Internacionalização – 2: Esclarecimentos

Eu sem ter a intenção magoei algumas pessoas envolvidas com a política educacional do governo brasileiro. Se fiz isso, por favor, me perdoem. Não foi a minha intenção criticar programas do governo e sou fã de carteirinha da CAPES e CNPq e só consegui estudar graças as duas instituições.

Quando falei no meu posto (com vídeo) que a academia brasileira ainda é muito fechada não é tanto que não mandamos estudantes para estudar lá fora. Isso temos feito há mais de quatro décadas e há um esforço da gestão atual do Ministério da Educação para fazer ainda mais com o programa Ciência Sem Fronteira. Excelente. É uma boa iniciativa e parabenizo as pessoas do governo por trás desse esforço.

O meu ponto é diferente. Primeiro, no Brasil na área de ciências humanas fazemos poucos estudos comparativos o que é uma tradição (ruim) da academia brasileira, e segundo, há uma imensa dificuldade de recrutar de forma permanente professores de fora para se estabelecerem no Brasil. Eu faço pesquisa com professores de várias partes do mundo e quando visito departamentos nos EUA e na Inglaterra vejo de forma muito clara como nossos centros de pós-graduação são ainda pouco inseridos no resto do mundo.

Pelo amor de Deus, vou escrever de forma clara para que não me ataquem, isso NÃO é culpa da CAPES nem tão pouco do CNPq e nem do governo Dilma. Feito o esclarecimento, volto ao ponto acima. Um dos comentários no post anterior falou “que eu não era especialista em educação e, assim, não poderia falar sobre educação”. Acredito que o amigo escreveu tamanho absurdo deveria estar com a cabeça quente.

Eu consigo ler e converso com pessoas da área de educação aqui e lá fora. Assim posso expressar minha modesta opinião no meu blog, pois estamos em uma democracia. E quando estou errado não tenho problema algum em mudar de opinião. Sou humilde o bastante para reconhecer quando erro e  mudar prontamente minha opinião à luz da evidência.

Dito isso, sugiro a todos que leiam (cliquem aqui) a excelente entrevista do Dr. César Camacho à revista Veja, edição 2347 de 13 de novembro de 2013. O professor é o Diretor Geral do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), uma das melhores instituições de ensino superio do Brasil. Em uma das perguntas o professor fala o seguinte:

“a pesquisa brasileira se desenvolve em um sistema estatal pesado, sob um excesso de normas que atravancam o trabalho do cientista e o processo de inovação. O labirinto burocrático do serviço público pesa. Por exemplo, na hora de contratar cérebros e importar materiais. Mesmo atrair estrangeiros para nossos centros de pesquisa não é uma tarefa simples”

e, na sequencia, quando o repórter pergunta sobre a resistência da academia brasileira para acolher estrangeiros, o professor responde:

“Na verdade, nós os espantamos graças a um hábito cartorial brasileiro, que remete ao mais puro tradicionalismo: ainda que a situação esteja melhorando, a maioria das provas dos concursos é até hoje feita em português. Isso, claro, afasta pesquisadores de fora. É a burocracia agindo contra a qualidade. O impa não tem essas amarras. Como Organização Social (OS), nosso orçamento é livre de carimbos e podemos contratar e demitir com base exclusivamente no mérito. Um terço de nossos professores são estrangeiros e nos beneficiamos muito. Afinal, o país não precisou pagar pela boa educação deles, e podemos fazer uma seleção muito mais qualificada entre os melhores do mundo.”

Por favor, leiam a entrevista anexa. As duas passagens acima são suficientes para eu destacar um dos pontos que abordei no post. Vocês conhecem um debate amplo no Brasil para recrutar professores estrangeiros para nossas universidades sem a exigência que saibam falar português? Se esse debate está ocorrendo eu não conheço, mas na China as universidades estão recrutando estrangeiros (que não falam mandarim).

Um outro ponto é em relação a pesquisa. A nossa tradição é mandar nossos alunos para EUA, França e Canada; mas do ponto de vista comercial enfatizamos o comércio sul-sul e no âmbito internacional estamos nos esforçando para ter uma agenda conjunta com os demais países do BRICS. Quantos brasileiros estão morando nesses países emergente e fazendo teses e que são matriculados em programas de pós-graduação no Brasil? Quantos estudantes de engenharia no Brasil estão indo trabalhar nas férias nesses países? Me desculpem, eu não vejo isso, mas  me mostrem a evidência que mudo rapidamente de opinião.

E lá fora? Bom, lá fora, por exemplo, há vários pesquisadores brasileiros que estão envolvidos nos vários projetos de pesquisa financiados pelo ESRC da Inglaterra sobre os BRICS (ver abaixo). Um professor inglês monta o projeto e convida pesquisadores brasileiros, indianos e chineses para participar. Esse tipo de projeto não é muito comum por aqui pelo que conheço. Estou trazendo três professores de um desses projetos para o Brasil, em março, para que eles visitem empresas comigo e para falarem sobre cadeias globais de produção para órgãos do governo.

Lá fora, há um esforço do mundo desenvolvido de entender o Brasil, as empresas brasileiras, o modelo de desenvolvimento aqui, o desafio de conciliar política social com crescimento  Acho positivo que nossos alunos continuem indo para os EUA, França e Canadá. Mas gostaria de ver um debate sobre como recrutar professores estrangeiros para o Brasil como faz o IMPA e gostaria de ver mais brasileiros fazendo estudos comparativos sobre países emergentes. Essa tradição de estudos comparativos não é comum aqui na área de ciências humanas, pelo menos não em economia.

Em resumo, quando falo que precisamos abrir mais nossa academia para o resto do mundo não tive intenção de criticar o governo. Apenas acho que esse é um debate que não vejo com muita frequência na área de ciências humanas e trabalho em um instituto de pesquisa com 300 pesquisadores brasileiros que preponderantemente olham apenas para o Brasil.

E quando algum acadêmico de fora me pede um livro sobre países Latino Americanos, acabo sempre indicando de algum acadêmico americano, como esses dois do Ben Ross Schneider (MIT)- Business Politics and the State in Twentieth-Century Latin America, 2004 e Hierarchical Capitalism in Latin America: Business, Labor, and the Challenges of Equitable Development, 2013) porque não conheço nada semelhante escrito por aqui.  Se souberem por favor me indiquem.

Lista de alguns projetos aprovados do Economic and Social Research Council (ESRC) sobre os BRICS (clique aqui para ver a chamada  para os projetos)

–       Law Development and Finance in Rising Powers: Brazil, China, India and Russia – Simon Deakin, University of Cambridge

–       State strategies of governance in global biomedical innovation: the impact of China and India – Brian Salter, Kings College London

–       Emerging Technologies, Trajectories and Implications of  Next Generation Innovation Systems Development in China and Russia – Philip Shapira, Manchester Business School

–       Rising Powers, Labour Standards and the Governance of Global Production Networks (India, China and Brazil) – Khalid Nadvi, University of Manchester

9 pensamentos sobre “Internacionalização – 2: Esclarecimentos

  1. Mansueto, esse leitor que o “acusou” de opinar sobre educação sem ser especialista tipifica bem o monopólio que esses supostos “especialistas” julgam ter sobre determinados assuntos. Pior mesmo é que sobre economia, todos eles acham que têm condições de opinar…

  2. Estou fazendo um MBA em Business pela FIA/USP, aulas 100% em inglês. Coincidência ou não, 10% dos alunos são estrangeiros e há alguns professores estrangeiros radicados no Brasil. Sei que são exceções, mas cursos de pós em inglês no Brasil existem.

    No mais, concordo com você, a vinda de professores estrangeiros melhoraria a qualidade do nosso ensino e ampliaria a diversidade no pensamento acadêmico. Essa visão de que tudo só presta se for 100% nacional está isolando o Brasil do resto do mundo.

    • Que noticia boa. Um conhecido meu, Moacir Miranda, dá aulas aí. Ou não? Mas me manda mais detalhes dessa turma de fora que está dando aulas aí na FIA. São acadêmicos erradicados no Brasil? São professores em tempo integral ou parcial? Sim, essa visão que tudo tem que ser 100% nacional é um GRANDE atraso.

      • Não conheço Moacir Miranda. Dei uma olhada rápida e vi que está dando aulas na FEA.

        A maioria são professores em tempo parcial, com consultorias em administração de empresas, cenários econômicos para investimentos e coaching. O próprio diretor da FIA, Prof. James Wright, é um estrangeiro radicado no Brasil (este com tempo integral e excelentes publicações). Os estudantes estrangeiros são em grande parte funcionários de multinacionais lotados por aqui.

        Mudando de assunto, parabéns pelo blog, principalmente, pelos furos fiscais que você vem descrevendo de forma bem clara. Aos poucos, estamos vendo que suas preocupações de outrora estão ganhando enorme espaço na mídia e em outros formadores de opinião. Belo serviço de utilidade pública.

      • Olha só Marcelo. Entrei na pagina da FIA mas se trata de um MBA executivo. Não é um curso tradicional na área de mestrado e doutorado daqueles que recebem recursos do governo (CAPES e CNPq) como o mestrado e doutorado dos cursos da FEA. Assim, o MBA avançou muito como você bem mostrou.

        Mas o meu ponto dos cursos de mestrado e doutorado no Brasil continua válido. A nossa academia é muito fechada. Visite o mestrado e doutorado de economia da FEA-USP e me diga quantos professores estrangeiros em tempo integral você vai encontrar. Eu até arrisco um palpite: um ou nenhum.

        Mas fico feliz de saber que temos agora no Brasil MBA executivo nos moldes deste da FIA. No mais, obrigado por ler o blog. Vou tentar escrever ainda mais, o que significa comprar mais brigas em um país que as pessoas ligam debate com ataques pessoais. fazer o que? brigar, ou melhor, debater.

  3. Mansueto,

    Sinceramente, achei desnecessário este “esclarecimento”. Você foi claro, conciso e certeiro!

    Para mim, que não sou economista, este blog tem sido a melhor fonte de informação e estudo sobre alguns assuntos que me são muito difíceis de entender.

    Escreva e fale cada vez mais!

    Abraços!

  4. Mansueto, não poderia concordar mais. Agora, acredito que exista a intenção de se modificar isso no atual governo. Aliás, os pesquisadores de ciências humanas batem na presidenta por isso. estou errada?

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