As dificuldades da Petrobras

O jornal Valor Econômico traz hoje uma matéria sobre o inferno astral da Petrobras – vale a pena ler mas é para assinantes. A companhia, em 2010, teve uma mega capitalização de R$ 120 bilhões, mas o que parecia ser o início de um período de sucesso e de folga de caixa para implementar o seu plano de investimento se transformou em um pesadelo para a companhia.

A Petrobras é a companhia mais inovadora da América Latina, tem mais de 3000 pesquisadores em um instituto voltado para inovação, o Cenpes, tem mais de meio século de apoio governamental e uma equipe técnica de primeira linha e ainda descobriu várias reservas novas nos últimos anos. Como uma empresa dessa pode estar passando por dificuldades? a resposta simples é má gestão. A empresa foi castigada nos últimos dez anos por um série de medidas populistas – congelamento do preço dos combustíveis, alguns investimentos questionados internamente pelos próprios técnicos da companhia, excessos da política de conteúdo nacional e até endividamento desnecessário. Explico esse último ponto.

Na época da capitalização, em 2010, a capitalização não envolveria nenhum endividamento adicional para a companhia: a Petrobras receberia a cessão onerosa (5 bilhões barris de petróleo que estão no findo do mar) e entregaria ao governo ações da empresa. Mas no país da “contabilidade criativa” o governo forçou a Petrobras aumentar em R$ 25 bilhões sua dívida junto ao BNDES para pagar à vista ao governo parte da cessão onerosa e ajudar o Tesouro a entregar a meta do primário, em 2010. Isso não ajudou em nada a Petrobras, mas ajudou ao Tesouro Nacional no seu esforço “Houdini” (grande mágico do passado).

A Petrobras é uma grande empresa desde que bem administrada. A empresa passar hoje pelas dificuldades que vem passando é um sinal claro de má administração no período recente. Isso quem fala não sou eu, são os analistas de bancos e consultorias que falam em “off”. Como fala a matéria de hoje do valor dos jornalistas Cláudia Schüffner e Fernando Torres:

“Uma observação dos indicadores da Petrobras nos últimos 19 anos mostra que a situação financeira da estatal atualmente se compara apenas com aquela vista no fim da década de 1990, quando o tamanho era metade do atual em termos de produção e a cotação do petróleo oscilava em média abaixo de US$ 20, ante os mais de US$ 100 atuais. Desde aquela época, a margem bruta da companhia não caía abaixo de 30% e nem a margem líquida se mostrava inferior a 10%, como ocorreu em 2012 e se repete até setembro de 2013 – mesmo com a adoção da contabilidade de hedge, que minimizou o impacto do câmbio na última linha do balanço…….Em termos de endividamento, a relação entre a dívida líquida e o patrimônio líquido da estatal, que atingiu 56,24% em setembro, também é a maior desde 1999…..”

Em resumo, apesar da megacapitalização de 2010, a Petrobras não tem folga para implementar o seu plano de investimento e a correção dos preços passou a ser condição necessária para não piorar ainda mais a situação financeira da companhia. O que prejudicou a Petrobras foi o excesso de nacionalismo de algumas pessoas do governo, que são inclusive criticadas por outras pessoas do próprio governo. Ainda bem que os funcionários da Petrobras estão entre os mais competentes e qualificados do governo brasileiro, pois são eles que podem salvar a companhia.

8 pensamentos sobre “As dificuldades da Petrobras

  1. De que adianta esse corpo técnico tão bom (e beeeeeem inchado, como tudo no Brasil), se só uma meia dúzia toma as decisões importantes?
    Para pagar as contas, só com bastante sucesso no pré-sal (tomara, mas será?) e com preço do petróleo mantendo-se bem alto (e se enxugarem essa liquidez infinita nos mercados?); com aumento dos combustíveis no Brasil (inflação?); ou com nova capitalização (dívida pública?).
    Acreditar em boa gestão, parece-me ingenuidade… ainda mais durante os próximos 3 governos intervencionistas-desenvolvimentistas.

  2. uma ironia interessante é que o lula queria transformar e eletrobras em “petrobras do setor elétrico” quando a petroleira estava bombando. quando a eletrobras começava a se mexer, o governo começou a ferrar com a petrobras. e agora ferrou a eletrobras também. pronto, agora as duas estão iguais! na merda! rs.

  3. Falar em má gestão, não se pode apenas falar do Governo LULA que usou a Petrobras em benefício Nacional, mas se hoje a Petrobras passa por dificuldades, quem analisar o Balanço verá que a Área de maior dificuldade é o Abastecimento, pois temos que Importar derivados de petróleo e vendermos a preços menores. Mas isso se dar porque a Petrobras ficou 30 anos sem construir uma Refinaria, pois era muito cômodo para Brasil importar derivados ao invés de investir bilhões em uma refinaria e ter indepência energética.
    Não considero má gestão, apenas considero que os interesses não eram focados nos investidores e sim no Povo brasileiro, usar a empresa para benefício da população.
    Criticar a política de conteúdo nacional chega a ser um crime, hoje temos estaleiros funcionando em pleno vapor, temos milhares de empregos e projetamos outros milhares.
    Sobre o Congelamento de preços, reclamamos do custo Brasil e reclamamamos quando o Governo toma uma decisão de “segurar” o custo Brasil. Hoje muitos estão sendo beneficiados e apenas os especuladores e/ou investidores (especuladores profissionais Bancários) criticam a postura atual da Empresa.

    • Mas como eu pagar mais barato pela gasolina seria interesse nacional? Não seria melhor subsidiar apenas o diesel para transporte público e deixar as pessoas que utilizam seus carros todos os dias pagarem mais pelo combustível que usam? Isso não ajudaria o governo a controlar inclusive o excesso de carros nas ruas e a poluição?

      No mais, a própria Petrobras recentemente conseguiu convencer ao governo que os elevados índices de conteúdo nacional estavam atrapalhando as metas de produção. O debate não é acabar com conteúdo nacional, mas definir se esse deve ser de 50% ou 70%. Se quisermos ter 100% de conteúdo nacional o custo será elevadíssimo como foi o caso da Lei de Informática.

    • Anderson, tudo parece muito bonito no papel: Petrobrás ajudando a população, vendendo combustível barato, comprando produtos nacionais para incentivar estaleiros brasileiros, aumentando o emprego…
      Quem é que vai discordar disso? Mas entenda: há custos! Essas coisas bonitas não vêm de graça e podem acabar custando muito mais do que os benefícios gerados. E pior, não são transparentes e acabam gerando benefícios muito claros para alguns grupos com custos difusos pelo resto da população.
      Conteúdo nacional parece muito bonito, mas alguém precisa pagar pelos maiores custos dos navios, plataformas e tubulações. Quem se beneficia são os estaleiros e suas cadeias produtivas. Quem paga a conta é a população inteira (dívida para capitalizar a empresa, menores dividendos para o estado, mais inflação pelo aumento do crédito). Apenas tiraram um pouquinho de todos e das futuras gerações para darem para empresários e trabalhadores da cadeia produtiva dos estaleiros.
      Se a dificuldade é o Abastecimento, compre pelos menores preços no exterior (com certeza, mais baratos do que se produzidos aqui) e venda aqui por um preço que não dê prejuízos (a inflação fica maior num primeiro momento, mas teremos mais dividendos para o estado, menos dívida para as gerações futuras, mais capitais para empréstimos privados…)
      Se não construiu uma refinaria, paciência (e, honestamente, talvez tenha sido melhor – Abreu e Lima não parece um bom negócio para o Brasil, apenas para os envolvidos), vai ter que trabalhar com o que tem. Mas nossa produção não cresce também, vai ter que continuar importando óleo bruto.
      Até entendo seu ponto: ela não está sendo mal gerida, está sendo gerida como órgão de estado, não como empresa privada. Acontece que a conta vai ter que ser paga de um jeito ou de outro e se ela dá lucro, ele é da sociedade inteira via dividendos para o estado. Se ela dá prejuízo, lucra só quem se beneficiou dos negócios mal feitos pela empresa.
      Com certeza não fui tão claro e não consegui te convencer. Mas sua intenção deve ser boa (a não ser que vc seja dono de estaleiro brasileiro), apenas peço que pense sempre nas consequencias desses pontos defendidos por você. Eles são muito bonitos, mas alguém paga a conta depois.

      • Dois problemas notórios dos idiotas úteis da esquerda brasileira:

        1 – Tentam monopolizar as boas intenções. Acusam todos os adversários de não se importarem com o povo, muito menos com os pobres. Ora, qualquer pessoa decente quer ver a redução da pobreza e o povo pagando preços módicos pelos produtos que consome.
        2 – Não conseguem pensar em termos de custo benefício. Pra eles, quebrar a petrobrás pra garantir uma gasolina barata é válido. Pra eles, tomar empréstimo a juros de 12%aa pra repassar pra campeões nacionais com juros de 3%aa é válido. Endividar o país pra distribuir dinheiro é válido.

        Esse comando central econômico do governo é extremamente incompetente, pra não dizer inconsequente.

        Prezado petralha Anderson, pare de pensar somente nos fins. O que os liberais e sociais democratas estão questionando são os custos de longo prazo da risível política econômica de vocês!!!!!

  4. O negócio mais rentável do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada.
    O segundo negócio mais rentável do mundo é uma empresa de petróleo mau administrada.
    A Petrobrás detém um monopólio. Regras de mercado não valem aqui. Lembrem-se disso na hora de criticar.
    O acionista sabe que o governo toma conta e é populista. Mas, é sócio de um monopólio.

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