Indústria e competitividade: o setor industrial intensivo em mão-de-obra no Brasil vs. China.

Para aqueles que acompanham este blog, não devo escrever absolutamente nada sobre questões fiscais nesta semana porque minha cabeça está 100% voltada para outros tópicos: competitividade, política industrial, cadeias de produção global, etc.

Na semana passada terminei a primeira versão de um texto que ainda tem um longo caminho até o seu formato final para submissão para publicação. O foco do texto é questionar se existe um modelo brasileiro que possa servir de modelo para os outros países do BRIC. No texto que escrevi falo no inicio que:

Despite major advancements in defining themselves as a common group with similar interests, there are still many unsolved questions among the BRICs economies and huge economic differences that make the pursuit of a common international agenda challenging. It is easy to identify a common agenda of the BRICs to differentiate this group from the G8. But this clear divided line fades away when one goes a step further and tries to evaluate how the government in each BRIC country deals with citizens’ demand for social policies, government intervention in the economy, labor legislation, industrial policy, etc.

Based on the case of Brazil, this paper claims that the Brazilian economic model in the last ten years is a model very different from the other BRIC countries, a model more akin to other Latin American (LA) countries in the economic side, where large business groups in commodities are still predominant, and similar to OECD on the social side, in which high tax to GDP ratio is linked to the welfare state

O meu ponto quando escrevi o segundo parágrafo acima foi “preparar o terreno” para explicar aos meus colegas da Índia, China, Inglaterra e Holanda que a sociedade brasileira, desde a Constituição de 1988, fez opção por um Estado de Bem Estar Social e que, recentemente, esse modelo em conjunto com a forte expansão dos salário mínimo brasileiro tornou o Brasil um país de elevado custo da mão de obra, diferente da India e China.

É verdade que houve um forte crescimento do salário mínimo (em US$) na China de 2007 a 2011. Mas mesmo com esse forte crescimento, o salário mínimo em US$ da China (US$ 166,92 em 2011) é quase a metade do Brasil (US$ 325,38 em 2011). Em 2002, quando o Real estava muito desvalorizado, o salário mínimo em US$ nos dois países chegou a ser igual (US$ 69). Na Índia, segundo meus colegas  Indianos nesta pesquisa, o salário mínimo está atualmente na faixa de US$ 50-US$ 60 (ainda menor do que na China).

Gráfico – Salário Mínimo no Brasil versus China US$ corrente – 2002-2011

Sal Minimo

Fonte: IPEADATA e Shenzhen Statistical Yearbook

Em resumo, o Brasil ao contrário da Índia e China é um país de custo do trabalho elevado – salário mínimo de mais de US$ 300 por mês – o que nos coloca fora do mercado internacional de produtos intensivos em mão de obra de consumo de massa: calçados, confecção e móveis. Esses três produtos ainda aparecem na lista dos 20 principais produtos exportados pela China, e confecção ainda é um dos principais produtos exportados pela Índia. Nenhum deles aparece na lista dos 20 principais grupos de produtos exportados pelo Brasil (classificação de dois dígitos do sistema harmonizado de designação e codificação de mercadorias).

No caso do setor de calçados, por exemplo, o Brasil exportou no ano passado, 2012, o equivalente a US$ 1 bilhão, exatamente a mesma cifra que exportou em 1990. De 1990 a 2012, o ano de maior exportação de calçados no Brasil foi, em 2007, quando o país exportou US$ 1,9 bilhão. O preço médio de um par de sapatos exportado pelo Brasil é de US$ 10,7; o que mostra que o Brasil compete no segmento de preços mais baratos, mercado de consumo de massa, ao contrário da Itália.

No caso da Itália, apesar de ser um país desenvolvido e com custos do trabalho elevado, o país exportou US$ 57 bilhões em confecção, calçados e artigos de couro e cerâmica (categorias de produto 42,61,62,64,69 e 94 do sistema harmonizado de designação e codificação de mercadorias). Mas o problema (ou solução) é que os produtos exportados pela Itália são de altíssimo valor agregado – o preço médio da exportação de calçados da Itália é mais do que 10 vezes o preço médio do Brasil. E mesmo no caso da Itália parte da produção (manufatura) desses produtos passou a ser terceirizada para países do Leste Europeu com mão-de-obra mais barata.

É possível que parte do setor industrial brasileiro aumente a qualidade dos produtos e possamos arcar com custos maiores de mão de obra e continuar competitivos? É possível para “parte” das firmas dos setores intensivos em mão-de-obra. Acho difícil que a grande maioria das firmas brasileiras, nos setores intensivos em mão-de-obra, consiga fazer essa travessia e, assim, mesmo que as empresas avancem em direção ao modelo Italiano isso significará um downsizing dos setores intensivos em mão-de-obra.  Sim, mercado interno dinâmico com proteção tarifária pode adiar esse processo, mas isso não será solução como não foi na última década.

O Brasil se tornou um país caro para produção de manufaturas e, mesmo se avançarmos na agenda de aumento da produtividade, isso implicará  maior concorrência e um cenário difícil para os setores intensivos em mão-de-obra. E uma taxa de câmbio mais desvalorizada que reduza drasticamente o custo em Dólar da mão-de-obra? Bom, isso exigiria uma taxa de câmbio perto de R$/US$ 4,0 para que o  nosso salário mínimo atual de R$ 678 fosse próximo ao da China e nem isso seria garantia que conseguiríamos competir com os chineses e uma taxa de câmbio a esse nível está fora de cogitação. Entenderam o problema da indústria intensiva em mão-de-obra no Brasil?

16 pensamentos sobre “Indústria e competitividade: o setor industrial intensivo em mão-de-obra no Brasil vs. China.

  1. Não posso curtir ou gostar, porque a informação é por demais deprimente. No entanto, quero deixar registrado meu agradecimento pela clareza com que essas verdades dessaborosas são aqui expostas. É uma lástima que a ignorância, não apenas no Brasil, seja tão generallizada, que tão pouca gente entenda a trágicidade da situação e consiga desenvolver uma vontade política que force a mudança de rumo que se faz necessária.

  2. Mansueto, bom dia. A minha dissertacao de mestrado pela FGv em 1994 discorreu sobre os impactos da abertura comercial no setor textil, foi orientada pelo Prof Robert Nicol. Dez anos mais tarde apliquei novamente o mesmo questionario – mesma metodologia – no parque textil nacional averiguando os itens mais perversos da politica comercial e industrial na epoca. Caso deseje ler o trabalho me avise. Vc me conhece sou cearense, economista e resido em SP.

  3. De fato, o salário mínimo pode ser um fator relevante da baixa competitividade brasileira no plano internacional. Independente de ser Bric ou nao (que na verdade nao existe no plano das politicas economicas nacionais), o fator ainda mais relevante, no plano micro, é que o valor nominal desse salário é ainda assim muito inferior ao custo total da mao-de-obra, que no Brasil vem associado a um dispendio final bem mais elevado do que para qualquer outro pais, Bric, OCDE, etc.

  4. Não consigo vislumbrar mentalmente, como o Brasil pode abrir mão de ter manufatura “básica”. Nossa indústria manufatureira já é pequena (13% do PIB), produz pouca coisa “world class” que possa ser exportada. Se a gente não produzir totalmente as coisas que vamos consumir, a gente vai precisar importar. Mas pra importar sustentavelmente, alguma coisa a gente tem que exportar. A gente só exporta commodities, coisas que não representam mais que 5% do PIB.

    Até entendo que por um tempo a gente pode trabalhar no desequilibrio, e os últimos 5 anos foram assim (50% de aumento nas vendas do comércio, zero na produção industrial). Mas agora os impactos dos excessos de importações tão começando a pegar. o IED já não segura mais o buraco externo. Nesse cenário o dolar continua a subir, e o salário cai. e aí a gente volta a ser competitivos. acho.

  5. O problema é o seguinte, como já escreveram aqueles “turcos de Harvard” (um deles nem está mais lá, o Rodrik), que mecanismo político de compensação pode funcionar para que o governo “ajude” na travessia, sem perder significativo capital político e inviabilizar a própria efetividade da política pública ? Este mecanismo existe ? É possível fazer um omelete sem quebrar os ovos ? Como os alemães resolveram isso nos anos setenta ? Convertendo a mão-de-obra da manufatura “velha” para setores como o metal mecânico. De que jeito ? Doses cavalares de proteção social, educação técnica e incentivos/proteção para cadeias dinâmicas, focadas em exportação de alto conteúdo tecnológico. Nós podemos fazer isso no Brasil hoje ou daqui há dez anos ? Como ?

  6. Mansueto discordo com voce quanto a sua afirmaçáo de que o custo da måo de obra é um dos grandes vilões da competitividade da nossa indústria. O principal vilão da competitividade e a falta de novas tecnologias de fabricação . O nosso parque industrial e extremamente arcaico. As maquinas e equipamentos existentes no mundo principalmente na China não necessitam de mão de obra como no Brasil porém necessitam de mão de obra especializada. O que de fato necessitamos se queremos ser competitivos e criar um modelo de industria moderna que sirva de exemplo para as industrias atuais. Tenho estudado e criado industrias virtuais e o resultado e excelente para o investidor ( 18 a 21% – TIR ) , para o comprador e para o país. Mão de obra e um capítulo para ser discutido após ter a casa limpa. Estou a sua disposição para dialogarmos sôbre.

    • Sim, Braga vamos depois continuar essa conversa em São Paulo. Mas a questão da mão-de-obra que levanto aqui é apenas para indústria intensiva em mão-de-obra, como, por exemplo, brinquedos, calçados e confecção. Nesses casos. Há dois modelos de competição: empresas modernas que ofertam produtos para mercados de alto valor agregado – o modelo Italiano- e empresa que ofertam para o mercado de massa.

      Neste segundo caso, o nível de salário faz diferença e muito da nossa industria intensiva em mão de obra está nesta segunda categoria. Olhe o caso de Bangladesh, passou a exportar US$ 20 bilhões de confecção rapidamente e o grande fator de atração do país que tem 160 milhões de habitantes são os baixos salários: US$ 37 por mês.

      O nosso desafio não é competir com Bangladesh, mas sim com Itália e outros países desenvolvidos e isso vai implicar muito investimento, inovação e crescimento da produtividade. Mas isso não vai salvar as nossas industrias intensivas em mão-de-obra. Vai salvar parte dela.

  7. Mansueto,

    Me parece que a Itália serve quase que de contra exemplo à tese de que salários seriam um óbice ao desenvolvimento da indústria aqui. Eu não conheço o setor, mas é intensivo em trabalho por lá também?

    Acho que a questão que está colocada é como agregar valor aos nossos produtos. Os gargalos são muitos e o aumento de custo da mão de obra é um deles, mas seria o único? Seria o principal a ser atacado? São perguntas importantes que o policy maker deve se fazer *antes* de implementar uma política.

    Abraços,

    • Sim, a Itália seria um perfeito contra exemplo. Mas como falei, não acredito que nem 50% das firmas brasileiras nesses setores conseguirão replicar o modelo Italiano. E assim, mesmo o modelo Italiano no nosso caso envolverá eu acho aceitarmos algum downsizing dessas indústrias intensivas em trabalho. No caso da Itália essa firms são intensiva em trabalho mas como fizeram as industrial de caçados daqui quando se mudaram para o NE (a parte da manufatura mas não a parte de design e a parte comercial) algo parceiro aconteceu na Itália com firmas tecerizando parte da produção para ex-países da União Soviética.

      O nosso principal problema é agregar valor, mas de qualquer forma, não conseguiremos ser competitivo nesses setores que ainda dependem de baixos salários no mundo todo. Vamos lembrar que Bangladesh hoje exporta US$ 20 bilhões em confecção e quase nada há cinco anos por causa dos baixos salários – salário mínimo de US$ 37.

      A questão não é tentarmos baixar salários e competir com China ou Bangladesh. O desafio é aceitar que o Brasil está crescendo e não teremos uma estrutura de custo que nos permitirá continuar competitivo nesse setores – uma parte vai sobreviver e continuar competitivo mas uma grande parte não. A própria China terá problema com isso.

  8. Mansueto, não cabe uma comparação do custo da mão de obra segundo a ótica do empregador em ambos os países também? Os encargos sociais devidos no Brasil fazem com que o empragador enxergue um custo da mão de obra entre 80% e 100% maior do que o salário que o empregado efetivamente recebe. Quais são os encargos equivalentes na China e nos outros países que compõem o BRIC? Lembrando também que mesmo levando isto em conta as instituições brasileiras (justiça do trabalho, sindicatos, etc) impõem também outro custo adicional sobre a mão de obra com uma deterioração da relação entre o empregador e empregado com greves, processos trabalhistas, etc.

    • Sim, cabe. Mas tudo isso que você está apontando vai piorar ainda mais a questão do “diferencial de custo”. Ou seja, dado esses outros custos para o produtor e você está correto ao apontar isso, a diferença de custo passar a ser muito acima dos quase 100% que vale para o salário mínimo.

  9. Devagar com a carruagem. Acho que ninguém quer que o Brasil vire uma China em custos de mão de obra.

    É preciso aumentar a eficiência, então, em setores menos intensivos em mão de obra e mais especializados.

    Mas aí esbarramos na PÉSSIMA educação, em tanta gente que sai da faculdade sem saber ler e entender um texto, sem saber escrever.

    Quanto a isso, não há cura no curto nem no médio prazo. No longo talvez uma melhor com o pré-sal….se quisermos acreditar em duendes.

    Para resumir, estamos fodidos e mal pagos. O último a sair (na indústria) que apague a luz.

  10. Prezado Monsueto. Na minha modesta opinião há um problema lógico no seu argumento. A variável de ajuste não é o salário (ou “custo do trabalho” que você coloca). A variável de ajuste é o custo unitário do trabalho, que é diferente do que você está falando, pois considera a produtividade do trabalho (e câmbio – esse você menciona bem). Nessa ótica existem três “culpados”: câmbio, salário e produtividade. Você contrabalancear salário elevado com produtividade elevada. Se você não resolver esse problema lógico acaba, em última instância (me parece), elegendo sempre o mesmo “culpado”. A resposta de que a produtividade (ou competitividade, não sei se são cointegradas) não aumenta porque o salário é elevado me parece muito “caixa de Maizena”. Enfim, eu não conheço nada, mas existe toda uma literatura de “esforço endógeno”, induced technical change, etc, etc, etc que poderiam trazer novas questões para esse assunto. Parabéns pelo trabalho e espero que publique logo seu artigo. Um abraço.

  11. Excelente post. Esse é o problema do Brasil, querer ser um país nórdico sem ter resolvido seus problemas básicos de saúde, educação, infraestrutura, etc. Ficamos presos na armadilha da ineficiência: custo elevado do trabalho, carga tributária alta e produtividade baixa. Estamos então a depender tão somente dos preços das commodities para crescer. Quanto à questão específica da indústria…. R.I.P. Sem essa se planejamento estatal para escolher que setores devem ser alvos de política industrial, como sugerido em algumas respostas dos seguidores do blog. Alemanha e Coreia têm indústrias fortes por outras razões e apesar das políticas industriais. Que tal o exemplo do Chile? Como já comentei no Blog do Ellery, libera tudo e deixa o mercado escolher a fatia destinada à indústria, aos serviços e à agricultura. Chile é desigual! Who cares? (vejam índices sociais do Chile).

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