5 anos. Claro como a luz do dia que o setor está sendo sucateado e perdendo produção quase que na taxa de depreciação dos equipamentos.

    Desconsiderando que esse grupo 3 continue no poder, e nos torne uma argentina da vida (eu tenho fé nas instituições do país sobreviverem a esses vermes), mesmo que o pensamento do grupo 1 ou 2 prevaleça, eu duvido ao cubo que o país volte a crescer o suficiente pra superar a taxa de crescimento das despesas que a lei vai impor (gastos sociais), bem como não voltará a crescer sem a subsequente redução da carga tributária e simplificação das relações fisco-empresas e relações trabalhistas.

    Quem vai fazer isso? haha, duvido q alguém faça.

    E assim o país vai continuar estagnado. enxugando gelo. eternamente falando em ajuste fiscal, e fiscal e fiscal.

    Só ninguém vai tocar no ponto nevrálgico da coisa: é preciso cortar “direitos” e botar o povo pra trabalhar. pelo valor real do seu trabalho (é, tudo tem um preço) e não pelo valor que o gov acha que vale o trabalho.

    Ou o país aniquila a CF88 ou ela vai aniquilar o país.

  4. Fala, Mansueto,
    Acho as duas primeiras possibilidades ok, mas tem no mínimo uma terceira: a Dilma ganha, dobra a aposta e a gente leva um ferro danado que só o outro presidente, em 2019, vai começar a arrumar.

  5. Excelente post Mansueto, claro, bem definido, pensativo e talvez sombrio.
    Que a LUZ da coerência paire sobre nossos futuros economistas chefiantes, como diria Odorico Paraguaçu
    Abs

  6. Mansueto
    Tenho visto um grupo grande de economistas defendendo a desvalorizacao cambial, flexibilização Fiscal e etc..
    Voce ve alguma possibilidade disso acontecer?

    • Acho muito difícil. O governo já está com um déficit grande de credibilidade e uma desvalorização ainda mais intensa da que já ocorreu pode impactar ainda mais na inflação. Mas tem gente que aposta que o governo vai dobrar a posta na heterodoxia. Eu não acredito nisso.

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